CONTO DE NATAL – CONTOS DE MARCELO AITH

CONTO DE NATAL

-Papai Noel existe, ou existia, e eu tenho a prova irrefutável disto.

Foi com esta frase que Abelardo se apresentou em minha sala. Era véspera de natal. Walter, meu editor, perseguia-me há dias, e eu não fazia ideia do que escreveria para a edição natalina.

Aquele maluco afirmava ter provas concretas da existência do bom velhinho, o relógio corria, meus neurônios recusavam-se a funcionar. Era pegar ou largar.

Na redação, a notícia da presença de Abelardo causava uma comoção geral. As bolsas de apostas estavam abertas, cada um acreditando decifrar minha decisão.

O clima era dos piores, todos neuróticos, festas de final de ano, perus, listas de presentes, viagens, e era preciso entregar as matérias. Cada qual em sua aflição, e os editores no pé. Sempre os mesmos assuntos.

Essas edições de festas poderiam ser arquivadas, já estavam atemporais pela repetição. A rua enfeitada, as compras de última hora, o indulto de natal do Presidente da República, era só mudar a data, um nome aqui, outro ali, mas a essência era a mesma.

Um casal de velhinhos que há anos preparava um suculento pururuca, ou outra besteira qualquer. Já podia ouvir no ar “So this is Christmas, and what have you done?”.

Agora, a prova definitiva da existência de Papai Noel, o Santa Claus em pessoa, isso sim era um furo. Isso sim era matéria de capa, renderia uma bela primeira página.

Eu estava salvo, ganharia o Prêmio Politzer, faria a alegria de milhares de crianças e traria o sonho de volta aos adultos incrédulos. Entre acreditar no maluco, ou esperar meu editor invadir a sala perguntando “-E aí?”, optei pelo primeiro.

Com isso ganharia um tempo, iria para a rua com o doido, investigaria sua história. Quem sabe no caminho, com a mente arejada pelo movimento das ruas, não me viria alguma ideia?

-Sente-se.

Ordenei.

-Acho que ainda não nos conhecemos, não é? Sou Délmo.

Disse, oferecendo a mão.

-Abelardo.

Retribuiu o cumprimento.

Suas unhas, seus dedos, pareciam encardidos. Não apenas sujos, encardidos era a palavra. Nem uma bela escovada resolveria. Deveria ser mecânico, pensei.

-Você poderia me contar um pouco mais de sua história?

-Olha seu doutor, o que eu vi é coisa difícil de acreditar, mas eu sei onde Papai Noel está.

Por trás do homem eu podia ver as cabeças curiosas de meus colegas, que se acotovelavam no vidro da janela. O meu aquário, era assim que eu me sentia naquela sala, era ponto de referência para todos, também conhecido como sanatório geral.

Os tipos mais desequilibrados eram enviados a mim. Só eu tinha a paciência de escutá-los. Eu realmente não conseguia evitar, era o meu velho problema de não saber dizer não.

Mas, no fim, eu gostava da companhia dos insanos. O censo comum muitas vezes me dava náuseas. E eu conseguia enxergar algo de positivo por trás da demência, das histórias escatológicas, por trás de toda a sordidez que a raça humana pudesse produzir. Este era o meu ofício.

Enquanto o homem falava, eu me levantei e comecei a arrumar as coisas. Estava decidido, partiríamos. Urgia ser breve. Walter poderia chegar a qualquer instante. Iria querer saber onde eu estava indo, perderia tempo mentindo, inventando uma pauta plausível. Investigar Papai Noel não passaria, perderia a minha história, o meu bom motivo para ir à rua.

Abelardo continuava falando, sua voz entrava pelo meu canal auditivo, vibrava os tímpanos, mas não produzia cognição. Fechei as gavetas, apanhei a pasta e peguei o homem que não parava de falar, pela mão.

-Vamos embora, no carro você conta os detalhes.

-Mas, e o meu dinheiro?

-Como?

-Sabe como é, doutor? Preciso fazer um agradinho lá com a patroa, e tem os meninos também. A história é boa. Eu posso levá-la para outro jornal. Será que não dá pra adiantar qualquer coisinha, não?

-Meu amigo, você vem à minha sala dizendo que Papai Noel existe e ainda quer levar algum? Você acha que eu sou o Coelhinho da Páscoa? Se a matéria for boa eu consigo uma verba para você, mas agora, assim, adiantado?

-Vamos lá doutor, só pra eu não chegar de mãos abanando em casa. A mesa lá é farta, farta pão, farta vinho, farta peru.

O homem conseguira. Mexera com os meus instintos mais humanitários. A cena da mesa vazia, a noite de natal, quantas mil famílias não deveriam viver nessa situação?

Noite glamourosa, o cacete! Noel, porco capitalista, presenteia os ricos, esquece os pobres. Se o velho existisse mesmo, eu trataria de lhe dar umas belas porradas. Abri a carteira e passei-lhe tudo o que tinha.

-Ah, agora sim estamos falando a mesma língua. O senhor não vai se arrepender, tudo o que eu prometi existe, é tudo verdade, o senhor acaba de tirar a sorte grande, vamos ficar famosos, eu e o senhor. Já posso até ver, a TV não vai mais me deixar em paz. Vou aparecer em todos os programas de domingo. Eu falei pra Cleuza. Nega metida, agora não vai mais largar do meu pé, vai querer posar de primeira-dama, mas ela tá é muito enganada, agora eu é que não quero mais saber dela, o meu negócio é a Guilhermina, a nega só vai me ver ano que vem, só no século XXI…

E lá fomos nós, o homem não parava de falar, o dinheiro deixara-o verborrágico.

-É por aqui doutor, entre ali à direita, e pode ir parando atrás daquela caçamba de entulho. É ali naquela obra, onde eu trabalho.

Chegamos ao local indicado pela minha fonte. Era ali que encontraríamos o legítimo Papai Noel. Não aqueles que povoam os shopping centers, não aqueles de agência de figuração. Este era o legítimo. Mas, pelo que pude entender, já morto.

O local onde jazia o corpo de Papai Noel fazia parte de um complexo industrial, todo em tijolos à mostra, num estilo inglês, do começo da industrialização do país. Fora uma famosa e poderosa indústria durante o período da Primeira Guerra.

Agora, estava sendo recuperada, transformar-se-ia num grande espaço para eventos, destas festas modernas, com música eletrônica, êxtase até o dia claro. Também estavam planejadas salas de cinema, centro de alimentação, estacionamento e não sei mais o que.

Abelardo contava os detalhes, ele era o responsável pelo restauro das chaminés, altíssimas, pujantes, que pareciam querer arranhar o céu. Há décadas já não cuspiam mais uma fumacinha sequer.

Os novos tecidos sintéticos tinham levado o industrial à falência. Tudo o que a Primeira Grande Guerra trouxera de prosperidade, a Segunda levara embora. Eram cinquenta anos de abandono.

-Cuidado seu doutor, pule pra cá, cuidado com aquela tábua com pregos.

Estávamos entrando, o local fora invadido várias vezes ao longo dos anos em que nada funcionara lá dentro. As paredes estavam pichadas, restos, vestígios de acampamento humano podiam ser vistos por várias partes.

Mendigos, bromélias, vagabundos, samambaias, usuários de drogas, musgos, fugitivos, liquens, cães, ratazanas, toda sorte de fauna e flora utilizara-se daquele teto por anos.

A luta para reconstruir o espaço estava sendo vencida com ajuda de um grande grupo financeiro internacional, que via ali uma mina de riqueza, adquirida a preço de banana.

-É por aqui. Sabe, eu vinha recuperando todas essas chaminés, até que um dia, foi quando a Cleuza veio aqui comigo, a gente se enfiou aqui no galpão três, aí a gente começou a transar, foi uma loucura, aí ela queria gritar, e gemia, uma loucura. Foi quando ela teve aquela ideia maluca, o senhor já teve uma mulher maluca?

-Todas elas são umas loucas.

-Pois é, mas têm umas mais loucas que as outras, e a nega é a mais louca delas. Ela queria gritar, sabe? Gritar de verdade. Daquela maneira que faz a gente passar vergonha. Eu falava “-Cala a boca, o caralho!”. Mas não dava jeito, a mulher tava possuída. Foi aí que ela pirou, quis porque quis foder dentro da chaminé, sabe? Pode parecer estranho, mas o eco dos gritos a excitava. Eu, que não perco uma, topei.

-Vocês foderam aqui? Passando por este duto?

-Isso mesmo, vamos entrando, foi bem ali, ali mesmo. Ela começou a gritar muito mesmo. Eu gozei como nunca, foi uma loucura. No começo achei que estava abafando, que estava com tudo, que ia fazer a nega morrer de prazer, ela parecia subir pelas paredes, como se fosse sair flutuando pelo duto feito fumaça, só depois é que percebi, a louca gritava era de pânico. Cuidado, abaixe a cabeça, agora estamos quase lá, já tá vendo?

-Não, não dá pra ver porra nenhuma daqui.

-Pois é, nesta hora do dia o sol deveria iluminar o fundo, mas está escuro não é?

-Como a vista do Stevie Wonder.

-O quê?

-Deixa pra lá.

-É aqui, chegamos.

Abelardo riscou um fósforo. Uma fraca luminosidade nos dava a ideia dos contornos, um estranho objeto bloqueava a passagem do duto. O homem passou o palito em volta do corpo. Parecia ser um cadáver.

Era um corpo putrefato, deveria estar lá há anos, em suas costas estava um saco. Tudo levava a crer que estávamos de frente ao que poderia ter sido o bom velhinho. Não mais em carne e osso, gora apenas ossos, cabelos, dentes e unhas. A roupa puída pelo tempo.

-Meu deus! Há um morto aqui. Quem mais sabe disso?

-Fora eu, a Cleuza e o senhor, só o pessoal da birosca do Arthur. Mas ninguém quis me levar a sério.

-Isto é grave, você deveria ter chamado a polícia. Você já tocou no corpo?

-Já, o saco está cheio de presentes, mas eu não peguei nenhum não senhor. É pecado. Roubar um homem santo, onde já se viu? Eu tô falando, é o homem. É Papai Noel em pessoa. Quem mais morreria descendo uma chaminé com um saco desses nas costas. Pelo peso, deve ter sido enfarte. O coração do velho não aguentou. São muitas casas pra visitar em uma noite. Eu, que sou acostumado a subir e descer chaminé, já fico cansado, imagina um senhor da idade do Papai Noel, e ainda por cima com um sacão pesado destes.

-Deixe de ser louco, Papai Noel não existe catso. O que nós temos aqui é um corpo de um homem morto. E morto há muito tempo. A sua história era realmente boa. Preciso ligar para o jornal. Onde arrumamos um telefone?

E foi assim que consegui a minha melhor matéria natalina. Deu na primeira página, furamos todos os outros diários. O homem morte não era Papai Noel, tratava-se de Hilton Salvatore, famoso ladrão de obras de arte que atuou em toda a América durante os anos quarenta.

Em seu saco recuperamos preciosidades julgadas perdidas para todo o sempre. Aparentemente, fazia daquele local seu esconderijo. Estava com o pescoço partido, deve ter caído de uma altura considerável, antes mesmo de poder avaliar o fruto de seu dia de trabalho.

Abelardo ficou famoso, ao menos até o fim daquele ano. Depois disto, nunca mais tive notícias do homem que chegou a acreditar na existência do velho Noel. O engano dos cadáveres recolocou a história em seu eixo normal. Hilton Salvatore estava morto, e o mito de Noel continuaria vivo no coração de todas as crianças.

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Published in: on 30 de março de 2012 at 9:45  Deixe um comentário  
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DUZENTOS CAMELOS – CONTOS DE MARCELO AITH

DUZENTOS CAMELOS

No carro, ia mais uma vez ao trabalho. Coisas do dia a dia, até a aposentadoria, pensava, resignado. No rádio, recitavam poesias que chamavam um mundo melhor. Sua cabeça rodava, os dias estavam conturbados. A maior turbulência que já passara em sua vida.

Amanhecia quente, sol forte, logo nas primeiras horas. Prometia. Já não se concentrava mais, a mente voava solta. Não conseguia sentir-se culpado, mas também não tinha paz. Sua alma era um espírito incomodado. Estava em dívida. Mas, raios, o que fazer? Acontecera.

No caminho entre sua casa e o emprego, legiões de folhetos invadiam seu carro. A maior parte dos motoristas recusava os panfletos. Mas, de vidros abertos, não conseguia negar oferta tão pouco tentadora. Eram lançamentos imobiliários, planos de saúde, ofertas de informática, enfim, toda sorte de material gráfico.

Havia uma esquina, um semáforo demorado, e moças pouco renomadas distribuindo promessas de prazer. Esse sim era o único anuncio que o tocava, o único que não atirava diretamente ao chão do veículo, onde montes de papéis iam se acumulando. O informe publicitário da casa de tolerância oferecia descontos nos primeiros “drinks”, um dia ainda visitaria o local.

Seu sangue árabe fervia por mulheres. Deveria ser o hábito ancestral de possuir haréns. Amava como nunca. Cada mulher era vivida como se fosse a última de sua vida. Dispensava toda atenção a elas. Péssimo comportamento que tinha lhe posto naquela enrascada.

A mocinha se aproximou, não a reconhecia. Naquela profissão a rotatividade devia ser alta. Pensou. Sorriu gentilmente e recebeu o informe. Os carros andaram. Segurando o panfleto, engatou a primeira marcha e partiu.

“Tem um problema! Não se dizispere.”

Assim começava o informe que pensava ser da clínica de massagens.

O erro de português era gritante, perdera toda a esperança. Nada salvaria o seu dia. Continuou lendo. A vidente prometia tudo, passado, futuro, retomar amor perdido, desfazer trabalho. Sigilo absoluto. Só não conseguira prever a gafe literária.

Uma estranha comichão o levou para a porta da vidente. Induzido pela força que move os desesperados em busca de uma saída para suas aflições entrou no prédio. “Madame Zulmira”, estava escrito na tabuleta. Subiu a escadaria.

A mulher falou, falou. Mal ouvia as previsões. Sua mente estava monotemática. Seu maior problema o consumia por inteiro. Foi quando ela tocou no ponto. A dívida. Dívida de sangue. Dívida que precisava ser acertada. Não poderia continuar vivendo carregando aquele débito, tinha que quitá-lo.

Sim, agora dava ouvido. A solução parecia próxima. Ficaria livre do peso de seus antepassados. Teria um presente leve, um futuro promissor. Era só cumprir à risca o comando dos búzios. E o que diziam as conchas?

Duzentos camelos. Cem para o patrício, a modo de pagar pela mulher roubada. Cem para mandar sangrar nas areias do deserto, a modo de aplacar a ira de Alá. Aqueles genes árabes estavam mesmo dando trabalho. Não seria mais fácil um despacho com vela, galinha e charuto como todos faziam? Com ele nada podia ser simples.

A loucura tomou conta de seu corpo. Onde arrumaria camelos? A última vez que foi visto, rondava os muros do Zoológico. Naquele dia, os leões apresentaram uma estranha falta de apetite.

Published in: on 27 de março de 2012 at 15:00  Deixe um comentário  
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ESTRELA DALVA – CONTOS DE MARCELO AITH

ESTRELA DALVA

-O Sol é apenas uma estrela matutina!

-Pare com isso!

-Mas é verdade.

Disse ele, após o quinto uísque.

-É sempre assim, Albert. Toda vez que a gente vai a uma festa, você tem que ficar bebendo desse jeito?

-O Sol é apenas uma estrela matutina. Qualquer um deveria conseguir ver isto!

O garçom passava com a bandeja de canapés.

-Este Buffet é realmente bom, precisava saber o nome dele. A Estelinha vem pensando há tempos qual o melhor Buffet para o casamento da irmã dela, e eu acho que este aqui vai ser ótimo.

Disse Dalva, enquanto o garçom lhes esticava os guardanapos.

-Se pensarmos que não existe a divisão entre noite e dia, poderíamos ver que o Sol não passa de uma estrela matutina.

-Tá bom, tá bom, vamos prossiga no seu raciocínio, você não vai me deixar em paz mesmo.

-Veja bem, Dalva, se você pensar que a Terra gira, solta no espaço, e que o céu é a vista que temos do Cosmos que nos cerca.

Gesticulava, reproduzindo em mímicas todo o movimento da Terra em relação ao Universo.

-Você tá me entendendo, Dalva?

-Fale Albert, fale que eu te escuto.

Respondeu ela, que não tirava os olhos do vestido da mulher do Nestor.

Ele era astrofísico, ela socialite.

Published in: on 27 de março de 2012 at 14:28  Deixe um comentário  
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A CAÇADA – CONTOS DE MARCELO AITH

A CAÇADA

Não houve um piu na cozinha naquela manhã. A água e o leite esquentavam no fogão. As crianças, sonolentas, resmungavam à mesa. Elisa preparava o café.

Mas, dava por falta de algo. A rotina matinal não estava completa. Faltava o gorjear costumeiro. O silêncio gerava a certeza de que alguma coisa havia mudado.

Criançada vestida, uniforme escolar, lancheira, tudo pronto para a partida. Foi então que ela finalmente percebeu o porquê da estranheza. A gaiola, era hora de pô-la para fora. Hora do banho de sol para o prisioneiro.

Não penso em bicho de estimação mais infeliz do que um pássaro. O símbolo da liberdade, asas, o poder de planar, viagens sem destino. Autonomia que há muito sonhamos, perseguimos, tentamos conquistar e que nos mata de vez em quando.

Aqueles pequeninos seres alados, confinados em espaço mínimo. Os senhores dos céus restritos a poucos centímetros apenas para o deleite dos olhos e ouvidos egoístas de seus possuidores.

Esta é uma das amputações mais violentas que nós, homens, cometemos contra a Natureza. Sim, faz parte da natureza das aves, e impedir o seu voo através de grades, confino, é como amputar seus membros locomotores, suas asas.

Penso nos peixes, que trocam a imensidão dos rios e mares por apertadas caixas de vidro. Estes aparentam uma estupidez profunda. Parecem não se entediar com o cativeiro. Mas, voltemos à história.

Faltava a ave. O pássaro sumira. Desespero entre as meninas. Não havia pistas. Nada do corpo, nada de arrombamento. A gaiola intacta, nenhum vestígio de luta, nada fora furtado. O alpiste, o jornal cagado, a água, tudo estava em seu devido lugar. Menos Alfredo, o canário belga.

Choro por todos os lados, por onde estaria Alfredo? A gaiola vazia, um vazio no peito. O canarinho era um verdadeiro “rouxinol”. Não sei porque, mas quem canta bem, canta como um rouxinol. E como cantava bem o desgraçado.

Talvez fossem as sementes de maconha que recebia escondido, para que mulher e filhas não soubessem. O pai foi chamado às pressas. Começavam as investigações.

-Meu Alfredinho! Onde foi parar o meu Alfredinho?

-Ai minha santa! O que vai ser das crianças?

-Que crianças? E eu, e EU? Cadê meu Alfredinho?

-Você está histérico.

As filhas saíram chorando da cozinha.

-Tá vendo, olha só o que você fez.

A mãe saiu da cozinha.

-Bom, filho, só me resta você. Vamos achar o Alfredinho, doa a quem doer.

Os dias passaram, Alfredinho, nada. A tristeza foi se dissipando, em breve ninguém se lembraria do pássaro. Elisa, vez em quando, prestava atenção nos cantos que vinham da rua. Vã esperança de reconhecer ali o timbre agudo que tanto animava os deveres domésticos.

Para as crianças, inventaram a história de que Alfredo fora construir um ninho, com uma linda canarinha, e que agora tinham uma família de filhotinhos para criar. Tudo ia bem, quando a notícia correu.

A empregada foi limpar o fogão. E, sob o forno, dentro da bandeja inferior…

Como poderia explicar?

Observem seus fogões, abram o forno, fechem-no. Abaixo desta porta que mexeram, existe um friso, um espaço entre a dobradiça e o piso da cozinha. Com cuidado, passando a mão por sua extensão, abrirão uma outra portinhola.

Ali, esquenta-se pão, aproveitando o calor do forno, por exemplo. Ali, ocultava-se o cadáver do pássaro. Penas, pequenos ossos, todas as evidências necessárias. Estava descoberto seu paradeiro.

-Que horror!

Exclamou Elisa.

-Que horror!

Repetiu Guilhermina, a cozinheira.

As filhas saíram chorando da cozinha.

O pai foi chamado novamente. Tínhamos um mistério. A solução logo se tornou óbvia. Um ninho de rato, confortavelmente instalado abaixo do calor do forno. As bolinhas de cocô denunciavam o inquilino.

Vingança. Era tudo o que passava na cabeça do pai. Seu companheiro de cantoria brutalmente assassinado. Sua companhia nas tardes esfumaçadas entre um trago e outro da boa erva, lá estava Alfredo a gorjear. Cantava como nunca, empolgado com as sementes que ganhava.

Furar os olhos, não. Coitadinho, era muita maldade. Mas, dopar o bicho, sim. Ah, com que beleza recitava aqueles versinhos. Compunham os dois. O animal entrava com a melodia, o pai, com a letra.

A dupla estava desfeita. E seu sangue clamava por vingança. Mais que isso, ninguém naquela casa dormiria enquanto não fosse encontrado o maldito rato.

Ser ignóbil, símbolo de tudo o que é sujo, sórdido e porque não dizermos, rasteiro. Animal que não desperta nenhuma compaixão entre os ocidentais. Elisa não dormiria com um bicho destes dentro de casa.

Mais que vingança, encontrar e exterminar o roedor era questão de honra. Sua rainha pediria a cabeça do animal, era preciso contentá-la. Não haveria paz naquele reino enquanto a bandeja de prata não lhe fosse ofertada com a cabeça decepada do inimigo.

A perplexidade era completa.

-Como o roedor escalara a lisa parede de azulejos?

-Como o roedor invadira a gaiola?

-Como matara e arrastara o corpo para baixo?

-Será que sabia abrir a porta da gaiola?

-Teria passado entre os vãos das grades?

Tudo parecia supérfluo frente ao fato consumado. Nada traria de volta a alegria perdida naquela cozinha.

Foi então que começou a maior operação militar já vista. Todos mobilizados, mulheres e crianças para fora da cozinha, portas trancadas. Dentro, apenas pai e filho. Vassoura e rodo. Todos a postos. A caçada teria início.

Arrastam-se os móveis, armários, gavetas, até que enfim lá está o alvo. O roedor. Seu corpo não é dos maiores, mas também não é um camundongo. Deve ter vindo do esgoto.

-É ele!

Gritou o menino.

-Vamos pegá-lo!

Bradou o pai.

Do outro lado da porta, as moças insistiam em ouvir.

-Pegaram ele?

Perguntou a filha mais velha.

-Deixe eu ver um pouquinho?

Pediu a mais nova.

-Fechem a porta, porra.

Gritou o pai.

O rato escapara. Vassouradas e golpes de rodo disparados a esmo. Ileso, o roedor tremia dentro do buraco do motor da geladeira.

-Ali, pai. Ali. Ele entrou ali.

Apontava o filho.

-Pegamos o bastardo. Seus dias de comedor de pássaros chegaram ao fim.

Disse o pai, triunfante.

Estudaram a situação. Tentaram a todo o custo fazê-lo sair de lá, mas o bicho não era bobo. Dali ele não sairia, dali ninguém o tirava. A mãe já reclamava das cacetadas a que seu refrigerador era submetido na esperança de desentocar o intruso. Então veio a ideia.

-O inseticida! Vamos acabar com ele. Quero ver ele não sair daí!

-Oba, guerra química.

O filho, excitadíssimo, correu até o armário.

-E a Convenção de Genebra?

Diria o rato, se este soubesse falar.

Devidamente protegidos, com panos de prato amarrados nos rostos, nossos corajosos soldados não dariam trégua ao inimigo.

-Psssssssssssssssssssssss

O pai descarregou todo o tubo de veneno. O rato aguentou firme. Silêncio mortal na cozinha, apreensão do lado de fora.

-Ai dona Elisa, vamos ter que lavar a cozinha, como é que eu vou cozinhar no meio do veneno?

Preocupou-se Guilhermina.

-Vamos jogar todas as comidas fora, amanhã você vai limpar tudo, azulejo por azulejo.

-Pega pai.

O rato correu para seu ninho, dentro do fogão.

-Vais morrer como um judeu! Escapaste do gás, mas do forno…

-Olha as crianças.

Repreendeu Elisa, com o ouvido colado à porta.

-Você quer ele morto, não quer? Então cale-se. Há homens em ação, aqui nesta cozinha.

Respondeu o pai.

-Me passe os fósforos.

Ordenou o comandante da operação.

-Vamos queimá-lo?

Indagou o subordinado.

-É isso aí filhão, agora eu quero ver esse desgraçado se esconder. Ele vai sair daí por bem ou por mal.

Riscou o fósforo, acendeu o forno.

Era o fim do animal. Envenenado, acuado, e agora submetido a calores equatoriais. Só havia uma saída, o chão da cozinha. A postos, pai, vassoura, filho e rodo esperavam o limite da resistência do comedor de aves.

Como era de se esperar, lá veio ele. Franca disparada, correu em direção do garoto. Em atitude de defesa, desferiu o golpe.

-Plaft.

A vassoura espatifou-se contra o piso. Numa agilidade única, o roedor mudou o seu rumo, para alegria do menino que gritava em pânico.

-Ele avançou em mim! Ele avançou em mim!

-Ploft.

O pai foi certeiro. Pescoço para um lado, corpo para o outro. Como divisória, a borracha do rodo. Perninhas ainda deram um último estremecer. Alfredinho estava vingado, a guerra chegava ao fim.

Published in: on 27 de março de 2012 at 13:49  Deixe um comentário  
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HERMÍNIA, 74 – CONTOS DE MARCELO AITH

HERMÍNIA, 74

Hermínia dorme. Um sono confuso, tumultuado. Não passa das quatro e parece que vai despertar. As pálpebras vibram num movimento descoordenado. A respiração, ofegante, parece que vai falhar.

Hermínia é cardíaca. Sofre do coração. Não digo daquelas dores de amor, coisa que ela mesma nunca experimentou. Foi o cansaço da solidão que se alojou em seu músculo cardíaco. Mal que mata aos poucos.

Como se não bastasse a doença, a insônia, Hermínia é professora aposentada. De matemática. Sem dinheiro, não há quem lhe compre os remédios. Há cinco dias que não os toma.

Acorda assustada, suando. Pressentiria a morte? O corpo está fraco. Sem as cápsulas, o peito nega-lhe a força para continuar. Sentada na cama, espera o amanhecer. Hermínia já não sabe mais o que fazer.

Outra vez irá ao posto bancário. Quem sabe não lhe chega a pensão? Esta é a motivação que encontra. Levanta-se e, sem se lavar, côa o café. Ralo, para insatisfação de Hermínia.

A velhice a emporcalhou. Não trata de sua higiene pessoal. Vaidades, Hermínia as perdera com os anos. A sovinice fez-se necessária. Menos banho, menos na conta de luz. Mais xampu para o mês tão longo.

Desgrenhada, em nada lembra aquela mulher que comandava com mãos de ferro a cadeira de Matemática no Grupo Escolar Aníbal Machado. O melhor da cidade, lá pelos cinquenta.

Descendente de alemães, sempre foi sisuda. Alta, magra, ossuda. De um humor de quem sofre do fígado. O terror dos jovens aprendizes. Impiedosa, sarcástica, a antieducadora.

Espectro fantasmagórico nos sonos das crianças, Hermínia competia com os pequenos, massacrava-os. Sempre provando saber mais do que os fedelhos que infernizavam sua existência.

-Vocês acabam com o meu dia, seus energúmenos. Os pais de vocês devem ter vergonha dos filhos que têm.

Com este estímulo, Hermínia educou gerações e gerações de jovens. Até a aposentadoria. E hoje, a professora vive de pensão, só. A mãe, de quem cuidara a vida toda, já não lhe faz mais falta.

Como não se casara, não tinha filhos. Sexo, penso que Hermínia tenha uma vaga lembrança do que seja. Uma única experiência, com um primo distante. Coisa que não passou de brincadeira de criança.

Um único parente ainda a visita. Mas é coisa para uma, duas, não mais que três vezes ao ano. Sendo que nos últimos anos, as visitas andam rareando um pouco mais que o costume.

Todo dia é dia de esperança. Quem sabe hoje o Tesouro não se lembra dos velhos? Mesmo com toda essa perspectiva, as forças para continuar seguindo são menores do que nunca.

Devidamente vestida, Hermínia está pronta para a peregrinação. Lá vai a mulher tentar receber o que lhe é de direito. Mas o governo não honra os compromissos.

Hermínia tem saudades da época em que podia orgulhar-se da profissão. Sozinha, mantinha a casa, sustentava uma mãe doente. Com salário de professora do ensino público.

Tentava entender o que ocorrera. As reformas curriculares, a transformação do ensino. Bons tempos aqueles dos militares. Havia ordem, respeito, civismo. Hoje, sabia de cada caso.

Os alunos não queriam mais nada. Ameaças físicas contra o corpo docente eram diárias. Tráfico e consumo de drogas eram recorrentes. E o salário? Meu deus, mas que salário?

Aposentada, as coisas só pioraram. O dinheiro não vinha na data marcada. Devia no armazém, para desgraça de seu orgulho germânico. Sofria toda sorte de privações.

A dispensa sempre às moscas. Se bem que, tamanha carestia, nem as voadoras se interessavam por sua cozinha. O médico, pela rede pública hospitalar. Remédios era por hábito faltar.

Não como agora. Cinco dias sem o do coração. Não aguentaria por muito mais tempo. Andava alimentando-se mal, e tudo mais. Mas, não sejamos tão rudes com Hermínia.

Teve sim um amor. Bem que platônico, nem ela conseguiu entender ao certo. Um certo Monteiro. Ministrava História e Geografia para o Científico.

Fazia um sucesso com as adolescentes. Era uma espécie de liderança. Falava coisas que não devia. Um dia apareceram dois homens de terno, sentaram ao fundo da sala.

Depois disso, nem Hermínia, nem a direção do Grupo Escolar Aníbal Machado souberam do paradeiro do professor Monteiro. Correu boato de que o homem fosse terrorista. Mas isso não era problema de ninguém, era mais seguro esquecer tudo.

-Queridos alunos, essa é Alba, a nova professora de vocês.

E assim se deu o único amor de Hermínia. Pouco para o coração doente. Nada onde pudesse agarrar-se, uma velhice sem lembranças felizes. Assim era demais até mesmo para os corações sadios.

No banco, mais uma decepção. Nada em sua conta corrente. Outro dia sem os remédios. Ao menos o ônibus, este nada lhe tomava. Descia pela porta da frente, sem pagar a passagem.

É bem verdade que irritava os motoristas e passageiros com seus movimentos lentos. Paciência, um dia também seriam velhos. Ou por sorte, enfartariam antes. Como odiava o próximo, Hermínia.

A vontade de viver, de vencer, fazia parte de seu ser. A força das guerras pelas quais a família passara ainda corria em suas veias. A raça ariana triunfaria um dia. E lutaria até o fim.

Com essa disposição que Hermínia desfez-se do último rastro de amor próprio. Chegava ao fim. Não era mais Hermínia, professora de matemática, aposentada pelo Grupo Escolar Aníbal Machado.

Podia ser qualquer uma. Naquela figura trôpega, lutando pela sobrevivência, não se reconhecia Hermínia. A derrota moral, física, era completa.

O corpo carcomido. Na alma, solidão. Bolso e estômago vazios. Tentou amigos, mas estes não existiam. Ou por já terem há muito partido para outras terras, ou pior, para outros mundos. Ou por simplesmente não terem existido.

Esta era bem a verdade. Não tinha a quem recorrer. As amarguras, as maldades, moldaram-na solitária. Além disso, houvera a mãe. Esquizofrênica, demente.

Nunca recebia visitas. Tinha apenas colegas de serviço. Amizades que não superavam a sala dos professores, durante os intervalos do recreio.

Chegava ao fim um ramo da linhagem dos Zinnürhanns. Hermínia não deixava descendentes. E com seu fim próximo, estaria decretado o fim da estirpe em terras tropicais.

Fracassava a conquista da América. Se os seus antepassados a vissem neste momento, ai que vergonha. Deveriam estar se contorcendo na tumba. Pensava nisto, mas seguia em frente. Era vencer ou morrer, e não havia tempo para meios termos.

Lá estava Hermínia. Caixa de remédio amassada e receita médica nas mãos. Batia de janela em janela, nos autos parados no semáforo. Mendigava. Era o fim de sua prepotência germânica.

Não foi tarefa das mais fáceis vencer a primeira barreira, a perda de toda a autoestima. A superação da exposição à derrota e ao público. E o medo de abordar um antigo conhecido? Ou pior, um ex-aluno.

De certo, muitos dos que foram humilhados por Hermínia já eram homens feitos. E nada os impedia de serem os condutores dos veículos que se aproximavam. Estava acabada.

-Dona Hermínia, a senhora por aqui?

-É meu filho, estou trabalhando no voluntariado. Sabe como é? É preciso ocupar o dia.

Mentiria Hermínia.

Os dias se passavam, Hermínia jejuava. Pouco alimento, muito trabalho. A concorrência não era das menores. Para cada esquina parecia haver milhões de necessitados. E tão pouca solidariedade humana.

Eram ciganas, leitoras de mãos. Eram mães adolescentes carregando bebês. Eram aleijados, deficientes, chagásicos, menores de rua, escoteiros, distribuidoras de panfletos, alcoólatras, famílias de necessitados…

Uma infinidade de causas batia aos vidros em busca de socorro. Dias de sol e chuva Hermínia enfrentou até que finalmente conseguisse juntar as economias necessárias. Com esforço próprio, conseguira.

Exausta, era esta a situação de Hermínia. O desgaste físico, moral, derrubara de vez a mulher, estava um caco. Mas tinha o dinheiro, iria à farmácia, estava salva. O peito voltaria ao compasso.

Dias, semanas, para ser preciso eram nove amanheceres sem a medicação. O estrago era grave, a saúde ia mal. Um esforço heroico a matinha em pé. Naquela manhã, não foi ao cruzamento.

O dia estava claro, a esperança voltava a existir em sua alma. De posse das moedinhas, notas amassadas, foi à farmácia. Mãos tremulas, entregou a miudeza ao caixa.

No balcão ao lado, uma mocinha grampeava os pacotes das compras. Com o cupom de pagamento, Hermínia esperava o seu. O “tlac” de cada grampear doía-lhe no peito. Estava difícil manter-se viva.

Neste meio tempo, entre pagar o remédio e efetivamente apanhar o embrulho, houve o inesperado. Para azar de Hermínia, naquele momento o boticário estava sendo assaltado.

Eram três homens, todos armados. Invadiram o comércio aos berros.

-Mãos na cabeça, todos no chão.

A confusão foi generalizada.

Os olhinhos miúdos de Hermínia não desgrudavam do pacote. Estava a um passo da salvação. Tanta peleja para chegar ali, e essa agora. Passara por cada dificuldade, não podia falhar ao final.

Ficou estática, sem reação alguma. Não obedeceu às ordens dos marginais.

-Ai vovó, é todo mundo no chão.

Gritou o assaltante com a arma na têmpora da antiga professora.

Toda sua vida passou pela vista. A infância, na Alemanha. A fuga, durante a guerra. Adaptação, no novo país. O apogeu, no grupo escolar. Até mesmo a humilhação mais recente, do mendigado.

O músculo cardíaco deu um leve suspiro, um último fiapo de vida se esvaiu do corpo de Hermínia. Obedecendo, então, ao comandado, foi ao solo. Dura, seca, de uma só vez.

-Caralho, fudeu. A velha pifou.

-Tamos fudidos. Vai dar homicídio, latrocínio.

-Vamos cair fora, antes que suje.

Hermínia Zinnürhann, 74 anos, solteira. Não deixa filhos. Cemitério São Pedro. Este foi o anúncio do obituário. Ninguém compareceu ao velório. No enterro, apenas funcionários em serviço.

As despesas foram todas pagas pelo proprietário da farmácia. Que, ao longe, oculto, presenciou o sepultamento de Hermínia.

-Até que me saiu barato. Nada que pudesse comprometer os lucros da manhã.

Evitando o assalto, Hermínia fazia sua primeira e única boa ação. Eternamente grato, o comerciante mandaria rezar todos os anos uma missa para a falecida.

Ao menos na morte, conseguira cativar alguma gratidão.

Published in: on 27 de março de 2012 at 12:55  Comments (1)  
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O SONHO DE UM PRÍNCIPE – CONTOS DE MARCELO AITH

O SONHO DE UM PRÍNCIPE

-Não vou, não vou e não quero! Se ele pensa que vai conseguir, pode saber que está muito enganado. Não vou mesmo.

A pequena princesa gritava pelos corredores do castelo.

-Que inferno, nunca se acha ninguém nesta casa.

Estava histérica. Também, num palácio daqueles, um sobe e desce de escadas, salas, câmaras e anticâmaras. E os jardins!

-Que inferno.

Pensou que se estivessem nos jardins, poderia gastar um dia inteiro sem os encontrar.

Nas mãos, portava uma delicada caixa de madeira. Em cedro, coberta da mais fina madrepérola. Figuras geométricas precisas, recortadas em diminutas proporções, tomavam forma semelhante à dos mosaicos da capela em que assistia às missas de domingo.

Ela própria, a caixa, já era uma joia. Cravada por pedras preciosas, estavam ali agregados os trabalhos dos mais experientes artesãos de distante reino oriental.

Mas, valor maior estava em seu interior. Se pudéssemos levantar-lhe a tampa, logo veríamos o porquê de tamanha revolta.

A princesa recebera há pouco pelas mãos do Grão-Vizir, enviado especialmente para isso, o pequeno presente. Um pedido de casamento. Desta vez, oficial!

O enviado do Sultão atravessara desertos, mares e florestas. Missão diplomática, séquito de sábios, diplomatas e nobres do reino. Uma verdadeira caravana. Presentes dos mais finos, tapetes, especiarias, cerâmicas, artesanatos em geral.

E, nas mãos da princesa, o prato principal. A “tiara nupcial”, em ouro maciço, incrustada de rubis dos mais variados tamanhos. Ao centro, a “grande safira do Éden”. A pedra sagrada do tesouro do Sultão.

Era a prova definitiva das más intenções do Sultão. E a princesa sabia disso.

-Eu não me caso. Eu não aceito. Eu não vou!

Irada, procurava seu pai pelo castelo.

Seu Luís! Seu Luís! Sua filha está tendo outro daqueles ataques.

Avisou o Camareiro Real.

O rei, importunado em seu sossego, ergueu levemente os olhos, como se perguntasse:

-O quê?

A moça, de pernas abertas, ainda tentou recolocar a cabeça de seu amo no devido lugar, puxando-lhe pela cabeleira.

-Ai amorzinho, não liga para esse chato, não.

-Sua filha, senhor, estará aqui em alguns instantes. E não está nada feliz.

-Ai meu Saco Real, não se tem um minuto de paz neste reino? Não basta vencer os ingleses, os prussianos, ou a raça que seja. Esse inimigo interno ainda acaba comigo.

E olhem que o Rei nem estava pensando em seu problema de impotência, que só era resolvido a muito custo, sempre com a ajuda das prestativas donzelas da corte.

-Vamos querida, mova-se! Dê o fora, minha filha está chegando. Não queremos mais um escândalo nesta dinastia.

Contrariada, a cortesã saiu acompanhada pelo Camareiro Real. Ainda arrumava o vestido quando esbarrou na princesa, que vinha bufando pelos corredores.

-Sua cega, curve-se diante da futura rainha.

A família, do pai aos netos, era absorvida pela obsessão de representar Deus na Terra. Era o próprio Estado, o astro-rei e seus planetas. Com a menininha mais nova não seria diferente, sua arrogância era intragável.

Entrou nos Aposentos Reais com estrondo. Esbaforido, ofegante, o rei Luís recompunha-se em seu leito que, pela quantidade de franjas e babados, mais parecia um carro alegórico.

-Eu não me caso com aquele monstro. Não adianta insistir. Pai, eu não vou.

-Calma, minha filha. Você sabe da importância dessa união. Com o domínio das rotas das caravanas superaremos os genoveses e os venezianos. Tiraremos este reino do buraco de uma vez por todas.

-Às custas do meu buraquinho? Nem pensar. Eu me recuso a ser mais uma. Você sabia que eu serei a ducentésima trigésima quarta mulher do Sultão… Além do que, aquele homem fede a camelo. Pai, eu não vou e pronto!

A filha-furação partiu batendo a porta, convicta em sua birra. Como toda boa mimada, chatear o pai era o seu passatempo predileto.

No jantar, o clima era pesado. A umidade das pedras do castelo e o frio que vinha do exterior deixavam a todos doentes. A tuberculose já matara grande parcela da Família Real.

As condições de higiene também não eram das melhores. Excrementos humanos, restos alimentares e ratazanas eram comuns pelos pátios e arredores. O que colaborava ainda mais com a queda da população.

A salvação do reino passava pela união das coroas. A Cristandade Ocidental unida ao avançado Império Islã seria o pilar de sustentação. A sofisticação árabe era impressionante perto da decadência medieval europeia.

Em seu suntuoso palácio, o Sultão e suas duzentas e trinte e três mulheres desfrutavam de todo o luxo e conforto. Mobiliário de primeira qualidade, detalhes arquitetônicos maravilhosamente trabalhados, jardins babilônicos, tudo em perfeita harmonia.

O calor do deserto era compensado por um moderno sistema hidráulico. A água vinha do degelo das altas montanhas, quase uma centena de quilômetros dali. Tudo subterrâneo.

Era toda essa riqueza, todo esse luxo e principalmente o controle de importantes rotas comerciais que estavam em jogo na pretensa união entre diferentes civilizações.

No aconchego de suas almofadas e tapetes, abanado por eunucos e servido por odaliscas, o Sultão sonhava com sua amada. A fixação pela princesa era um delírio que o atormentava há tempos. Desde a sua viagem às terras distantes dos infiéis, quando ainda era um jovem príncipe de apenas oitenta e seis mulheres.

O que mais o enlouquecia era a impossibilidade de comprar a pretendente. Fazer a corte era muito fácil para o Sultão. A mulher que o agradava era comprada com riquezas maiores ou menores que seu peso em ouro, dependendo das qualidades da moça e da lábia do pai.

A pechincha era um hábito nacional. Mas as negociações com a princesa, com seu pai, o Rei Luís, estavam indo além da conta. Já oferecera os maiores presentes, os melhores mimos.

Oferecera acordos diplomáticos, comerciais, militares. Praticamente abriria as portas de importante reinado e suas infinitas riquezas em troca daquela xoxota. Mas a moça estava irredutível.

-Não vou, não quero, não aceito e pronto! Vocês estão malucos. Já visitaram aquele fim de mundo? São todos uns loucos. E as mulheres ? Que opressão! Um dromedário tem mais valor que uma mulher.

Bradava a menina bonita.

-Ao menos os dromedários não falam de boca cheia, não comem muito, nem bebem todo dia.

-Luís!

Advertiu a Rainha.

-Com que dinheiro as madames acham que eu posso sustentar os luxos das mancebas? Sabem quanto me custou essas pedrinhas adocicadas que vocês se fartam a ingerir? Quantas vidas humanas desperdiçamos em combate para garantir a chegada das iguarias que vos engordam diariamente?

-Com o meu corpinho é que não vai ser. Eu morro, mas não vou.

O jantar fazia parte do cerimonial oficial da visita diplomática do Grão-Vizir, enviado especial do Sultão para pedir-lhes a mão de encantadora figura feminina em casamento.

Também celebrariam ali importantes acordos bilaterais, que significavam os primeiros passos para a integração militar e econômica de ambos os reinos. O que garantiria a tranquilidade, e um fim de reinado feliz para o nosso cansado Luís.

O tradutor da missão, envergonhado, tentava diminuir o peso da discussão pública, travada à mesa. Mas a comitiva trazia as mais finas e requintadas elites do Sultanato. E rapidamente a versão completa dos diálogos era disseminada de orelha em orelha.

Chocada, ofendida, a comitiva ameaçou levantar-se e retirar-se do evento. A princesa, em crise de fúria, completou a gafe internacional, destruindo a golpes vigorosos, a tiara com que fora presenteada.

Deixava de existir uma joia sagrada da dinastia árabe que atravessara gerações e gerações no seio da Família Real. Lógico, nenhum acordo foi celebrado naquela noite, nem nos próximos séculos que estariam por vir.

Na manhã seguinte, a caravana preparava seu regresso, sem a resposta tanto esperada pelo Sultão. Aconselhado por seus estrategistas, o Rei Luís mandou preparar o presente mais extraordinário possível.

Foram oferecidos, como pedidos de desculpas frente à impossibilidade de união entre os amantes, dois grandes relógios que os maiores ourives da cristandade começariam a construir imediatamente, por encomenda especial.

A modernidade mecânica dava o controle do tempo. Seu móvel, em madeira nobre, alongava-se por metro e meio. Esta caixa retangular abrigava um pesado pêndulo, no mais puro ouro. Um mostrador redondo, logo acima do pêndulo, escondia o coração da obra.

O maquinário que movia os ponteiros era a coisa mais futurista que poderia se imaginar em sua época. Os rubis pertencentes à joia destruída pela princesa agragavam-se às engrenagens.

Tratava-se, de certa forma, de uma homenagem à preciosidade maculada. Os relógios foram aceitos. O Sultão tornou-se um homem triste, melancólico, a observar as engenhocas.

Um atrasava sempre; o outro adiantava. No fim de sua vida, pediu que fosse enterrado junto aos relógios. Contava os minutos em que Alá iria uni-lo à sua amada em paraíso celestial.

Para os que pensam que esta história é mentirosa, fruto de fértil imaginação, advirto para o fato de que os relógios podem ser encontrados, ao lado do túmulo do Sultão, em algum lugar do Norte da África.

Afirmo com a certeza de quem viu com os olhos que esta terra ainda há de comer, e quero ficar cego se estiver mentindo.

CHACO – CONTOS DE MARCELO AITH

CHACO

 

Era um dia extremamente quente e abafado. Abriu os olhos, ficou imóvel, ouvindo o som agonizante daquele maldito ventilador de teto de aparência centenária.

-Isso porque estamos em julho.

Falou para si mesmo, já se levantando em direção ao banheiro da espelunca em que estava hospedado. Era pleno inverno segundo o calendário para o hemisfério Sul, mas naquela região o calor persistia o ano todo.

Anselmo instalara-se, pela madrugada, num pequeno hotel de terceira categoria, na localidade de Quijarro, próximo a Corumbá, no lado boliviano da fronteira com o Mato Grosso do Sul.

Durante o banho pensou no absurdo em que consistia o posto fronteiriço não funcionar à noite, teria que voltar à fronteira para carimbar o visto de entrada em seu passaporte e seguir viagem.

-Com um controle desses não é estranho haver tanto tráfico de drogas por aqui, definitivamente não estou entrando num país sério.

Concluiu.

Vendera seu automóvel e viajara até a Bolívia, onde compraria o valor do veículo em cocaína num bar próximo à pensão em que se hospedara. Pretendia, depois, revendê-la em São Paulo.

Precisava do dinheiro para saldar o financiamento de seu apartamento, um dos poucos bens; além de esposa e filha; que conseguira adquirir em seus trinta e nove anos de existência.

Pela manhã, após árdua negociata com um taxista local, fechou o preço da corrida que o levaria de volta à fronteira para receber o maldito visto.

No dia seguinte, iria ao aeroporto de Puerto Soares, de onde sairia seu voo para Santa Cruz de La Sierra. Para disfarçar a real intenção de sua viagem, a compra da droga, pensava em ir até Cusco, no Peru.

Faria a famosa caminhada para Machu-Pichu pela trilha aberta nos Andes durante o Império Inca, tal como milhares de turistas a faziam durante todo o ano, em especial naqueles meses de férias.

Cumprida as obrigações burocráticas internacionais para que pudesse prosseguir sua rota, resolveu passear pelas poucas ruas de terra que circundavam a estação ferroviária.

Quijarro era um pequeno bairro de Puerto Soares, de onde saiam os trens que atravessavam a Bolívia em direção a Santa Cruz de La Sierra.

-Santa Cruz por avião; Cochabamba, La Paz e Copacabana por terra; entro no Peru por Puno, atravessando o Titicaca e de trem chego a Cusco.

Repassou mentalmente o roteiro enquanto andava.

Adorava pensar que finalmente iria conhecer algo que fosse o maior do mundo. Divisa natural entre Bolívia e Peru, o Titicaca, cravado no meio dos Andes, é o lago situado em maior altitude no planeta.

Nunca fora ao Rio de Janeiro, nunca vira o Cristo Redentor (o maior d’Eles), não cria em deuses.

-O sistema ferroviário boliviano é péssimo e o que são vinte dólares a mais numa passagem para uma economia de onze horas de viagem.

Pensou, tentando justificar o gasto de sua opção pela via aérea até Santa Cruz.

Neste trecho da viagem enfrentaria a planície do Chaco, muito parecida com a planície do Pantanal mato-grossense, já percorrida por ônibus entre Campo Grande e Corumbá. A viagem começava a demonstrar-se por demais cansativa.

Durante o almoço comeu o principal prato da região: pollo, papas fritas, plátano e salada. Tudo isso por três bolivianos e cinquenta centavos. Menos de um dólar.

O almoço representava bem o estado de miséria em que a população boliviana se encontrava, pela cotação local um dólar valia quatro bolivianos e sessenta e cinco centavos.

Esperava ansiosamente encontrar deliciosas salteñas, tinha por hábito experimentar a tradição culinária da região em que passava.

-Puta que o pariu!

Exclamou Anselmo.

-Enquanto a gente discute a desestatização e o neoliberalismo os caras aqui têm uma estatal que fabrica cerveja.

Pensou ao ler o rótulo da garrafa. Nele estava escrito: Companhia Nacional Boliviana. Estava tomando uma Paceña.

Era considerado um alcoólatra inveterado pelos amigos, todos beberrões. Sua vida social dava-se quase toda dentro de bares. Gastava a maior parte de seu tempo livre e de seu dinheiro neles.

Conhecera sua mulher em um, e levava sempre consigo a filha, pois preferia beber o salário de uma babá a ter que pagar a alguém para olhar a criança.

Durante a tarde percebeu o quanto era ridícula a sua tentativa de comunicação com os bolivianos da fronteira, expressava-se via uma mistura de Português e Espanhol, o vulgo portunhol.

-Um copito gelado, por favor.

Insistia com o garçom.

Seu “modus operandis” consistia em diminuir a palavra originária do Português pela adição do sufixo “-ito”. Deveria ter pedido um “baso frio”, mas isso nunca viria a saber. O garçom sadicamente fingia não entender as reais intenções de Anselmo, sempre a dizer que não o compreendia.

Viu-se obrigado a interpretar uma ridícula mímica do que seria um “copito gelado” para ter seu capricho atendido por aquele índio fedorento, morador daquele cu de mundo e que com certeza compreendia muito bem o Português, estavam a dez minutos da fronteira.

Terminado o almoço e após a primeira dezena de cerveja, já sob o efeito da embriagues, resolveu ir ao bar onde, segundo um conhecido, encontraria a pessoa com quem faria o contato para a compra da droga.

No caminho, ficou impressionado com o fato de em um bairro tão pequeno haver tantos cabeleireiros. E como em todos eles haviam recortes de velhas revistas femininas, já amareladas pelo tempo, de modelos e atrizes expondo os mais variados tipos de cortes de cabelos possíveis imagináveis.

Todos num estilo hollywoodiano que nunca serviriam nas cabeças índias das mulheres de lá. Sempre acompanhava às vitrines, um letreiro que dizia “Pelucaria”, o que lhe causou fartas gargalhadas interiores.

Chegando ao local da negociata investiu, cambaleante, recinto adentro. Talvez seus passos vacilantes tenham determinado o rumo que sua vida começaria tomar.

-The bolivian way of life.

Disse, enrolando a língua, com o cérebro encharcado em álcool.

A pocilga em que entrara não se diferenciava em nada aos demais estabelecimentos comerciais bolivianos em que estivera até então. O aparelho de som sintonizava uma rádio brasileira do Mato Grosso que transmitia seu sinal em ondas curtas.

-Até que enfim escuto o velho e bom português. Não aguentava mais ouvir esse sotaque irritante.

Completou ébrio.

Não suportava mais o dialeto boliviano, como viajava só e não havia com quem conversar em sua língua nativa, Anselmo tentava falar o mínimo possível.

A negociação da compra era uma das partes mais tensas da viagem e a confusão das ideias era bem acentuada pelo alto volume de álcool ingerido.

O rádio tocava uma triste canção de amor, interpretada por nada a mais nem nada a menos que a voz de Elizeth Cardoso. Tal música trouxe a tona reminiscências do seu passado, de quando morou no Norte do Paraná, num período que foi do seu nascimento até a pré-adolescência.

Naquele tempo, costumava sentar-se junto ao pai na varanda frontal da casa em que moravam, a escutar rádio, no início da noite após o jantar. O pai pitava com alguns amigos da vizinhança.

Foi nesses encontros de fim de dia que Anselmo tomara gosto pelo álcool, especialmente pela cachaça, bebida que sempre se fizera presente nas discussões dos adultos.

Voltou à memória sensações familiares, bem próximas à realidade. No calor irradiado por terra vermelha, ao final de cada tarde, podia-se notar o odor característico das pequenas cidades de economia agrícola. Uma mistura de barro, esterco, adubo e demais insumos.

Cada vez mais melancólico, iam lhe passando as mais remotas sensações. E como tudo parecia ser tão real. Podia senti-las, uma a uma, todas as fases que marcaram sua infância.

Lembrou-se do dia da morte do pai. Tal fato fez com que saísse de seu devaneio e voltasse à realidade. Observou calmamente as mesas ao lado, com a intenção de perceber se haviam notado seu transe mental e também procurando o seu “contato” para encomendar a cocaína.

-Os bolivianos são como os japoneses, todos se parecem uns com os outros, são literalmente todos iguais.

Pensou.

Os frequentadores do bar estiveram a observar Anselmo, desde o momento em que pisara no recinto e agora não conseguiam disfarçar a curiosidade de seus olhares frente àquele forasteiro.

-Que passas?

Indagou um primeiro.

-Estou a procurar por Pedro Vivas.

Respondeu Anselmo.

-Venho por indicação do Wandeco da Joaniza, de São Paulo, Brasil.

Acrescentou.

-Ah! Wandeco, de San Pablo, si, si, me recuerdo mui bien de su amigo. Wandeco de San Pablo. Grande amigo de Vivas tambien. Uste és amigo de Wandeco?

Questionou o índio.

-Sim, eu venho a mando dele; precisava muito falar com este seu amigo Vivas. Tenho negócios a tratar com ele. Você poderia chamá-lo, por favor?

-Si, si. Vivas ficará mui contente em saber que alguém de Wandeco veio lhe procurar. Tome uma cerveza mais enquanto eu trato de avisar Vivas que uste o aguarda.

Wandeco havia comprado um carregamento de cocaína com Vivas e pago metade em dólares falsos, a outra metade da dívida seria paga após a venda da mercadoria em São Paulo, depositando o dinheiro numa certa conta bancária de alguém de confiança de Vivas.

Pensava que mandando Anselmo para lá saciaria a sede de vingança do traficante com o sangue do companheiro, evitando assim que o boliviano pudesse mandar ao Brasil algum capanga para matá-lo.

Para Wandeco, Anselmo era apenas mais um usuário viciado, uma simples peça no jogo do narcotráfico. Além do sangue, havia o dinheiro a ser roubado do cadáver inerte, o que segundo Wandeco seria o suficiente para saciar a sede de Vivas.

Enquanto aguardava a chegada de Vivas, Anselmo voltou aos seus devaneios. Lembrou-se de uma história que certa vez ouvira, não lembrava muito bem quando, nem onde, nem ao menos quem a contara.

O mote da conversa era sobre a memória. Sobre quando temos aquele sentimento próximo ao real, de um fato que marcou nosso passado. Tal qual acontecera com si próprio há poucos minutos atrás, ao lembrar-se de sua infância.

-A explicação é a seguinte.

Raciocinava Anselmo.

-A química do cérebro, isto é, a concentração dos elementos químicos em nossas cabeças determina os nossos sentimentos. Euforia, depressão, ira, alegria. A memória é capaz de recriar as mesmas concentrações químicas no cérebro ao enfrentarmos fatos semelhantes. Daí, a sensação de já termos vividos aquela experiência.

Tais confusos pensamentos talvez sejam as últimas coisas a passarem pela cabeça de Anselmo. Claro, se não levarmos em conta o projétil disparado pela arma do próprio Pedro Vivas, que atravessou o crânio do pobre infeliz.

Published in: on 23 de março de 2012 at 16:55  Deixe um comentário  
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ANIMAIS – CONTOS DE MARCELO AITH

ANIMAIS

 

Os Estados Unidos da América rejeitam o Tratado de Kioto. O mundo industrializado não consegue disciplinar-se frente ao problema da poluição ambiental. A civilização gladia-se durante o encontro dos países mais ricos do planeta. Enquanto isso, nas savanas africanas….

O processo de desertificação avança. O Saara cresce a cada dia, atingindo antigas áreas férteis do continente africano. A água rareia, tornando-se elemento vital na sobrevivência das espécies.

Em volta dos últimos reservatórios, a luta pela vida aflora em atos grandiosos. Famintos leões, dois jovens irmãos para dizer bem a verdade, se aproximam do território irrigado.

Inúmeras espécies herbívoras coexistem em certa pacificidade. Aves, roedores, répteis, flora e fauna refugiam-se em busca das últimas gotas a serem sorvidas do solo.

A concentração das espécies garante a fartura de indivíduos apetitosos para nossos grandes felinos esfomeados. A primeira presa que nossos irmãos avistam:

-Gazelas!

Tudo em perfeita ordem, gazelas. Grande pedida. Suculentos, esses saltitantes bichinhos dariam uma ótima refeição. A correria começa.

As gazelas pressentem o cheiro dos jovens leões. Louca disparada em meio aos arbustos e árvores de troncos retorcidos. Os leões partem atrás, mas com certa desvantagem de largada.

As gazelas correm em direção ao local onde uma manada de búfalos pasta. Os machos mais velhos não parecem nada dispostos a conviver com novos visitantes carnívoros, mesmo não sendo eles o prato do dia.

Sabem que seus filhotes podem bem ser a sobremesa. Em ordem de tamanho dos cornos, investem contra os felinos, que são forçados a desistir de comer, ao menos naquele dia.

O sol esquenta e os jovens irmãos retiram-se para um descanso à sombra. Na margem da represa, rinocerontes tomam seu banho de lama.

Animal único, sua pele é uma verdadeira couraça. Suas semelhanças nos levam a pensar nos tempos dos dinossauros, ou quem sabe na invasão de tropas blindadas alemãs.

Um grande elefante passeia próximo. Este sim é o rei da selva. Impõe sua vontade frente a todos os demais habitantes daquele ecossistema. Seu tamanho e força monstruosa garantem a supremacia.

Resolve, então, chatear os filhotes dos rinocerontes. Com sua tromba sopra-lhes os traseiros, passa-lhes rasteiras. Não os deixa em pé. Até que os indivíduos adultos resolvem intervir.

São seis deles, realmente nervosos, dispostos a acabar com aquela brincadeira de pouca graça. Espumam de raiva. Quase cegas, muito míopes, as bestas atacam sistematicamente, todas ao mesmo tempo.

Seus cornos afiados e pontiagudos não dão descanso ao paquiderme. Logo podemos ver abertas vermelhas feridas sob a grossa epiderme.

Duelo de titãs, a força numérica supera as diferenças de potência. O elefante é obrigado a recuar. A realeza é deposta por um dia. Todo déspota tem o seu dia de Maria Antonieta.

Enfurecido, desconta sua ira nas árvores, quebrando-lhes os galhos, arrancando-lhes as copas. A noite cai.

Manhã seguinte, os leões preparam-se para a caça. A fome aumenta, e já não podem errar o bote. O gasto de energia não é pouco, cada tentativa frustrada significa menos força para novas arrancadas.

A diferença entre a vida e a morte. O dia da caça e o dia do caçador. Os leões sabem disso. Para disfarçar-lhes o cheiro que tanto pavor inspira, chafurdam em merda. Excrementos de elefantes, excrementos de búfalos.

Assim poderão se aproximar mais das vítimas, sem serem notados. E logo descobrem um grupo de javalis. Os porcos selvagens correm, mas as garras do predador não perdoam.

Um leitão é atingido, o golpe acerta-lhe o lombo. Sai de rabeira, guinchando. O leão derrapa sobre as pernas, em curva fechada. A manobra é de levantar poeira.

Mais dois pulos, e o golpe certeiro. Um abraço de morte. A presa não tem como fugir. As pesadas patas arrebentam-lhe as costelas. As afiadas unhas abrem-lhe sulcos paralelos.

É abocanhada. Guincha como nunca. Seus pés já não tocam mais o chão. O segundo leão se aproxima, examina o apanhado pelo irmão. O javali estremece.

Uns últimos solavancos são empreendidos pela cabeçorra do carnívoro. O corpo cai inerte, ao solo. Parece que finalmente farão a tão sonhada refeição. Do jeito que se encontra, o leitão não irá muito longe.

Mas o cheiro de sangue alerta o elefante. Ele avança sobre as feras. A visão da morte, o cadáver e o cheiro do combate enlouquecem o gigante. Abre suas orelhas, sacode-as com violência.

Suas presas são ameaçadoras. A força da pisada estremece o chão. A tromba apontada para frente busca atingir os felinos, que mais uma vez são obrigados a abandonar o prato às vésperas de saboreá-lo.

Logo os rinocerontes se aproximam, formando um esquadrão de defesa. Os cascudos assumem uma formação tripla, de sorte que por qualquer flanco haverá sempre um afiado chifre à espera dos assassinos.

A carcaça do animal morto está protegida. O elefante joga bocados de terra sobre o corpo. Parece que um sentimento de repúdio toma conta dos herbívoros.

O elefante deixa clara sua posição de realeza. O magistrado renega a infâmia.

Com o cair da noite, os irmãos decidem reaver o que lhes é de direito. Querem a sua conquista. E estão dispostos a tudo. Partem para o enfrentamento.

Enquanto um deles atrai os guardiões, o outro trata de roubar-lhes o protegido. E mais uma vez o ciclo da vida se completa. Da fotossíntese à decomposição, a cadeia alimentar se completa.

Published in: on 22 de março de 2012 at 10:44  Deixe um comentário  
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O SANTO INQUÉRITO – CONTOS DE MARCELO AITH

O SANTO INQUÉRITO

Dantas entrou em casa, como de costume, duas vezes. Sempre deixava para fora, presas à fechadura, suas chaves. Acendeu a luz da sala recriminando-se pelo mau hábito. Livrou-se rapidamente das roupas, que foram caindo uma a uma, formando um rastro de sapatos, meias, calça, camisa e cueca. Subiu, nu, as escadas em direção ao banheiro. No andar superior, lembrou-se que além do banho precisava de uma dose dupla de alguma bebida quente para relaxar naquela noite.

O detetive Dantas, após meses de investigação e horas de tocaia na mata fria, finalmente conseguira pôr as mãos em Wandeco, famoso traficante de cocaína da zona Sul da capital. As últimas trinta e seis horas da vida do policial passaram-se nas redondezas de uma chácara no Embu, região da grande São Paulo, onde a quadrilha de Wandeco refinava a pasta vinda da Bolívia, acrescida dos mais diversos tipos de pó branco, transformando-a na lucrativa mistura que iriam comercializar pelas ruas.

Loco cedo, despertou. Parecia prever os acontecimentos. A partir daquela manhã, começaria a estudar o caso que viria a ser o mais peculiar de toda a sua carreira na corporação. Sobre sua mesa, no distrito policial, estava a pasta do que seria chamado de “O Santo Inquérito”. O novo desafio do investigador era descobrir os responsáveis pelos desaparecimentos de religiosas ocorridos nas últimas semanas.

Pela terceira vez, em menos de quinze dias, chegava ao Departamento de Investigações Especiais a queixa pela falta de uma colega de convento. As madres pareciam sair do claustro para liberdade e nunca mais voltarem. Madre Helena acabara de se somar às madres Amélia e Alberta, ambas desaparecidas no dia oito do corrente mês. As três eram estudantes de Teologia na Pontifícia Universidade Católica. Haviam saído de seus respectivos conventos para irem assistir às aulas, como rotineiramente faziam, e não retornavam. Madre Amélia e madre Alberta cursavam o quarto ano, enquanto madre Helena debutava na vida acadêmica, era primeiranista.

-Será que as freiras veteranas aplicam trotes nas freiras calouras?

Perguntou o detetive Renato, que já estava a par dos documentos pacientemente analisados pelos olhos do colega.

-Não enche o saco!

Respondeu Dantas.

-A gente mal tem tempo de descansar e, ainda por cima, tem que conviver com este ambiente insalubre de trabalho.

Disse Renato, ao vislumbrar uma barata, que passava de sua sala para o corredor, em direção à sala do delegado Mendonça.

-Será que nunca vão dedetizar esta merda de departamento e eliminar esses vermes que circulam livremente?

-Pelo jeito que a sujeira anda crescendo por aqui, é capaz de um dia haver tanto bicho que vamos ser tocados para fora.

-As baratas andam cada vez mais gordas e saudáveis. Vou ver o dia em que teremos que pedir reforço policial para chegarmos às nossas mesas.

Filosofavam Dantas e Renato.

A mal encarada face do delegado Mendonça projetou-se para dentro da sala onde os detetives papeavam.

-Acabou a moleza bonecas. Parabéns pelo bom serviço, mas agora eu quero ver todo mundo trabalhando. Levantem essas bundas gordas da cadeira e vamos para a rua, que é o lugar de onde vocês nunca deveriam ter saído.

Disse, jogando sobre a mesa os jornais do dia, que traziam estampados na primeira página o grande feito de nossos heróis.

-Eu sempre dizia para a minha mãe que um dia ela teria orgulho do filho. Olha aí cara, estamos na primeira página dos jornais!

-Renato, nós só estamos na primeira página por causa da fama do Wandeco. Quantos outros traficantes nós não prendemos? Nós não somos nada, entenda isso de uma vez por todas. Nós apenas controlamos a escória que a sociedade cria.

Respondeu o detetive otimista.

-Você e o Mendonça se merecem. Espero que vocês trabalhem nesse buraco até o fim de suas vidas.

-Quem mandou a moçoila não estudar, como a mamãe queria. Hoje, você poderia ser doutor em medicina, quem sabe até engenheiro.

-Agora calem a boca crianças. Quero ver os relatórios desse caso em cima da minha mesa até o final da semana. A coisa é séria. O Vaticano está segurando a imprensa, temos que mostrar resultados rápidos. Movam-se!

Bradou o delegado.

Dantas coçou a barba, Renato alisou a careca, levantaram-se. Um colocou os óculos escuros, o outro vestiu um casaco de couro. Desceram para o pátio do estacionamento da delegacia, onde a viatura os aguardava. O primeiro passo era examinar os caminhos feitos pelas madres nos dias de seus respectivos sumiços.

Lá estava ela, Vitória. Esse era o carinhoso nome com que o pessoal da delegacia batizara a viatura preta das missões especiais. O Opala tinha várias marcas de remendo em sua lataria, os furos provocados por disparos contra o carro podiam ser vistos por todos os lados. O farol direito, quebrado na última ação, ainda não estava arrumado. O cano de descarga produzia um estridente ruído, enquanto emitia uma fumaça escura. Os pneus blindados estavam levemente carecas. A suspensão reforçada e o motor de grande cilindrada garantiam agilidade ao veículo em eventuais perseguições. O adesivo com o brasão do Estado no vidro frontal denunciava a origem do veículo.

Renato montou no lado do motorista, Dantas foi de copiloto.

-O tanque está cheio. Para onde vamos?

Perguntou Renato, engatando a primeira marcha.

-Deixe-me ver nos autos.

Respondeu o colega.

Dantas abriu a pasta do inquérito policial sobre as pernas. Madre Alberta fora a primeira a desaparecer. Sumira no dia oito, pela manhã. Não foi a aula neste dia, é o que mostrava o diário de classe do professor Marcos. Os depoimentos das colegas também confirmavam a informação. Ninguém viu Alberta naquele dia.

-A primeira a sumir saiu acompanhada do convento, às seis e meia da manhã. Tomou o metrô em Santana. Saltou na Sé, onde se separou das amigas, que seguiram no ramal Norte-Sul. Pegou o ramal Leste-Oeste, em direção à Barra Funda. Normalmente, pegaria um ônibus que subiria a Cardoso de Almeida até a PUC, mas nesse dia não concluiu o trajeto.

Disse ele.

-Então ela tem que ter sumido entre as estações Sé e Barra Funda, ou entre o metrô e a PUC, já na superfície. Vamos refazer o trajeto dos ônibus que sobem a Cardoso.

Respondeu Renato.

Pegaram a avenida São João. O caso era misterioso. Madre Alberta desaparecera entre sete e oito horas. Não havia relato de anormalidades nos trens durante aquele horário. Nada ocorrera, segundo os relatórios da segurança. A vigésima terceira delegacia também não recebera nenhuma ocorrência na tranquila manhã do dia oito.

Madre Amélia estudava no período noturno. Seu sumiço fora notado também no dia oito. Mas diferente da primeira, desaparecera na volta para casa. Sua presença estava confirmada nos diários dos professores, e as colegas concordavam em gênero, número e grau com as anotações dos mestres. Também havia sido acompanhada até um determinado trecho. Nada de anormal acontecera. Simplesmente evaporara no ar.

Já madre Helena, a primeiranista, sumira no dia vinte. O professor daquele dia não costumava fazer a chamada dos alunos. Nada tinha registrado em seus diários. Não tinha esse tipo de preocupação.

-Interessa-me apenas o desempenho acadêmico do aluno.

Justificava-se.

As coleguinhas de classe ainda não se conheciam muito bem. Algumas diziam ter visto Helena, outras alternavam a opinião de depoimento para depoimento, entre tantas que negavam veementemente a presença da aluna.

-Todas sumiram no meio do caminho, entre a faculdade e os seus respectivos conventos, certo?

-Certo.

Confirmou Dantas.

-Cada qual se utilizava de um transporte coletivo diferente, certo?

-Certo.

-Ninguém viu nada acontecendo, certo?

-Isso mesmo. Não estamos chegando em lugar algum. Sumiram em horários diferentes, moravam em conventos diferentes e, portanto, faziam caminhos diferentes. Não temos suspeitos, nem possíveis motivos, certo?

-Certo.

-E por que você não vai perguntar ao Bispo o que poderia ter acontecido com as meninas?

-Olha aqui Dantas, eu estou cansado de ouvir suas malcriações. Esse seu senso de humor um dia vai lhe matar. Alguém mais nervoso que eu ainda lhe enfia um balaço no meio da fuça.

Alertou Renato.

-Está para nascer o homem que vai ter peito para isso, Renato.

-Falou o homem de aço.

Ironizou o colega.

A viatura parou no sinal vermelho. Rapidamente uma legião de meninos de rua avançou sobre os carros parados.

-Esses não. Esses são polícia, esses não prestam.

Advertiu o menino maior.

O grupo passou entre as fileiras de autos que aguardavam a abertura do farol, fazendo a coleta das doações. Ao lado de Dantas, uma mulher guiava uma Mercedes vermelha, último modelo, de vidros fechados e ar condicionado ligado. A sirigaita parecia indiferente à cidade.

-Ou a burguesia brasileira é almoçada pelo capital internacional, ou é jantada pelo proletariado nativo.

Observou Dantas.

-Deixe de sociologismo barato. Você deveria é se preocupar com o nosso prestígio frente à população. Nem as crianças nos respeitam.

Acrescentou Renato.

O sinal abriu. Renato disparou. Foi quando a foto de madre Helena caiu da pasta. Dantas esticou o braço e apanhou-a. Uma pinta surgia, um pouco acima da linha dos lábios, uns dois ou três centímetros para a direita, próximo ao local onde surgiriam as covinhas da bochecha se as tivesse. O rosto era ovalado, o queixo fino. Finas também eram as sobrancelhas, que se encontravam num pequeno nariz.

Seus olhos eram levemente estrábicos, de um verde água quase transparente. As orelhas eram de delicadas proporções. Os cabelos loiros caiam sobre os ombros. Seu sorriso sedutor encantaria a qualquer mortal. Os pequenos seios desafiavam as leis da gravidade, firmes, sempre empinados, apontando para o céu. Eram a promessa de Paraíso na Terra. O detetive estava embriagado pela beleza mais que angelical da religiosa. Helena estava mais para uma tentadora diabinha do que para uma imaculada beata.

-Quem poderia ter feito mal a uma criatura tão bela como essa?

Mostrou a foto ao colega que dirigia.

-Ela é realmente linda. Que desperdício de mulher, que bobagem manter casto um monumento desses. Quantos anos tinha a pequena?

-Por que “tinha”, Renato? Quem falou que a coitada está morta. Olha só, a menina deve ser virgem e eu chamando-a de coitada. Nunca deve ter tido os prazeres do coito. Ela tem apenas vinte aninhos.

-Madre Alberta e madre Amélia já passaram dos cinquenta pelo que li nos autos. Quem sabe você também não tem dó das vovós e faz um favor para todos nós, iniciando-as na arte do sexo?

-Como você é escroto, Renato.

-Ter dó só da bonitinha não vale. Para salvar a princesa tem que encarar o dragão.

Gargalharam.

Perderam o dia reconstruindo os prováveis caminhos seguidos pelas desaparecidas em seus últimos dias. Nada que pudesse esclarecer o caso foi encontrado. Os trajetos eram todos de grande circulação de pessoas. Não havia um beco escuro, um terreno baldio, nenhum ponto onde alguém pudesse se esconder e surpreender as moças.

Perguntas atormentavam a cabeça de Dantas, logo que a deitou no travesseiro. O que acontecera com as freiras? Onde elas poderiam estar? Teriam cansado da vida espiritual? Nada das respostas aparecerem. Perdeu o sono. Definitivamente não conseguiria dormir. Levantou-se, calçou os chinelos e foi ao banheiro.

A ducha fria, somada ao bule de café que fervia sobre o fogão, seria o combustível para a noite. Na mesa da sala, pilhas de papéis desordenados guardavam as respostas procuradas. Na parede, o relógio marcava onze horas e quarenta minutos. O detetive acendeu o primeiro cigarro, encheu a xícara com o café recém-passado e sentou-se frente aos documentos que deveriam conter alguma pista que norteasse as investigações.

Leu, releu, examinou, reexaminou. As horas passavam, a noite avançava. Nenhuma pista, nada que pudesse ajudar. A garrafa térmica esvaziou-se, e o cinzeiro cada vez mais lotado. Até que um pequeno detalhe foi notado. Havia um nome, era o único nome que se repetia na lista de presença das três religiosas. Apesar de estudarem em turmas diferentes, havia um sujeito, um tal Alcides Monteiro dos Santos, que estava matriculado simultaneamente nas três classes. Seu nome era o único a aparecer nas três listas de chamada. Tinha que ser isto, só poderia ser isto.

Uma excitação percorreu o corpo do policial. Seu faro investigador não o enganaria, não naquele momento. Não enxergava outra alternativa, era ele. Alcides, esse era o nome a ser investigado. O único elo que unia os desaparecimentos. Correu para o telefone. Ligou para o colega que dormia tranquilamente em seu lar.

A campainha tocou uma, duas, três, quatro, cinco vezes até que uma voz assustada respondeu.

-Alô!

-Alô, Renato? Aqui é o Dantas. Você estava dormindo?

-Dantas! Você está maluco? Você sabe que horas são? Isso lá é hora de ligar para a casa dos outros! É claro que eu estava dormindo.

A mulher de Renato acordou.

-O que foi amor? Aconteceu alguma coisa?

-Não benzinho. É só o palhaço do Dantas. Pode voltar a dormir, eu vou atender lá na sala.

Passava das quatro da manhã.

-Muito bem, doutor Dantas. É bom ter um motivo muito grande para você ter me ligado. Alguém de sua família morreu?

-Antes fosse. Escute Renato, a coisa é séria. Eu já sei quem pode estar envolvido em tudo. Tem um tal Alcides Monteiro dos Santos, ele era colega de sala das três desaparecidas. Ele é o único nome a aparecer nas três listas de presença. Tem que ser esse o nosso homem!

-Você enlouqueceu de vez. Você está se drogando de novo, Dantas? Por que você não está dormindo, como toda pessoa normal? Você já viu que horas são? Sabia que aqui tem crianças dormindo! Você quase acordou a Sônia. Vê se volta para a cama, oh infeliz. Amanhã a gente conversa.

Desligou o aparelho.

Nenhum dos dois voltou a dormir. O sol clareou. Bem cedo, lá estavam eles na delegacia.

-Bom dia, Dantas. Você está com uma cara péssima. O que houve?

-Renato, eu passei a noite em claro, estudando o caso. Entornei dois litros de café, e maço e maio de cigarro. Estou me sentindo um cinzeiro.

-Isto que é amor! Você está realmente apaixonado. Fazendo hora extra em casa. Quem diria, o doutor revoltado trabalhando fora do horário. E por esse salariozinho de merda. Não era esse o seu discurso?

-Porra, Renato! Eu tô falando sério. A coisa esquentou. Acho que estou na pista certa. Nosso homem se chama Alcides Monteiro dos Santos. Tem que ser ele. É o único matriculado nas três turmas das desaparecidas.

-Então, é melhor a gente partir logo para a casa deste homem. Antes que o Mendonça nos encontre. Depois de acordar com o seu telefonema, ia ser demais aturar o delegado. É muito para uma manhã só.

Resignou-se.

-Levantei todas as informações sobre esse tal Alcides. Ele tem cinquenta e quatro anos, é formado em psicologia. Recentemente se aposentou e começou a cursar teologia. Seus pais morreram na infância, foi criado por um orfanato da Igreja. Agora mora no Pacaembu. Dos irmãos que teve, parece que foi o único que conseguiu vingar. Os demais parece que morreram, ou tiveram um fim na miséria absoluta e na mendicância. Nunca mais os viu. Não se casou. Foi só na vida.

-Espero que você esteja certo na sua suspeita. O infeliz já teve problemas suficientes para irmos perturbá-lo em sua aposentadoria.

Partiram em direção ao Pacaembu. A casa era uma enorme mansão. Alcides fora a vida toda um homem muito trabalhador. Num determinado momento de sua carreira, adquirira uma clientela de renome que pagava caro por uma consulta de quarenta minutos.

-Olha só, uma consulta com o cara custava metade do nosso salário. Eu sempre achei esse papo de analista uma bruta viadagem. Imagina pagar setecentas pilas por uma consulta.

-Pois, para mim, isso tudo é falta de amizade. O sujeito deve ser tão chato que o único que o atura é o analista, que está recebendo para ouvi-lo.

-Eu não entendo esses ricos. Têm tudo na vida para serem felizes. Tudo o que a população deseja. São a ponta da pirâmide social e ficam arrumando minhoca na cabeça.

-Crise, para mim, é sobreviver com dois, três salários mínimos. O resto é refresco.

Os refinados espíritos de nossos policiais ainda eram crus demais para compreenderem Freud ou Jung.

A conversa seguiu descontraída, sempre abordando ironias a respeito de fatos, especulações e suspeitas. Como usualmente faziam, pararam o carro a algumas quadras de distância do verdadeiro endereço a ser investigado. Ao se aproximarem da casa puderam ver um guarda de rua, um vigia.

O homem estava sentado numa cadeira, ao lado da guarita de fibra de vidro. O sol já começava a aquecer-lhe o cubículo. Pela porta entreaberta o sujeito assistia a um programa televisivo. Era um desses programas matinais, para crianças, animado por um par de botas qualquer. O rebolado da loira o distraia de tal forma que os detetives  aproximaram-se sem despertá-lo de suas mais vis fantasias.

-Bom dia, o senhor poderia me ajudar?

Disse Dantas.

O vigilante tomou um susto.

-Oh, sim. É…, bom dia. Desculpe. Sabe como é. A gente fica aqui parado. É tanto tempo. Às vezes a cabeça da gente avoa. Esses aparelhinhos distraem que é uma beleza. A manhã passa rapidinho. Logo, logo já é hora de armoçar. Não é mesmo?

-Olha o cara. Se o mundo terminar em barranco, esse morre encostado.

Resmungou Renato.

-Bom, sabe o que é? Nós estamos procurando por um endereço. Por uma pessoa.

Dantas emendou rapidamente.

-É um primo distante, faz muito tempo que não nos vemos. Eu soube que ele estava morando neste bairro, mas não tenho o endereço certo. Eu estou perguntando por toda a vizinhança, buscando alguma pista. Será que o senhor não poderia me ajudar?

-Mais é claro, sô. Se o senhor é parente, tem mais é que encontrar mesmo. Família é tudo na vida da gente.

-O meu primo se chama Alcides. Ele é médico. O nome dele todo é Alcides Monteiro dos Santos. Ele teve ter um pouco mais de cinquenta anos…

-Com esse nome assim, Alcides Monteiro dos Santos, eu num to alembrado não. Médico tem o dr. Peres e o dr. Romeu, que moram ali pra cima, depois daquele ipê florido.

Renato, que já sabia o endereço do suspeito, subia a rua. Dantas continuou tentando extrair alguma informação do matuto.

Ao se aproximar do número 743, Renato diminuiu o passo. Cada detalhe das fachadas das casas, a altura dos muros, a presença de cães, o número de automóveis na garagem, praticamente tudo o que era visível, era registrado em seu cérebro.

Lentamente, percorreu todo o trajeto que separava a casa do psicólogo aposentado e a esquina. Fez meia volta, e começou a descer a rua. Em sua direção vinha Dantas, com as últimas informações.

O vigia em nada ajudara, mas o endereço parecia claro, a melhor fonte de notícias estava ali. Estes fiéis guardiães eram uma faca de dois gumes. Sabiam de tudo, os vigias são os centros de fofocas. Olhos e ouvidos do bairro. Nada acontecia sem que eles ficassem sabendo. O corporativismo da classe, incrementado pela curiosidade das candinhas, senhoras sem ocupação que traziam lanchinhos e veneno para tão respeitos trabalhadores, fazia dos vigias os melhores informantes possíveis.

-O que acha, Renato?

Perguntou Dantas.

-Bem, não sinto firmeza, deixe o homem em paz.

-Tem que ser ele, entende? Não há outra saída.

-Ninguém pode ser culpado só porque você não encontra um suspeito melhor. Concluiu Renato.

Dantas não se conformava.

-Pense como quiser, eu vou nesta sozinho. Eu vou entrar.

-Você está louco. Eu te proíbo.

-Vai ser fora de serviço, eu volto depois. Ameaçou Dantas.

-Eu te proíbo, está ouvindo. Deixe o homem em paz.

Desceram a rua discutindo, passaram pelo vigia e voltaram para a central. Mendonça queria resultados, e eles não tinham para onde fugir. A vida deles iria se transformar num inferno. Essa era a tática do delegado para forçar produtividade.

Ia ser naquela noite, pensava Dantas, deitado em sua cama. De cuecas e meia, fumava. Cinzeiro no colo, TV ligada, som ligado. Pensava, pensava, pensava. Resoluto, levantou-se.

Em menos de meia hora, lá estava ele. Todo de preto, desceu do carro. Olhou para os lados, ninguém. Madrugada, bairro residencial, todos dormiam. Incluindo o vigia do quiosque de fibra de vidro. Colocou o gorro, também preto. Investiu contra o muro. Numa agilidade, lançou um daqueles cabos com gancho, os mesmos dos filmes de espionagem. A coisa escapou uma, duas, mas não mais que três vezes.

A ponta enroscara em algo. Testou a resistência ao peso. Ia subir. De cima do muro pôde ter uma vista geral do quintal. A mansão era magnífica. O jardim, babilônico. Só faltavam as cachoeiras. Pulou para o lado de dentro.

Em sua casa, no subsolo, Alcides contemplava sua coleção de peças humanas. Era uma parede repleta de potes de formol. Banhados pelo líquido, pedaços de carne, pedaços das religiosas desaparecidas. A parte que mais lhe emocionava era a vulva. A ala das vaginas merecia posição de destaque. Os cortes foram feitos de forma a preservarem ao máximo a genitália feminina. Um primeiro corte era feito logo abaixo da linha da virilha, outro pouco acima do umbigo.

Com isso, tal fragmento de abdômen incluía os lábios vaginais assim como o útero e os ovários. Guardava todo o aparelho reprodutor de suas vítimas, sempre mulheres, sempre religiosas. Essa estranha coleção de bucetinhas era o que mais fascinava Alcides. Seu ódio por Deus, a rixa pessoal com o Senhor, culminara naquele insano projeto de colecionador.

Odiava Deus acima de todas as coisas. Tinha os seus motivos. Na infância, muita infelicidade, muita desgraça. A perda dos pais, a separação dos irmãos, de quem nunca mais tivera notícias, a educação traumática em orfanatos católicos, onde sofrera os mais graves abusos sexuais. Em sua cabeça, apenas um culpado: Ele.

Agora era um homem bem sucedido. Criado no meio religioso, Alcides tinha grande influência na comunidade. Era respeitado, doava vultosas quantias às associações cristãs, frequentava paróquias. Era reservado, isto é verdade. Nunca organizava encontros em sua casa, uma fortaleza armada de dispositivos de segurança por todos os lados. Não recebia ninguém. Era considerado um excêntrico, assim como todo louco que tem dinheiro. Estes nunca são chamados de dementes, são sempre excêntricos. Já quando se é pobre…

Gozava de grande respeito no meio conservador. Era convidado para tudo. Estava sempre em eventos sociais. Conhecia o mais alto escalão do clero nacional. Diziam alguns que tinha afinidades com a TFP, mas duvido muito. Em sua mente perturbada, apenas um plano. Aproximar-se das freiras, arrastá-las para casa e a execução de mais uma vítima. Há anos vinha engordando sua coleção de genitálias, sem que ninguém levantasse a menor suspeita sobre a sua pessoa.

Neste momento, a luz do porão foi diminuindo até ser substituída por uma fraca luminosidade vermelha. Era o alarme, algum invasor fora detectado. Trancou a porta metálica que encobria a parede com os potes e passou para a sala ao lado. De lá, controlava-se o sistema de segurança. Monitores de vídeo permitiam checar em segundos tudo o que se passava dentro e fora da casa. No painel de controle piscava o sensor 18.

-Pegamos um ursinho! Vamos lá meus queridos, vamos trazê-lo para dentro de casa.

Vibrou Alcides, alisando seus cães.

Neste momento, Dantas perdia a consciência. Caíra de uma altura de cinco metros, num fosso coberto por folhas. No fundo, uma daquelas armadilhas dentadas. Sua perna direita estava reduzida a pedaços, fraturada pelo tombo, esmigalhada pelo aparato mecânico. Quando abriu os olhos, estava armado a uma mesa cirúrgica, o altar onde Alcides oferendava suas vítimas.

-Olá, meu ursinho. Acordou bem?

-Alcides? Alcides Monteiro dos Santos?

-Aqui quem pergunta sou eu. A sua posição não é das melhores, meu querido. Ah, esta cidade. Que coisa violenta, não é mesmo? Se a gente não se previne. Veja só você, meu caro. Um dia desses eu resolvi pôr esse fosso com uma armadilha para caçar ursos. Coisa canadense, de qualidade. Acho que deveríamos regular melhor a pressão da mola. Sua perna humana não é tão resistente como a perna do urso, não é mesmo? Ficou péssima, tivemos que arrancá-la.

Dantas debateu-se, tentando alcançar com a mão o membro em questão. Mas, amarrado do jeito que estava não alcançava nem a vista.

-Não lute contra o inevitável, já foi. Pobre criança. Nunca mais saltará para dentro da casa dos outros, reles bandidinho.

Dantas não sabia o que fazer. Confessar-se policial ou deixar-se passar por larápio. Nem ao certo sabia se tinha as pernas. Voltou a desmaiar. Quando recobrou a consciência, Alcides encontrava-se em pé, de costas, contemplando a coleção de vulvas. Os potes recebiam uma iluminação azulada, era um cenário de horror. Duas dezenas de xoxotas conservadas em formol.

Anos e anos de estudos sobre as vítimas, mudando sempre de região. Já matara no Sul, já matara no Norte. Já matara no sertão, já matara no litoral. No campo e na cidade. Agora, cansado de guerra, dera mole. Arriscou-se demais. Três vítimas em quinze dias. Duas no mesmo dia. As três da mesma universidade. Seu disfarce de bom aluno caíra.

Agora Dantas tinha certeza. Ali, em sua frente, estava um assassino. Lembrou-se da formosa madre Helena. Qual daquelas vulvas pertenceriam a madre Helena?

Ah, se pudesse pôr as mãos nesse canalha.

Pensou Dantas.

Algum tempo se passou até que Alcides notasse o despertar do prisioneiro.

-Olá, minha flor. Está mais calmo agora? Sabe de uma coisa, eu decidi que você vai ser um homem de sorte. Está me ouvindo? Eu disse um homem de sorte, muita sorte.

-Não brinca!

Respondeu irônico.

-Já que vai morrer mesmo, você vai poder presenciar minha maior obra prima. Você será o primeiro a compartilhar comigo desta experiência mágica que estou vivendo.

-Você é louco!

-Louco! Sim, louco! Me fizeram louco! Aqueles anos inglórios, todos aqueles abusos em nome do Senhor! Grande filho da puta, não passa de um grande filho da puta. E essas vacas? Quem se preocupa com essas vacas? Profanas, fornicadoras, trepam com os sodomitas, padrecos viados!

O homem estava fora de controle.

-Fodi a todas, cada uma delas. Dizem-se casadas com o Senhor, pois então Senhor, no cu, no cu. Corno, viado. Esporrei em todas. Corno, escroto. E você, meu caro. Olhe bem, porra! Abra bem os olhos, admire minha coleção. Aproveite, pois esta será a última imagem em sua íris.

Naquele instante, Renato, que presenciava a cena, sacou a arma e disparou para matar. Um estilhaço de crânio acabou acertando um dos potes, que se quebrou. Renato não podia abandonar o amigo. Enquanto Dantas pulava o muro, ele estacionava o seu carro. Havia pressentido os fatos. Ao ligar para Dantas e este não atender, imaginou logo o acontecido. Correu para o Pacaembu.

Deu tempo de ver o companheiro pulando o muro. Saltou alguns segundos depois. Ao atingir o solo, Dantas já havia desaparecido, caíra na armadilha. No gramado, a luz de emergência do sistema de segurança se acendeu. Renato de escondeu e assistiu a tudo o que se passou com Dantas. Seu resgate, a cirurgia que o salvou de morrer. A amputação fora mesmo necessária, mas não permitiria o fim da vida do colega.

Essa foi sem sombra de dúvida a mais louca experiência vivida por nossos heróis em anos de corporação. Tudo foi abafado, nenhuma nota, nada vazou. Os crimes estavam solucionados, a cidade se livrara de mais um maluco.

Published in: on 21 de março de 2012 at 13:52  Deixe um comentário  
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A ESQUINA DO PECADO – CONTOS DE MARCELO AITH

A ESQUINA DO PECADO

 

A história que agora vamos contar trata-se, basicamente, de desejo. A satisfação pura e simples de uma vontade, talvez até um grande pecado. Tudo depende da linha ideológica adotada por vocês, caros leitores.

Passa-se, sem dúvida, numa esquina. Mais especificamente dentro de um bar, o “Esquina do Pecado”. Seu Cacique julgava-se o feliz proprietário. Toda manhã, logo cedo, estava a abrir o estabelecimento. Não confiava as chaves a funcionário algum.

Nem mesmo Serafim merecia tal crédito. O negro; de um escuro que só quem já foi a certas regiões da Bahia, ou de Minas, entende; era quem aguardava o patrão pela madrugada.

Para não perder o movimento do café da manhã, seu Cacique abria o “Esquina do Pecado” pontualmente às 4:25. Que culpa tinha ele se pobre tinha que pegar tanta condução para ir trabalhar?

Português sovina que era, abriria o bar assim que os primeiros prováveis clientes estivessem passando. Seu endereço comercial era ao lado do terminal central de ônibus. O movimento começava cedo, seu Cacique também.

Mas, não estava só. Subia as portas somente com a presença de Serafim. O cozinheiro era homem feito. Já fora boiadeiro, trabalhara com porretes quebrando pedras ou matando boi.

Até frente de trabalho governamental, obra emergencial contra o flagelo da seca, escavando açude, tinha pegado. Agora, era moleza para os músculos. A necessidade tinha feito dele cozinheiro. Trabalho de mulher, mas trabalho!

Nunca havia esmorecido frente peleja alguma. Só porque vestia avental não era menos macho, não senhor! Estava até gostando da vida mansa, longe do batente pesado do sol a sol.

Pois era esse colosso azulado que garantia as posses de seu Cacique. O português, medroso com a violência da metrópole, só se aproximava da pesada porta de metal e seus cadeados com a presença de Serafim.

O negro chegava às 4:00. Limpava qualquer espécie de escória humana que pudesse estar dormindo em frente ao “Esquina do Pecado” e garantia que nenhum vagabundo pensasse em se acolher sob a marquise do prédio.

Às 4:10 vinha seu Cacique. Entravam rapidamente e tornavam a baixar as portas. Começava o preparo do café. Às 4:25 as portas eram abertas em definitivo. Logo os primeiros vendedores ambulantes e operários estariam entrando.

O “gajo irresponsável”, como dizia o patrão, chegava logo em seguida. Manuelito era o garçom. Menino esquálido, mal enchia a camisa branca com babados. A calça preta mais parecia um saco de batatas.

O dia esquentava. Serafim se ocupava dos afazeres do almoço. A cozinha não era muito grande, ficava fácil controlar os insetos, e não só baratas, que circulavam impunimente. O menu principal contava com pratos típicos. Do mocotó à carne seca.

Era o ponto alto do dia. As refeições eram o carro-chefe do “Esquina do Pecado”. É claro que os bêbados de balcão garantiam o movimento mínimo da caixa registradora, mas era ao meio-dia que os olhinhos de seu Cacique brilhavam.

Este é o momento que a nossa história de desejo começa. Pela calçada, sujo e maltrapilho, vinha o nosso homem. Pensem num nome de um mendigo. Acho que ninguém nunca pensou que os mendigos também têm um nome. Por fim, ficaremos apenas com “o nosso homem”.

O nosso homem caminhava sem rumo, como fazia todos os dias. O sol de verão estava escaldante. Suor pingava-lhe ao rosto. Parou. Ergueu a cabeça. Encarou o astro-rei, indagou-lhe:

-Senhor, por quê? Por que, meu Senhor? Precisava tanto?

Resignado, tornou a baixar os olhos para a calçada, em direção aos pés. Dois cascos, pontas dos dedos para fora, trapos amarrando a sola ao corpo do que um dia deveriam ter sido sapatos.

Quando deu por si, estava em frente ao “Esquina do Pecado”. O bar fervia naquele instante. Serafim não parava de tirar refeições das panelas. Os pratos eram montados e passados pela janelinha.

Manuelito tratava de levá-los às mesas. Seu Cacique comandava o balcão, os pedidos, o caixa! Nossa equipe era engrossada por dona Isabel, quem dava jeito na louça, no banheiro e no lixo.

O nosso homem resolveu entrar. Mais uma vez ia se passar por pedinte. Não se considerava um, mas as circunstâncias da vida o haviam levado para aquele estado de degradação.

Tinha um enorme desejo, estava calor, queria uma coca-cola bem gelada.

-Uau!

Pensou nos goles molhando a garganta. Sem delongas entrou no “Esquina”. Certeiro, avançou em direção à primeira mesa.

-Me dá um real prá comprar coca?

O freguês, que estava comendo, ergueu a cabeça. Encarou o nosso homem com expressão de desdém e, com a boca cheia de farofa, respondeu.

-Qnhun tênhonf nãnfh.

O nosso homem não desiste, aborda uma segunda mesa.

-Pode me emprestar um real?

O operário não está para muitas conversas, muito menos tem tempo a perder com vagabundos. O capacete ao lado lembra-o que voltará ao trabalho. As três latas de cerveja já bebidas pedem para sair.

-Não.

Responde seco.

O sedento olha para a moça crente, destas evangélicas cabeludas com bíblia embaixo do braço, e cheio de esperança avança em sua direção.

-Moça, tem um real pr’eu comprar uma coca?

A tímida não tira os olhos do prato. O nosso homem hesita em partir para cima de outras vítimas. Neste momento, o operário mal humorado levanta-se. É um verdadeiro troglodita, camisa justa colada aos músculos.

Ele já acompanhara todo o movimento do nosso homem, desde a sua entrada no “Esquina do Pecado”. Após incomodar a moça frágil e indefesa, o nosso homem tinha que ser detido. O operário interpõe-se entre o nosso homem e a próxima mesa.

-Tome aqui o seu um real, mas vê se como alguma coisa, porra! Vai tomar coca? Cê acha que é o quê?

Estendeu-lhe a nota, com ar ameaçador. O nosso homem, submisso, olhos baixos, mineirinho, afirmava com o balançar da cabeça.

O operário voltou para a sua mesa com ar de desprezo. O nosso homem foi ao balcão. Seu Cacique passava um imundo pano velho dentro dos copos, como se assim os tornassem mais limpos.

O nosso homem estende a nota e, vitorioso, pede.

-Me dá uma coca. Bem gelada, sim.

Seu Cacique grita para Manuelito.

-Solta uma coca aqui.

Manuelito trouxe a garrafinha. Abriu e entregou-a. O nosso homem virou tudo num gole só, como se fosse a coisa mais maravilhosa que pudesse acontecer em sua vida. Seu Cacique, que depositara o real no caixa, voltou com as duas moedas de dez centavos, toda a fortuna que restava ao nosso homem.

-Olhe aqui o seu troco. E trate de ir dando o fora, ô piolhento.

O nosso homem bateu com a garrafa no balcão, deu aquela respirada de quem acaba de matar 300ml de coca de uma só vez, e disse.

-Eu só queria uma coca.

O nosso homem deu as costas a seu Cacique e, com toda hombridade de quem governa os rumos de sua existência, saiu cantarolando de volta às ruas. Sobre o balcão, para perplexidade dos que acompanharam a cena, jazia ambas as moedas.

Published in: on 15 de março de 2012 at 16:40  Deixe um comentário  
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