O TEMPO (parte 4)

RELÓGIO MECÂNICO

Os primeiros instrumentos mecânicos surgem no século XIV. Os monges precisavam controlar o tempo dedicado a deus. Eram chamados de horologia excitatoria, ou relógios de despertar.

Esses primeiros Relógios eram mecanismos movidos por pesos, que tocavam um sino após um determinado tempo. Esses Relógios não tinham Mostradores ou Ponteiros, destinavam-se apenas a soar. O termo clock, deriva da palavra sino.

Havia preces para a primeira luz do dia, ao nascer do Sol; no meio da manhã; ao meio dia; no meio da tarde e no pôr do Sol, ao anoitecer. O número de badaladas variava de quatro ao nascer do Sol até uma ao meio dia, e voltava a quatro no anoitecer.

O “escape” foi o mecanismo interruptor que continha e depois soltava o peso em queda, dando movimento ao Relógio. Os pesos estavam conectados em rodas dentadas num eixo vertical que transportava uma barra horizontal.

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Quando os pesos eram movidos para o exterior, o Relógio andava mais devagar; quando movidos para o interior, ia mais rápido. O movimento oscilatório da barra engrenava e desengrenava os dentes do mecanismo. Esse princípio tornou possível todos os Relógios Modernos.

A partir de 1330, os Relógios Mecânicos dominariam a Noite, e marcariam Horas exatas, de mesma duração, ao longo do Ano todo, dividindo o Dia em 24 partes iguais, tal qual usamos hoje.

A Hora Sazonal é substituída pela Hora Igual definitivamente. Homem e máquina marcam seu domínio sobre a Natureza, e sua libertação dos desejos do Sol.

MINUTOS E SEGUNDOS

Contar os Minutos e os Segundos só foi possível com a introdução do Relógio de Pêndulo. Logo, os mecanismos foram sendo desenvolvidos e passaram a marcar quatro divisões dentro da Hora. Os Quartos de Hora eram marcados com números de 1 a 4, e mais tarde com os números 15, 30, 45 e 60.

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O sistema de pêndulo foi, depois, substituído por molas; possibilitando a construção de Relógios Portáteis. Com o desenvolvimento das atividades capitalistas comercias e, depois, industriais amplia-se a necessidade de o Homem controlar parcelas cada vez menores de Tempo.

Na segunda metade do século XVII já era comum os Relógios marcarem os Segundos. Assim, passamos de contar Luas ou voltas da Terra ao redor do Sol, que controlavam os ciclos da vida na Antiguidade; até o controle de frações de Segundo, na Era Moderna do Capitalismo Financeiro.

A máxima “tempo é dinheiro” substituiu as preocupações com os Ciclos Naturais, exigindo cada vez mais controle do Dia e da Noite, e de suas subdivisões, ao máximo possível.

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Published in: on 23 de agosto de 2018 at 0:39  Deixe um comentário  

O TEMPO (parte 3)

O PRIMEIRO RELÓGIO

No início da Civilização, vivendo da agricultura e da criação de animais, não havia utilidade para o homem medir pequenas unidades de Tempo. O tempo útil era o tempo em que havia luz diurna, onde podia-se trabalhar. Medir o Tempo era saber quanto tempo de Sol havia.

Os primeiros instrumentos de medição foram Relógios que marcavam a passagem do Sol pelo céu. Neste tipo de Relógio, a sombra de uma vara torna-se cada vez mais curta a medida que o Sol se levanta, até desaparecer quando o sol atinge seu ápice no céu (sol a pino), e volta a crescer conforme o Sol se põe.

Durante séculos, a sombra do Sol foi uma medida universal de Tempo. O inconveniente é que não funcionava em dias nublados, nem durante as noites.

https://www.youtube.com/watch?v=i8TPzjjrjjI

(Aprenda a fazer o seu próprio Relógio de Sol)

AS HORAS

Mesmo em dias de Sol brilhante, o movimento da sombra era tão lento que de nada servia para marcar os Minutos. Além disso, somente no Equador, os dias e as noites têm a mesma duração.

No resto do planeta, o Tempo de luz do dia varia conforme as Estações do Ano, e a Latitude do lugar em que se está. Tornam-se mais curtos os ou mais longos entre o inverno e o verão; e conforme a distância para os polos.

Na tentativa de contar unidades menores de Tempo, os Relógios de Sol ganharam 12 divisões iguais entre o nascer e o pôr do Sol. Mas devido a diferença de luminosidade no planeta, 1/12 unidade do dia demorava mais a passar em determinada data e local, conforme a época do ano.

AM – PM

Sem conseguir subdividir o Tempo de forma adequada, os Romanos adotaram a divisão oficial do dia em duas partes, o “Antes do Meio-Dia” – A.M. (Ante Meridien) e o “Depois do Meio-Dia” – P.M. (Post Merídien).

Ao longo do tempo surgiram subdivisões. A “Primeira Parte em Manhã” (Mane) e o “Antes do Meio Dia” (Ante Meridien); e a “Segunda Parte em Tarde” (De Meridie) e o “Fim da Tarde” (Suprema).

CLEPSIDRA

A maneira que o homem encontrou para fugir da ditadura da noite, e continuar marcando a passagem do Tempo, foi contar o fluir da água. A passagem da água é mais fácil de se medir e controlar em unidades regulares e constantes do que a sombra, e não varia conforme a Estação do Ano ou a Posição Geográfica.

Relojes

AMPULHETA

A areia também foi usada para medir a passagem do Tempo, este tipo de Relógio ficou conhecido por ampulheta. Devido a sua dificuldade prática, por necessitar ser virada de tempos em tempos, foi usada especialmente para medir períodos curtos, como o tempo de um sermão, um discurso, ou as horas trabalhadas de um artesão ou professor.

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MILHAS NÁUTICAS

A ampulheta foi usada para medir a velocidade dos navios. Para isso, era amarrado um fio em uma barquilha, que era lançada na água. A cada 7 braças de fio, havia um nó. Então girava-se uma ampulheta de meio minuto.

O número de nós aferidos neste tempo era o número de milhas náuticas percorridas por hora. Essa técnica de medir a velocidade durou até o século XIX.

Published in: on 21 de agosto de 2018 at 1:07  Deixe um comentário  

O TEMPO (parte 2)

O ANO BISSEXTO

O método Grego de contagem do tempo, tentando unir o Calendário Solar ao Ciclo Lunar só foi substituído pelos Romanos, com o Calendário Juliano, desenvolvido pelo astrônomo Sosígenes, no governo de Júlio Cesar, em 46 a.C.

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Sosigenes

Influenciado pelo Calendário Solar Egípcio, o novo calendário previa que a cada 4 anos acrescentava-se um dia extra, para corrigir os fragmentos de horas e de minutos do Ano Solar de pouco mais de 365 dias.

O CALENDÁRIO ATUAL

As religiões continuavam a contar seus eventos baseado nas Fases da Lua, e definir datas como a Páscoa deram origem há muitos conflitos. O Ano de 365 dias, 5 horas e 48 minutos foi adotado pelo Papa Gregório XIII, em 1.582 d.C.

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O Calendário Gregoriano é uma adaptação do Calendário Juliano que recolocou o Equinócio no dia 21 de março, e o usamos para a contagem do tempo até os dias de hoje.

A SEMANA

Estações do ano e Fases da Lua são regidas pela Natureza, e o Calendário foi uma solução para compreendermos esses fenômenos. Já a Semana – um agrupamento artificial de tempo – esta é uma invenção realmente Humana. As Civilizações criaram dezenas de formas diferentes para agrupar seus dias, e as Semanas já tiveram de 5 a 10 dias de duração.

Os Gregos não conheciam a “semana”, e os Romanos contavam ciclos de 8 dias, 7 nos campos, e 1 nas cidades – um dia de repouso e festividades. Esse número acabou por transformar-se e, no Século III d.C., a Semana de 7 dias já era adotada pelo Império Romano.

O NÚMERO MÁGICO

O Número 7 tem um significado mágico em várias culturas. Para os Japoneses existiam 7 deuses da felicidade. Roma foi erguida entre 7 colinas. Na Antiguidade contava-se 7 maravilhas do Mundo. Os cristãos elegeram 7 pecados capitais.

7+Maravilhas+do+Mundo+Antigo

OS DIAS DA SEMANA

Os dias da semana foram nomeados conforme o conhecimento de Astrologia da época: Sol, Lua e os 5 planetas conhecidos, sem incluir a Terra. Cada planeta tinha uma ordem de influência sobre a vida. A cada hora, um planeta tinha uma regência sobre os demais, sucedendo-se em ciclos de 7 em 7 horas. O planeta hegemônico na 1ª hora do dia, acabou por batizá-lo.

Domingo é o dia do Sol. A Segunda, é o dia da Lua. A Terça, é o dia de Marte. A Quarta é o dia de Mercúrio. A Quinta é o dia de Júpiter. A Sexta é o dia de Vênus. O Sábado é o dia de Saturno.

A formação da Semana Planetária foi um caminho aberto para a Ciência. Imaginar que forças distantes pudessem regular e governar o mundo, preparou a Humanidade para um salto no conhecimento. A Astrologia era a afirmação de uma força regular e contínua, que influenciava acontecimentos na Terra, e abriu as portas para o Espírito Científico.

O FIM DE SEMANA (Sábado e Domingo)

Os Babilônicos adotavam alguns dias do mês (o 7º, o 14º, o 19º, o 21º e o 28º), onde proibiam certas atividades ao Rei. Os Judeus contavam a criação do mundo em 6 dias, e guardavam o 7º para o sabat, dia dedicado a deus, onde não se devia trabalhar.

Entre os Romanos, não se devia começar nada no Dia de Saturno (sábado), um mal dia para se travar batalhas ou iniciar viagem. Os cristãos elegeram o Dia do Sol como o dia de leitura do Evangelho e celebração da eucaristia, pois era o dia em que os romanos do campo e da cidade se reuniam.

Neste dia, deus teria criado a luz, e é também o dia da ressureição de Cristo, que teria sido crucificado um dia antes do dia de Saturno (uma sexta). Em nossa cultura, trocamos o símbolo pagão de idolatria aos astros por números simples.

O Primeiro dia é o dia do senhor, o Domingo, e os próximos dias sucedem-se em Segunda, Terça, Quarta e assim por diante…

Published in: on 19 de agosto de 2018 at 0:09  Deixe um comentário  

O TEMPO

A primeira base para a Medida de Tempo que os humanos adotaram foi a Passagem da Lua. A cada começo de Lua Nova (ou de Lua Cheia), as mais diferentes tribos contavam seus ciclos. O Tempo em que Lua leva para voltar à mesma posição no céu é de pouco menos de 28 dias.

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A contagem em Ciclos Lunares era prática, 28 dias é o tempo do Ciclo Hormonal das mulheres, e o nascimento dos filhos era esperado após 10 Meses Lunares. Funcionava em Escala Mundial, toda gente podia vê-la acompanhando a Lua no céu.

Mas era preciso um Calendário de Estações, como prever a chuva, a seca, o calor e o frio.

ANO SOLAR

É o Ano Solar quem rege as Estações Climáticas. Os egípcios foram os primeiros a utilizar a duração do Ano Solar de forma prática. A vida egípcia era governada pelas cheias do rio Nilo. A subida anual das águas estabelecia o calendário de semear e colher, com três estações (inundação, crescimento e colheita). O calendário primitivo mostrava que o rio não seguia as Fases da Lua.

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Dentro deste ciclo, os egípcios perceberam que uma vez ao ano a estrela mais brilhante do céu, Sirius, nascia alinhada ao Sol, em plena estação da cheia. Foram eles a perceber o ciclo anual de 12 meses, com 30 dias cada, acrescentados de 5 dias extras. Nestes dias, acontecia o festival em homenagem aos deuses (Osíris, Hórus, Set, Ísis e Néftis). O Ano de 365 dias, ou Ano do Nilo, já era utilizado em 4.241 a.C.

CALENDÁRIO LUNAR

A exceção dos egípcios, os Povos Antigos eram regidos pelas Fases da Lua, e definir o início das Estações do Ano continuava um problema. Não foi possível adequar o Ano Solar ao Calendário Lunar pela simples multiplicação dos Ciclos da Lua.

Na Grécia, cada Cidade-Estado fazia seu próprio calendário, intercalando arbitrariamente um Mês Extra, conforme festivais e interesses políticos locais. Em 432 a.C., o astrônomo grego Méton codificou um Calendário Lunar adaptado ao Ano Solar. Eram 19 anos, onde 7 anos de 13 meses eram intercalados a 12 anos de 12 meses.

Ciclo_Metónico

Mas descobrir quando começariam as estações continuava um cálculo complicado.

https://goo.gl/maps/fvQ2mPBQ9qC2

(As ruínas do observatório de Méton ainda podem ser vistas em Atenas.)

O PRIMEIRO COMPUTADOR   

A tentativa de unir os Ciclos da Lua aos Ciclos do Sol deu origem a mais sofisticada máquina criada na História Antiga, o Mecanismo de Anticítera, que pode ser considerado o primeiro computador do mundo.

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A máquina foi encontrada em 1.901 d.C., no fundo do mar, e sua data estimada é de 87 a.C. O mecanismo possui dezenas de engrenagens de bronze, que representam a órbita da Lua, do Sol e dos cinco Planetas conhecidos a época.

Podia realizar cálculos para determinar a posição de planetas, ciclos astronômicos e eclipses.

https://www.youtube.com/watch?v=CjyKkTwvpn8

(O mecanismo foi recriado com peças de lego, em 2010.)

Published in: on 18 de agosto de 2018 at 14:18  Deixe um comentário  

O Gamão no Banco do Réu

 

24 Anúncio publicitário southern comfort (1980)

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            Atlantic City, 1981. O casino Ceasar Regency Boardwalk agenda para março a realização de um campeonato de gamão. O Supremo Tribunal dos EUA é chamado a julgar a legalidade do torneio, em New Jersey.

A acusação argumentava que o jogo de gamão confia “materialmente” no acaso e é, portanto, em violação da lei estadual que proíbe “loterias”. Mas, ao contrário de roleta, blackjack, caça-níqueis, baccarat… gamão não estava regulamentado pela Comissão de Jogos de Estado.

A legalidade de gamão já havia sido confirmada no Estado de Oregon no julgamento de promotor torneio Ted Barr. Barr – ele próprio um advogado – e o procurador Marshall Amiton convenceram com sucesso um juiz estadual que o jogo de gamão depende principalmente da habilidade.

O caso Barr foi considerado como um sinal de vitória para os promotores de gamão em todos os lugares, estabelecendo um precedente nacional para outros tribunais a seguir. Ou assim se pensava.

A primeira testemunha a depor foi Henry Wattson, importante promotor de campeonatos. Ele explicou longamente o formato de torneios de gamão da “American Championships”, e descreveu a popularidade de gamão na América.

 

-Os jogadores de torneios são mais hábeis em geral do que os jogadores casuais. As diferenças na capacidade baseiam-se na aptidão natural e sobre a frequência que uma pessoa joga. Um torneio é projetado para maximizar a importância da habilidade dos jogadores e minimizar o fator sorte.

 

Paul Magriel, um dos melhores jogadores de gamão no mundo, serviu como testemunha especializada. As credenciais de Magriel eram extraordinárias. Havia estudado em Exeter; depois, no Instituto Courant de Matemática (Universidade de Nova York); e, em seguida, fez pós-graduação em Teoria da Probabilidade de Princeton. Foi professor de matemática por sete anos no Instituto New Jersey de Technology onde desenvolveu o programa de pós-graduação em Probabilidade.

Um jogador de xadrez pontuado no ranking nacional, Magriel aprendeu gamão na década de 1960; e, logo, tornou-se um especialista. Desde então, participou de centenas de torneios; e serviu por dois anos como colunista de gamão, no New York Times. Em 1976, Paul Magriel publicou o seu próprio livro sobre o jogo.

 

Sr. Magriel, o que determina quem ganha um jogo de gamão?

-Olhe isto deste modo, em média há vinte movimentos possíveis após cada lançamento dos dados. A escolha é do jogador, é ele quem deve exercer a sua escolha para cada movimento, é o que faz gamão um jogo de habilidade.

-Quantos movimentos possíveis existem numa partida completa?

-Mais de 10.000. Um único movimento errado, muitas vezes, determina o resultado de um jogo. E se você escolheu uma das vinte possíveis escolhas ao acaso, seria impossível para você ganhar.

-Como é que gamão se compara ao xadrez?

 

Pensativo por um momento, Magriel respondeu com entusiasmo.

 

-Gamão classifica-se junto ao xadrez em sutileza, complexidade e sofisticação. É por isso que eu desisti de uma carreira acadêmica promissora e passei dez anos da minha vida estudando o jogo. É muito mais complexo do que o pôker… blackjack é trivial em comparação com gamão. Há problemas estruturais profundos no gamão. Acredito que o elemento do acaso não é material. “.

-É um jogo sob o controle ou influência dos jogadores?

-Sim.

 

Após o almoço, Procurador-Geral Adjunto Carol M. Henderson, construiu um argumento que, finalmente, conquistou o caso para o Estado: Gamão é um jogo que usa dados. Dados são instrumentos de azar. Portanto, gamão é um jogo de azar.

 

-Xadrez, não usa dados e não envolve nenhum elemento de sorte, nã é?

-Dados não têm efeito sobre o resultado de um jogo de gamão! O que o leigo chama de habilidade e sorte são conceitos realmente obscuros!

-Quando duas pessoas de igual capacidade se enfrentam, não os dados que vão determinar quem vai ganhar?

-Não há duas pessoas de igual capacidade. É algo que nunca acontece. Os jogadores da chamada capacidade igual realmente tem pontos fortes e fracos em diferentes áreas do jogo. No gamão os dados são o fundo em que você empregar estratégia.

 

05 Dunhill Internacional Backgammon Tournament (1974)

Dunhill Internacional Backgammon Tournament (1974)

A acusação apresenta uma cópia da “Sports Illustrated”, revista com um artigo de gamão relatando um torneio onde Magriel tinha chegado à final. De acordo o artigo, todo o torneio seria decidido na próxima rodada. Um 6-1, e Magriel perderia.

 

 

-É verdade que o resultado do torneio aqui descrito foi determinada por esse único lançamento dos dados?

-Não é tão simples assim.

-Basta responder a pergunta: É verdade ou não é verdade?

-Sim, mas havia muito mais fatores.

-Então a resposta é sim?

-Sim, mas…

-Obrigado, Sr. Magriel.

 

O juiz pede tempo para rever as provas e, em uma semana, uma decisão por escrito seria emitida. Não houve o campeonato naquele março.

Pinacoteca: Um Pedaço de Sonho (2005)

Pinacoteca: Um Pedaço de Sonho (2005)

Pinacoteca: Um Pedaço de Sonho é um documentário em homenagem aos 100 anos deste importante museu da cidade de São Paulo. Segundo o professor de história da arte, Agnaldo Faria, um museu que atrai pessoas, vívido, que as anima, que as alimenta, o melhor lugar para não se fazer nada, no coração de São Paulo. Seu acervo traz vozes de diversos tempos, obras que sussurram, obras que gritam, completa o professor.

O documentário é repleto de imagens de passeios de câmera pelos salões e corredores (vazios e com público), detalhes da arquitetura e das obras, gravadas pelo experiente Adrian Cooper com trilha de Lívio Tragtenberg, que permeiam as entrevistas.

O acervo da Pinacoteca é de grande qualidade, principalmente no referente ao século XIX e nos períodos que se seguem. É uma instituição modelo para todo o Brasil. Contempla pintura, gravura, escultura e fotografia.

Em 2005, o acervo contava com mais de 6 mil peças, 20% delas expostas para visitação, o restante das obras ficam climatizadas em uma reserva técnica. O museu conta com uma área especializada em conservação e restauro das obras, prestando serviços inclusive para outras instituições.

Faz parte do museu um prédio próximo, a Estação Pinacoteca, antiga sede do DOPS, onde abriga o gabinete de gravuras de José Mindlin, a coleção Nemirovisky, além de exposições itinerantes. O documentário faz um making of da desmontagem de uma dessas exposições e a montagem do novo espaço.

O museu oferece um setor educativo, com projeto de inclusão de diversos públicos, entre eles deficientes visuais e populações de rua. Podemos ver uma visita de cegos, apalpando as obras, utilizando-se dos recursos desenvolvidos pelo museu.

Também há uma visita de catadores de uma cooperativa, onde um artesão dá o brilhante depoimento frente a uma escultura de bronze vazada: -Esta obra é como eu, forte e vazia, estou a procura de um caminho, não tenho vergonha em dizer.

Outro bom depoimento é o de um jovem que sonha em ser artista plástico, encontrado vagando pelos corredores em busca de referências e inspiração. Ao ser questionado pela equipe, diz que gostaria de fazer obras ao estilo de uma busca desesperada do “eu”, algo caótico, com materiais escrotos, como arame farpado por exemplo.

A parte histórica do museu, com farto material visual desde sua criação até a importante reforma dos anos 90, é contada pelos professores de arquitetura da USP Carlos Lemos e José Lefèvre.

O prédio da Pinacoteca tem tanto valor quanto seu conteúdo. Tanto a Pinacoteca como a Estação Pinacoteca são de projeto do escritório de Ramos de Azevedo. Originalmente, a Pinacoteca abrigaria o Liceu de Artes e Ofícios, escola que formaria artesãos, marceneiros, gesseiros, que construíram as casas e mobiliários da elite paulistana.

O prédio foi inaugurado em 1900. As primeiras obras do acervo da Pinacoteca foram compradas 5 anos depois, para uso nas atividades de ensino dos alunos do Liceu. Em seu início, a Pinacoteca teve um “pensionato artístico”, que patrocinava viagens de jovens ao exterior, entre eles Anita Malfatti e Victor Brecheret. Tarsila do Amaral, por exemplo, foi contratada como catalogadora do acervo.

Por muito tempo a Pinacoteca teve altos e baixos, e teve que dividir o espaço com diversas instituições como escola primária, ginásio do estado, faculdade de belas artes, escola de artes dramáticas, escola de música e canto.

O renascimento, sua refundação, é obra de Emanoel Araújo. Em sua gestão, Emanoel trouxe pela primeira vez ao Brasil uma exposição de Rodin, em 1995. Formaram filas de 4, 5 horas para apreciar obra de arte, um feito inédito até então. Com os recursos alavancados, foi possível a realização de uma reforma total do prédio que estava a ponto de ruína, a cargo do arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

O museu é reinaugurado em 1998. O arquiteto muda a entrada da movimentada av. Tiradentes, colocando-a de fronte à Estação da Luz. Cria passarelas suspensas, onde antes só voavam as andorinhas, possibilitando novas formas de visitação. Até mesmo a presença do elevador é uma espécie de escultura mecânica em meio às obras de arte, segundo o próprio Paulo Mendes.

No encerramento do programa, antes de “subirem os créditos”, há uma subida das principais obras de artes retratadas ao longo do documentário.

ORDEM E PROCESSO (2005)

ORDEM E PROCESSO (2005)

Ordem e Processo é uma série de documentários em cinco episódios de meia hora que conta a história das eleições no Brasil. Apesar da atual constituição brasileira afirmar que “todo poder emana do povo e em seu nome é exercido” foi um longo caminho até a participação popular nas eleições brasileiras.

No Brasil Colônia votavam apenas os brancos, com mais de 25 anos. Mulheres, escravos e índios estavam excluídos. No Império, a Constituição de 1824 restringia o acesso ao voto pelo quesito da renda para votar e para ser votado. Para eleger-se senador era necessário comprovar rendimentos superiores aos rendimentos necessários para eleger-se deputado e este deveria obter rendimentos superiores aos eleitores para poder se candidatar.

Na eleição de 1831, que definiria o regente para o jovem D. Pedro II, apenas 6 mil eleitores puderam votar, ou 1% da população. Na primeira eleição do século XXI, em 2002, foram 115 milhões de votantes, ou 70% da população.

A mais antiga urna do Centro de Memória do TSE é do século XIX, em madeira. O acervo do TSE conta ainda com urnas em ferro, lona e a urna eletrônica. O título de eleitor é uma criação de 1875.

Com a República, é revogada a exigência de renda para votar, e a idade mínima baixa para 21 anos. Ainda não votavam as mulheres (50% da população) e os analfabetos, deixando de fora a maior parte dos brasileiros.

Na Primeira República (1889-1930), o sistema eleitoral era fraudulento desde a distribuição dos títulos, passando pela urna, pela apuração até o instrumento final chamado verificação dos poderes, que “legitimava” o resultado final das eleições.

Esse período ficou conhecido como eleições a bico de pena ou eleições da bigorna. Preparadas pelos grandes partidos, a disputa entre as candidaturas era uma luta entre papéis falsos. Durante toda a política do café com leite, nome que ficou conhecida a sucessão de poder entre São Paulo e Minas Gerais, apenas quatro eleições foram verdadeiras, segundo o ministro do TSE Walter Porto: a eleição de 1910 (Hermes da Fonseca x Rui Barbosa), a eleição de 1919 (Epitácio Pessoa x Rui Barbosa), a de 1922 (Arthur Bernardes x Nilo Peçanha) e a de 1930 (Getúlio Vargas x Júlio Prestes).

Em 1929, os paulistas rompem com a alternância de poder com Minas e lançam a candidatura de Júlio Prestes. Mesmo vencedor, este não chegaria a tomar posse, pois Washington Luís é deposto pela Revolução de 1930, que trazia a promessa de moralização no sistema eleitoral.

Com a Constituição de 1932, é criada a Justiça Eleitoral, é ampliado o direito de voto às mulheres e o voto distrital passa a ser proporcional. Uma máquina de votar é trazida dos EUA, mas nunca teve a oportunidade de ser posta em funcionamento.

Getúlio Vargas elege-se de forma indireta em 1934 e, em 1937, dá um golpe de estado, decretando o Estado Novo. Vargas suspende eleições, extingue a Justiça Eleitoral e decreta intervenção nos estados.

Vargas é deposto em 1945 por um golpe militar e é sucedido interinamente pelo presidente do Supremo Tribunal Federal até que Eurico Dutra seja eleito, em 1946. Nas eleições dessa época as candidaturas poderiam ser em circunscrições diversas. Para dar um exemplo, Getúlio elege-se senador pelo Rio Grande do Sul e por São Paulo, além de eleger-se deputado por sete estados.

Nos anos 50, é adotada uma folha única de votação e a cédula passa a ser distribuída pela Justiça Eleitoral. Também é feito o registro do eleitor na seção eleitoral, como tentativas de moralização do sistema. O recadastramento de 1958 detecta 1 milhão e 800 mil eleitores fantasmas.

Em 1961, Jânio Quadros é o primeiro presidente a tomar posse na nova capital Brasília. Com a renúncia de Jânio no ano seguinte, militares contrários a posse do João Goulart forçam a introdução do Parlamentarismo. Mas em 1963 o Parlamentarismo é derrotado em uma votação popular.

As medidas de reforma agrária, estatização de bancos e limite de remessas de lucros para o exterior são a gota d’água que levam os militares a derrubarem o governo de Goulart, e uma nova ditadura se instaura no Brasil, com 20 anos de autoritarismo pela frente.

Neste período (1964-1985) só puderam existir dois partidos políticos a Arena, apoiando os militares, e o MDB, uma reunião de todas as oposições. Os Atos Institucionais que marcaram o período começam a ser revogados em 1978, no ano seguinte é aprovada a Lei da Anistia.

O movimento pela volta da democracia toma corpo em 1983-1984 com a Campanha das Diretas-Já, mas a emenda Dante de Oliveira fica a 22 votos de atingir os 2/3 necessários para mudar a Constituição pela volta das eleições para a Presidência da República.

Em janeiro de 1985, um colégio eleitoral de 686 votantes, ou 0,003% dos brasileiros elegem Tancredo Neves Presidente do Brasil.

As demais histórias do processo eleitoral brasileiro, a partir do drama da posse de Tancredo estão nos outros programas que compõem a série.

O CAMINHO DO AÇO (2004)

O CAMINHO DO AÇO (2004)

O Caminho do aço é um documentário que conta a história da siderurgia no Brasil. Para entender esta história tive que fazer o curso “siderurgia para não siderurgistas” promovido pela Associação Brasileira de Metais.

Além da parte técnica sobre como se produz o aço, também fui buscar a presença do aço na história do Brasil. O roteiro é construído unindo a evolução das formas de fazer o aço à evolução política e econômica brasileira.

Uma rápida abertura contextualiza o uso do ferro nos primórdios da humanidade. A Idade do Ferro começa 3.500 anos atrás. Dominar a técnica de manipular o metal significava o sucesso de uma civilização sobre outra que não a dominasse.

Partindo deste preceito, dominar o ferro e posteriormente o aço torna-se um elemento fundamental para a solidificação do Brasil como uma nação independente. E é esta a história que o documentário investiga.

O descobridor português, ao chegar à costa brasileira, encontra índios ainda na idade da pedra. Nossos primitivos habitantes não dominam o trabalho de metais, para decepção do conquistador.

O primeiro documento histórico utilizado pelo programa é uma carta do Padre Anchieta que, cheio de esperança, acredita que logo os portugueses encontrarão metais no interior do continente e com isso os recursos para catequisar os índios.

Afonso Sardinha parte em busca desses metais e na região de Araçoiaba cria a primeira forja catalã, em 1587. Nos séculos seguintes, pequenas forjas se espalham pelo território brasileiro, fabricando os apetrechos como machados e enxadas necessárias para a colonização.

Por esse processo, minério de ferro e carvão vegetal são aquecidos numa espécie de churrasqueira. O calor faz com que o carbono do carvão se funda ao ferro, produzindo a liga chamada ferro-gusa, uma liga de ferro-carbono com 4,5% de carbono.

O aço trata-se do mesmo material, mas o teor de carbono não pode ultrapassar 2% para que mantenha suas propriedades de maleabilidade e resistência.

O próximo documento-chave na evolução da siderurgia brasileira foi o edital de D. Maria, de 1785, proibindo a existência de fábricas em toda a colônia. Portugal não queria ver o desenvolvimento autônomo do Brasil, que deveria manter-se dependente da Metrópole.

D. João, ao assumir o trono, revoga a proibição de sua mãe, mas o desenvolvimento de uma verdadeira siderurgia nacional só viria mais tarde. Em 1808 a corte portuguesa, ameaçada pela invasão napoleônica, é obrigada a deixar Portugal e se fixar na colônia. Agora sede do Reino, é preciso desenvolver o Brasil.

Em 1811, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, localizada próxima aos primeiros fornos de Afonso Sardinha, torna-se o primeiro complexo siderúrgico no Brasil. D. João traz técnicos da Europa e monta ali os primeiros altos-fornos, um avanço tecnológico considerável sobre as antigas forjas catalãs.

Uma carta de Barão de Mauá é o próximo documento escolhido para ilustrar o programa. Mauá viaja à Inglaterra em 1840 e fica maravilhado com a revolução industrial, o uso do ferro e do vapor. Em seus escritos fala do sonho de implementar um parque similar no Brasil, mas as nossas elites enxergam o país como um exportador agrário e Mauá fracassa.

Até o inicio do século XX não há grandes avanços na fabricação do ferro e do aço no país. Empresas de capital estrangeiro atuam no Brasil no intuito de exportar o minério de ferro enquanto o país importa o metal já manufaturado. A Crise de 1929 derruba a economia do café, mostrando a necessidade urgente do Brasil deixar de ser agroexportador.

Na luta por um projeto de nação, Monteiro Lobato clama pela instalação de uma indústria siderúrgica 100% nacional. É dele um artigo no jornal O Estado de São Paulo escolhido para ilustrar o momento crucial por qual passávamos.

O grande passo no sentido de termos uma siderurgia brasileira vem na Era Vargas. Com o inicio da Segunda Guerra, Getúlio toma uma posição ambígua, aproximando-se da Alemanha. Interessado no apoio brasileiro e no uso da base de Natal, o presidente americano firma acordo com Vargas, liberando os recursos para criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda.

É um novo avanço tecnológico, agora utilizando o carvão mineral no lugar do carvão vegetal em seus altos-fornos, mas que ainda não atende a todas as necessidades de consumo de um país que cresce e se urbaniza.

O programa então busca as memórias de Juscelino Kubitscheck, onde o presidente fala da autonomia da indústria siderúrgica nacional. Sua maior obra, Brasília, ainda é construída usando material importado. Em seu governo surgem a Usiminas e a Cosipa, além da ampliação da CSN.

Durante o período da Ditadura Militar, no milagre econômico dos anos 70, acontece a atualização tecnológica do parque siderúrgico brasileiro, com a instalação de modernos equipamentos, como os conversores LD e o lingotamento contínuo.

Com a recessão pós-milagre a indústria siderúrgica sofre com o crescente endividamento das empresas do setor, que são obrigadas a manter preços tabelados numa tentativa do governo em frear a inflação. Em greve, a CSN é ocupada por 800 homens e tanques do exército, com um saldo de três metalúrgicos mortos e quarenta feridos.

No período Collor-FHC acontece a privatização do setor, cercada de polêmicas, em leilões tumultuados, com agressões aos investidores por parte da militância contrária. O documentário encerra com o discurso otimista de crescimento da então Ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff e a fala do Presidente Lula elogiando os esforços de Vargas, o entusiasmo de JK e a visão de longo prazo dos militares.

A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A Guerra dos Paulistas é um documentário que conta a história da Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo rebela-se em armas contra o governo de Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

Foi um dos mais bem elaborados documentários que tive a oportunidade de participar. Estive em centros de documentação de São Paulo, Santos, Praia Grande, Campinas e Rio de Janeiro. Colaboraram com as pesquisas, enviando imagens, acervos do Paraná e de Minas Gerais.

Houve uma dupla direção. Luiz Bolognesi dirigiu a parte histórica, com as entrevistas e imagens de época. Laís Bodanzky dirigiu a parte ficcional, em película super 8, com a história de três personagens que participam dos combates pelo lado paulista, costurando as partes documentais.

Para entender a guerra que envolveu mais de 200 mil homens, artilharia pesada, combates aéreos e navais, com o bombardeio de grandes cidades é preciso retroceder até a República Velha.

As elites cafeeiras dominavam o cenário político, com eleições forjadas, onde apenas 5% da população votavam. Os partidos republicanos paulista e mineiro alternavam-se no poder, na chamada política do café com leite. O governo cuidava para os lucros certos, comprando estoques e se necessário queimando café ou jogando-o ao mar, para garantir preço no mercado. Era o auge do coronelismo e do voto de cabresto.

O Brasil transformava-se, cresciam a imigração, a urbanização e a industrialização. O movimento operário era tratado como caso de polícia, com forte repressão. A classe média, sem representação política, encontrava-se estrangulada economicamente. Seguir a carreira militar era uma opção, e o Tenentismo apresentava-se como o movimento que clamava pelas mudanças modernizantes. Os quarteis, com o apoio das ruas, levantaram-se e depuseram o presidente Washington Luís. A Revolução de 1930 botava fim à República Velha e levava Getúlio Vargas ao poder.

Em São Paulo, o Partido Democrático que havia apoiado Getúlio Vargas esperava que Francisco Morato fosse nomeado governador. Porém, Getúlio nomeia o tenente pernambucano João Alberto para o cargo de interventor do estado. Já de início, João Alberto autoriza comício do Partido Comunista, determina um aumento salarial de 5% e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Distribui as terras de cafeicultores endividados com bancos para os tenentes rebelados e dá cargos públicos para militares de outros estados. Em um São Paulo ocupado, soldados tomam produtos e serviços sem pagar por eles, em nome da Revolução.

O sentimento de revolta nasce com o clamor por um Congresso Constituinte. Em 1931, o jornal O Estado de São Paulo pressiona Vargas para que seu governo revolucionário providencie eleições e uma nova constituição. Em crítica aos paulistas, Vargas afirma que a máquina republicana ainda manipularia os resultados.

Os alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco passam a coordenar comícios contra Getúlio. João Alberto responde com prisões, destruição de jornais oposicionistas e, preventivamente, desarma os quartéis paulistas. As pressões por eleições chegam até o Rio de Janeiro e para ganhar tempo Vargas decide trocar João Alberto pelo Coronel Rabelo.

No início de 1932, o Partido Democrático rompe de vez com Getúlio e se une ao Partido Republicano Paulista, formando a Frente Única. Adotam a imagem do Bandeirante Paulista como ícone do movimento contra o governo federal. Militares incomodados em ver tenentes mandando mais que generais, começam a articular uma reação.

Em São Paulo, o General Isidoro Lopes e o Coronel Euclides Figueiredo entram em entendimento com o General Bertoldo Klinger, do Mato Grosso. Planejam um ataque ao Rio de Janeiro para depor Vargas. Klinger, trazendo 5 mil soldados e pesada artilharia, encontrar-se-ia com 10 mil homens das tropas paulistas no Vale do Paraíba. Contavam ainda com promessas de apoio de Flores da Cunha, que enviaria tropas do Rio Grande do Sul, e com o apoio de Oligário Maciel, que enviaria tropas de Minas Gerais.

Em 22 de maio, estudantes paulistas invadem cinemas e a rádio Record, convocando a população à resistência. Promovem discursos em frente aos quartéis. Animados, resolvem atacar a sede do movimento tenentista, na Praça da República. Sem conseguir entrar pela porta, os estudantes instalam escadas para subirem até o escritório no quarto andar. Armados, os tenentes resistem. A troca de tiros perdura madrugada adentro. O 23 de maio amanhece com quatro jovens mortos: Miragaia, Martins, Dráuzio e Camargo.

Surge então a associação M.M.D.C., com o intuito de organizar a guerra contra Vargas. A ideia é atacar no 14 de julho, dia da Revolução Francesa. Vargas se antecipa e demite o general Klinger, no Mato Grosso. Em São Paulo, o General Isidoro Lopes decide iniciar o movimento no 9 de julho.

Civis tomam as rádios e os telégrafos de São Paulo, convocando a participação de todo o estado. Os jornais conclamam os jovens a voluntariarem-se. A Força Pública, polícia militar da época, também adere ao movimento. Trens partem com tropas para a Serra da Mantiqueira, meio caminho para o Rio de Janeiro.

Os paulistas posicionam suas tropas no túnel da Central do Brasil, na divisa entre São Paulo e Rio, e nas escarpas da Serra da Mantiqueira. Aguardam as tropas de apoio de Minas Gerais do Rio Grande do Sul. Demitido na véspera, Klinger chega sem os prometidos reforços de 5 mil homens e artilharia.

O ex-interventor João Alberto, agora chefe de polícia no Rio de Janeiro, manda prender todos os apoiadores paulistas na capital federal. O general Góes Monteiro lidera a reação federal. Getúlio Vargas convence Flores da Cunha e Olegário Maciel a mudarem de lado, as tropas prometidas realmente chegariam, mas para combater os paulistas. Navios de guerra partem da Guanabara em direção à Santos, onde farão um bloqueio naval que impedirá a circulação de mercadoria e armas.

Em 13 de julho acontece o primeiro combate, uma tropa federal enviada por terra encontra-se com os paulistas em São José do Barreiro e são trocados os primeiros tiros. Logo em seguida, as tropas mineiras sob o comando do Coronel Eurico Dutra entram em combate com os paulistas do alto da Mantiqueira, em quatro dias de combates violentos.

Em 15 de julho, tropas paulistas conseguem deter fuzileiros navais que, aportados em Paraty, subiam em direção a Cunha. Na frente sul, os paulistas são atacados em Itararé, onde aguardavam o encontro amistoso com as tropas gaúchas. Fogem sem impor resistência, posicionando-se em Buri. Após um mês de guerra, a situação paulista não é confortável.

Do lado de São Paulo são 12 mil soldados da Força Pública, 3.600 soldados do Exército e 45 mil voluntários civis sem treinamento militar. Possuem 25 mil fuzis e munição para apenas 5 tiros por dia. A aviação paulista tem 6 aviões. As tropas federais contam com mais de 200 mil homens, vindos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Estados do Nordeste. Possuem farta munição, artilharia pesada, navios de guerra e mais de 50 aviões.

Jornais e revistas locais fazem propaganda dos avanços paulistas, dizendo que as derrotas dão boatos de traidores. Getúlio fomenta pelo Brasil que os paulistas rebelados são separatistas, liderado por italianos comunistas. Panfletos são lançados por aviões nos dois lados das fronteiras.

Mulheres e crianças se envolvem no esforço de guerra paulista. Fábricas de utensílios domésticos passam a produzir capacetes e armamentos. Uma campanha pedindo ouro para a revolução toma até alianças de casamentos. São Paulo constrói um temido trem blindado.

No final de agosto, a guerra está confinada a seis frentes de trincheiras. Em 3 de setembro, hidroaviões bombardeiam o Forte de Itaipu, na Praia Grande. Dias depois, o alvo é a central Elétrica de Cubatão, que abastecia a energia de São Paulo.
Em setembro, após feroz resistência, cai a trincheira de Buri. As tropas federais também se aproximam de Botucatu e começa um cerco à Campinas. A cidade é atacada por aviões, que lançam bombas de 40 kg.

O pânico de um futuro ataque toma conta de São Paulo. A aviação federal bombardeia o Campo de Marte. Em 12 de Setembro finalmente cai a resistência no túnel da Mantiqueira, e a cidade de Cruzeiro é tomada. A resistência recua para Aparecida do Norte.

Em 29 de setembro, Klinger escreve à Getúlio pedindo uma deposição de armas de ambos os lados. O General Góes Monteiro exige uma rendição paulista. Em 2 de outubro, o coronel Herculano de Carvalho retira os 12 mil homens da Força Pública do combate. O coronel Euclides Figueiredo tenta levar seus homens para o Mato Grosso, usando o trem blindado, mas um cerco em Jacareí faz com que a tropa se disperse. As lideranças paulistas são presas, levadas a um navio presídio e enviadas ao exílio em Lisboa.

Fracassada a tentativa de derrubar Getúlio à força, os paulistas teriam uma breve vitória política. O tema constitucionalista agora era um assunto nacional e Vargas é obrigado a convocar as eleições constituintes. A nova constituição é promulgada em 1934, mas dura pouco. Em 1937 Vargas a anularia, decretando o Estado Novo e se impondo como ditador até 1945.

RENATA (2002)

RENATA (2002)

O documentário Renata é uma vídeo-biografia da nadadora santista Renata Agondi, morta aos 25 anos, ao tentar atravessar a nado o Canal da Mancha. É uma adaptação do livro Revolution 9, de Marcelo Teixeira, dirigida por Rudá de Andrade. A narrativa é baseada na leitura do diário da jovem, iniciado aos 8 anos de idade.

Renata nasce em 1963, e cresce junto com os Beatles. Essa relação afetuosa da garota com seus ídolos acompanha toda a sua breve vida, através de observações sentimentais em seu diário.

Em 1971, o pai é transferido de emprego para o Rio de Janeiro e Renata descobre a natação treinando pelo Fluminense, clube que teve a hegemonia da natação carioca. Renata começa a colecionar títulos.

Paralelamente a história da esportista, acompanhamos os questionamentos existenciais de Renata, através de Ester Góes, que narra passagens do diário. O caderno de memórias é sua válvula de escape para a realidade.

Para cobrir os trechos introspectivos, Rudá escolhe trechos de cinema mudo de Georges Méliès. Em outros momentos são usadas animações, fotos, recortes de jornais e até mesmo imagens em VHS que mostram a evolução da atleta.

Angustiada com a adolescência, deslocada do mundo, Renata larga as piscinas e dedica-se à leitura, ao violão e à busca de um amor como o que nutre pelos Beatles, para dar razão a sua vida.

O pai é transferido de volta para Santos, na época em que a jovem chega ao vestibular. Passa a trabalhar em uma loja de piscinas pré-fabricadas e a cursar a faculdade de comunicação social, onde convive com a agitação da política estudantil durante a abertura e redemocratização.

Na faculdade, participa de uma disputa aquática, e decide retornar aos treinos em 1982, competindo pelo Clube Saldanha da Gama. Nos treinos se apaixona por José Ricardo Dutra, ela com 20 anos e ele com 16. Juntos passam a competir e ganhar muitas competições em piscina e travessias em águas abertas.

Aos 22 anos estão noivos e disputando grandes distâncias em mar. Renata e Dutra saem do Saldanha da Gama e passam a competir pela equipe da Universidade Santa Cecília, crescente força da natação santista da época.

Em 1986, Renata parte para a Itália, para disputar uma das provas mais conceituadas do calendário internacional, a travessia Capri-Nápoles, de 33 km de mar. Uma prova de 9 horas, num mar de 19°C, enfrentando águas-vivas, ondas e ventos.

Renata chega com um excelente tempo, em 2º lugar na categoria feminina e em 5º lugar na classificação geral. É recebida com palmas, flores, cobertor e oxigênio. Torna-se a primeira brasileira a obter destaque em competições internacionais em águas abertas.

Ainda disputaria a Volta do Imperador, também com destaque. E repetiria as competições internacionais na Itália no ano seguinte.

Em 1987, Renata acumula 238 medalhas e 40 troféus. Confusa com a aproximação do casamento, Renata rompe o noivado e termina a relação com Dutra.

A nadadora se associa a treinadora Judith Russo e partem para uma nova viagem para a Europa em preparação para um novo desafio: a travessia do Canal da Mancha. Participa das principais provas da Itália e vai a Dover, na Inglaterra, para a tentativa da perigosa travessia.

O Canal da Mancha foi percorrido a nado pela primeira vez no final do século XIX, em quase 22 horas de percurso. Sua travessia é dificultada pelas baixas temperaturas, entre 12°C e 17°C, pelas rápidas mudanças climáticas, pela presença de manchas de esgoto e de óleo, por águas-vivas e por mais de 400 navios que cruzam diariamente o trajeto.

Renata participa de uma prova de revezamento, com outros cinco atletas, para reconhecimento do mar. Na véspera da travessia, o piloto de sua embarcação desiste de guiá-la.

Com uma tripulação desconhecida, Renata larga às 7:20 da manhã de 23 de agosto de 1988, impondo um ritmo inicial de 80 braçadas por minuto. Com cinco horas de prova, já percorreu metade da prova, mantendo o ritmo de 72 braçadas, e uma estimativa de término com 9 horas de mar.

Neste ponto, o barco parece guiar Renata por um rumo inadequado, e a nadadora passa a enfrentar marés e correntes opostas. A treinadora Judith discute com a tripulação. Após 10 horas de prova, sem alcançar o continente, Renata já não nada tão rápido.

Com 10 horas e 45 minutos de prova a equipe de bordo lança uma boia na água para recolher a nadadora do mar. Sem entender o que acontece, Renata se recusa a sair da água e se distância da embarcação.

A equipe então aciona a Guarda Costeira para o resgate da atleta. Retirada do mar a 7 km da chegada, Renata é levada de helicóptero para Calais, mas morre de exaustão e hipotermia antes de chegar ao hospital. Após 5 anos de processo, piloto e co-piloto da embarcação pegam 6 meses de prisão.

A imagem final do documentário é a emocionante chegada de Dilza Damas, que inspirada na história de Renata, é a primeira brasileira a completar a travessia do Canal da Mancha, após pouco mais de 19 horas de prova, em 1992.