O MUNDO EM CHAMAS – CRÔNICAS MUSICADAS

Mundo em chamas

Chovia forte. O barulho no telhado abafava os gritos de dona Divina quando deu a luz ao filho de seu Pascoal. O céu parecia raivoso e povo logo se pôs a falar.

– É maldição.
Mas foi uma benção, divina inspiração. Mãe Divina trouxe ao mundo um segundo filho albino. E assim os criou, como anjos. Cabelos compridos, vestindo chambre. O camisolão alvo, os cachos pendurados. Pareciam mesmo caídos do céu. E de tão parecidos, dona Divina tinha um medo.

– São tão lindinhos que é capaz de Deus chamar logo, só pra embelezar o lar.

Quando pensava nisso era a morte. Como sofria. Aí dela se perdesse os filhos. Era tanto o medo que quando soube da passagem do famoso cangaceiro teve uma certeza.

– Se os verem, levam…

Correu para o fogão, acendeu a brasa, queimou as panelas de barro. Com o preto da fuligem sujou os anjinhos. Descabelou-os, vestiu-lhes farrapos.

Feios como a necessidade, foram três dias escondidos no meio do mato, dormindo em lombo de jumento.

Seu Pascoal a convenceu de que se tratava apenas de boatos. Trouxe-os de volta para casa, para desgosto dos meninos que sonhavam encontrar o herói tão temido. Sim, para eles o vilão era um justiceiro. Repartia os lucros, em uma terra onde a maioria mal tinha para comer. Redistribuição social na marra, como deveria ser.

Mas não foi desta vez. A infância transcorreu pacata para os garotos que não roçavam com o pai. Albinos, não podiam com o sol naquela terra onde ele parecia arder ainda mais.

Medo mesmo passavam no Reisado, quando Matheus anunciava a saída do Boi:

– Passarinho verde do Lagamar, o zoinho dele me faz chorar…

– Passarinho verde do Lagamar, o zoinho dele me faz chorar…

E lá vinha o bichão, com sua cara preta, pondo todos a correr.

O mais novo demonstrou talento, um dom sobrenatural para a música. E assim foi aprendendo com as coisas que o cercava. Passava o dia todo brincando, sem arar, sem carpir.

Cresceu solto no mato, na companhia dos pássaros, dos sapos, ouvindo, ouvindo. Fazia os próprios instrumentos, rudimentares flautas de vareta de mamona. A bicharada cantava, ele acompanhava. Um dia a mãe alertou.

– Meu pai, o menino está trazendo tudo de casa para o quarto. Está cheio de ferro lá.

O avô, ferreiro de profissão, foi checar o acontecido.

– Que é isso meu filho? Quer tomar o lugar do avô?

– Deixa disso, vô! Eu tô é tocando um negocinho que tirei de minha cabeça.

E pegou todos aqueles ferrinhos juntados cuidadosamente ao longo dos dias. Fez seu número de percussão. O mais velho também tocava. Foram os dois animar festas, tocar em feira, ajudar com o pão que não podiam ganhar na enxada.

O caminhão encostou na calçada alta da Igreja de Lagoa da Canoa. A família Pascoal saltou toda. Era dia de Festa de Pau. Árvores enfeitadas, a feira corria solta, vendendo de tudo.

E dá-lhe bolo, e dá-lhe dança e dá-lhe cachaça. Na casa em que mais juntava gente, começava tudo de novo. Cada festeiro melhor que o outro. Os meninos corriam ouvir os músicos.

Naquele tempo, sem energia elétrica, sem rádio para aprender, só mesmo escutando a música que os mais velhos traziam das cidades maiores. Vez por outra aparecia um mascate com gramofone, e fazia fila para se tocar um disco.

A coisa era tão rápida que mal dava tempo para aprender. O povão gostava do Luiz, o Gonzaga. Os meninos pediam choro. Assim aprenderam uns pedacinhos, o resto saía no improviso mesmo.

– Se você não tocar essa música eu rasgo o teu fole com a peixeira, seu galego da peste! Os meninos atendiam ao cliente impaciente. A dupla agradava, mas o estranhamento vinha do menorzinho. O albino era chamado de “senhor”.

– Seu Pascoal, o seu filho, o Hermeto, o “senhor de Pascoal”, eu não sei. O “senhor” é doido. Ele faz umas coisas, ele está tocando uma música tão bonita, de repente ele faz uns negócios lá que a gente não entende, Pascoal!

– O Zé Neto toca mais simples, não entorta harmonia.

De tanto entortar harmonia, o “senhor de Pascoal”, o Hermeto, Hermeto Pascoal e seu irmão, Zé Neto, ganharam fama. Conheceram outro albino, Sivuca, e o mundo ardeu em chamas…

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O PAI DA MOÇA – CRÔNICAS MUSICADAS

O pai da moça

O garoto assistia ao trabalho do pai. Mas, naquele dia, nada do que o velho dissesse entraria em sua cabeça dura de sertanejo.

– Veja, meu filho. As teclas, qualquer um aperta.

O pai mostrava o acordeão que estava para ser fechado. O menino ia longe.

– A alma do instrumento está aqui. É no molejo que está o segredo.

O olhar parado.

– Todo bom tocador tem é que saber é do molejo.

Fixo no infinito.

– Tá me entendendo, meu filho?

O menino voava, sonhando com o seu plano de vingança.

Januário, o pai, era exímio acertador de sanfona. Os instrumentos vinham de longe à procura de suas mãos habilidosas. Mas o filho não o escutava.

É bem verdade que muito aprendera com o pai, reconhecido talento em todas aquelas paragens do Araripe. Fora ele também quem defendera o gosto do menino pelo instrumento, enquanto a mãe, temerosa, receava pelo filho, se perderia pelo sertão em busca de festas, coisas da profissão.

Mas, naquele momento, apenas as palavras do “futuro falecido ex-sogro” ecoavam em sua mente juvenil.

– Um diabo que não trabalha, não tem roça, não tem nada, só puxando aquele fole, como é que quer se casar?

Raimundo Delgado, este era o pai de Nazinha. Latifundiário, coronel.

– Mas saiba ele que com o que eu ganho tocando já deu pra comprar o instrumento. Retrucou, rangeu os dentes, com raiva.

As palavras de Raimundo continuavam.

– É isso, mora na terra dos Aires e pensa que é Alencar.

O pai da moça, um importante da cidade, era ligado ao clã dos Saraivas, família rival da do Coronel Manuel Aires de Alencar, a quem Januário servia prontamente. Um verdadeiro “Romeu e Julieta” do agreste. “Montéquios e Capuletos” do sertão.
– Os Aires podendo tirar o couro daquele negro. Dão liberdade e agora ele quer moça branca para casar.

Januário e família não tinham grandes posses. Foram as filhas do bondoso coronel que ensinaram o menino a ler, escrever, falar e comer com modos e boas maneiras. O menino já era mesmo escoteiro, e comprara o próprio instrumento de trabalho, uma sanfona, em parte paga por Aires.

Aquelas últimas palavras foram a gota d’água. Não escutava mais nada. Ferido na vaidade, por assim dizer, resolveu tirar satisfação do acontecido. Ouvir falar pelos outros era uma coisa, ouvir falar da boca de Raimundo era outra.

Enquanto o pai continuava o trabalho de restauro, o menino saiu do barracão. Passando pela cozinha, apropriou-se da peixeira e partiu. Era domingo, dia de feira na localidade de Exu. Sabia muito bem onde encontrar o pai da moça. Antes, parou num bar.

– Cachaça.

O balconista serviu.
O primeiro copo foi logo embora, todo no primeiro gole.

– Outra.

– Tá criando coragem pra quê, meu filho?

Perguntou o “turco”.

– Vou acertar contas. Hoje, corre sangue.

No auge da mocidade, o garoto estava tomado pela valentia. Honraria o nome dos Aires, sentia-se um deles. Quando ganhou as ruas, a notícia já circulava pelo mercado.

– Tocadorzinho de merda. Dou-lhe uma surra na frente de todos, ou abro-lhe o bucho logo de uma vez?

Resmungava o pai da moça.

Uma multidão aglomerava-se, esperando pelo desfecho. O molecote de Januário enfrentaria Raimundo Delgado. Promessa de morte ao fim. Aconselhado pela assistência local, o prevenido coronel, que não estava a fim de encrenca por causa de um frangote valente.

Desconversou, deu o dito pelo não dito. Sem argumentos, o rapaz não teve por onde. Guardou o facão na cinta, e saiu cantando de galo, com a crista em pé.

– Agora, só me resta recuperar a honra de cabra macho.

O pai da moça foi queixar-se com a mãe do menino.

– Olhe, Dona Santana, eu só não matei seu filho ali mesmo, na frente de todos, em consideração ao amor de mãe que sei que toda senhora devota em Cristo, como a senhora, tem.

– Penso na dor que “mãinha” teria se ele partisse…

– E, a modo de preservar minha amizade com Januário, vosso esposo, gente de meu estimado compadre Aires, é que deixei o menino viver. Mas peço à senhora dar mais atenção na criação do rapaz, é preciso dar educação para as crianças. Não se pode deixar a cria solta, vivendo como animal no pasto, Dona Santana.

Foi o pior castigo que Dona Santana poderia receber. Humilhada, ofendida, e na porta de seu lar, não havia vergonha maior. Buscou o garrote aos safanões. Aplicou-lhe um corretivo digno do próprio termo.

Dona Santana só parou quando lhe findaram as forças e o braço já não obedecia à ira que lhe cegava as vistas. Era o fim do menino, apanhar da mãe, aos 17 anos. Vexado, sem conseguir encarar a cidade novamente, vendeu o instrumento, fugiu para a capital. Alistou-se no exército, correu mundo.

Foi graças ao pai da moça que o jovem soldado, Luiz Gonzaga do Nascimento, aportou no Rio de Getúlio. Descoberto pelo rádio, tornou-se o “Rei dos Forrós”, ensinando a todo o Brasil como se dança o baião.