BOLETIM DE OCORRÊNCIA – CRÔNICAS MUSICADAS

Boletim de ocorrência

Abri os olhos, o cenário continuava o mesmo. Há dias naquele leito, sem colocar os pés no chão e eles ainda doíam. Maldito ácido úrico que me ceifava as forças. Passei a mão sobre os pés. Eram duas batatas, dois pães inchados.

Pela manhã, recebi a visita de meu amigo, o escritor e poeta Aranha.

– Qual a graça, Aranha?

Provoquei-o, divertindo-me pela primeira vez em dias.

– Preciso de você, Maestro. Você tem que me socorrer. Só você, nesse país, pode se encarregar da missão que eu tenho que cumprir.

– Ora, Aranha, o que há de grave?

– Você tem que me ajudar, voltei da Europa com algumas ideias. Juntos, vamos curar o Brasil. Vamos educar o país. Vamos libertá-lo das forças do passado!

– Quanto entusiasmo para uma manhã! Pois vamos dar três vivas para o Brasil! Viva o Brasil! Viva! Viva o Brasil! Viva! Viva o Brasil! Viva!

Gargalhei.

– Muito me alegra fazê-lo rir, pois bem se vê o quanto deve aborrecer-se o dia inteiro deitado nesta cama. Mas é preciso levantar-se, Maestro! É chegada a hora de rompermos com as amarras e embarcarmos no Século XX, a Era da Eletro-Velocidade.

Cheio de energia, Aranha explicou-me seus planos. Juntos, partiríamos numa longa viagem à capital paulista. Minha função era organizar a parte musical para uma semana de eventos culturais.

Aranha tinha o espaço, os artistas, estava entusiasmado. Ele se juntara à uma trupe de intrépidos paulistas. Escultura, pintura, literatura e música, eis o que tinham a oferecer.

Não pude negar-lhe o favor. Eu o ajudaria a varrer para baixo do tapete o ranço de nosso passado colonial. Levantei-me e, capengando, aceitei a incumbência.

Organizei o repertório, recrutei os intérpretes e, em poucos dias, estávamos de malas prontas. Era fevereiro, e sair do calor do Rio de Janeiro talvez ajudasse na recuperação de meus queridos pés.

Abrindo as atividades, foi o próprio Aranha quem discursou, no palco de um teatro lotado.

– …para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores…

Pouco a pouco foi explicando uma nova estética para as artes.
– …se não são jogos da fantasia de artistas zombateiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida…

Com as obras expostas no saguão e com os discursos declamados no palco, os artistas renegavam tudo o que a aristocracia brasileira aprendera como ideal de belo.

Suas teorias punham fim ao parnasiano século XIX. Provocava a elite paulistana em seu maior templo, destruindo os valores estéticos da Europa Novecentista.

As vaias não poderiam ser piores. Da coxia, ouvíamos os maiores insultos. Aranha continuava provocando.

– …outros horrores vós esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do passado…

O público protestava, blasfemava, gemia! Nos bastidores, esperávamos por nossa vez.
– Meus pés ainda me matam, eu não vou conseguir.

Reclamei, em chinelos, pois os pés inchados não entravam nos sapatos. Um dos paulistas que assistia à cena defendeu-se.

– Pode ficar tranquilo Maestro, avançar sobre o palco do Municipal, cabeleira agitada, casaca e chinelos será um passo verdadeiramente modernista!

Acabei por me sentir à vontade entre aqueles guerrilheiros e aceitei o desafio. Invadi o palco – de chinelos, pois os sapatos não me cabiam – e lancei-me aos furiosos Senhores de Café e meia-dúzia de Industriais Piolhentos.

Gritos ululantes, apupos e assobios. A música prosseguia, eu firme na regência. Escarcéu de fúria, vaias prolongadas e latidos. Quase não terminamos a primeira noite.

No dia seguinte, estava nas primeiras páginas; – ASSOBIOS & GAITADAS EM S.PAULO – ; mais uma vez, um solícito paulista veio me socorrer.

– O que não ladra, não gane e não cacareja o aplaudiu com calor, Maestro.

Nem tudo eram flores. Nossa principal solista recusava-se a continuar, alguns músicos choravam e tínhamos mais duas apresentações pela frente.

As tropas inimigas cresceram. A divulgação do movimento só fez unir os grupos rivais. De minha parte, optei por divertir-me com a situação. Mas na última noite foi a gota d’ água.

Desde o começo do concerto um engraçadinho assobiava, acompanhando os temas e roubando as atenções. A última obra a ser executada era o meu Quarteto Simbólico.

Havia projeção de luzes e cenários, criando um ambiente de bosque místico com sombras fantásticas. Por trás de tudo, ocultava-se um coro feminino. Era uma peça de um ano atrás, acompanhada por flauta, sax, celesta e piano.

No segundo movimento, criava um ambiente elevado, cheio de sensações novas. Quando, na platéia, explode novamente o gaiato:

– Có-Có-Ri-Có-Có!

Sua imitação de galo zombava da ambientação que eu criara, colocando-a numa situação rural que fugia ao idílio programado. A plateia explodiu em risos, quebrando toda a concentração alcançada.

A coisa só sossegou quando a polícia interveio, prendendo o graçola. Terminada a apresentação, fiz questão de dar parte.

– Bote aí. Reclamante: Heitor Villa-Lobos. Profissão: Maestro. Idade: 35 anos.

Na delegacia fiquei sabendo que o maroto trazia latas recheadas de ovos e batatas, com as quais iria coroar os promotores da Semana de Arte Moderna.

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