LOLITAS – WMulher

LOLITAS

“Lolita, luz de minha vida, fogo de meu lombo. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO. LI. TA. Era LO, apenas LO, pela manhã, com suas meias curtas e seu um metro e quarenta e oito centímetros de altura. Era Lola em seu slacks. Era Dolly na escola. Era Dolores quando assinava o nome. Mas, em meus braços, era sempre Lolita.”

É desta forma que Vladimir Nabokov, ou apenas Nabokov, inicia sua obra mais conhecida, “Lolita”. Russo, nasceu em São Petersburgo, às vésperas da virada do século passado. Vindo de família aristocrática, teve que fugir da Revolução Bolchevique de 1917. Depois de viver na Inglaterra e Alemanha, fixou-se nos EUA, onde se naturalizou como cidadão norte-americano. Escreveu seu livro de maior destaque em 1955 e aborda o nosso tema de hoje: o desejo sexual e o amor de um homem de meia idade por uma adolescente.

Em seu prefácio, a obra alerta para o fato de que pelo menos 12% dos adultos americanos do sexo masculino desfrutam, desta ou daquela maneira, da experiência vivida pelo narrador do livro (Humbert H.), homem apaixonado, capaz de cometer os atos mais insanos para garantir seu romance com uma pequena menina.

A obra seria um alerta para a existência de tendências perigosas em nossa sociedade. Lolita deveria fazer com que os leitores (pais, mestres e educadores sociais) se dedicassem mais, com vigilância e visão, à tarefa de produzir uma geração melhor num mundo mais seguro.

O tema é atual e polêmico. Em nossos dias, é comum ouvirmos histórias reais de pais que abusam das próprias filhas. Temos “sites” especializados na divulgação de imagens envolvendo sexo (ou sexualidade, para a Pedofilia) e crianças. No Japão a indústria de produtos eróticos (ou pornográficos) oferece roupas íntimas já utilizadas por colegiais, que vêm impregnadas com os odores das moças. Mesmo próximo de nós, brasileiros, em praias Nordestinas, onde é comum a exploração de meninas de dez, doze, catorze anos pelo turismo sexual internacional, enfim, por todos os lados vemos formas de violência contra a Mulher, desde a sua mais tenra idade. O fato agrava-se ao ser ampliado para a esfera da violência contra a Infância.

Mas até onde iriam os limites da Infância, até que ponto uma moça já não é mais menina? Quando pode aparecer um sentimento de desejo em uma jovem? As perguntas prosseguem ao infinito. Existiria alguma forma saudável de cumplicidade amorosa entre um homem adulto, com sua sexualidade já desenvolvida, e uma garotinha adolescente descobrindo sua feminilidade? Esse é o drama central de nosso livro de hoje, onde o narrador sofre desesperadamente de amores pela jovem Dolores, ou simplesmente Lolita.

Tudo começa no verão de 1923, quando o então jovem Humbert conhece Annabel, sua primeira paixão. Aos treze anos de idade Humbert perde seu primeiro amor, e a fixação pela imagem da pequena Annabel iria povoar a sua mente pelo resto de sua vida. Nesta etapa da narrativa há uma relação sexual sadia, pois ambos os jovens estão explorando suas sensualidades, numa cumplicidade de descobertas.

Em sua insanidade, Humbert teoriza as origens do termo ninfeta. “Entre o limite de idade que vai dos nove aos catorze, existem raparigas que, diante de certos viajantes enfeitiçados, revelam sua verdadeira natureza, que não é humana, mas “nínfica” (isto é, demoníaca), e a essas dadas criaturas proponho designar como nymphets“. Humbert, ao atribuir à natureza da menina, uma provocação de cunho erótico, exime-se da condenação moral de seu ato libidinoso.

Aos possuidores do dom de identificar, entre as meninas de nove a catorze anos, àquelas que realmente são nymphets, dá-se o nome de nympholepts. Os atributos dos nympholepts resumem-se a distinguir as características misteriosas, a graça tresloucada, o charme indefinível, astuto, insidioso, que despedaça almas e que distingue a nymphet das demais moças de sua idade. É preciso que seja um artista e um louco, uma criatura de infinita melancolia, com um borbulhar de veneno ardente no lombo e uma chama supervoluptuosa a arder permanentemente na delicada espinha, para se discernir o contorno ligeiramente felino de um osso malar, a esbeltez de um membro pudescente, bem como outros indícios. Ela, a nymphet, passa desapercebida aos olhos dos homens comuns, sem que ela própria tenha consciência se seu fantástico poder.

O distanciamento de idades entre os amantes seria outra característica na determinação da relação nympholept-nymphet. As mulheres de sua idade não interessavam ao já adulto Humbert. Na tentativa de justificar seu raciocínio, o narrador traz uma lista de casos conhecidos da história da Humanidade, em que houve relações entre homens adultos e mulheres de oito a catorze anos. A nymphet possuiria atributos que a diferenciariam das demais moçoilas, seria uma espécie de criança-demônio. Para ele existia um primeiro estágio no desenvolvimento de uma nymphet, a fase de botão de flor do desenvolvimento dos seios, a partir dos dez anos e sete meses; outro em que ocorriam as modificações somáticas da puberdade e, finalmente, o aparecimento dos primeiros pelos púbicos pigmentados, aos onze anos e dois meses. Humbert sofria de desejos ao observar meninas em parques, saídas de escola, transportes coletivos, entre outros.

Com a possibilidade de início da segunda Grande Guerra Mundial, na Europa, Humbert muda-se para os EUA. Busca abrigo num quarto de aluguel, de uma pequena cidade do interior, na casa de Mrs. Haze. Conhece, ali, sua segunda Annabel. Uma sósia perfeita de seu primeiro amor, a filha da anfitriã, Lolita.

“Era a mesma criança: os mesmos ombros frágeis, cor de mel, as mesmas costas flexíveis, nuas e sedosas, os mesmos cabelos castanho-avermelhados.”; “Reconhecia, em seu flanco, a minúscula pinta marrom-escura. Vi-lhe de novo o encantador e retraído abdome, onde minha boca, a descer-lhe pelo corpo, pousara um momento, e aquelas ancas infantis, sobre as quais eu beijara a marca crenulada deixada pelos shorts.”. A partir desta imagem estarrecedora, o fantasma de Annabel incorpora-se na alma demoníaca da nymphet Lolita.

Mais uma vez a Vida imita a Arte. Tal como ocorreu com famoso cineasta, Humbert casa-se com a mãe, Mrs. Haze, passando de inquilino a marido, para terminar se unindo à filha, Lolita, no final das contas.

Separada de sua mãe e, após um complexo jogo de sedução, Lolita parte, levada por Humbert, por uma transloucada viagem automobilística, entre estradas e motéis dos EUA, onde você, leitor(a), será a peça chave para que nossas personagens cheguem ao seu destino final.

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Published in: on 13 de abril de 2012 at 11:12  Deixe um comentário  
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A MULHER DE TRINTA ANOS – WMulher

Além do Gafieiras, também tive uma coluna no site WMulher (www.wmulher.com.br) , onde eu escrevia sobre literatura e o universo feminino. Basicamente, resenhas de livros recomendados que remetessem de alguma forma a temas de interesse das mulheres, público alvo do site. A estreia foi com o clássico de Balzac, que toda mulher ao chegar aos 29 anos procura ler. Então vamos à série, também de 8 episódios.

A MULHER DE TRINTA ANOS

Muitos já ouviram ou usaram o termo “balzaquiana” para designar um certo tipo de mulher. Mas nem tantos, realmente, chegaram a ler “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac. O escritor francês viveu na primeira metade do século XIX (1799-1850) e é este o ambiente que encontraremos em sua obra. Mais do que um simples romance, é também uma aula de história, onde desfilam os acontecimentos de uma França pós-revolucionária, durante o governo de Napoleão Bonaparte.

O livro trata a fundo da questão do destino da mulher na sociedade e, em particular, dentro do casamento. “A Mulher de Trinta Anos” contém estudos de psicologia feminina de extrema agudeza. Sua personagem principal, Júlia d`Àiglemont, é o primeiro grande retrato da mulher mal casada, consciente da razão de seus sofrimentos e revoltada contra a instituição imperfeita do matrimônio.

Constitui uma etapa na história da emancipação feminina. Revela-nos os sofrimentos da mulher incompreendida que não encontrou no casamento a realização de seus sonhos. Balzac é um dos primeiros a focalizar o drama da incompatibilidade de casais. Prestou um serviço imenso às mulheres, ao duplicar para elas a idade do amor. Antes dele, todas as namoradas de romance tinham vinte anos. Ele prolongou até os trinta, quarenta anos, sua vida ativa, idade que considerava o ápice da vida amorosa da mulher.

No primeiro capítulo, em uma época onde nem ao menos se sonhava com o divórcio, o pai de Júlia a alerta sobre os cuidados da boa escolha de um marido: “As moças criam frequentemente nobres, arrebatadoras imagens, figuras ideais, e forjam ideias quiméricas a respeito dos homens, dos sentimentos, do mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições que sonham e nisso confiam; amam no homem de sua escolha essa criatura imaginária; porém mais tarde, quando não há mais tempo para libertar-se da infelicidade, a ilusória aparência que embelezaram, seu primeiro ídolo, enfim, se transforma num esqueleto odioso.”. Sobre o futuro genro ele conclui: “É um desses homens que o céu criou para tomar e digerir quatro refeições por dia, dormir, amar a primeira mulher que apareça e bater-se. Não entende a vida … não é dotado dessa delicadeza de coração que nos torna escravos da felicidade de uma mulher…”.

Mesmo assim nossa heroína casa-se com Vitor, oficial do exército de Napoleão, tornando-se a infeliz Sra. d’Aiglemont. Em carta para uma amiga confessa sua desilusão pelo amor: “Vais casar, Luisa. Essa ideia faz-me tremer. Pobre criança, casa-te; depois, dentro de poucos meses, um dos teus mais cruciantes desgostos será proveniente da recordação do que nós éramos outrora…”. Sobre a noite de núpcias, escreve: “Quando meu marido entrou, quando me procurou, o riso que ouvi, riso sufocado sob as musselinas que me envolviam, foi o último lampejo daquela suave alegria que animava os folguedos da nossa infância…”.

Um casamento infeliz, e uma filha. A situação de Júlia parece trágica. A descrença no amor toma conta da personagem. O marido, distante espiritualmente, mantendo relações de adultério, não mais lhe pertencia. Todos os seus sofrimentos e sacrifícios para manter a falsa união passam a ser justificados em nome da felicidade de Helena, sua filha, único bem que a prendia à vida.

A tristeza de Júlia seduz um jovem inglês. Artur, que promete o amor perfeito que seu verdadeiro marido nunca lhe proporcionara. Ambos passam a viver um amor irrealizável, o dever do casamento proíbe Júlia de concretizá-lo. “Não quero ser uma prostituta nem a meus olhos nem aos olhos do mundo. Se não pertenço mais ao Sr. d’Aiglemont, também não pertencerei a nenhum outro”. As barreiras morais da época condenam-na a infelicidade eterna.

Por insistência de Artur o “affair” continua. Podemos ver, no livro, a tradicional cena em que o amante, surpreendido pelo retorno do marido, esconde-se no armário. Mas, aqui o desfecho é trágico, chegando a ser cômico, pois para salvar a honra da amante, Artur, depois de ter os dedos esmagados pela porta do quarto de vestir, corre para o peitoril da janela e, morre congelado pelo frio da noite parisiense. O segundo amor de sua vida termina, as trevas invadem seu coração. Júlia, agora com 26 anos, não encontra alegria nem mais em sua filha.

Ela explica sua angústia: “O casamento, a instituição sobre a qual se apoia hoje a sociedade, só a nós faz sentir todo o seu peso: para o homem a liberdade; para a mulher os deveres. Devemos consagrar aos homens toda a nossa vida, eles nos consagram apenas raros instantes… o casamento, tal como hoje se pratica, parece-me ser uma prostituição legal. Daí nascerem os meus sofrimentos. Mas, entre tantas criaturas infelizes… só eu sou a autora do mal, porque quis o meu casamento.”

Ao, finalmente, chegar aos trinta anos Júlia conhece o Sr. Carlos Vandenesse, que nos introduzirá às ideias do que viria a ser considerada uma mulher experiente, uma mulher balzaquiana: “Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis para um rapaz… Com efeito, uma jovem tem ilusões, muita inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor… ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Lá onde uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas à do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe… dando-se, a mulher experiente parece dar mais do que ela mesma, ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar… Uma nos instrui, nos aconselha… a outra quer tudo aprender… Para que uma jovem seja amante, precisa ser muito corrompida, e então é abandonada com horror, enquanto uma mulher possui mil modos de conservar a um tempo seu poder e sua dignidade… A jovem… acredita ter dito tudo despindo o vestido; mas uma mulher… se esconde sob mil véus… afaga todas as vaidades… Chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer. Enfim, além de todas as vantagens de sua posição, a mulher de trinta anos pode se fazer jovem, desempenhar todos os papéis, ser pudica e até embelezar-se com a desgraça”.

A paixão passa a frequentar o coração dos dois, que se tornam amantes, sob o nariz do omisso d’Aiglemont. Júlia tem mais filhos. A trama familiar continua. Mas o fundamental é que estão lançados os fundamentos das ideias de um relacionamento moderno, que respeita o direito da mulher de ser feliz, antes mesmo da mudança nos valores impostos pela coletividade.

Agora a mulher está livre para amar a quem realmente demonstre merecedor de seu amor, está livre do estigma do peso da idade e, tudo isso se deve em parte a um nome, Honoré de Balzac. Escrito no início do Século XIX, “A Mulher de Trinta Anos” aborda temas que continuam atuais até os dias de hoje, sentimentos que não se apagam com o tempo, presentes em todas as sociedades humanas, em todos os tempos, que garantem a universalidade de sua obra. Um grande clássico da literatura. Indispensável a todos os que querem se aprofundar na compreensão do “ser mulher”!