O CAMINHO DO AÇO (2004)

O CAMINHO DO AÇO (2004)

O Caminho do aço é um documentário que conta a história da siderurgia no Brasil. Para entender esta história tive que fazer o curso “siderurgia para não siderurgistas” promovido pela Associação Brasileira de Metais.

Além da parte técnica sobre como se produz o aço, também fui buscar a presença do aço na história do Brasil. O roteiro é construído unindo a evolução das formas de fazer o aço à evolução política e econômica brasileira.

Uma rápida abertura contextualiza o uso do ferro nos primórdios da humanidade. A Idade do Ferro começa 3.500 anos atrás. Dominar a técnica de manipular o metal significava o sucesso de uma civilização sobre outra que não a dominasse.

Partindo deste preceito, dominar o ferro e posteriormente o aço torna-se um elemento fundamental para a solidificação do Brasil como uma nação independente. E é esta a história que o documentário investiga.

O descobridor português, ao chegar à costa brasileira, encontra índios ainda na idade da pedra. Nossos primitivos habitantes não dominam o trabalho de metais, para decepção do conquistador.

O primeiro documento histórico utilizado pelo programa é uma carta do Padre Anchieta que, cheio de esperança, acredita que logo os portugueses encontrarão metais no interior do continente e com isso os recursos para catequisar os índios.

Afonso Sardinha parte em busca desses metais e na região de Araçoiaba cria a primeira forja catalã, em 1587. Nos séculos seguintes, pequenas forjas se espalham pelo território brasileiro, fabricando os apetrechos como machados e enxadas necessárias para a colonização.

Por esse processo, minério de ferro e carvão vegetal são aquecidos numa espécie de churrasqueira. O calor faz com que o carbono do carvão se funda ao ferro, produzindo a liga chamada ferro-gusa, uma liga de ferro-carbono com 4,5% de carbono.

O aço trata-se do mesmo material, mas o teor de carbono não pode ultrapassar 2% para que mantenha suas propriedades de maleabilidade e resistência.

O próximo documento-chave na evolução da siderurgia brasileira foi o edital de D. Maria, de 1785, proibindo a existência de fábricas em toda a colônia. Portugal não queria ver o desenvolvimento autônomo do Brasil, que deveria manter-se dependente da Metrópole.

D. João, ao assumir o trono, revoga a proibição de sua mãe, mas o desenvolvimento de uma verdadeira siderurgia nacional só viria mais tarde. Em 1808 a corte portuguesa, ameaçada pela invasão napoleônica, é obrigada a deixar Portugal e se fixar na colônia. Agora sede do Reino, é preciso desenvolver o Brasil.

Em 1811, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, localizada próxima aos primeiros fornos de Afonso Sardinha, torna-se o primeiro complexo siderúrgico no Brasil. D. João traz técnicos da Europa e monta ali os primeiros altos-fornos, um avanço tecnológico considerável sobre as antigas forjas catalãs.

Uma carta de Barão de Mauá é o próximo documento escolhido para ilustrar o programa. Mauá viaja à Inglaterra em 1840 e fica maravilhado com a revolução industrial, o uso do ferro e do vapor. Em seus escritos fala do sonho de implementar um parque similar no Brasil, mas as nossas elites enxergam o país como um exportador agrário e Mauá fracassa.

Até o inicio do século XX não há grandes avanços na fabricação do ferro e do aço no país. Empresas de capital estrangeiro atuam no Brasil no intuito de exportar o minério de ferro enquanto o país importa o metal já manufaturado. A Crise de 1929 derruba a economia do café, mostrando a necessidade urgente do Brasil deixar de ser agroexportador.

Na luta por um projeto de nação, Monteiro Lobato clama pela instalação de uma indústria siderúrgica 100% nacional. É dele um artigo no jornal O Estado de São Paulo escolhido para ilustrar o momento crucial por qual passávamos.

O grande passo no sentido de termos uma siderurgia brasileira vem na Era Vargas. Com o inicio da Segunda Guerra, Getúlio toma uma posição ambígua, aproximando-se da Alemanha. Interessado no apoio brasileiro e no uso da base de Natal, o presidente americano firma acordo com Vargas, liberando os recursos para criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda.

É um novo avanço tecnológico, agora utilizando o carvão mineral no lugar do carvão vegetal em seus altos-fornos, mas que ainda não atende a todas as necessidades de consumo de um país que cresce e se urbaniza.

O programa então busca as memórias de Juscelino Kubitscheck, onde o presidente fala da autonomia da indústria siderúrgica nacional. Sua maior obra, Brasília, ainda é construída usando material importado. Em seu governo surgem a Usiminas e a Cosipa, além da ampliação da CSN.

Durante o período da Ditadura Militar, no milagre econômico dos anos 70, acontece a atualização tecnológica do parque siderúrgico brasileiro, com a instalação de modernos equipamentos, como os conversores LD e o lingotamento contínuo.

Com a recessão pós-milagre a indústria siderúrgica sofre com o crescente endividamento das empresas do setor, que são obrigadas a manter preços tabelados numa tentativa do governo em frear a inflação. Em greve, a CSN é ocupada por 800 homens e tanques do exército, com um saldo de três metalúrgicos mortos e quarenta feridos.

No período Collor-FHC acontece a privatização do setor, cercada de polêmicas, em leilões tumultuados, com agressões aos investidores por parte da militância contrária. O documentário encerra com o discurso otimista de crescimento da então Ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff e a fala do Presidente Lula elogiando os esforços de Vargas, o entusiasmo de JK e a visão de longo prazo dos militares.

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A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A Guerra dos Paulistas é um documentário que conta a história da Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo rebela-se em armas contra o governo de Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

Foi um dos mais bem elaborados documentários que tive a oportunidade de participar. Estive em centros de documentação de São Paulo, Santos, Praia Grande, Campinas e Rio de Janeiro. Colaboraram com as pesquisas, enviando imagens, acervos do Paraná e de Minas Gerais.

Houve uma dupla direção. Luiz Bolognesi dirigiu a parte histórica, com as entrevistas e imagens de época. Laís Bodanzky dirigiu a parte ficcional, em película super 8, com a história de três personagens que participam dos combates pelo lado paulista, costurando as partes documentais.

Para entender a guerra que envolveu mais de 200 mil homens, artilharia pesada, combates aéreos e navais, com o bombardeio de grandes cidades é preciso retroceder até a República Velha.

As elites cafeeiras dominavam o cenário político, com eleições forjadas, onde apenas 5% da população votavam. Os partidos republicanos paulista e mineiro alternavam-se no poder, na chamada política do café com leite. O governo cuidava para os lucros certos, comprando estoques e se necessário queimando café ou jogando-o ao mar, para garantir preço no mercado. Era o auge do coronelismo e do voto de cabresto.

O Brasil transformava-se, cresciam a imigração, a urbanização e a industrialização. O movimento operário era tratado como caso de polícia, com forte repressão. A classe média, sem representação política, encontrava-se estrangulada economicamente. Seguir a carreira militar era uma opção, e o Tenentismo apresentava-se como o movimento que clamava pelas mudanças modernizantes. Os quarteis, com o apoio das ruas, levantaram-se e depuseram o presidente Washington Luís. A Revolução de 1930 botava fim à República Velha e levava Getúlio Vargas ao poder.

Em São Paulo, o Partido Democrático que havia apoiado Getúlio Vargas esperava que Francisco Morato fosse nomeado governador. Porém, Getúlio nomeia o tenente pernambucano João Alberto para o cargo de interventor do estado. Já de início, João Alberto autoriza comício do Partido Comunista, determina um aumento salarial de 5% e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Distribui as terras de cafeicultores endividados com bancos para os tenentes rebelados e dá cargos públicos para militares de outros estados. Em um São Paulo ocupado, soldados tomam produtos e serviços sem pagar por eles, em nome da Revolução.

O sentimento de revolta nasce com o clamor por um Congresso Constituinte. Em 1931, o jornal O Estado de São Paulo pressiona Vargas para que seu governo revolucionário providencie eleições e uma nova constituição. Em crítica aos paulistas, Vargas afirma que a máquina republicana ainda manipularia os resultados.

Os alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco passam a coordenar comícios contra Getúlio. João Alberto responde com prisões, destruição de jornais oposicionistas e, preventivamente, desarma os quartéis paulistas. As pressões por eleições chegam até o Rio de Janeiro e para ganhar tempo Vargas decide trocar João Alberto pelo Coronel Rabelo.

No início de 1932, o Partido Democrático rompe de vez com Getúlio e se une ao Partido Republicano Paulista, formando a Frente Única. Adotam a imagem do Bandeirante Paulista como ícone do movimento contra o governo federal. Militares incomodados em ver tenentes mandando mais que generais, começam a articular uma reação.

Em São Paulo, o General Isidoro Lopes e o Coronel Euclides Figueiredo entram em entendimento com o General Bertoldo Klinger, do Mato Grosso. Planejam um ataque ao Rio de Janeiro para depor Vargas. Klinger, trazendo 5 mil soldados e pesada artilharia, encontrar-se-ia com 10 mil homens das tropas paulistas no Vale do Paraíba. Contavam ainda com promessas de apoio de Flores da Cunha, que enviaria tropas do Rio Grande do Sul, e com o apoio de Oligário Maciel, que enviaria tropas de Minas Gerais.

Em 22 de maio, estudantes paulistas invadem cinemas e a rádio Record, convocando a população à resistência. Promovem discursos em frente aos quartéis. Animados, resolvem atacar a sede do movimento tenentista, na Praça da República. Sem conseguir entrar pela porta, os estudantes instalam escadas para subirem até o escritório no quarto andar. Armados, os tenentes resistem. A troca de tiros perdura madrugada adentro. O 23 de maio amanhece com quatro jovens mortos: Miragaia, Martins, Dráuzio e Camargo.

Surge então a associação M.M.D.C., com o intuito de organizar a guerra contra Vargas. A ideia é atacar no 14 de julho, dia da Revolução Francesa. Vargas se antecipa e demite o general Klinger, no Mato Grosso. Em São Paulo, o General Isidoro Lopes decide iniciar o movimento no 9 de julho.

Civis tomam as rádios e os telégrafos de São Paulo, convocando a participação de todo o estado. Os jornais conclamam os jovens a voluntariarem-se. A Força Pública, polícia militar da época, também adere ao movimento. Trens partem com tropas para a Serra da Mantiqueira, meio caminho para o Rio de Janeiro.

Os paulistas posicionam suas tropas no túnel da Central do Brasil, na divisa entre São Paulo e Rio, e nas escarpas da Serra da Mantiqueira. Aguardam as tropas de apoio de Minas Gerais do Rio Grande do Sul. Demitido na véspera, Klinger chega sem os prometidos reforços de 5 mil homens e artilharia.

O ex-interventor João Alberto, agora chefe de polícia no Rio de Janeiro, manda prender todos os apoiadores paulistas na capital federal. O general Góes Monteiro lidera a reação federal. Getúlio Vargas convence Flores da Cunha e Olegário Maciel a mudarem de lado, as tropas prometidas realmente chegariam, mas para combater os paulistas. Navios de guerra partem da Guanabara em direção à Santos, onde farão um bloqueio naval que impedirá a circulação de mercadoria e armas.

Em 13 de julho acontece o primeiro combate, uma tropa federal enviada por terra encontra-se com os paulistas em São José do Barreiro e são trocados os primeiros tiros. Logo em seguida, as tropas mineiras sob o comando do Coronel Eurico Dutra entram em combate com os paulistas do alto da Mantiqueira, em quatro dias de combates violentos.

Em 15 de julho, tropas paulistas conseguem deter fuzileiros navais que, aportados em Paraty, subiam em direção a Cunha. Na frente sul, os paulistas são atacados em Itararé, onde aguardavam o encontro amistoso com as tropas gaúchas. Fogem sem impor resistência, posicionando-se em Buri. Após um mês de guerra, a situação paulista não é confortável.

Do lado de São Paulo são 12 mil soldados da Força Pública, 3.600 soldados do Exército e 45 mil voluntários civis sem treinamento militar. Possuem 25 mil fuzis e munição para apenas 5 tiros por dia. A aviação paulista tem 6 aviões. As tropas federais contam com mais de 200 mil homens, vindos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Estados do Nordeste. Possuem farta munição, artilharia pesada, navios de guerra e mais de 50 aviões.

Jornais e revistas locais fazem propaganda dos avanços paulistas, dizendo que as derrotas dão boatos de traidores. Getúlio fomenta pelo Brasil que os paulistas rebelados são separatistas, liderado por italianos comunistas. Panfletos são lançados por aviões nos dois lados das fronteiras.

Mulheres e crianças se envolvem no esforço de guerra paulista. Fábricas de utensílios domésticos passam a produzir capacetes e armamentos. Uma campanha pedindo ouro para a revolução toma até alianças de casamentos. São Paulo constrói um temido trem blindado.

No final de agosto, a guerra está confinada a seis frentes de trincheiras. Em 3 de setembro, hidroaviões bombardeiam o Forte de Itaipu, na Praia Grande. Dias depois, o alvo é a central Elétrica de Cubatão, que abastecia a energia de São Paulo.
Em setembro, após feroz resistência, cai a trincheira de Buri. As tropas federais também se aproximam de Botucatu e começa um cerco à Campinas. A cidade é atacada por aviões, que lançam bombas de 40 kg.

O pânico de um futuro ataque toma conta de São Paulo. A aviação federal bombardeia o Campo de Marte. Em 12 de Setembro finalmente cai a resistência no túnel da Mantiqueira, e a cidade de Cruzeiro é tomada. A resistência recua para Aparecida do Norte.

Em 29 de setembro, Klinger escreve à Getúlio pedindo uma deposição de armas de ambos os lados. O General Góes Monteiro exige uma rendição paulista. Em 2 de outubro, o coronel Herculano de Carvalho retira os 12 mil homens da Força Pública do combate. O coronel Euclides Figueiredo tenta levar seus homens para o Mato Grosso, usando o trem blindado, mas um cerco em Jacareí faz com que a tropa se disperse. As lideranças paulistas são presas, levadas a um navio presídio e enviadas ao exílio em Lisboa.

Fracassada a tentativa de derrubar Getúlio à força, os paulistas teriam uma breve vitória política. O tema constitucionalista agora era um assunto nacional e Vargas é obrigado a convocar as eleições constituintes. A nova constituição é promulgada em 1934, mas dura pouco. Em 1937 Vargas a anularia, decretando o Estado Novo e se impondo como ditador até 1945.

RENATA (2002)

RENATA (2002)

O documentário Renata é uma vídeo-biografia da nadadora santista Renata Agondi, morta aos 25 anos, ao tentar atravessar a nado o Canal da Mancha. É uma adaptação do livro Revolution 9, de Marcelo Teixeira, dirigida por Rudá de Andrade. A narrativa é baseada na leitura do diário da jovem, iniciado aos 8 anos de idade.

Renata nasce em 1963, e cresce junto com os Beatles. Essa relação afetuosa da garota com seus ídolos acompanha toda a sua breve vida, através de observações sentimentais em seu diário.

Em 1971, o pai é transferido de emprego para o Rio de Janeiro e Renata descobre a natação treinando pelo Fluminense, clube que teve a hegemonia da natação carioca. Renata começa a colecionar títulos.

Paralelamente a história da esportista, acompanhamos os questionamentos existenciais de Renata, através de Ester Góes, que narra passagens do diário. O caderno de memórias é sua válvula de escape para a realidade.

Para cobrir os trechos introspectivos, Rudá escolhe trechos de cinema mudo de Georges Méliès. Em outros momentos são usadas animações, fotos, recortes de jornais e até mesmo imagens em VHS que mostram a evolução da atleta.

Angustiada com a adolescência, deslocada do mundo, Renata larga as piscinas e dedica-se à leitura, ao violão e à busca de um amor como o que nutre pelos Beatles, para dar razão a sua vida.

O pai é transferido de volta para Santos, na época em que a jovem chega ao vestibular. Passa a trabalhar em uma loja de piscinas pré-fabricadas e a cursar a faculdade de comunicação social, onde convive com a agitação da política estudantil durante a abertura e redemocratização.

Na faculdade, participa de uma disputa aquática, e decide retornar aos treinos em 1982, competindo pelo Clube Saldanha da Gama. Nos treinos se apaixona por José Ricardo Dutra, ela com 20 anos e ele com 16. Juntos passam a competir e ganhar muitas competições em piscina e travessias em águas abertas.

Aos 22 anos estão noivos e disputando grandes distâncias em mar. Renata e Dutra saem do Saldanha da Gama e passam a competir pela equipe da Universidade Santa Cecília, crescente força da natação santista da época.

Em 1986, Renata parte para a Itália, para disputar uma das provas mais conceituadas do calendário internacional, a travessia Capri-Nápoles, de 33 km de mar. Uma prova de 9 horas, num mar de 19°C, enfrentando águas-vivas, ondas e ventos.

Renata chega com um excelente tempo, em 2º lugar na categoria feminina e em 5º lugar na classificação geral. É recebida com palmas, flores, cobertor e oxigênio. Torna-se a primeira brasileira a obter destaque em competições internacionais em águas abertas.

Ainda disputaria a Volta do Imperador, também com destaque. E repetiria as competições internacionais na Itália no ano seguinte.

Em 1987, Renata acumula 238 medalhas e 40 troféus. Confusa com a aproximação do casamento, Renata rompe o noivado e termina a relação com Dutra.

A nadadora se associa a treinadora Judith Russo e partem para uma nova viagem para a Europa em preparação para um novo desafio: a travessia do Canal da Mancha. Participa das principais provas da Itália e vai a Dover, na Inglaterra, para a tentativa da perigosa travessia.

O Canal da Mancha foi percorrido a nado pela primeira vez no final do século XIX, em quase 22 horas de percurso. Sua travessia é dificultada pelas baixas temperaturas, entre 12°C e 17°C, pelas rápidas mudanças climáticas, pela presença de manchas de esgoto e de óleo, por águas-vivas e por mais de 400 navios que cruzam diariamente o trajeto.

Renata participa de uma prova de revezamento, com outros cinco atletas, para reconhecimento do mar. Na véspera da travessia, o piloto de sua embarcação desiste de guiá-la.

Com uma tripulação desconhecida, Renata larga às 7:20 da manhã de 23 de agosto de 1988, impondo um ritmo inicial de 80 braçadas por minuto. Com cinco horas de prova, já percorreu metade da prova, mantendo o ritmo de 72 braçadas, e uma estimativa de término com 9 horas de mar.

Neste ponto, o barco parece guiar Renata por um rumo inadequado, e a nadadora passa a enfrentar marés e correntes opostas. A treinadora Judith discute com a tripulação. Após 10 horas de prova, sem alcançar o continente, Renata já não nada tão rápido.

Com 10 horas e 45 minutos de prova a equipe de bordo lança uma boia na água para recolher a nadadora do mar. Sem entender o que acontece, Renata se recusa a sair da água e se distância da embarcação.

A equipe então aciona a Guarda Costeira para o resgate da atleta. Retirada do mar a 7 km da chegada, Renata é levada de helicóptero para Calais, mas morre de exaustão e hipotermia antes de chegar ao hospital. Após 5 anos de processo, piloto e co-piloto da embarcação pegam 6 meses de prisão.

A imagem final do documentário é a emocionante chegada de Dilza Damas, que inspirada na história de Renata, é a primeira brasileira a completar a travessia do Canal da Mancha, após pouco mais de 19 horas de prova, em 1992.

SEGUIDORES DA GLÓRIA (2002)

SEGUIDORES DA GLÓRIA (2002)

Seguidores da Glória é um documentário que aborda a Fé Bahá’í. Esta religião surge na Pérsia, atual Irã, na metade do século XIX. Para os Bahá’ís todos os fundadores das grandes religiões: Krishna, Buda, Zoroastro, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé são educadores divinos enviados por um Deus único, que trazem leis e ensinamentos para cada um dos estágios evolutivos da humanidade. Os Bahá’ís incluem à lista os nomes de Bab e de Bahá’u’lláh, totalizando 9 mensageiros divinos vindos à Terra até o momento.

Entre os principais preceitos da Fé Bahá’í está a cresça no Deus único, independente dos diferentes credos, o amor e a unidade da raça humana. Querem um mundo sem fronteiras entre Estados, aceitam a diversidade das culturas, pregam o fim de barreiras políticas e econômicas com a presença de cidadãos planetários com igualdade de direitos e oportunidades.

A origem desta religião está associada à Bab, que nasce em Shiraz em 1819. Em 1844, Bab revela ser um mensageiro de Deus enviado à Terra para preparar a humanidade para a chegada de um mensageiro ainda superior. Neste mesmo dia, era realizada nos EUA a primeira transmissão telegráfica do mundo com a mensagem: “what hath God wrought”, ou “eis o que Deus realizou”.

O movimento Babista foi perseguido pelo clero islâmico. Bab foi preso e depois executado em 1850. Mais de 20 mil seguidores foram massacrados na Pérsia. Em 1863, seu discipulo Bahá’u’lláh proclama-se o mensageiro revelado por Bab. Bahá’u’lláh também foi perseguido, preso e enviado para o exílio, passando por prisões em Bagdá (Iraque) e Akka (Haifa, Israel).

Bahá’u’lláh passou 40 anos prisioneiro e indicou em Haifa, no Monte Carmelo, o local para a construção do túmulo de Bab. Na prisão, Bahá’u’lláh escreveu insistentemente a governantes e soberanos das nações do todo o mundo, pedindo atenção aos súditos e proclamando a paz mundial.

Em 1892, Bahá’u’lláh morre nas proximidades da cidade e Haifa passa a ser a sede mundial da religião Bahá’í. Em 1953, dá-se início a construção do atual mausoléu de Bab. Em 2001, é inaugurado um monumental jardim com 19 terraços ao longo do Monte Carmelo, tendo o domo de Bab ao centro, num custo de US$ 250 milhões.

Outra figura importante destacada no documentário é a poetisa Tahirih, também nascida na Pérsia, em 1817, e uma das primeiras seguidoras de Bab. Tahirih levantou a bandeira da igualdade entre homens e mulheres e foi apedrejada por isso. Em uma de suas palestras, ousou tirar o véu em público, o que provocou o suicídio imediato de um homem que presenciou a cena. Presa, acabou executada em 1852. Até hoje, a religião Bahá’í é perseguida no Irã.

No Brasil, os Bahá’ís chegaram em 1921. Como pesquisador, levantei as filmagens de uma viagem missionária Bahá’í pela Amazônia, realizada em 1975. A viagem parte da Venezuela, envereda na Amazônia brasileira e atinge as terras altas da Bolívia e Peru, até as nascentes do rio Amazonas, percorrendo 6 países em 13 mil quilômetros.

Durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, os Bahá’ís patrocinaram um monumento de autoria de Siron Franco, com terras de 50 países e a palavra Paz gravada em mais de 40 idiomas. O documentário mostra o trabalho dos Bahá’ís em São Paulo, Porto Feliz e Mogi Mirim. Também foi entrevistado um cacique de uma tribo na Bahia que profere a fé Bahá’í.

A Fé Bahá’í chegou ao século XXI com 7 milhões de seguidores, sendo 2 milhões na Índia. No Brasil são 50 mil. Podem não ser muitos, mas se fazem presentes em quase 200 países, só perdendo para o cristianismo em difusão.

Outros princípios importantes para os Bahá’ís são a educação e a ciência. Uma das profecias de Bahá’u’lláh é que todo o conhecimento humano caberá num grão de areia, e o chip de silício dos computadores pode ser a realização do fato. Para os Bahá’ís religião sem ciência é superstição e ciência sem religião é materialismo, e a fé e a ciência devem caminhar lado a lado.

Outras características da religião são a ausência de um clero, valorização da consulta aos membros da comunidade, recusa ao culto de imagens e repúdio ao uso de armas, bebidas alcóolicas e drogas.

AI-5, O DIA QUE NÃO EXISTIU (2001)

AI-5, O DIA QUE NÃO EXISTIU (2001)

AI-5 é um documentário que tem sua origem num fato curioso. A recuperação das notas taquigráficas da última sessão da Câmara dos Deputados, antes de sua dissolução pelo famigerado Ato Institucional que jogou o país em definitivo nas trevas da Ditadura.

Em 12 de dezembro de 1968, a Câmara através de uma votação, não permitiu a licença que o Governo queria para processar o Deputado Márcio Moreira Alves, por um discurso que este fizera, denunciando os desmandos militares.

No dia seguinte, o Presidente Costa e Silva baixou o decreto que lhe concedia amplos poderes, tais como fechar o Congresso, Assembleias e Câmaras. Poderia suspender poderes políticos por 10 anos ou mesmo caçar mandatos.

O documentário irá investigar os antecedentes de como chegamos a esse ponto negro do totalitarismo brasileiro.

Como pesquisador, tive acesso aos discursos dos deputados em defesa da liberdade de expressão na tribuna da Câmara, e também tive acesso à um áudio gravado pelo SNI, com a reunião do Conselho de Segurança Nacional, onde Presidente e Ministros decidiram por jogar o país na obscuridade de uma vez por todas.

Para este programa foram ouvidas personalidades como Boris Fausto, Kurt Mettenhein, Jarbas Passarinho, Mário Covas, Wladimir Carvalho, Marcos Santilli, Julia Steinbruch, Rubem Azevedo Lima, Lauro Leitão, Michel Temer e Geraldo Freire.

As notas taquigráficas desaparecidas do acervo da Câmara passaram anos sob a guarda de uma funcionária que temia sua destruição pelos militares. Somente no século XXI, já com a reabertura e a democracia consolidada é que a documentação foi devolvida.

A partir da transcrição dos discursos, a equipe da TV Cultura reconstituiu com atores a fatídica sessão que culminaria no decreto do AI-5.

O documentário mostra a crescente supressão dos direitos implementada pelos militares pós-64, bem como o incremento dos protestos por liberdade por parte dos estudantes, trabalhadores e da classe artística.

O ponto alto que leva Márcio Moreia Alves a proferir seu discurso contra os militares foi a invasão da Universidade de Brasília, por tropas do exército.

A deputada Julia Steinbruch, com a tribuna vazia, lê um manifesto de repudio à violência com que o poder público reprime as manifestações estudantis em todo o Brasil, comparando o regime de prisões arbitrárias e assassinatos à Alemanha às vésperas da ascensão nazista de Hitler.

Em seguida, num parlamento ainda vazio, Márcio Moreira Alves pede aos estudantes que boicotem o desfile de 7 de Setembro. Para seu azar, Rubem Azevedo Lima publica notícia de seu discurso, despertando a ira dos militares, que pedem a cabeça do deputado.

O documentário então centra na reconstituição dos discursos em defesa da liberdade de expressão do deputado Moreira Alves, recuperados a partir das notas taquigráficas que ficaram escondidas por décadas.

Em defesa ao Parlamento, a deputada Nysia Carone diz preferir ser uma dona de casa – soberana do lar – a ser uma deputada chamada de excelência e votar contra a Constituição, autorizando o processo do deputado por ter feito seu discurso.

O próprio Marcio Moreira Alves justifica-se dizendo que não quis ofender a classe militar, e que combatera na verdade o militarismo.

Ao final dos discursos, os deputados são convocados a votar, e a Câmara não autoriza a abertura de processo contra o deputado. Tomadas pela emoção, as galerias então lotadas se levantam e junto com os deputados entoam o hino nacional.

No dia seguinte, o governo desce o Ato Institucional número 5, e acaba com qualquer ar de liberdade que ainda pudesse existir.

Em 10 anos de AI-5 foram realizadas 5.785 sanções políticas, sendo 1.774 funcionários demitidos, 1.176 aposentados, 1.062 civis perderam seus direitos, 750 militares foram reformados, 154 passados para a reserva, 127 brasileiros banidos, 565 políticos cassados.

Foram censurados 500 filmes, 500 músicas, 450 peça, 200 livros, 100 revistas, além de telenovelas e documentários.

A REVOLUÇÃO TROPICALISTA (2001)

A Revolução Tropicalista (2001)

A Revolução Tropicalista fazia parte de uma série de documentários europeus que abordam a relação entre a música e o momento político em vários países. Dominique Dreyfus veio ao Brasil para a realização das entrevistas e pesquisar imagens nos acervos.
A TV Cultura apoiou a produção e eu tive a oportunidade de tomar parte nas pesquisas. Dominique é francesa, especializada em música brasileira, tem biografias lançadas sobre Luiz Gonzaga e Baden Powell.

O documentário tem inicio em 1968, mostrando os movimentos estudantis libertários pelo mundo e o crescimento das perseguições políticas e da intolerância à liberdade de expressão, no período da Ditadura Militar no Brasil. O Tropicalismo surge debaixo desse contexto repressor.

Gilberto Gil e Caetano Veloso são os personagens principais do movimento, e dão depoimentos ao longo de todo o programa. A turma Tropicalista é completada por Rogério Duprat, Os Mutantes, Tom Zé e Gal Costa.

Situada a origem do Tropicalismo, o programa faz uma digressão, voltando para a Bossa Nova e os anos JK.

Juscelino abre o Brasil para o capital estrangeiro, traz as grandes fábricas da industrialização. O Brasil entra no cenário internacional, levantando o bi-campeonato nas Copas do Mundo de Futebol de 1958-1962. Fatura o Miss Universo, mostra ao mundo o Cinema Novo. Está no primeiro mundo em cultura.

Jânio Quadros chega ao poder. Apesar de conservador, aproxima-se de Che Guevara e Mao Tsé. A Bossa Nova toma ares sociais nas temáticas de suas letras. Surgem os Centros de Cultura Popular.

Com a política social de seu sucessor, João Goulart, e os crescentes movimentos operários e campesinos, organiza-se uma reação anticomunista, que culmina com o Golpe Militar de 1964.

Os Tropicalistas se reúnem após o Golpe Militar de 1964, com a proposta de virar a Bossa Nova do avesso. Influenciados pela Cultura Pop e pelos Beatles, introduzem influências estrangeiras à música popular brasileira, que flutuava entre a Bossa Nova e a música de protesto político.

Com seus cabelos longos e guitarras elétricas causam escândalo aos nacionalistas defensivos. Para a esquerda antiamericana, os Tropicalistas se encaixam no grupo dos Imperialistas.

Caetano dá um depoimento ótimo, contando sobre a apresentação da música “É Proibido Proibir”, ele cabeludo, todo vestido em plástico preto e verde, dando as costas para o público e o público dando as costas para o artista.

Apesar de preteridos pela esquerda, os Tropicalistas apoiam os movimentos sociais e a luta pela liberdade de expressão. Estão presentes na “Passeata dos 100 mil” que pede o fim da Ditadura.

O governo que, num primeiro momento, tolerava com certa liberdade a classe artística, endurece a repressão também nas artes. O AI-5 decreta o fechamento do Congresso Nacional, Gil e Caetano são presos e mandados para o exílio em Londres.

O Tropicalismo sai de cena no meio do espetáculo. Gilberto Gil conclui que infelizmente o Tropicalismo não teve tempo para criar um gênero musical, limpou, arou, plantou, mas não colheu.

O documentário encerra então com os herdeiros do Tropicalismo, que na visão de Dominique Dreyfus seriam Lenine, Carlinhos Brown, Olodum, Chico Science e Nação Zumbi e Chico César.

PROFISSÃO PERIGO (2000) – A História dos Bandeirantes que Abriram o Brasil

PROFISSÃO PERIGO (2000) – A História dos Bandeirantes que Abriram o Brasil.

O documentário traz luz à história dos Bandeirantes de São Paulo. Nas entrevistas de rua, podemos perceber que poucos sabiam quem foram os bandeirantes. Muitas vezes retratados como heróis pelos livros de escola, foram violentos exterminadores de índios e de negros, história que não é contada aos jovens.

Para ilustrar o programa não havia muita documentação iconográfica do período. O que de mais rico sobreviveu ao tempo, são os testamentos dos bandeirantes. Os originais estão preservados no Arquivo Público de São Paulo, muitos deles escritos no leito de morte, em plena selva. Como pesquisador, fui buscar na filmografia brasileira diversos títulos que pudessem ilustrar a epopeia dos paulistas.

Esses Bandeirantes realmente tiveram uma vida épica, rompendo a pé grande parte da América do Sul. Saíram de São Paulo e foram até o Paraguai, Equador, Pernambuco, Amazônia… Como o título do programa diz, abriram o Brasil, sem respeitar a linha do Tratado de Tordesilhas.

Em 1750, com o Tratado de Madrid, o Brasil conquistou grande parte das fronteiras atuais. Nas negociações vigorou o princípio do “Uti Possidetis, Ita Possideatis”. A grosso modo, dizia que a terra pertenceria a quem a possuísse. E os Bandeirantes Paulistas haviam criado diversos núcleos para além da antiga divisão da América, entre Portugal e Espanha.

Mas, por trás desse grandioso legado dos Bandeirantes Paulistas, está uma história de horror. Historiadores, indígenas e alunos de escolas debatem sobre o tema, costurando toda a narrativa do programa. Os Paulistas, como eram conhecidos os Bandeirantes, faziam parte dos poucos portugueses que ousaram viver no interior do continente.

Viviam isolados nos planaltos de São Paulo, eram brutos e analfabetos. Descalços e vestindo tecidos simples, não eram os heróis de botas e couraças retratados pelos livros infantis. Falavam mais o Tupi que o Português.

João Ramalho foi o primeiro dos portugueses a se fixar no alto da Serra do Mar, dando inicio à história do bandeirantismo paulista. A primeira expedição, de Pêro Lobo (1531) foi completamente dizimada e nunca voltou. A partir de então as expedições só sairiam com o apoio de grandes contingentes de indígenas e mamelucos, misturados às tropas portuguesas.

O primeiro ciclo de expedições visava aprisionar índios e o foco principal era atacar as missões jesuíticas em território Guarani, para o Sul. Raposo Tavares, após vários ataques, retorna trazendo mais de 20 mil índios.

Os Paulistas desenvolveram uma ocupação própria, desafiando as instituições da época. Chegaram a expulsar os Jesuítas de São Paulo, por serem contra a escravidão indígena. Os Paulistas também desafiaram o Poder Real, ao aclamar Amador Bueno como Rei dos Paulistas, mas este abdicou qualquer pretensão, temendo a fúria de Portugal.

Num segundo momento, as Bandeiras migram para o Nordeste. Os Paulistas são convocados a lutar contra os Holandeses, em Pernambuco. Participam do ataque ao Quilombo dos Palmares, em Alagoas. E foram os responsáveis em combater os índios durante a ocupação do Piauí.

Também foram responsáveis pela descoberta de metais preciosos na região de Minas Gerais. A febre do ouro leva uma imigração de outras regiões do Brasil e de Portugal para as Minas. O conflito de interesses com os desbravadores Paulistas termina com a chamada Guerra dos Emboabas, que leva a intervenção direta da Coroa Portuguesa, controlando toda a região mineradora.

Os Paulistas não se dão por vencidos, e partem para as descobertas de ouro na região de Goiás, levando a uma nova corrida de colonização do Oeste, o último ciclo das expedições bandeirantes. Até o fim, o documentário não deixa de lembrar que por trás de toda a conquista territorial, da expansão portuguesa na América, estava também o extermínio de centenas de povos indígenas.

VIDA BANIDA (1999)

VIDA BANIDA (1999) – Documentário vencedor do prêmio Contra o Silêncio Todas as Vozes.

Naquela época a FEBEM era um caldeirão de pólvora, com fugas e rebeliões constantes. O documentário é uma reflexão sobre o tema, a cena final é uma apresentação de RAP dentro de uma unidade da FEBEM. A letra da música pede “Chega perto de mim / Me deixa falar / Sempre de muito longe / Vem me condenar”. Missão que o documentário tentou cumprir, dando voz aos que cumpriam Liberdade Assistida e também mostrando o cotidiano dos internos, nos verdadeiros presídios que eram as unidades.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) estava para completar 10 anos de existência. Na lei eram previstas medidas socioeducativas em substituição à tradicional pena de privação da liberdade. A Liberdade Assistida previa a execução de prestação de serviços à comunidade, participação obrigatória em projetos educativos, em lugar da tradicional internação.

Havia no ar uma tensão sobre o tema. A imprensa não usava mais o termo “menor infrator”, trocando-o por “menor em conflito com a lei”. Os jornais eram tomados semanalmente por notícias de rebeliões violentas, até mesmo com morte de internos, e todos buscavam entender o porquê do estado das coisas.

A equipe viajou para Belém do Pará e Recife, para mostrar medidas modernizantes que alguns juízes estavam tomando e que prometiam um modelo mais humanitário de tratamento do menor “em desacordo com a lei”.

Também tomou depoimentos de jovens atendidos pela Liberdade Assistida, contando como entraram no mundo do crime e como foram as experiência dentro do “sistema carcerário” que representava passar pela FEBEM. E foram ouvidos alguns dos pais dos depoentes, agentes do judiciário e funcionários envolvidos diretamente com as unidades que abrigavam os menores.

Algumas cenas impressionam. Os meninos vestindo uniformes monocromáticos, todos de cabeça raspadas, andando em fila indiana, com as mãos para trás como se portassem algemas, sempre olhando para baixo, incapazes de olhar nos olhos de seu interlocutor. Celas e condições de alimentação muito próximas às condições dos presídios brasileiros.

Como pesquisador, tive acesso à filmagem do Ministério Público, em visita a uma unidade recém-rebelada. Assisti à imagem chocante, que não foi ao ar, do corpo de um jovem decepado e carbonizado, entre os escombros.

A situação era gravíssima, e o próprio governador Mario Covas, em entrevista, reconhecia a necessidade de mudanças no modelo, para unidades de pequeno número de internos. Um pouco depois, a FEBEM seria extinta e substituída pela Fundação Casa.

No meio do programa há um inusitado RAP composto por menores internos, na letra uma crítica direta ao governo, na emissora pública do Estado. Talvez as TVs comerciais não deixassem passar, para agradarem ao Poder. Mas entrou na edição, e foi ao ar sem maiores problemas.

Relato comum aos internos, todos passaram pela evasão escolar antes de chegarem à vida do crime. Comum também era a opinião dos jovens que nas unidades da FEBEM predominavam agressões por parte dos monitores.

Ócio e a falta de atividade educativa ou cultural contribuíam para que ali se formasse uma escola do crime. Quem entrava no sistema por pequenos delitos, acabaria saindo de lá com uma revolta ampliada contra a sociedade, e pronto para cometer crimes ainda mais graves.

Outro ponto em destaque foi a questão da “redução da maioridade penal.” A solução imediatista de reduzir de 18 para 16 anos a maioridade é uma solução muito popular no senso comum do brasileiro. Mas o documentário traz outra proposta.

Mostra que os EUA, que punem seus jovens até mesmo na tenra idade, as estatísticas mostram uma juventude mais violenta que a brasileira, onde a legislação é mais branda. Isto comprovaria que reduzir a idade por si só não garante redução nos índices.

Para quem discorda, é só pensar no que acontece na África, com os soldados-meninos. Crianças de 10, 12 anos, assim que suportam o peso de um fuzil já estão em combate nas milícias e guerras tribais. Criminosos continuariam utilizando-se de menores cada vez mais jovens, agravando ainda mais o problema.

Os depoentes do vídeo pregam que bastaria que o Estatuto da Criança e do Adolescente fosse cumprido, para que a questão do menor em desacordo com a lei mudasse para melhor. Para quem entra no sistema judiciário ainda menor de idade deveria ser oferecido atendimento por projetos sociais, capacitação profissional, acompanhamento familiar; e não endurecer a legislação e jogar jovens de 16, 17 anos em presídios comuns, misturados a adultos como pedem os defensores da redução da maioridade.

O representante da UNICEF-ONU traz dados estatísticos que mostram que 66% dos meninos internos naquela época, estavam ali por delitos contra o patrimônio. Dos 34% restantes de outros crimes, apenas uma parte estava relacionada a atentados contra a vida humana. Apesar disso, existia uma paranoia generalizada quanto à periculosidade dos internos. O documentário fecha então com uma apresentação de RAP dentro de uma unidade da FEBEM, com a música “Realidade”, cuja letra copio abaixo:

REALIDADE
(Leandro / KS / Juninho BV / Jigaboo)

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
vem me condenar…

Brasil parece que não melhora nunca
2 manos causam KAOS E KS, e a luta continua…
sociedade nos condena, não nos ajuda
mas KS não esquenta a paciência,
pode crê somos nós antissistema

televisão explora lá fora ninguém percebe
rebelião deu ibope virou manchete
tropa de choque entrou com toda maldade
somos presas fáceis da sociedade
PMC, Déco, Suave estão ligados que é verdade de mudar
todos tem capacidade

novela o sonho do pobre o mundo que não existe
playboy com tudo na mão acha graça no que assiste
eles tem tudo na mão, não vivem como a gente vive
não precisam roubar como pobre de honestidade
então venha pra cá e levem pra fora a verdade

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

Rebelião ibope na televisão
muda de canal não aguento mais ver isso não…
é sempre assim, bem assim que acontece
ou você condena, ou você esquece
gente que nunca correu atrás de nada e tem o que quer
sempre de mão beijada
classificando a mulecada de marginal …11,12,13 anos
acha que é normal, coloca dificuldade, em todos os
sentidos, diz que a maioria ali dentro tá
perdido, insisto a maioria não é todo mundo gente
desqualificada tá cuidando do assunto, e inocente que
seja apenas esse ou aquele… não interessa tem mais é
que olhar por ele, ou será que aqui pobre que não
canta ou joga futebol
nunca terá um lugar ao sol…

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

Em pagamento as 08:00 horas o que vou fazer agora?
poucos manos é que vão embora, a violência é p/quem
vai ficar
juro que não entendo esse lugar
em minha vida quero dar outro sentido
muitos como eu não queria ser bandido quando tem
motivo de rebelião aqui ninguém presta só tem ladrão

Quero mudar este pensamento como você tá vendo
muitos tem futuro, muitos tem talento se tivesse alguma
ocupação a garotada não estaria nessa não
este lugar escuro nada acontece fico feliz quando o
dia amanhece, a justiça não me deixa falar e sem ouvir
a minha voz
me interna aqui nesse lugar

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

Como deve tá lá fora vários manos a mil tem mano da
V. Ede também do Jd. Brasil, aqui dentro da prisão
vários mano ciente, tem quebrada Itaquera e Cidade
Tiradentes
cada um convive aqui do jeito que pode
tem zona oeste, zona leste, zona sul, e zona norte
esse é o sofrimento sentimento de dor, também tem
vários mano
que mora no interior

Quem liga esse rap é o mano da Bela Vista, mando um
salve no momento pra baixada Santista, a verdade é
dita não deixe pra depois, quem liga esse rap é 16 e a
UE-2, também tem vários mano que tá na UE-12, tem mano
da EU-13, e também da UE-14
tem várias unidades a verdade que comove tem o UE-5,
tem o UE-15, e a UE-19, tem a 16 essa verdade que é
são algumas unidades da Febem Tatuapé

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

DE VOLTA PARA CASA (1998)

DE VOLTA PARA CASA (1998) – Documentário vencedor do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo.

O documentário aborda a trajetória de ressocialização dos menores de rua, o trabalho de reinseri-los no convívio da família. É baseado na tese da antropóloga Maria Filomena Gregori, que estudou o comportamento dos meninos de rua entre 1991-1995, pelas calçadas de São Paulo.

A equipe de gravação percorreu as ruas de São Paulo, Salvador e Fortaleza. Entre os motivos apontados pelos menores para saírem de casa estão o sentimento de revolta, os maus tratos, a pobreza, as drogas, o alcoolismo, a prostituição e o descaso dos pais.

A tese da “viração” revela que a rua é o ponto de encontro dos meninos e meninas que fazem dos espaços públicos os cômodos de sua nova casa. Um “mocó” sob um viaduto pode ser o quarto, uma praça pode ser o banheiro, e assim por diante, vão ocupando espaços da cidade.

A mobilidade dessa população é um fator marcante, há uma rotina de circulação, que pode percorrer até 6.000 km em um ano.
O programa mostra o trabalho de educadores, uma rede de assistência que tenta recriar os vínculos familiares destas crianças, para possibilitar o retorno para o lar. Alguns exemplos de inclusão são apontados.

O ponto inicial é ganhar a confiança dos garotos, com a presença diária dos educadores nas ruas. A documentação, ter uma certidão de nascimento, um RG, é o início do resgate do vínculo com a sociedade. Outras ações iniciais são atividades artísticas e profissionalizantes nos centros de atendimento.

Maria Gregori nos alerta que toda esta rede de assistência termina ao completarem 18 anos. Os projetos não atendem mais às crianças de rua, mas estes não estão capacitados para terem um projeto de vida.

Num segundo momento inicia-se então a terapia familiar, uma vez que os problemas que levaram os garotos às ruas não se restringe somente ao menor, mas envolve também todo o núcleo familiar. E muitas vezes, quando não é possível o retorno ao lar original, o programa aponta para o caminho da família substituta, através da figura da mãe social.

São abordados instituiçãos como os Projetos Travessia, Axé, Aldeia SOS, Criança Fora da Rua Dentro da Escola, Edisca e Oludum, que trabalham não só a aproximação com crianças de rua como também trabalham com a valorização de crianças pobres, evitando que estas cheguem a deixar suas famílias.