A BARBEIRA DE SEVILHA – CONTOS DE MARCELO AITH

A BARBEIRA DE SEVILHA

Era apenas mais um dia qualquer. Como fazia sempre, acordou cedo para seus exercícios matinais. Foi ao parque, correu por quarenta minutos e voltou para casa. Era preciso trabalhar. Tomou um café, acendeu um cigarro e, de posse do jornal, foi ao banheiro. As primeiras notícias anunciavam para um novo dia. Já era tempo de ir, mas o patrão poderia esperar um pouco mais, merecia aquela paz. Foi invadido por uma leveza única, misto do alívio causado pelo exercício físico, pelo prazer de gazetear e pela eliminação dos excrementos.

Foi ao banho, perfumou-se e escovou os dentes. Vestiu-se e partiu. Precisava aparar os cabelos, este pensamento o atormentava há dias. Entre uma de suas baldeações, entre os dois ônibus e um metrô, incluindo aí uma mudança de ramal, havia um barbeiro. Era isso mesmo. Havia um barbeiro de apenas $ 5,00. Não tinha erro. $ 5,00 estava perfeito. Corte rápido e barato, em pleno centro nervoso da cidade. No meio de todo o trânsito, poluição e miséria. Ao lado dos lares de meninos de ruas, catadores de papel e traficantes de crack.

A barbearia ficava logo abaixo de uma das mais controversas obras da cidade. Mais que um elefante branco. Uma verdadeira minhoca branca. Um verdadeiro minhocão. Um enorme viaduto que cruzava uma das principais vias de circulação. Tal arquitetura cinzenta, suja, pesada, era o paradeiro dos excluídos mais excluídos do pedaço. Recebia também um pesado tráfego de ônibus, motocicletas, táxis, caminhões, peruas, carros de passeio e outros automotores, durante dia e noite, quase que incessantemente.

Entre todo esse caos urbano, entre uma barraca de ambulante e o ponto de ônibus, estava lá a casa de poda. O corte era simples, não requeria muito saber. Máquina três dos lados e atrás. Máquina cinco no topo. Além disso, era decente. Dentro do mundo das barbearias, em plena crise sistêmica da organização do país, as promoções para populares haviam destruído o ofício. O velho artesão do cabelo estava praticamente morto e enterrado.

Resistiam ainda em alguns bairros uns poucos senhores quase cegos. De mãos trêmulas, tesouradas e navalhadas eram executadas nem sempre com a mesma precisão de outrora. A ardência e vermelhidão deixadas no pescoço, logo após o uso da loção barata mas nem por isso menos charmosa, denunciavam a chegada da senilidade.

Estes poucos imigrantes, ou filhos de, que insistiam em prosseguir em sua corporação de ofício – quase que liga medieval – estavam desaparecidos no centro. Grandes lojas de cortes baratos, sustentada por mão de obra pouco qualificada e mal remunerada, ofereciam descontos capazes de quebrar qualquer concorrência.

A barbearia em que entrou não era das piores. Por $ 5,00 até que o serviço era honesto. Já havia cortado lá e ninguém comentara nenhum grande desastre em sua cabeleira. Também o corte era muito simples, uma máquina passada bem rente, um corte baixo.

Dirigiu-se ao senhor que havia lhe cortado. O homem parecia saber o que fazia. Em sua cadeira estava um cliente, teria que esperar. O tempo era precioso, já havia demorado a sair de casa, não poderia demorar muito por lá. Foi quando soltou a infeliz frase – Tem mais alguém que corte, ou tenho que esperar?

Prontamente, a manicura sentada no sofá ao lado respondeu – Ela também corta.

Ela. Virou-se para observar “Ela”. Em sua direção vinha um mulher de porte grande, larga se é que vocês me entendem. Não chegava a ser obesa, mas com certeza era bem pesada. Sua estrutura óssea avantajada comportava bem todo aquele peso, dando-lhe uma aparência mais robusta do que obesa, propriamente dita.

Seus cabelos eram de um loiro desbotado, um tingido barato em um cabelo já envelhecido. Quando ergueu os olhos para o seu rosto, foi o espanto maior. Não podia acreditar, tudo menos aquilo. Era um sonho surrealista, não poderia estar acontecendo. “Ela”, era vesga! Uma barbearia de $ 5,00, no centro decadente da cidade, com uma barbeira vesga! O corte não ficaria bom, os deuses deviam rir dele naquele momento.

Titubeou, foram segundos que pareceram anos. Uma vontade interna o impelia para fora do estabelecimento, não era tão difícil. Bastava uma desculpa rápida, uma bobagem qualquer – Ah! Esqueci a carteira – ou ainda – Puxa, subiu o preço, achei que fosse $ 3,00, só trouxe $ 3,00.

Mas um certo constrangimento o invadia. Não ia dar certo, “Ela” perceberia, é claro! Nenhuma desculpa colaria, entrara tão convicto a cortar. “Ela” logo desconfiaria – Fui rejeitada. Um enorme sentimento de culpa abateu-se sobre ele. Não poderia fazer isto com “Ela”, naquele momento não conseguiria dizer – Não. Estava perdido.

Resignado, sentou-se. Alea jacta est – Parafraseou César. Os dados estavam lançados, atravessara seu Rubicão. Já na cadeira, o corte começou. Primeiro foram os cabelos das têmporas, depois da nuca. Pouco a pouco ia se livrando dos pelos. Careca não ficaria, a fartura estava presente em todos os poros de sua epiderme. Em qualquer lugar que fosse, da cabeça aos pés, pelos é o que nunca lhe faltariam.

Por sorte, ou desespero, havia tirado os óculos. O corte assim o exigia. As hastes da armação atrapalhariam o desenvolvimento podador da máquina. Agora estava cego. Não que fosse efetivamente míope, uma toupeira, mas sem as lentes não enxergaria a performance da vesga. Era difícil acreditar que um corte de $ 5,00, na região do centro, e com uma barbeira vesga pudesse dar certo.

Nem a revista Manchete o divertiria naquele momento. Estava atrasado, amargurado, ansioso por ver logo o resultado. Tudo o que pensava era em pagar e ir embora dali. Quanto menos tempo ficasse, melhor. Jogo rápido. Cortar e sair. Além do que, quanto menos a vesga tocasse em sua cabeleira, melhor. Teria menos chance de errar.

Assim que pôde, vestiu os óculos. Sacudiu-se dos pelos caídos na roupa, limpou-se com a escovinha. De pé, agora já bem próximo ao espelho, observou o estrago. Aparentemente estava tudo em ordem, nenhuma grande anomalia à vista. Enfiou a mão no bolso, sacou uma nota de $ 5,00. Havia outra de $ 1,00 dobrada junto à cédula maior. Sabia disso, era o troco que recebera ainda a pouco ao comprar uma besteira qualquer no camelô em frente.

Decidido, esticou a mão. Ofereceu à barbeira estrábica ambas as notas, dobradas, sem que pudesse ser vista a menor. Era uma oferenda simbólica, um apoio, uma compaixão maternal, um desejo de ajudá-la. Realmente estava sensibilizado com a situação da mulher. Ser cabeleireira, com seu defeito físico, numa bodega daquelas, tinha que ter muita coragem. Merecia aquela recompensa.

Mas enquanto saía, notou de rabo de olho um pequeno detalhe. A rata percebera rapidamente, ao passar o dedo sobre a nota de cima, a presença da nota de baixo. Digo rata, porque fora esta mesma a atitude. A mulher sorrateiramente fingira não ter visto o esquecido e, mais que depressa, embolsara as duas notas. Tudo isso num gesto ágil, de impressionar qualquer aprendiz de prestidigitador.

Agradeceu o corte e despediram-se. Ela ficaria com o dinheiro a mais, mas não precisava acontecer daquela forma. Estava feito, partiu. Um estranho sentimento o invadiu. Vivera, muito intensamente e em curto espaço de tempo, a leveza, o alívio, a dúvida, o constrangimento, a culpa, a resignação, o desespero, a amargura, a ansiedade, a compaixão e agora era tomado por um profundo ódio.

Acabara de presenciar uma típica situação em que se é passado para trás, havia sido enganado. Não era pelo $ 1,00, este já estava dado. Era a má intenção da mulher. Não que a recriminasse por seu ato, afinal “Ela” deveria ganhar um salário de merda. A necessidade traria seus instintos de sobrevivência. O grande problema residia no fato de que ela havia estragado tudo.

Ao não saber aceitar sua doação, ao ter demonstrado saber da existência da segunda nota, ao deliberadamente se apropriar do dinheiro alheio, atirara ao chão toda a compaixão que tivera há pouco. Sua maior frustração era exatamente sentir ter desperdiçado uma boa ação, uma caridade. Era por puro egoísmo. A débil havia estragado o seu ato benevolente. A frustração foi um dos últimos choques que levou naquela manhã. A perplexidade e o torpor o invadiram logo em seguida.

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GRANDMOTHER SU-RU-RU-RU – CONTOS DE MARCELO AITH

GRANDMOTHER SU-RU-RU-RU

 

         Neste verão, fui passar minhas férias numa das muitas praias afrodisíacas do Nordeste brasileiro. Depois de enfrentar horas de estradas mal asfaltadas e alguns trechos de terra, chegamos ao pé das dunas que separavam o Paraíso da Civilização, onde experientes guias desafiavam as montanhas de areia com seus veículos especiais que finalmente nos levariam à Terra Prometida.

As dificuldades de acesso eram, com certeza, o maior fator de preservação frente ao turismo predatório. Éden alcançado, o primeiro passo foi encontrar uma pousada onde pudesse esticar o corpo cansado, tomar um bom banho e encontrar alguma comida. Sem esquecer, é claro, da cerveja gelada.

A pousada de dona Albertina era perfeita. Os quartos possuíam banheiros próprios, cama de casal, criado mudo com abajur, mosquiteiro, ventilador, mesa e duas cadeiras. Na varanda, redes à vontade. Exatamente tudo o que eu precisava para o meu merecido descanso.

Dona Albertina era uma dessas simpáticas proprietárias que cativam seus clientes com sua dedicação ao trabalho. Enquanto íamos à praia, os quartos eram muito bem limpos e arrumados.

Por apenas alguns centavos a mais em nossas diárias, lavava nossas roupas sujas. Preparava os mais gostosos quitutes e licores locais e, ainda por cima, era uma verdadeira enciclopédia viva.

Dona Albertina sabia de todos os “causos” ocorridos na vila, desde os tempos de seus bisavós. E era com muito prazer que ela passava horas e horas a prosear com os hóspedes que quisessem saber a história do vilarejo.

Entre os felizardos que conheceram dona Albertina estavam Mr. e Ms. Brown. Um casal de norte-americanos, já na casa dos sessenta anos, que decidira conhecer o mundo e acabava de aportar em nosso litoral.

        Mr. Brown chamava dona Albertina carinhosamente de grandmother. Com o passar dos dias fomos ensinando aos gringos algumas poucas palavras em português, mas, para eles, era uma grande dificuldade pronunciar os fonemas latinos. Acabei servindo de intérprete para os dois.

Naquela manhã, eu e Mr. Brown iríamos ao mangue. Após o acerto na noite anterior, ficou decidido que Ednilson, o neto de dona Albertina, levaria-nos buscar sururu para que a velha preparasse-nos um maravilhoso arroz com os mariscos.

Mal o sol saiu e o menino bateu em minha porta. Em poucos minutos, eu, Mr. Brown e o rapaz estávamos a caminho.

O sol nesta época do ano costuma judiar das peles mais sensíveis. O vento não nos permite a real percepção dos efeitos dos raios, mas, ao fim do dia, o turista distraído pode ser facilmente confundido com uma lagosta.

Foi pensando nisto que Ms. Brown lambuzou devidamente o marido com cremes protetores de diversas intensidades. Uma camiseta, óculos escuros e chapéu de palha. Entregou-lhe também uma mochila onde iam câmera fotográfica, cantil e cremes sobressalentes.

Já nosso guia, com sua pele curtida pelo sol de ano a ano, vestia apenas short. Chinelos, só quando ia à cidade.

Íamos animados com a perspectiva de uma grande caçada, ou melhor, colheita. Pois mais que caçar sururu, nós iríamos mesmo era colhê-los. Cada qual levava consigo dois baldes que, segundo o menino, voltariam carregados com os moluscos.

Nosso amigo norte-americano definitivamente não aprenderia o português. Ele não conseguia nem pronunciar sururu. Insistia em acrescentar, ao fim da palavra, mais uma sílaba –RU.

Ele repetia comigo.

-SU, RU, RU, RU.

Não havia meios de fazê-lo parar no segundo –RU.

Sua língua não tinha freios. Iniciava a sequência com um sonoro –SU, seguido de três –RUs, que juntos formavam:

-SURURURU.

O pequeno ria do gringo e todos íamos felizes “colher” sururu(ru) no mangue.

Pés chafurdados na lama, tudo se passou como o previsto. O local onde o garoto nos levou era um verdadeiro cemitério de sururus. Lá estavam enterrados milhões e milhões deles.

Fomos pegando tudo o que víamos pela frente, sempre sob os olhos desconfiados dos muitos siris que, com suas garras, nos pareciam pouco amistosos para com intrusos. A princípio o medo foi grande, mas a naturalidade com que Ednilson nos conduzia por aquele mar de lama acabou por nos deixar mais confiantes no sucesso de nossa missão.

Aos poucos, o que parecia distante foi concretizando-se. O balde começou a pesar em nossas mãos. Andar naquele atoleiro não era muito simples, e logo tínhamos o corpo todo enlameado.

Estávamos tomados por um espírito de responsabilidade, aquela era a nossa parte na divisão social do trabalho. Não poderíamos falhar. Para que pudéssemos desfrutar o prato mais famoso de dona Albertina, era importante os ingredientes frescos.

O dia avançou, o ar esquentou e tivemos que parar para descansar. Um pouco mais de esforço, uma segunda temporada de caça e os baldes estavam cheios. Era hora de ir para casa.

A fome começava a apertar e todos os assuntos que foram conversados pelo caminho de volta não fugiram do ambiente da cozinha. A expectativa de provar o lendário arroz de dona Albertina nos ensandecia.

Chegar foi uma benção. O esforço de locomoção dentro do mangue consumira mais de nossas energias do que imaginávamos. Estávamos imundos, famintos e exaustos. Banho de água quente nos bichinhos, banho de mar para os homens de lama.

Um bom cheiro começou a tomar conta da cozinha. Temperos cuidadosamente preparados iam juntando-se, um a um, no seu devido tempo, àquela panela mágica. Em breve, comeríamos uma iguaria única.

Tomamos nossos banhos, vestimo-nos para a cerimônia de gala e partimos para o álcool. A conversa foi tomada por histórias de pescadores, onde cada um procurava enobrecer suas habilidades e vivências em busca do alimento marinho.

Mesmo nós, que debutávamos na pescaria, ainda que de forma menos nobre, literalmente com os pés na lama, tínhamos nossa odisseia a contar.

Enquanto discutíamos com os filhos de dona Albertina, a mãe fritava tiras salgadas de peixe para acompanhar a cerveja. O prato principal chegou acompanhado de comoção geral.

E aí está a chave da nossa história. O marisco de dona Albertina era realmente excelente, seus temperos eram dignos dos cuidados de um druida.

Comida forte, servida regada com pirão de camarão, pimentas, dendê, essas coisas que desconfio serem usadas na culinária nordestina. Por mim, perfeito, mas coitado de Mr. Brown.

Faminto, deliciou-se com o banquete. Usou e abusou da pimenta. Eufórico, repetiu pratos. Parecia um desesperado, um morto de fome. Para um homem de mais de cinquenta anos, o dia consumiu suas forças. Era preciso repô-las.

O esforço físico, a caminhada da ida, a pesca, a caminhada da volta, o sol na cabeça. Agora, Mr. Brown começava a ver trens azuis. O álcool, o sol, o cansaço, os temperos fortes, frutos do mar, digestão difícil, começou a suar frio.

Estava no quarto. Todos dormiam felizes com a comilança. Mr. Brown começou a explodir no banheiro. Por baixo e por cima. Diarreia acompanhada de vômito.

Privada e pia, posição inglória para um senhor de sua idade, de seu status. Ele, cidadão norte-americano, reduzido àquilo. Provavelmente estava com insolação.

Abusou do marisco, que é um prato pesado para uma refeição noturna, de digestão difícil. Abusou dos temperos, da pimenta. Abusou da cerveja. É claro que o corpo do gringo iria estranhar.

Nosso visitante, inferiorizado em sua fraqueza, afinal era o único a passar mal, quase uma ofensa à cozinha da anfitriã, caiu em desespero.

Americano padrão que era, vinha sob a orientação das normas de sobrevivência em países de terceiro mundo. Logo, achou que fora acometido por cólera, típica doença terceiro-mundista.

Os sintomas, a diarreia, tudo fazia sentido. Maldita terra onde fora se meter. Morrer ali, naquele ass-hole do mundo. O socorro mais próximo distava trinta quilômetros além das dunas. Estava perdido.

O gringo acordou a todos, gritava pelos corredores.

-Cooouullera, coouullera.

Era um sotaque que não consigo reproduzir por sinais gráficos, mas quem já ouviu um americano arranhar português sabe como é. Soa como aquelas entrevistas com economistas das missões do FMI que vivem nos visitando.

Mr e Ms. Brown não deram paz enquanto não arrumaram um jipeiro. Os pescadores não gostavam de atravessar as dunas na escuridão. O vento trazia e levava areia constantemente.

Os paredões movimentavam-se em minutos. Era preciso atenção para não tombar lá de cima. Além do mais, era noite. Hora de dormir, de namorar, e não hora de atravessar duna.

O gringo não morreria, todos tinham sono. Era uma indisposição, uma insolação, um piriri qualquer. Mas o desespero dos dois foi tamanho que para podermos voltar às camas só mesmo satisfazendo o casal.

O embarque foi uma dificuldade. Quando Mr. Brown pensava em entrar no automóvel, vinha uma vontade terrível de voltar ao banheiro.  O homem sumia como um foguete. Podiam-se ouvir seus gemidos, tal como lamentos de reza árabe.

Pelo que soube, Mr. e Ms. Brown seguiram para Fortaleza e de lá para os EUA, onde foi submetido aos mais diversos exames. Sobreviveu, mas jurou nunca mais pôr os pés no hemisfério Sul.

Passei mais uma semana agradabilíssima em casa de dona Albertina, de quem até hoje recebo cartões postais.

CARTAS A MEU PAI – CONTOS DE MARCELO AITH

 

CARTAS A MEU PAI

 

        Entrou no galpão dormitório. O calor era intenso. O telhado metálico transformava o alojamento num verdadeiro forno. Podia sentir sua carne cozinhando. Tirou o capacete e, com o lenço, enxugou o suor que lhe cobria o rosto. Sentou-se em seu beliche.

        Ali, no espaço entre seu colchão e o estrado da cama de cima, o ar parecia realmente não existir. Passava para além dos dez anos na Jordânia, em pleno deserto árabe, e não se acostumava ao calor. Era bestial!

        Flexionou o abdômen e, com a cabeça entre as pernas, pode ver sua caixa de valores. Apanhou-a, colocando-a no colo. Tirou do bolso uma pequena chave a abriu o cadeado.

        Embrulhados num fino papel de seda e amarrados por um barbante estavam doze anos de correspondências. Retirou o nó que as atava. Apanhou alguns envelopes. Uns do fundo da pilha, outros mais recentes, leu de forma rápida como quem já conhecesse bem seus conteúdos.

        Começou pela carta da filha.

 

        “Meu querido pai, …”

 

        Respirou fundo.

 

        “…estamos com muita saudades do senhor. O senhor não faz ideia da falta que faz. Todo dia é uma tristeza sentar à mesa sem a sua presença. No jantar, a imagem de sua cadeira vazia dó em meu coração. Às vezes, a mamãe se esquece e põe o seu prato. Na primeira vez em que isso aconteceu, ela até chorou. Ficamos muito emocionadas, e ninguém conseguiu comer. Mas nós vamos nos acostumando. Como vão as coisa por aí? Espero que você arrume bastante trabalho e possa voltar logo e com muito dinheiro! Faz muito calor por ai? O inglês que a gente estudou juntos está dando para quebrar o galho? O senhor já aprendeu alguma coisa em árabe? Escreva o meu nome com aquelas letrinhas que parecem uns rabiscos para eu ver! Deve ser duro não poder tomar uma cervejinha de vez em quando. Aqui, lançaram uma nova cerveja e que já vem sem álcool. Quem sabe as leis daí permitam beber, ao menos a sem álcool. Descobre isso que eu mando umas pro senhor. Lembra-se do dia em que viajou? Lembra-se que a gente teve que ir de ônibus para o aeroporto porque o carro não podia sair em dia de rodízio? Pois é, a poluição até diminuiu um pouquinho, as chuvas vieram. E como vieram. A cidade ficou um caos, mas a qualidade do ar melhorou. Por aqui a poluição continua grande, mas está melhor que antes. Mesmo assim, o rodízio continua. A cidade está um saco! …”

 

        -Que menina desbocada.

        Pensou.

 

        “… O prefeito criou o rodízio municipal, é para diminuir o trânsito. É como o rodízio anterior, mas só nos períodos de pico. Ele funciona pela manhã e ao final da tarde…”

 

        Passou para a carta da esposa.

        Abriu o envelope azul.

 

        “Querido, ontem briguei com a sua irmã. Não pude evitar, ela é muito folgada. Você não acredita no que ela fez! Ela teve coragem de reclamar que eu me atraso nos horários de levar as crianças! Agora, além de ter que aguentar o mal humor dela, ainda tenho que ouvir malcriação. Como você sabe, a gente combinou de nos revezarmos nos idas de levar e buscar as crianças na escola. Por causa do rodízio, né? E você sabe muito bem como a sua irmã é, ela nunca chega nos horários marcados. Ela sempre atrasou. Até em natal e ano-novo ela atrasa. As crianças já chegaram a esperar quarenta minutos a sua irmã aparecer, paradas na frente da escola. Pois veja bem, só porque eu me atrasei dez minutinhos para passar na casa dela e o Leandro tinha prova de matemática na primeira aula, ela descontou todas as neuroses familiares em mim! Você não imagina o escândalo que ela fez. Agora parece que eu sou a culpada pelos filhos dela serem menos inteligentes que os nossos. O Leandro chegou na escola e o sino não havia batido. O portão ainda estava aberto. Por falar em escola, o Ricardinho vai muito bem. Você teria muito orgulho dele se ouvisse o que as professoras falaram na última reunião de pais. Todos perguntaram muito de você. A Ju quer fazer curso de teatro, será que eu deixo? Sabe-se lá como é que são esses jovens? Mas, voltando à vaca morta, sem querer ofender a sua irmã, é claro! Você sabe muito bem como eu sou. Eu suporto até o meu limite. Eu não falo nada, fico muda, vou engolindo tudo, mas tem uma hora em que eu não me seguro, falo mesmo, e foi exatamente o que aconteceu. Ela veio reclamar que eu estava atrasada, que o Leandro tinha prova de matemática, que matemática era a pior matéria, que o menino tinha estudado até de madrugada. Aí eu não me segurei, falei que ela era uma folgada, que ali ela era a última a poder reclamar de atraso, que eu nem estava tão atrasada assim, que eu tive que passar o uniforme das crianças porque a Neuza não veio trabalhar, que se o filho dela ia mal na escola era porque ele não estudava e que ninguém ia perder prova nenhuma. Disse que os meus filhos também tinham prova, que eu não era irresponsável como muitas mães que andavam por aí fazendo compras durante a tarde. Agora a gente não está se falando. Amanhã é dia de rodízio e eu não vou poder levar as crianças com o meu carro. A Fernanda vai usar o dela e eu terei que ir de táxi. Quando você receber, mande um dinheiro a mais para que eu possa pagar a prestação do carro novo que quero comprar. Com esse rodízio eterno só tendo dois carros de placas diferentes…”

 

        As cartas da mulher eram as que mais o aborreciam.

        Passou à próxima.

 

        “Papai, aqui a coisa tá feia. Quando o senhor voltar nem vai reconhecer o país. Nesses últimos anos sem o senhor, o bicho pegou! Agora, para resolverem o problema da saúde inventaram o rodízio das consultas. Gostaram tanto do rodízio eterno que criaram o rodízio saúde. O discurso é o seguinte: racionalizando a demanda nos hospitais haveria uma melhora no atendimento. Quem nasceu em anos de final 1 e 2 não podem ser examinados na segunda-feira, quem nasceu em anos de final 3 e 4 não podem ser examinados na terça-feira e assim por diante. Quem precisar utilizar hospital público terá que ficar doente no dia certo, senão ficará no saguão de entrada.

        P.S.: A mamãe está pedindo para o senhor mandar dinheiro para pagar o plano de saúde que está três meses atrasado.”

 

        Fechou o papel com ar preocupado.

        -Ah, o mais novo.

 

        “Papai, você não sabe que legal! Agora a gente não precisa ir à aula todo dia. Para criarem mais vagas fizeram o rodízio educação. A 1ª e a 2ª séries não têm aulas na segunda-feira. A 3ª e a 4ª séreies não precisam ir na terça-feira. Na quarta, não vão a 5ª e a 6ª séries. Quinta é a vez da 7ª e da 8ª faltarem e na sexta não vão os colegiais. Na televisão falaram que agora no Brasil o direito de todos estudarem está assegurado. Beijos, Ri.”

 

        Abriu a última.

 

        “Meu amor, você não imagina o que está acontecendo. Os políticos resolveram criar o rodízio eleitoral. Isso mesmo, rodízio eleitoral. Agora os partidos políticos sucedem-se no poder sem disputas. De forma organizada, cada um fica um pouquinho no governo, evitando assim todos os gastos e tormentos das eleições. Hoje, terça-feira, somos “primeiro-mundo”. Amanhã, dia de rodízio econômico, somos “terceiro-mundo”. É por isso que escrevo hoje, apesar de mais caro. É mais confiável que a correspondência não se extravie. Ah, mande dinheiro para eu fazer a feira.”

 

        Tirou do bolso o salário.

        Separou o maço de notas em dois montes iguais. Contou e recontou, uma por uma, cada célula com o olhar de quem se despede pela última vez do ser amado. Enfiou um dos montes num envelope, o outro tornou a guardá-lo na camisa.

        Lambeu a correspondência, lacrando-a. Dobrou e guardou as cartas, sempre obedecendo a sua ordem cronológica, e trancou a maleta. Guardou a valise sob a cama.

        Levantou-se de seu beliche, caminhou em direção à saída. O capacete, tornou-o a vesti-lo e, enquanto fechava a porta do galpão, pensou.

        -Ainda trago eles para cá!

Published in: on 14 de março de 2012 at 15:30  Deixe um comentário  
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SEXO NAS MÃOS – CONTOS DE MARCELO AITH

 

SEXO NAS MÃOS

 

Cresci ouvindo meu cunhado dizer que eu tenho sexo nas mãos. Como todo bom adolescente, masturbava-me com constância. Mas não era esse o sentido. Eu também não levava ao delírio as moças lá no bairro com dedos ágeis. Sempre fui muito tímido para isso.

Ao contrário, a feliz afirmação do marido da minha irmã era relativa à minha falta de habilidade manual. Segundo ele, tudo o que eu toco fode. Tal qual um Midas da destruição, um menino do dedo podre.

Por minhas mãos passaram três trens elétricos, dois autoramas, diversos videogames, carro de controle remoto, até mesmo um computador da linha TK (um modelo que utilizava fita cassete, num tempo em que não existia disquete), e tudo isso teve um mesmo fim, o lixo.

Sempre fui tarado por conhecimento. Sempre quis saber como as coisas funcionavam. Para uma criança tudo é fascinante. Desmontei meus brinquedos, meus carrinhos, os controles, o rádio-relógio, o computador. Geralmente, não compreendia integralmente o comportamento dos objetos. Mas com certeza, ao remontá-los, eles não voltariam a funcionar.

Desde pequeno fui aficionado por porcas, parafusos, ferro de solda, circuitos elétricos. Era mister em desmontar tudo. Até aí, tudo bem. O problema só começava mesmo quando eu tentava montar novamente as peças.

Em alguns casos os objetos nem precisavam ser depenados. Só o fato de serem tocados por minhas mãos era o suficiente para que, como num passe de mágica, os aparelhos nunca mais voltassem a funcionar.

Depois de grande, ao ser solicitado a exercer minhas funções de homem da casa, o estigma de destruição acompanhou-me. Sempre fui uma negação nos afazeres domésticos masculinos.

Nunca soube trocar um courinho de torneira ou uma resistência de chuveiro. Tenho aflição de tomar choque até em porta de geladeira. Não entendo nada de mecânica de automóveis.

Sou mais um desses homens que por não terem habilidades manuais não possuem certos conhecimentos técnicos caseiros. Somos vítimas dos prestadores de serviços.

São pedreiros, marceneiros, pintores, encanadores, são eletricistas, chaveiros, técnicos de eletrodomésticos em geral. Desembolsamos fundos e mundos em obras de solução simples, superfaturadas por esses inescrupulosos profissionais que abusam do domínio de suas aptidões.

Muitas vezes, alguns de nós sentem sua masculinidade diminuída frente ao outro macho, aquele que nos apresenta o total orçado dos custos e mão de obra.

São pequenos serviços domésticos que nós, na condição de homens da casa, deveríamos executar por si sós. Mas nossa incapacidade motora nos proíbe de contornar o mais simples problema do dia a dia.

Outras vezes, temos a certeza que o orçamento apresentado não condiz ao reparo realmente efetivado. Mas quem somos nós para questionar o laudo de um expert, um perito no assunto?

Somos o pato da história. Tal como o marido traído. Todo o bairro deve rir de nós ao nos ver passar.

-Olhe lá, lá vai Fulano de Tal, marido da Beltrana.

-Coitadinha, ele não sabe nem trocar uma lâmpada.

-Dizem que não serve nem para matar barata.

Nesse segundo aspecto, a barata, nunca tive problemas. Sempre esmago com gosto os insetos repugnantes. É com prazer que escuto o estalar do exoesqueleto de quitina que se rompe, antecedendo o fim da vida no animal.

Mas isso não vem ao caso. Como eu ia dizendo, cresci ouvindo o meu cunhado dizer que tenho sexo nas mãos, e é isso o que me levou a escrever.

Hoje, meu primeiro dia no novo emprego, peguei um desses ventiladores com tripé que estavam num canto do escritório e coloquei-o próximo à minha mesa.

Antes de arrastar o pesado aparelho, certifiquei-me de que ele funcionava. Não havia nada de anormal. Ao ligá-lo na tomada do outro lado da sala não apresentou nenhum defeito.

Emitia aquele característico ruído de ventilador e cumpria heroicamente com a sua função de fazer o ar circular. O oxigênio às vezes chegava a rarear em meio há tanta fumaça que emitiam os cigarros nos cinzeiros.

Não passou de meia hora o tempo que levou entre ligar o aparelho e um estranho cheiro de queimado invadir o ar. A primeira pessoa a notá-lo foi a mulher que trabalhava ao meu lado.

-Tá sentindo um cheiro diferente?

-Não. Eu não!

Neguei com veemência, pensando defender-me da autoria de qualquer gás intestinal.

Passados alguns segundos percebi o tal cheiro detectado pelo afinado nariz de minha companheira. Notei também que o ruído e o movimento das pás do ventilador cessaram.

De minha mesa pude ver a fumaça que subia, negra, ganhando altura, dispersando-se sobre nossas cabeças. Trazia consigo o forte odor característico de plástico queimado.

No meu primeiro dia na empresa, tinha que ser comigo. Só podia ser comigo, logo comigo. Não, o ventilador não podia esperar. É claro que ele quebraria bem na minha mão.

Tantos anos na firma, tantos funcionários tocando-o, ele iria quebrar justamente na minha vez de tocá-lo. Como diz o ditado: desgraça pouca é bobagem.

Tremenda gafe. As desculpas, seguidas pelo reconhecimento da idoneidade de meu ato, não anulariam o acontecido. Eu quase pus fogo no escritório. Eu queimei o ventilador em meu primeiro dia de trabalho. Não havia mais volta.

Às vezes, eu acho que o meu cunhado está certo. Nestas ocasiões sinto como se tivesse a genitália no lugar dos dedos.

 

A CHAVE – CONTOS DE MARCELO AITH

A CHAVE

Era um daqueles sujeitos que acreditava nas coisas do destino, em algumas predestinações em nossas vidas. Tinha o seu próprio Destino Manifesto, sua Doutrina Monroe. Para ele, alguns teriam nascido para brilhar. Um futuro grandioso os aguardava. As oportunidades iriam surgindo aos afortunados que tivessem a capacidade de canalizar as chances da vida. Foi justamente o que lhe aconteceu naquele dia, quando voltava para casa.

Depois de bater o cartão do ponto na firma em que trabalhava, bateu o cartão de ponto no bar em frente à estação de trens onde se embebedava diariamente com os amigos do escritório.

Tomou a última composição que partia em direção ao seu bairro. Ao descer encontrou as ruas desertas. A noite estava fria, o asfalto estava molhado pela fina chuva que caíra o dia inteiro e que ameaçava recomeçar a qualquer momento. Caminhou pela avenida principal por um quarteirão e dobrou à direita, pegando a rua que o levava ladeira abaixo de volta para o lar.

Logo ali, no meio do caminho, na trajetória de sua curva, foi que ele viu caída no chão uma pequena chave. Parou. Abaixou-se e apanhou o objeto perdido. Olhou para os lados, não avistou ninguém. Próximos à esquina, dois homens ocupavam uma mesa de bar na calçada da avenida. As plantas da floreira o encobririam. Não seria visto.

Impulsionado pela ação da gravidade imposta pelo íngreme desnível, encoberto pelo anonimato de seu ato, e pensando na adversidade climática com que a noite se fazia presente, recomeçou a andar.

O que poderia ter feito? Não havia ninguém por perto, quem poderia ser o dono de tal chave? Ir ao bar da esquina perguntar se alguém ali seria o suposto proprietário? Entregá-la ao caixa para caso alguém fosse procurá-la?

As alternativas apresentavam-se à mente de nosso amigo, sem que esse pudesse discernir entre as opções qual realizar. Simplesmente seguiu o seu rumo.

Quantos mistérios poderiam conter naquela única chave? Que porta poderia abrir? Ou o que poderia estar fechado por ela? Estas foram as ideias que o atingiram.

Sim, era isso mesmo. Deveria haver algo importante, valioso, fechado por aquela chave. Agora, era ele o proprietário do poder de abrir tal compartimento. A chave era pequena, dessas que pertencem a cadeados. Não parecia tratar-se nem de chave de porta, nem de chave de automóvel. Era, com certeza, uma chave de cadeado.

Dinheiro, joias, documentos, ações, seria ela a chave de um cofre? Quem sabe um cinto de castidade de alguma virgem donzela aguardava, ansiosamente, a chegada do libertador e futuro príncipe de um reino distante? Mais fácil seria a chave pertencer a algum marido ciumento que acorrentava a mulher dentro de casa ao sair para o trabalho.

Infinitas eram as hipóteses para a origem da chave. Quem sabe uma caixa postal, dessas de correio, onde se guarda correspondência entre amantes? Talvez um armário de rodoviária, ou de aeroporto, que contivesse o produto de algum roubo ou um carregamento de drogas?

O destino zombava dele, só podia ser isto. Os deuses riam lá de cima, deleitando-se com sua agonia. A chance de sua vida, tesouros inimagináveis o aguardavam e ele jamais os acessaria. Simplesmente pelo fato de que nunca encontraria a fechadura para a sua nova chave.

Quantas fechaduras poderia haver no mundo? Quais as chances concretas dele encontrar o local certo para o uso da chave, mesmo que a partir daquele momento dedicasse toda uma vida à procura de uma saída para tal enigma?

Tinha que pensar em algo melhor. Procuraria o dono da chave e proporia a divisão dos bens trancados. Mas como saber quem era o homem? A fechadura era inatingível, mas quem sabe através do chaveiro pudesse identificar seu dono? Quem sabe um nome gravado, um número de telefone?

Passou a concentrar sua atenção no chaveiro. A noite estava escura e pouca luz passava por entre as sombras das árvores que margeavam a rua. Continuou a sua marcha, descendo até a próxima esquina. Lá, sob a lâmpada de um poste, pôde ver os detalhes com maior clareza.

O chaveiro imitava uma bota de cowboy em tamanho miniatura. Podia ser um brinde do Beto Carreiro World ou uma lembrança de alguma etapa do torneio de rodeios. Quem sabe alguma loja de calçados ou mesmo uma refinada selaria contemplava seus clientes com estranho objeto?

Nada foi encontrado além do formato do chaveiro que pudesse fornecer maiores informações a respeito de suas prováveis origens. O trabalho de miniaturização era tão perfeito que era possível identificar o tamanho da botina. A mini-bota era número quarenta e dois, conforme a gravação na sola.

Não havia mais nada, nenhuma etiqueta, nenhum nome, nenhuma pista sobre o paradeiro do antigo proprietário. Seus neurônios fritavam numa certa convulsão epiléptica. Estava ficando maluco. Imaginava que aquela podia ser a sua grande chance que a vida gentilmente lhe ofertava e ele a deixaria escorrer por entre os dedos.

Precisava de paz, tinha tido um dia duro de trabalho, tudo o que queria era chegar em casa, deitar a cabeça no travesseiro e ter uma boa noite de sonhos. Agora, não conseguiria dormir, aquela chave representava um tormento.

Resoluto, decidiu livrar-se dela. Nem ele, nem ninguém a possuiria. Atirou a chave com bota e tudo na água que corria pelo meio-fio. Ainda pôde ver o chaveiro enroscar na entrada do bueiro, antes de desaparecer para todo o sempre.

Published in: on 2 de março de 2012 at 14:00  Comments (2)  
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PARADA SOLICITADA – CONTOS DE MARCELO AITH

Nos anos 90, dei início a uma série de contos, que ficou guardada por todo esse tempo. Aproveito a vida virtual para compartilhar o que mofava na gaveta.

PARADA SOLICITADA

 

O Rubem Fonseca era, como o próprio nome sugeria, uma fonte seca. Fora ele inteiramente devorado linha por linha, parágrafo por parágrafo. A fila do banco e a espera pela entrevista de emprego foram tempo suficiente para que eu pudesse esgotar o universo de palavras contido no livro que portava.

Recorri à revista esquecida há uma semana do fundo da bolsa. “Caros Amigos”, este era o nome da preciosidade guardada a sete chaves, num canto obscuro e que viria a me salvar do tédio. Foi um encontro daqueles, parecíamos dois velhos amigos que após anos sem se verem transbordam em emoções. Num segundo momento, percebi que a distância do reencontro nada mais era que a própria distância da amizade perdida; eu já lera as melhores matérias, restavam apenas alguns poucos artigos menores há serem lidos e que foram rapidamente checados.

A enorme sala de espera estava repleta de candidatos. Ela possuía a estrutura de uma sala de colégio: a mesa do professor à frente e as cadeiras dos alunos perfiladas. Eu já havia vencido a etapa inicial da competição, estava sentado na primeira carteira da primeira fila, aguardava ser chamado pela voz que vinha da sala ao lado, autorizando a entrada do entrevistado.

Sentadas à minha frente estavam as duas atendentes. Uma jovem de longos cabelos negros e pele extremamente branca, aparentando a menoridade, ouvia, atenta, as instruções a respeito de suas novas obrigações. Devia ser recém-contratada da agência de empregos.

Sua companheira, a que ditava ordens, era uma moça um pouco mais velha, de pele escura e formas arredondadas. A veterana estava sentindo pela primeira vez em sua curta existência a sensação de autoridade. Sempre obedecera a ordens, agora tinha alguém subordinada a ela. A mais jovem certamente não se lembraria de tudo o que lhe havia ensinado, o que renderia severa desaprovação da superiora.

Os candidatos, impelidos pelo anúncio de domingo, disputavam a vaga de atendente de telemarketing. Ao chegarem à recepção recebiam uma ficha a preencher com dados pessoais: nome, endereço, formação, atividades profissionais exercidas anteriormente…

Recebiam uma folha sulfite em branco onde, em vinte linhas, descreviam o perfil pessoal. As fichas preenchidas eram entregues às meninas da mesa em frente e encaminhadas em ordem de chegada para a sala ao lado. Os pretendentes ao posto oferecido eram ouvidos um a um, por poucos minutos.

“Operador de telemarketing, empresa de previdência privada, quinze vagas, 2º grau técnico ou superir, dispensa experiência na área, curso preparatório, boa dicção, desinibição, salário $750,00 – Comparecer nesta segunda-feira, após às 9:00 hs.”

E lá estávamos nós, disputando a chance de passar oito horas por dia, cinco dias por semana, pendurados ao telefone, invadindo a casa alheia, empurrando planos de previdência. O sonho da velhice dourada, a independência financeira assegurada no fim da vida. Nunca mais trabalhar, viver de renda após anos de contribuições ao fundo privado, fugir da seguridade social oferecida pelo Estado.

Todo ano o governo arrecadava milhões dos trabalhadores contribuintes da previdência pública. Mas para a alegria do empresariado do setor, o dinheiro sempre dava um jeito de desaparecer. Os fundos prometiam garantir uma velhice dignamente remunerada.

A infelicidade maior do aposentado é a sua falta de poder reivindicatório. Além de ter uma militância exausta pela idade avançada, atacada por reumatismos, labirintites, osteoporoses, escleroses múltiplas e cataratas; o setor dos pensionistas perde o usufruto do instrumento de greve. Quem se incomodaria com uma greve de aposentados?

-Greve geral! Vovôs cruzam os braços!

Restavam apenas as intermináveis filas dos postos de atendimento onde, desde fria madrugada, os idosos, com seus problemas respiratórios, comentavam suas desventuras, enquanto disputavam as migalhas oferecidas pelo “generoso” Estado a seus “honrados” cidadãos.

Às vezes, algum jornal mostrava a situação de miséria que é imposta a esta população “não-mais-economicamente-ativa”; ou então um grupo de senhoras em defesa da classe tentava sacudir os alicerces do poder, enchendo as galerias do Congresso Nacional, em Brasília.

A voz da sala de entrevista anunciou o nome do próximo candidato. Pelo vidro da janela, que funcionava como espelho, tentava observar os meus concorrentes. Os minutos pareciam intermináveis, qualquer movimentação era uma distração para os meus olhos que já não tinham o que ler.

Estava procurando por uma caneta para escrever desintencionadas linhas quando a porta mais uma vez se abriu. O candidato entrevistado saiu, a voz anunciou o meu nome.

-Paulo André.

Ecoou pelo ar.

Levantei-me ainda com a bolsa aberta, atrapalhadamente confuso, com o bloco de anotações e a caneta por guardar. Saí de uma inércia de mais de uma hora e pus-me a caminhar em direção ao som que me chamava.

-Boa tarde.

Cumprimentei com um aperto de mão a funcionária do recursos humanos que me entrevistaria.

-Boa tarde.

Respondeu-me.

A nova sala em nada se parecia com a de espera. Era pequena, delimitada por aquelas paredes divisórias de escritório feitas em madeira compensada e fórmica. Dentro havia espaço apenas para a minha cadeira, uma mesa e a cadeira da entrevistadora. Sobre sua mesa estavam pilhas de papéis desarrumados, um telefone e a cesta onde eram recolhidas as fichas que aguardavam seus autores. Pegou a minha.

-Pois bem, Paulo André. Como você ficou sabendo do emprego?

Perguntou-me.

-Vim pelo anúncio do jornal.

Respondi.

-Vejamos aqui a sua ficha. Solteiro, vinte e oito anos, estudante. Você estuda o quê?

-Estou cursando Filosofia.

-E por que o interesse na vaga?

-Enquanto eu não me formo, as oportunidades em minha área são reduzidas. Eu dava aulas na rede pública de ensino, mas o salário é desestimulador. Eu pretendo ir trabalhando em outras coisas até poder concluir o meu curso.

-Acredito ser bem ruim o salário de professor.

Concordou.

-Muito bem, Paulo.

Ela falou-me, encerrando a conversa.

-Nós estaremos examinando os currículos. Qualquer coisa, entraremos em contato.

-Está certo.

Respondi.

Não havia outra coisa a fazer. Levantei-me e saí.

-Qualquer coisa, entraremos em contato!

Um dia inteiro gasto em função daquela entrevista e a mulher me respondia com “-Qualquer coisa, entraremos em contato.”???

A situação do país realmente não era das melhores. Um simples anúncio de atendente de telemarketing mobilizava legiões de desempregados, muitos deles com curso superior e esperançosos por passarem a vida atendendo telefones. Ainda no hall do elevador pude ouvir a voz que chamava o próximo nome.

Enquanto descia para a rua lembrei-me de uma observação de um amigo. Ele comentava que antigamente o movimento sindicalista vinha numa linha de questionar a exploração do trabalho, lutando contra o Capital, combatendo a mais-valia; hoje, ao contrário, o operariado implorava pela exploração, a principal conquista dos sindicatos era a garantia do posto de trabalho, o trabalhador estava disputando a tapas o direito de ter a sua mais-valia extraída. Realmente, até o desenvolvido hemisfério Norte e sua cúpula, o G-7, perdem o sono debatendo as soluções para a crise generalizada e a falta de empregos que norteiam tanto as discussões dos explorados quanto dos exploradores.

Uma vez na rua misturei-me à multidão que circulava diariamente pelo centro da cidade. Dirigi-me a uma dessas tradicionais casas que vendem mate gelado. Costumava pedir a minha bebida batida com leite em pó. Tal combinação formava um líquido denso, uma espécie de cimento fresco que ao cair no estômago produzia a sensação de termos feito uma refeição completa. Com apenas o dinheiro do refresco poderia iludir a minha fome por mais algumas horas. O líquido deveria cimentar os espaços vazios de meu tubo digestivo, que era deveras sensível a grandes períodos de inanição.

A volta para casa não era das tarefas mais agradáveis, ainda mais ao final da tarde, quando milhares de pessoas desejavam dividir o mesmo espaço nos ineficientes ônibus que dominavam o transporte público da cidade. O ponto de espera estava repleto de gente cansada, ansiosa por voltar para casa. Os coletivos passavam lotados. Dentro dos veículos não havia assentos vagos, até os corredores estavam cheios, e mesmo assim os que aguardavam na calçada tentavam subir.

Foi num desses lances de sorte que o meu ônibus parou justamente com a porta de entrada à minha frente. Rapidamente escorreguei para dentro, passando entre uma velha isenta de pagar passagem e que descia pela entrada e a multidão enfurecida que forçava subida no transporte.

-O ser humano é uma espécie única.

Pensei comigo mesmo.

-Dentro os demais seres vivos intitulamo-nos de racionais, mas vejam só a nossa situação, estamos comportadamente espremidos numa caixa de metal e rodas, dividindo o mesmo metro quadrado entre cinco pessoas quando, na Natureza, entre os animais irracionais, essa hipótese não aconteceria.

-Isso mesmo, os animais ao terem seu espaço mínimo diminuído a proporções ínfimas são atingidos por um desequilíbrio que só é regulado pelo extermínio da população excedente. Migração, autofagia, redução da taxa de fertilidade, suicídio, sei lá?

-Mas os ditos animais irracionais não se acomodam. Ao socarmos vários ratos, ou galinhas, num mesmo recipiente a confusão será generalizada. Os indivíduos não se acomodarão como fazem os racionais perante uma situação crítica de falta de espaço.

Seguindo tal “irraciocínio” e cada vez mais enjoado pelo mate, puxei a campainha de descida. Sobre a porta acendeu o aviso.

-Parada Solicitada.

Estava há vários pontos de onde deveria saltar.

Completei o restante do trajeto a pé, sob o luar que crescia a cada quarteirão.