SEXO NAS MÃOS – CONTOS DE MARCELO AITH

 

SEXO NAS MÃOS

 

Cresci ouvindo meu cunhado dizer que eu tenho sexo nas mãos. Como todo bom adolescente, masturbava-me com constância. Mas não era esse o sentido. Eu também não levava ao delírio as moças lá no bairro com dedos ágeis. Sempre fui muito tímido para isso.

Ao contrário, a feliz afirmação do marido da minha irmã era relativa à minha falta de habilidade manual. Segundo ele, tudo o que eu toco fode. Tal qual um Midas da destruição, um menino do dedo podre.

Por minhas mãos passaram três trens elétricos, dois autoramas, diversos videogames, carro de controle remoto, até mesmo um computador da linha TK (um modelo que utilizava fita cassete, num tempo em que não existia disquete), e tudo isso teve um mesmo fim, o lixo.

Sempre fui tarado por conhecimento. Sempre quis saber como as coisas funcionavam. Para uma criança tudo é fascinante. Desmontei meus brinquedos, meus carrinhos, os controles, o rádio-relógio, o computador. Geralmente, não compreendia integralmente o comportamento dos objetos. Mas com certeza, ao remontá-los, eles não voltariam a funcionar.

Desde pequeno fui aficionado por porcas, parafusos, ferro de solda, circuitos elétricos. Era mister em desmontar tudo. Até aí, tudo bem. O problema só começava mesmo quando eu tentava montar novamente as peças.

Em alguns casos os objetos nem precisavam ser depenados. Só o fato de serem tocados por minhas mãos era o suficiente para que, como num passe de mágica, os aparelhos nunca mais voltassem a funcionar.

Depois de grande, ao ser solicitado a exercer minhas funções de homem da casa, o estigma de destruição acompanhou-me. Sempre fui uma negação nos afazeres domésticos masculinos.

Nunca soube trocar um courinho de torneira ou uma resistência de chuveiro. Tenho aflição de tomar choque até em porta de geladeira. Não entendo nada de mecânica de automóveis.

Sou mais um desses homens que por não terem habilidades manuais não possuem certos conhecimentos técnicos caseiros. Somos vítimas dos prestadores de serviços.

São pedreiros, marceneiros, pintores, encanadores, são eletricistas, chaveiros, técnicos de eletrodomésticos em geral. Desembolsamos fundos e mundos em obras de solução simples, superfaturadas por esses inescrupulosos profissionais que abusam do domínio de suas aptidões.

Muitas vezes, alguns de nós sentem sua masculinidade diminuída frente ao outro macho, aquele que nos apresenta o total orçado dos custos e mão de obra.

São pequenos serviços domésticos que nós, na condição de homens da casa, deveríamos executar por si sós. Mas nossa incapacidade motora nos proíbe de contornar o mais simples problema do dia a dia.

Outras vezes, temos a certeza que o orçamento apresentado não condiz ao reparo realmente efetivado. Mas quem somos nós para questionar o laudo de um expert, um perito no assunto?

Somos o pato da história. Tal como o marido traído. Todo o bairro deve rir de nós ao nos ver passar.

-Olhe lá, lá vai Fulano de Tal, marido da Beltrana.

-Coitadinha, ele não sabe nem trocar uma lâmpada.

-Dizem que não serve nem para matar barata.

Nesse segundo aspecto, a barata, nunca tive problemas. Sempre esmago com gosto os insetos repugnantes. É com prazer que escuto o estalar do exoesqueleto de quitina que se rompe, antecedendo o fim da vida no animal.

Mas isso não vem ao caso. Como eu ia dizendo, cresci ouvindo o meu cunhado dizer que tenho sexo nas mãos, e é isso o que me levou a escrever.

Hoje, meu primeiro dia no novo emprego, peguei um desses ventiladores com tripé que estavam num canto do escritório e coloquei-o próximo à minha mesa.

Antes de arrastar o pesado aparelho, certifiquei-me de que ele funcionava. Não havia nada de anormal. Ao ligá-lo na tomada do outro lado da sala não apresentou nenhum defeito.

Emitia aquele característico ruído de ventilador e cumpria heroicamente com a sua função de fazer o ar circular. O oxigênio às vezes chegava a rarear em meio há tanta fumaça que emitiam os cigarros nos cinzeiros.

Não passou de meia hora o tempo que levou entre ligar o aparelho e um estranho cheiro de queimado invadir o ar. A primeira pessoa a notá-lo foi a mulher que trabalhava ao meu lado.

-Tá sentindo um cheiro diferente?

-Não. Eu não!

Neguei com veemência, pensando defender-me da autoria de qualquer gás intestinal.

Passados alguns segundos percebi o tal cheiro detectado pelo afinado nariz de minha companheira. Notei também que o ruído e o movimento das pás do ventilador cessaram.

De minha mesa pude ver a fumaça que subia, negra, ganhando altura, dispersando-se sobre nossas cabeças. Trazia consigo o forte odor característico de plástico queimado.

No meu primeiro dia na empresa, tinha que ser comigo. Só podia ser comigo, logo comigo. Não, o ventilador não podia esperar. É claro que ele quebraria bem na minha mão.

Tantos anos na firma, tantos funcionários tocando-o, ele iria quebrar justamente na minha vez de tocá-lo. Como diz o ditado: desgraça pouca é bobagem.

Tremenda gafe. As desculpas, seguidas pelo reconhecimento da idoneidade de meu ato, não anulariam o acontecido. Eu quase pus fogo no escritório. Eu queimei o ventilador em meu primeiro dia de trabalho. Não havia mais volta.

Às vezes, eu acho que o meu cunhado está certo. Nestas ocasiões sinto como se tivesse a genitália no lugar dos dedos.

 

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