SENHORITA STEIN – WMulher

SENHORITA STEIN

Mês de junho. Mais uma vez, a França é sede de um grande evento. A Copa do Mundo terá seu fim sob o Sol de Paris, e até lá, as TVs, as revistas, os jornais, enfim as pessoas terão apenas um pensamento: FUTEBOL. Entre uma partida e outra, ou mesmo durante as mais “tediosas”, nada melhor que estimular esta prática tão saudável que é a leitura.

O mesmo Astro-Rei que iluminará os gênios do futebol, em outros tempos clareava as ideias de grandes nomes da Humanidade, na reconhecida capital francesa, a Cidade-Luz. As manifestações de 1968 foram, entre os movimentos sediados em Paris neste século, o mais conhecido. Mas, talvez não supere em importância a menos comentada década de 1920, onde uma revolução nos valores das artes e dos costumes acontecia a olhos claros.

Paris, nos anos 20, foi abrigo de escritores, pintores, músicos, bailarinos, novos e velhos ricos, exilados da Rússia Comunista e dos Estados Unidos sob a Lei-Seca. Frequentavam seus cafés, nomes como Josephine Baker, André Breton, Stravinski, Coco Chanel, Cummings, Marcel Duchamp, Dos Passos, Isadora Duncan, Hemingway, James Joyce, T. S. Eliot, Scott Fitzgerald, Nijinski, Picasso, Cole Porter, Ezra Pound e por fim a nossa atração de hoje, Gertrude Stein.

Isso mesmo, entre um jogo aqui e outro ali, entre os comentários do último gol perdido pelo centro-avante, deem uma visitada aos livros de Gertrude Stein, em especial seu primeiro trabalho: Três Vidas.

A norte-americana foi, sem dúvida, uma das maiores escritoras de todos os tempos, símbolo maior da Arte Moderna na Literatura, e amante incondicional de Paris.

Neste livro, que data do início do século XX, Gertrude Stein iniciava sua cruzada em prol da modernização da Literatura, vindo a ser uma das mais lúcidas escritoras de vanguarda, equiparando-se a Pound e Cummings, ou mesmo, influenciando a obra de Sherwood Anderson e Hemingway. Gertrude passou a maior parte de sua vida em Paris, onde conviveu com os artistas responsáveis pelo movimento Modernista, em especial Picasso, que lhe pintou o retrato, e Matisse.

Em Três Vidas, lançou a renovação na Literatura norte-americana, com a revisão da composição verbal, introduzindo a prosa redundante e a linguagem coloquial. Este seu primeiro livro é composto por três novelas: A Boa Ana, Melantcha e A Doce Lena. É em Melantcha que podemos perceber, com mais intensidade, as características inovadoras de seu trabalho. É um marco para as letras norte-americanas, onde o estilo narrativo, através da técnica de repetição progressiva, sugere a sequencia de imagens, tal como o cinema, criando a sensação do movimento. Além disto, Melantcha, que retrata o descobrir da Vida de uma jovem, num mundo de homens, é a primeira narrativa americana em que o negro é encarado como ser humano, e não como objeto de compaixão ou desprezo.

Mais do que um livro, ou uma novela, em específico, a obra de Gertrude Stein merece ser conhecida devido a própria escritora. Uma personalidade forte, que no início deste século dirigia seu automóvel, fumava seus cigarros, e, assim como Coco Chanel, revolucionaria o comportamento das mulheres, conferindo-lhes as bases sobre as quais iria se desenrolar a emancipação feminina das décadas seguintes.

Senhorita Stein, juntamente com Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, a mais significativa livraria de Paris, foram responsáveis pela articulação do movimento Modernista na cidade. Frequentavam eventos e vernissagens, conheciam e promoviam jovens talentos, convivendo com grandes nomes da Literatura, tais como Pound, Hemingway, Sherwood e o rival James Joyce.

Apesar das severas críticas dirigidas por seus antigos admiradores e discípulos, Gertrude Stein continuou sendo uma mulher única, à frente de seu próprio tempo, símbolo vivo de uma Paris efervescente, onde explodiam o Cubismo, o Surrealismo, o Dadaísmo e as demais tendências da Modernidade nas artes. Senhorita Stein era a grande anfitriã da festa, que foi Paris na década de 1920.

Stein é mais um caso em que podemos ver a marcante presença da mulher, através dos clássicos da Literatura Universal. Nossa recomendação de leitura para o mês de Junho.

Published in: on 16 de abril de 2012 at 13:33  Deixe um comentário  
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MÃE – WMulher

MÃE

O mês de maio se aproximava e eu pensava no presente que compraria para o Dia das Mães. A minha primeira ideia, vocês vão logo entender o porquê, foi um livro de Gorki. Corri à estante e, tal como um cão farejador, apanhei o livro azul na prateleira. De posse do referido volume, chequei se a história era mesmo uma boa lembrança para a ocasião. Qual foi a minha surpresa ao perceber que, mais que um bom presente, era a minha resenha para este mês. Portanto, aí vai a sugestão: leiam e presenteiem suas progenitoras com “Mãe”, de Máximo Gorki.

O romance Mãe (1907) é considerado um de seus trabalhos mais importantes. É tido como a primeira obra do Realismo Socialista, impregnado de profundo humanismo. Uma ótima leitura para um ano de eleições, onde a mulher vem buscando cada vez mais espaço na vida política brasileira, reduto estritamente masculino, representada por Martas e Luizas, na tentativa de construção de uma sociedade mais justa e humanitária.

Gorki (1868-1936), revolucionário, frequentou as cadeias da Rússia Czarista, sendo liberto por influência do próprio Tolstói. De uma genialidade comparável a Dostoiévski, é, sem dúvida alguma, um dos maiores escritores da Literatura Russa. Deu início à linha político-social do Teatro Russo. Gorki canaliza a metafísica da dor e a caridade agnóstica-cristã-socialista (Dostoiévski e Tolstói), substituindo a exaltação do sofrimento por uma raiva instintiva e uma justificável violência. Era irmanado com a multidão e o operariado. Sua visão de proletário era romântica, apaixonada, e muitas vezes ele se deixava arrebatar, prejudicando a fluência da narração para vociferar contra burgueses, vencidos e acabados, submersos na hipocrisia de uma vida medíocre e mesquinha, assumindo uma forma de manifesto panfletário.

Sobre seu nascimento escreve: “No ano de 1868, a 14 do mês de março, às duas horas da madrugada, em consequência da predileção que tem pelas partidas de mau gosto, e ainda para completar a soma de absurdos que tem cometido em diversas épocas, a Natureza fez-me nascer com uma pincelada objetiva. A despeito da importância desse fato, não conservo dele nenhuma recordação pessoal; mas minha avó disse-me que logo que me foi conferido espírito humano soltei um grito. Quero crer que foi um grito de indignação e protesto.”

Em Mãe, encontramos a descrição de uma típica família de operários russos, que enfrentam toda a sorte de dificuldades. Logo no começo da história o núcleo familiar é abalado pela morte do chefe da família, Mikhail Vlassov, que deixa o jovem Pavel órfão. Este será o centro do romance, a relação do jovem revolucionário Pavel e sua mãe, Pelaguéa Nilovna, agora viúva.

O filho desenvolve uma estranha apatia frente aos hábitos dos demais jovens de sua idade, sua única distração eram os livros. Livros proibidos, que traziam esclarecimentos sobre a exploração do povo. Pavel passa a marcar encontros com seus amigos de militância, que sob os olhos da mãe, discursavam sobre as verdades revolucionárias.

Na primeira reunião em sua casa, Pelaguéa tem o contato inicial com o ideário revolucionário: “Para compreender o motivo por que o povo vive tão mal, é preciso ver como começaram a viver.”; “Estão certos aqueles que dizem que devemos saber tudo. Precisamos iluminar-nos com a luz da razão, para que os homens pouco esclarecidos nos vejam, temos de responder a tudo com honestidade e certeza. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira”; “Será que queremos apenas estar alimentados? Não! Nós temos de mostrar àqueles, que estão montados em nossos pescoços e que nos fecham os olhos, que estamos vendo tudo, que não somos imbecis ou bárbaros, e que não nos preocupamos só com comida; queremos viver com dignidade humana! Devemos mostrar aos inimigos que nossa vida desumana, por eles imposta, não nos impede de alcançá-los em inteligência e cultura, e até mesmo de superá-los!”

Os encontros passam a ser mais frequentes e as discussões começam a adquirir um caráter por demais violento e tempestuoso. Um número maior de pessoas passa a se reunir na casa de Pavel, que se apresentam como socialistas. Parodiando Marx, Gorki escreve: “Somos todos filhos da mesma mãe, a ideia invicta da fraternidade do proletariado de todos os países da Terra. Ela nos aquece, ela é o sol que brilha no firmamento da justiça; e este firmamento está no coração do operário, seja ele quem for, socialista ou não, nosso irmão em espírito, para todo o sempre, assim na terra como no céu.”

O movimento revolucionário passa a distribuir panfletos de conscientização aos trabalhadores e rapidamente a força da repressão recai sobre Pavel e seus amigos. No meio da noite a polícia invade a casa de Pelaguéa, levando preso um dos amigos de seu filho, ela começa a temer pelo perigo que se aproxima. Rybin, um líder mais experiente, vem para orientar o afoito Pavel e trava uma interessante discussão a respeito da visão socialista de Deus.

Pavel organiza sua primeira greve, é preso e a mãe assume as rédeas do romance, justificando desta forma o título do livro. Como a própria Pelaguéa afirma: “-Eles vão ver que mesmo com Pavel preso, a mão dele alcança longe. Vão ver!”. A mãe, com a ajuda dos socialistas, passa a distribuir os panfletos revolucionários no interior da fábrica, iniciando sua vida de militância em prol dos direitos dos trabalhadores, contra a exploração capitalista. Gorki expõe, na forma de romance, toda a teoria revolucionária socialista e o seu desenvolvimento na Rússia pré-bolchevique.

Como vimos no início deste texto, Mãe é boa pedida para o mês de maio por três motivos: trata-se de um clássico da literatura universal, e está em sintonia com um ano de eleições e com as comemorações do “dia das mães”. Para os que querem escapar dos presentes tradicionais, como chocolates e flores, nada melhor do que um bom livro para presentear esta pessoa que nos concebe a vida.

Published in: on 16 de abril de 2012 at 8:44  Deixe um comentário  
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