A SERPENTE – WMulher

A SERPENTE

Após criar o “Mundo”, Deus tirou do barro Adão. Logo depois vieram Eva e, consequentemente, Caim e Abel. Daí para frente, crescemos e multiplicamo-nos conforme recomendado por “Ele”. Está tudo escrito há séculos, histórias que quase sabemos de cor.

Mas e a serpente? O animal nocivo, peçonhento, que pôs por água abaixo os planos de aposentadoria precoce de Adão. Este gelado réptil é responsável pelo pecado original, por toda a culpa que a mulher carrega, o responsável pela nossa expulsão do “Paraíso”.

Pois bem, e se esta serpente, conselheira de Eva, não fosse realmente um animal rastejante. E se esta serpente fosse mais íntima de Eva do que a história conta. E se esta víbora fosse algo como o sentido figurado da própria irmã que Eva não teve?

Esta hipótese pode ser bem plausível. Quem nunca teve desavenças com sua irmã? Até a leitora filha única deve ter contatos, desde os tempos de escola, com amigas em crise de relacionamento com suas irmãs. É natural, não só no mundo feminino, faz parte da fraternidade. Há competição, há ciúme, há inveja, enfim…

Neste mundo fratricida ninguém melhor que Nelson Rodrigues para retratar a dura realidade, o “mundo-cão”. Estamos falando, especificamente, de “A Serpente”, sua última peça, escrita em meados de 1979. Logo depois, em dezembro de 1980, ele morreria de edema pulmonar, aos 68 anos.

Nelson tinha a escrita pulsando em sua vida. Desde pequeno, convivera dentro do ambiente jornalístico. Não só o pai como os irmãos trabalharam ativamente em diversos órgãos de imprensa, inclusive jornal de propriedade do pai. Foi ali que se iniciou, exatamente nas páginas policiais.

A fixação pela morte, as misérias humanas, o adultério e as mais vis situações do dia a dia fariam parte do universo criativo do escritor. Ao cobrir as delegacias, Nelson transformava um simples atropelamento de velhinha numa saga digna de Anatole France, diz Ruy Castro, seu biógrafo. Sua especialidade no jornal logo demonstrou ser os pactos de morte entre jovens namorados, que têm o romance desaprovado pela família.

Mas, voltemos à peça, ou ao livro. “A Serpente” é um exemplar fino, uma leitura rápida e fácil, editado pela Nova Fronteira. Trata-se de uma peça em um único ato. Sua primeira montagem estreou em 6 de março de 1980, no Teatro do Banco Nacional de Habitação (BNH), no Rio de Janeiro.

Os ensaios foram acompanhados pelo próprio Nelson, já com a saúde bastante debilitada, e contou com a presença ilustre de Gilberto Freyre em uma das noites. A direção era de Marcos Flaksman e o elenco contava com os seguintes atores: Cláudio Marzo (Paulo), Carlos Gregório (Décio), Sura Berditchevsky (Guida), Xuxa Lopes (Lígia) e Yuruah (Crioula).

“A Serpente” pode ser considerado o momento de maior radicalização da segunda fase do teatro rodriguiano. Esta etapa é marcada pelo abandono da exploração subjetiva em troca de uma observação objetiva do comportamento dos personagens. É quando Nelson mergulha profundamente na vida suburbana carioca, tanto do ponto de vista psíquico quanto social.

Fazem parte desta fase obras como “A Falecida”, “Boca de Ouro” e “Toda a Nudez Será Castigada”. Em “A Serpente” os personagens se mostram através de seus atos, nenhum deles pensa, todos agem. Sua caracterização patológica se manifesta dura e cruel. O leitor é atirado para dentro do que os próprios personagens não percebem, a verdade que acontece ao correr das páginas.

Lígia e Décio formam um casal em crise. Sua irmã, Guida, é casada com Paulo. Ambas dividem o apartamento, presente do pai. Décio enfrenta o fantasma da impotência, não consegue ter relações com a esposa, apenas com prostitutas. A separação torna-se inevitável.

Guida e Paulo têm uma vida amorosa normal, que podia ser ouvida pelas paredes do quarto da mal-amada irmã. Desesperada, Lígia só pensa em morrer. As irmãs discutem e para evitar o pior Guida resolve “emprestar” o marido, para que Lígia experimente uma noite de verdadeiro prazer.

Este estranho acordo revelar-se-ia uma história muito mais complexa. O final desta disputa entre irmãs cabe a vocês, leitoras, imaginarem. O que fariam? Como agiriam? O desfecho idealizado por Nelson Rodrigues é digno dele mesmo. Não poderíamos esperar algo melhor. Uma leitura eletrizante, instantânea, vocês não conseguirão parar de ler antes do fim. Com certeza vale a pena.

Como prova da destreza intelectual deste mestre deixo aqui registrado todos os títulos produzidos por Nelson:

Teatro: A Mulher Sem Pecado (1941); Vestido De Noiva (1943); Álbum De Família (1946); Anjo Negro (1947); Senhora Dos Afogados (1947); Dorotéia (1949); Valsa N.º 6 (1951); A Falecida (1953); Perdoa-Me Por Me Traíres (1957); Viúva, Porém Honesta (1957); Os Sete Gatinhos (1958); Boca De Ouro (1959); Beijo No Asfalto (1960); Otto Lara Resende Ou Bonitinha, Mas Ordinária (1962); Toda Nudez Será Castigada (1965); Anti-Nelson Rodrigues (1973) e A Serpente (1979).

Romances: Meu Destino É Pecar (1944); Escravas Do Amor (1944); Minha Vida (1946); Núpcias de Fogo (1948); A Mulher Que Amou Demais (1949); O Homem Proibido (1951); A Mentira (1953); Asfalto Selvagem (1960) e O Casamento (1966).

Contos: Cem Contos Escolhidos: A Vida Como Ela É (1961); Elas Gostam De Apanhar (1974)

Crônicas: Memórias De Nelson Rodrigues (1967); O Óbvio Ululante (1968); A Cabra Vadia (1970); O Reacionário (1977).

Novelas em TV: A Morte Sem Espelho (1963); Sonho de Amor (1964); O Desconhecido (1964).

Filmes: Somos Dois (1950); Meu Destino É Pecar (1952); Mulheres e Milhões (1961); Boca De Ouro (1962); Meu Nome É Pelé (1963); Bonitinha, Mas Ordinária (1963); Asfalto Selvagem (1964); A Falecida (1965); O Beijo (1966); Engraçadinha Depois Dos Trinta (1966); Toda Nudez Será Castigada (1973); O Casamento (1975); A Dama Do Lotação (1978); Os Sete Gatinhos (1980); O Beijo No Asfalto (1980); Bonitinha, Mas Ordinária (1980); Álbum De Família (1981); Engraçadinha (1981); Perdoa-Me Por Me Traíres (1983) e Boca De Ouro (1990).

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Published in: on 17 de abril de 2012 at 13:38  Deixe um comentário  
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AS MULHERES DE BUKOWSKI – WMulher

AS MULHERES DE BUKOWSKI

Quando fui convidado para escrever sobre literatura para o WMULHER tinha um objetivo em mente, escrever sobre a Literatura Universal, tomando por base livros que abordassem questões referentes às mulheres, objeto de estima e admiração, por suas qualidades e contradições, e tema central deste SITE.

A primeira obra escolhida não foi por acaso. O título “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac, retratava uma situação comum a um grande número de mulheres, o drama do casamento infeliz. O trabalho prosseguiu, analisamos a obra de Nabukov, “Lolita”, que tratava do amor entre um adulto e uma criança. Passamos por “Mãe” de Gorki, e depois Gertrude Stein, talvez uma das maiores escritoras deste século.

Continuando nesta linha de trabalho, e aproveitando o clima descontraído das férias, estudaremos um exemplar muito sugestivo. Nada melhor que escrever para o WMULHER sobre “Mulheres”, de Charles Bukowski.

Bukowski, escritor norte-americano, teve sua obra valorizada na rebeldia da década de 70. Adotado pela geração flower-power, despontou com sua literatura ácida, que retrata, de forma nua, as relações de sua sociedade. A obra de Bukowski é toda ela recheada de traços autobiográficos, apesar de sua advertência introdutória que diz: “Este romance é obra de ficção e nenhum personagem pretende reproduzir pessoas ou combinações de pessoas vivas ou mortas.”

Henry Chinaski, o personagem central do livro, em muito se parece com o autor, o sobrenome (Bukowski-Chinaski), a profissão (ambos eram ex-funcionários dos Correios e tentavam sobreviver de literatura) e o método de trabalho, como podemos ver nas próprias palavras de Chinaski: “Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de meias-cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixara uma meta de até dez páginas por noite, mas nunca sabia, até a manhã seguinte, quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, ia até a sala e conferia no sofá quantas folhas tinha ali… Claro que o trabalho de cada noite tinha que ser desbastado ou tinha que ser jogado fora. Gastei vinte e uma noites pra escrever meu primeiro livro.”

O próprio Bukowski vivia um universo semelhante ao de seu personagem. Ébrio convicto, com certeza passou por situações semelhantes, se não idênticas, às descritas em seus livros. A obra de Bukowski, se torcida, talvez pingue álcool. Seus livros cheiram a vinho barato e são povoados por prostitutas decadentes. Muitos críticos chegam até mesmo a desconsiderar seu valor literário, não o classificando no hall dos mestres da escrita.

Mas é, justamente, esse caráter underground que o destaca dos demais escritores de seu tempo, transformando-o num CULT, e que faz de seu livro “Mulheres” uma boa sugestão de leitura para as férias de julho.

“Mulheres” começa com a seguinte frase: “Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher.” Nosso personagem, o poeta Henry Chinaski, vai descrever sua vida amorosa, seus problemas com o sexo e sua visão sobre o ser feminino. Através deste livro poderemos desfrutar de novas formas de compreender a mulher, sob a óptica de uma mente masculina bem específica, que é o pensamento Bukowskiano.

Para quem busca a compreensão dos tipos humanos, este livro é um prato cheio. Ele nos apresenta indivíduos comuns, que realmente possam existir, mostra-nos relações diárias entre as pessoas, em especial as relações carnais entre homens e mulheres.

Gostaria apenas de acrescentar algumas passagens deste livro, para que os leitores mais pudicos tenham a chance de escapar das palavras de Bukowski. Aos que tiverem coragem, e estômago, uma boa leitura. A diversão é certa!

Sobre o despestar

“Botei uma camisa, uma calça, …, corri pro banheiro e vomitei. Tentei escovar os dentes, mas só consegui vomitar de novo. … -Você tá mal – disse Lydia. -Quer que eu saia? -Não, não, eu tô legal. Sempre acordo desse jeito.”

Sobre mulheres

“-Por que é que escreve sobre mulheres daquele jeito? -Que jeito? Você sabe. Não sei não. -Ora, eu acho uma vergonha um cara escrever tão bem como você e não saber nada sobre as mulheres. Não respondi.”

A matraca

“Glendoline puxou uma cadeira e começou a falar. E como falava. Se fosse uma esfinge, ia falar, se fosse uma pedra, ia falar. Quando é que ela vai se cansar e sair, fiquei pensando. Mesmo quando parei de escutar, era como se eu estivesse sendo bombardeado com minúsculas bolinhas de pingue-pongue. Glendoline não tinha nenhuma noção do tempo e não se tocava que podia estar incomodando. Ela falava, falava.”

Sobre si mesmo

“Lá estavam as cicatrizes, o narigão de alcóolatra, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas; e lá estava o sorriso burro e satisfeito de um homem feliz, ridículo, que se sente um sortudo, e nem sabe por quê. Ela tinha 30 e eu mais de 50. Não me importava.”

As referências sexuais são freqüentes, descrevendo cenas de sexo de forma mais que explícita. Cabe agora a vocês, meus caros leitores, a decisão, ou não, de prosseguirem com a leitura das palavras de Henry ‘Bukowski’ Chinaski.