CARTA DE ANARFABETO – CRÔNICAS MUSICADAS

Carta de anarfabeto

Silêncio, é madrugada, a raça dorme em paz. Dois amigos caminham rua abaixo. Em breve, centenas de trabalhadores também os seguirão. Homens descolando-se por todos os lados, abandonando lares que só os terão ao fim do dia. A vila operária esvazia-se.

– Trouxe o tambor?

– Tá na mão. O Souza vai com a cuíca, e quem faz o cavaco é o Oliveira Penteado. – Responde o que toca agogô.

Logo mais, Laércio e Valdir cruzam com Rubinato, enrolado em seu cobertor, violão embaixo do braço, seguido pelo cão amigo.

– E aí turma, tudo combinado?

– Está tudo certo.

E juntos caminham à plataforma de trem, onde o resto do grupo se une. – Hoje o samba vai comer!

A animação geral não contamina Laércio, que geme bem baixinho, assim como quem tem algum dodói.

– Que bicho o mordeu? – Pergunta o Souza.

– Você não sabe? Não é que a Malvina o abandonou logo depois de perder o emprego! – Indignou-se o Penteado.

– Laércio, eu não sabia… – Desculpou-se o Souza.

– O homem era feliz enquanto Deus assim quis, mas depois pegou Adão, tirou a costela e fez a mulher. – Filosofou o abandonado Laércio.

– Não se escracha, mulher, patrão e cachaça em qualquer canto se acha.

– “Contra filosofou” Valdir.

Por falar em cana, resolveram aquecer-se com o ambulante que passava. Cada qual tomou a sua, naquela fria manhã paulistana.

-Deus dá o frio conforme o cobertor. -Disse alguém, antes do último gole.

No canteiro de obras o trabalho duro só foi interrompido pela sirene que batia às onze horas.

-Vamo s’imbora, João.

-Que é que você trouxe?

-Truxe ovo frito.

-É, pobre quando come galinha, ou ele tá doente, ou a galinha…

E aqueles homens famélicos comeram mudos, de suas marmitas requentadas, as sobras de um jantar que mal dava para a família.

Rubinato, que já trabalhara como carregador, pintor, tecelão, faxineiro, pedreiro, mascate e garçom, sonhava agora em ser artista. Sua verdadeira vocação, segundo ele mesmo. A confiança era tanta que não deixava de participar, todo sábado, do programa de calouros da rádio. Mesmo após sucessivas gongadas.

Foi ele quem rompeu o silêncio.

-Desta vez eu emplaco, vou de “Filosofia”. Noel Rosa para dar sorte.

-Olha Rubinato, esse negócio de samba não veste camisa a ninguém, não. Se ao menos nóis fosse carioca, mas samba paulista!

-Paulista e italiano, vê lá se isso dá samba? Isso é coisa pra crioulo.

-O último samba do Nicola acabou naquela pancadaria. Voava pizza pra tudo quanto era lado, os mais pior foi parar nas Crínicas.

-E olhe que não fumo lá pra brigar, fumo lá pra comer.

Achincalharam os amigos.

-Podem rir, podem rir. Vão falando disso e daquilo, coisas que vocês num sabem nada…

-Não se zange, Rubinato. Eles tão é fazendo troça, vamos provar pra eles. Hoje o samba come solto lá no Brás – socorreu o Souza.

A sirene soou novamente, hora de voltar ao trabalho.

No fim do dia o grupo volta a se reunir na estação Barra Funda. O trem os leva ao Brás mas, chegando lá não encontram ninguém.

-Eu não acredito, ele não podia fazer isso.

-Dá próxima vez nóis não vai mais.

-Podis crê, nóis não semos tatu.

-Carma, turma. Vamo esperá um pouco mais. Vai que o homem já vem vortando?

-Não posso ficar nem mais um minuto, se eu perder o trem que sai agora às 11 horas, só amanha de manhã.

Desistiram. No dia seguinte, encontraram o dono da casa onde deveria ter acontecido o samba.

-Arnesto, isso é coisa que se faça?

-Nóis fumo e num encontremo ninguém.

-Vortemo com uma bruta duma raiva.

-Podia ao menos ter ponhado um bilhete na porta.

-Só se fosse assinando em X, porque eu não sei escrevê.

– Cais, cais, cais, cais – riram todos.

E o animado grupo de briguentos acabou puxando um samba ali mesmo, no bar mais próximo, até alta madrugada.

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