TODAS ELAS SÃO CARIOCAS – WMulher

TODAS ELAS SÃO CARIOCAS

Um bom livro, em uma boa época. O natal vem chegando, os amigos secretos, reuniões da “firma” (ou do “departamento”), as férias de verão!!! Por isso mesmo, para aproveitar o calor das praias ou para presentear os amigos, “Ela É Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema”, de Ruy Castro.

Este é um livro que começa feminino já no nome, Ipanema, o lugar onde a emancipação da mulher começou mais cedo. Sem dúvida este foi um século onde a mulher ganhou muito espaço na sociedade e o livro resgata um pouco desta história.

Arnaldo Jabor, em sua coluna na Folha de São Paulo, nos afirma: “Ipanema foi uma grande revolução feminina! É isso! Os anos 60 fizeram uma revolução fêmea. As mulheres é que nasceram em Ipanema… Feliz de quem viveu um tempo feminino!!!”

Continua ainda: “As meninas passaram a dar. Mas não era esse “dar” comum, desglamourizado de hoje, este “fast sex”, não. Era um “dar” ainda mutilado pelo tremor do novo, ainda com perfume de pecado, ainda com o doce olho mágico do superego paterno, ainda era um sexo com sabor de crime.”

O livro de Ruy Castro traz 231 verbetes de personagens que compunham a paisagem de Ipanema, entre os anos 10 e os anos 80. Neste período, observaremos importantes mudanças no comportamento da sociedade brasileira, através das histórias do famoso bairro carioca.

Dos verbetes, mais de 40 são destinados a celebridades femininas, musas, atrizes, poetas, jornalistas, enfim, mulheres que desfraldaram suas bandeiras. São histórias corajosas, que construíram um novo imaginário do “ser mulher”.

Para os que gostam de ler uma obra de trás para frente o livro começa bem, ou para os convencionais o final é ótimo. O último verbete é sobre Zuzu Angel, estilista e mártir (1921-1976). Vestiu atrizes famosas como Liza Minnelli. Seu marido a abandonara com três filhos, e ela mesma criava, costurava e entregava suas roupas.

Ironia do destino, costurava para a mulher do General Costa e Silva, e depois, durante o governo Médice, seu filho será morto pelo exército, amarrado a um carro e arrastado pela pista da base aérea do Galeão. Passou a se envolver com a política, armando campanhas contra a ditadura militar no Brasil.

“Eles cometeram um erro. Mataram meu filho e me deixaram viva”, dizia Zuzu. Mas o erro dos militares se repetiu. Em 1976 foi assassinada, num acidente automobilístico simulado, na saída do túnel Dois Irmãos, hoje túnel Zuzu Angel.

Esse é apenas um dos verbetes femininos, vejamos um trecho sobre a atriz Betty Faria: “… criada praticamente na caserna, ela derrotou o tabu da virgindade, de trabalhar no que gostava, casar sem se casar, posar nua, criar filho sozinha, jamais esconder a idade e, já madura, namorar rapazes trinta anos mais jovens.”

Este é de Danuza Leão, jornalista, escritora, modelo e musa: “Enquanto as feministas espumavam, queimavam sutiãs e viam no homem um inimigo, Danuza fez dele um aliado e o pôs em seu devido lugar: sobre ou sob um pedestal – dependendo do caso. E, dando uma cambalhota num velho privilégio masculino, estabeleceu para si própria um padrão que toda mulher inteligente deveria seguir: há homens para namorar e homens para casar.”

O livro não poderia deixar de citar Helô Pinheiro, a jovem que inspirou Tom Jobim e Vinícius de Morais a compor “Garota de Ipanema”: “Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez de nossa querida Ipanema uma palavra mágica”, declarava Vinícius.

Mas existiram outras garotas de Ipanema. Eram mulheres fatais, avançadas para a iniciada década de 60, tais como Ionita Salles Pinto, Leila Diniz e Ira Etz, esta definida como mito do Arpoador.

Os anos 50 tinham sido uma minirrevolução de atitudes, um jeito moderno de ser. Nascia em Ipanema uma nova mulher.

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A SERPENTE – WMulher

A SERPENTE

Após criar o “Mundo”, Deus tirou do barro Adão. Logo depois vieram Eva e, consequentemente, Caim e Abel. Daí para frente, crescemos e multiplicamo-nos conforme recomendado por “Ele”. Está tudo escrito há séculos, histórias que quase sabemos de cor.

Mas e a serpente? O animal nocivo, peçonhento, que pôs por água abaixo os planos de aposentadoria precoce de Adão. Este gelado réptil é responsável pelo pecado original, por toda a culpa que a mulher carrega, o responsável pela nossa expulsão do “Paraíso”.

Pois bem, e se esta serpente, conselheira de Eva, não fosse realmente um animal rastejante. E se esta serpente fosse mais íntima de Eva do que a história conta. E se esta víbora fosse algo como o sentido figurado da própria irmã que Eva não teve?

Esta hipótese pode ser bem plausível. Quem nunca teve desavenças com sua irmã? Até a leitora filha única deve ter contatos, desde os tempos de escola, com amigas em crise de relacionamento com suas irmãs. É natural, não só no mundo feminino, faz parte da fraternidade. Há competição, há ciúme, há inveja, enfim…

Neste mundo fratricida ninguém melhor que Nelson Rodrigues para retratar a dura realidade, o “mundo-cão”. Estamos falando, especificamente, de “A Serpente”, sua última peça, escrita em meados de 1979. Logo depois, em dezembro de 1980, ele morreria de edema pulmonar, aos 68 anos.

Nelson tinha a escrita pulsando em sua vida. Desde pequeno, convivera dentro do ambiente jornalístico. Não só o pai como os irmãos trabalharam ativamente em diversos órgãos de imprensa, inclusive jornal de propriedade do pai. Foi ali que se iniciou, exatamente nas páginas policiais.

A fixação pela morte, as misérias humanas, o adultério e as mais vis situações do dia a dia fariam parte do universo criativo do escritor. Ao cobrir as delegacias, Nelson transformava um simples atropelamento de velhinha numa saga digna de Anatole France, diz Ruy Castro, seu biógrafo. Sua especialidade no jornal logo demonstrou ser os pactos de morte entre jovens namorados, que têm o romance desaprovado pela família.

Mas, voltemos à peça, ou ao livro. “A Serpente” é um exemplar fino, uma leitura rápida e fácil, editado pela Nova Fronteira. Trata-se de uma peça em um único ato. Sua primeira montagem estreou em 6 de março de 1980, no Teatro do Banco Nacional de Habitação (BNH), no Rio de Janeiro.

Os ensaios foram acompanhados pelo próprio Nelson, já com a saúde bastante debilitada, e contou com a presença ilustre de Gilberto Freyre em uma das noites. A direção era de Marcos Flaksman e o elenco contava com os seguintes atores: Cláudio Marzo (Paulo), Carlos Gregório (Décio), Sura Berditchevsky (Guida), Xuxa Lopes (Lígia) e Yuruah (Crioula).

“A Serpente” pode ser considerado o momento de maior radicalização da segunda fase do teatro rodriguiano. Esta etapa é marcada pelo abandono da exploração subjetiva em troca de uma observação objetiva do comportamento dos personagens. É quando Nelson mergulha profundamente na vida suburbana carioca, tanto do ponto de vista psíquico quanto social.

Fazem parte desta fase obras como “A Falecida”, “Boca de Ouro” e “Toda a Nudez Será Castigada”. Em “A Serpente” os personagens se mostram através de seus atos, nenhum deles pensa, todos agem. Sua caracterização patológica se manifesta dura e cruel. O leitor é atirado para dentro do que os próprios personagens não percebem, a verdade que acontece ao correr das páginas.

Lígia e Décio formam um casal em crise. Sua irmã, Guida, é casada com Paulo. Ambas dividem o apartamento, presente do pai. Décio enfrenta o fantasma da impotência, não consegue ter relações com a esposa, apenas com prostitutas. A separação torna-se inevitável.

Guida e Paulo têm uma vida amorosa normal, que podia ser ouvida pelas paredes do quarto da mal-amada irmã. Desesperada, Lígia só pensa em morrer. As irmãs discutem e para evitar o pior Guida resolve “emprestar” o marido, para que Lígia experimente uma noite de verdadeiro prazer.

Este estranho acordo revelar-se-ia uma história muito mais complexa. O final desta disputa entre irmãs cabe a vocês, leitoras, imaginarem. O que fariam? Como agiriam? O desfecho idealizado por Nelson Rodrigues é digno dele mesmo. Não poderíamos esperar algo melhor. Uma leitura eletrizante, instantânea, vocês não conseguirão parar de ler antes do fim. Com certeza vale a pena.

Como prova da destreza intelectual deste mestre deixo aqui registrado todos os títulos produzidos por Nelson:

Teatro: A Mulher Sem Pecado (1941); Vestido De Noiva (1943); Álbum De Família (1946); Anjo Negro (1947); Senhora Dos Afogados (1947); Dorotéia (1949); Valsa N.º 6 (1951); A Falecida (1953); Perdoa-Me Por Me Traíres (1957); Viúva, Porém Honesta (1957); Os Sete Gatinhos (1958); Boca De Ouro (1959); Beijo No Asfalto (1960); Otto Lara Resende Ou Bonitinha, Mas Ordinária (1962); Toda Nudez Será Castigada (1965); Anti-Nelson Rodrigues (1973) e A Serpente (1979).

Romances: Meu Destino É Pecar (1944); Escravas Do Amor (1944); Minha Vida (1946); Núpcias de Fogo (1948); A Mulher Que Amou Demais (1949); O Homem Proibido (1951); A Mentira (1953); Asfalto Selvagem (1960) e O Casamento (1966).

Contos: Cem Contos Escolhidos: A Vida Como Ela É (1961); Elas Gostam De Apanhar (1974)

Crônicas: Memórias De Nelson Rodrigues (1967); O Óbvio Ululante (1968); A Cabra Vadia (1970); O Reacionário (1977).

Novelas em TV: A Morte Sem Espelho (1963); Sonho de Amor (1964); O Desconhecido (1964).

Filmes: Somos Dois (1950); Meu Destino É Pecar (1952); Mulheres e Milhões (1961); Boca De Ouro (1962); Meu Nome É Pelé (1963); Bonitinha, Mas Ordinária (1963); Asfalto Selvagem (1964); A Falecida (1965); O Beijo (1966); Engraçadinha Depois Dos Trinta (1966); Toda Nudez Será Castigada (1973); O Casamento (1975); A Dama Do Lotação (1978); Os Sete Gatinhos (1980); O Beijo No Asfalto (1980); Bonitinha, Mas Ordinária (1980); Álbum De Família (1981); Engraçadinha (1981); Perdoa-Me Por Me Traíres (1983) e Boca De Ouro (1990).

Published in: on 17 de abril de 2012 at 13:38  Deixe um comentário  
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AS MULHERES DE BUKOWSKI – WMulher

AS MULHERES DE BUKOWSKI

Quando fui convidado para escrever sobre literatura para o WMULHER tinha um objetivo em mente, escrever sobre a Literatura Universal, tomando por base livros que abordassem questões referentes às mulheres, objeto de estima e admiração, por suas qualidades e contradições, e tema central deste SITE.

A primeira obra escolhida não foi por acaso. O título “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac, retratava uma situação comum a um grande número de mulheres, o drama do casamento infeliz. O trabalho prosseguiu, analisamos a obra de Nabukov, “Lolita”, que tratava do amor entre um adulto e uma criança. Passamos por “Mãe” de Gorki, e depois Gertrude Stein, talvez uma das maiores escritoras deste século.

Continuando nesta linha de trabalho, e aproveitando o clima descontraído das férias, estudaremos um exemplar muito sugestivo. Nada melhor que escrever para o WMULHER sobre “Mulheres”, de Charles Bukowski.

Bukowski, escritor norte-americano, teve sua obra valorizada na rebeldia da década de 70. Adotado pela geração flower-power, despontou com sua literatura ácida, que retrata, de forma nua, as relações de sua sociedade. A obra de Bukowski é toda ela recheada de traços autobiográficos, apesar de sua advertência introdutória que diz: “Este romance é obra de ficção e nenhum personagem pretende reproduzir pessoas ou combinações de pessoas vivas ou mortas.”

Henry Chinaski, o personagem central do livro, em muito se parece com o autor, o sobrenome (Bukowski-Chinaski), a profissão (ambos eram ex-funcionários dos Correios e tentavam sobreviver de literatura) e o método de trabalho, como podemos ver nas próprias palavras de Chinaski: “Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de meias-cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixara uma meta de até dez páginas por noite, mas nunca sabia, até a manhã seguinte, quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, ia até a sala e conferia no sofá quantas folhas tinha ali… Claro que o trabalho de cada noite tinha que ser desbastado ou tinha que ser jogado fora. Gastei vinte e uma noites pra escrever meu primeiro livro.”

O próprio Bukowski vivia um universo semelhante ao de seu personagem. Ébrio convicto, com certeza passou por situações semelhantes, se não idênticas, às descritas em seus livros. A obra de Bukowski, se torcida, talvez pingue álcool. Seus livros cheiram a vinho barato e são povoados por prostitutas decadentes. Muitos críticos chegam até mesmo a desconsiderar seu valor literário, não o classificando no hall dos mestres da escrita.

Mas é, justamente, esse caráter underground que o destaca dos demais escritores de seu tempo, transformando-o num CULT, e que faz de seu livro “Mulheres” uma boa sugestão de leitura para as férias de julho.

“Mulheres” começa com a seguinte frase: “Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher.” Nosso personagem, o poeta Henry Chinaski, vai descrever sua vida amorosa, seus problemas com o sexo e sua visão sobre o ser feminino. Através deste livro poderemos desfrutar de novas formas de compreender a mulher, sob a óptica de uma mente masculina bem específica, que é o pensamento Bukowskiano.

Para quem busca a compreensão dos tipos humanos, este livro é um prato cheio. Ele nos apresenta indivíduos comuns, que realmente possam existir, mostra-nos relações diárias entre as pessoas, em especial as relações carnais entre homens e mulheres.

Gostaria apenas de acrescentar algumas passagens deste livro, para que os leitores mais pudicos tenham a chance de escapar das palavras de Bukowski. Aos que tiverem coragem, e estômago, uma boa leitura. A diversão é certa!

Sobre o despestar

“Botei uma camisa, uma calça, …, corri pro banheiro e vomitei. Tentei escovar os dentes, mas só consegui vomitar de novo. … -Você tá mal – disse Lydia. -Quer que eu saia? -Não, não, eu tô legal. Sempre acordo desse jeito.”

Sobre mulheres

“-Por que é que escreve sobre mulheres daquele jeito? -Que jeito? Você sabe. Não sei não. -Ora, eu acho uma vergonha um cara escrever tão bem como você e não saber nada sobre as mulheres. Não respondi.”

A matraca

“Glendoline puxou uma cadeira e começou a falar. E como falava. Se fosse uma esfinge, ia falar, se fosse uma pedra, ia falar. Quando é que ela vai se cansar e sair, fiquei pensando. Mesmo quando parei de escutar, era como se eu estivesse sendo bombardeado com minúsculas bolinhas de pingue-pongue. Glendoline não tinha nenhuma noção do tempo e não se tocava que podia estar incomodando. Ela falava, falava.”

Sobre si mesmo

“Lá estavam as cicatrizes, o narigão de alcóolatra, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas; e lá estava o sorriso burro e satisfeito de um homem feliz, ridículo, que se sente um sortudo, e nem sabe por quê. Ela tinha 30 e eu mais de 50. Não me importava.”

As referências sexuais são freqüentes, descrevendo cenas de sexo de forma mais que explícita. Cabe agora a vocês, meus caros leitores, a decisão, ou não, de prosseguirem com a leitura das palavras de Henry ‘Bukowski’ Chinaski.

SENHORITA STEIN – WMulher

SENHORITA STEIN

Mês de junho. Mais uma vez, a França é sede de um grande evento. A Copa do Mundo terá seu fim sob o Sol de Paris, e até lá, as TVs, as revistas, os jornais, enfim as pessoas terão apenas um pensamento: FUTEBOL. Entre uma partida e outra, ou mesmo durante as mais “tediosas”, nada melhor que estimular esta prática tão saudável que é a leitura.

O mesmo Astro-Rei que iluminará os gênios do futebol, em outros tempos clareava as ideias de grandes nomes da Humanidade, na reconhecida capital francesa, a Cidade-Luz. As manifestações de 1968 foram, entre os movimentos sediados em Paris neste século, o mais conhecido. Mas, talvez não supere em importância a menos comentada década de 1920, onde uma revolução nos valores das artes e dos costumes acontecia a olhos claros.

Paris, nos anos 20, foi abrigo de escritores, pintores, músicos, bailarinos, novos e velhos ricos, exilados da Rússia Comunista e dos Estados Unidos sob a Lei-Seca. Frequentavam seus cafés, nomes como Josephine Baker, André Breton, Stravinski, Coco Chanel, Cummings, Marcel Duchamp, Dos Passos, Isadora Duncan, Hemingway, James Joyce, T. S. Eliot, Scott Fitzgerald, Nijinski, Picasso, Cole Porter, Ezra Pound e por fim a nossa atração de hoje, Gertrude Stein.

Isso mesmo, entre um jogo aqui e outro ali, entre os comentários do último gol perdido pelo centro-avante, deem uma visitada aos livros de Gertrude Stein, em especial seu primeiro trabalho: Três Vidas.

A norte-americana foi, sem dúvida, uma das maiores escritoras de todos os tempos, símbolo maior da Arte Moderna na Literatura, e amante incondicional de Paris.

Neste livro, que data do início do século XX, Gertrude Stein iniciava sua cruzada em prol da modernização da Literatura, vindo a ser uma das mais lúcidas escritoras de vanguarda, equiparando-se a Pound e Cummings, ou mesmo, influenciando a obra de Sherwood Anderson e Hemingway. Gertrude passou a maior parte de sua vida em Paris, onde conviveu com os artistas responsáveis pelo movimento Modernista, em especial Picasso, que lhe pintou o retrato, e Matisse.

Em Três Vidas, lançou a renovação na Literatura norte-americana, com a revisão da composição verbal, introduzindo a prosa redundante e a linguagem coloquial. Este seu primeiro livro é composto por três novelas: A Boa Ana, Melantcha e A Doce Lena. É em Melantcha que podemos perceber, com mais intensidade, as características inovadoras de seu trabalho. É um marco para as letras norte-americanas, onde o estilo narrativo, através da técnica de repetição progressiva, sugere a sequencia de imagens, tal como o cinema, criando a sensação do movimento. Além disto, Melantcha, que retrata o descobrir da Vida de uma jovem, num mundo de homens, é a primeira narrativa americana em que o negro é encarado como ser humano, e não como objeto de compaixão ou desprezo.

Mais do que um livro, ou uma novela, em específico, a obra de Gertrude Stein merece ser conhecida devido a própria escritora. Uma personalidade forte, que no início deste século dirigia seu automóvel, fumava seus cigarros, e, assim como Coco Chanel, revolucionaria o comportamento das mulheres, conferindo-lhes as bases sobre as quais iria se desenrolar a emancipação feminina das décadas seguintes.

Senhorita Stein, juntamente com Sylvia Beach, proprietária da Shakespeare and Company, a mais significativa livraria de Paris, foram responsáveis pela articulação do movimento Modernista na cidade. Frequentavam eventos e vernissagens, conheciam e promoviam jovens talentos, convivendo com grandes nomes da Literatura, tais como Pound, Hemingway, Sherwood e o rival James Joyce.

Apesar das severas críticas dirigidas por seus antigos admiradores e discípulos, Gertrude Stein continuou sendo uma mulher única, à frente de seu próprio tempo, símbolo vivo de uma Paris efervescente, onde explodiam o Cubismo, o Surrealismo, o Dadaísmo e as demais tendências da Modernidade nas artes. Senhorita Stein era a grande anfitriã da festa, que foi Paris na década de 1920.

Stein é mais um caso em que podemos ver a marcante presença da mulher, através dos clássicos da Literatura Universal. Nossa recomendação de leitura para o mês de Junho.

Published in: on 16 de abril de 2012 at 13:33  Deixe um comentário  
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MÃE – WMulher

MÃE

O mês de maio se aproximava e eu pensava no presente que compraria para o Dia das Mães. A minha primeira ideia, vocês vão logo entender o porquê, foi um livro de Gorki. Corri à estante e, tal como um cão farejador, apanhei o livro azul na prateleira. De posse do referido volume, chequei se a história era mesmo uma boa lembrança para a ocasião. Qual foi a minha surpresa ao perceber que, mais que um bom presente, era a minha resenha para este mês. Portanto, aí vai a sugestão: leiam e presenteiem suas progenitoras com “Mãe”, de Máximo Gorki.

O romance Mãe (1907) é considerado um de seus trabalhos mais importantes. É tido como a primeira obra do Realismo Socialista, impregnado de profundo humanismo. Uma ótima leitura para um ano de eleições, onde a mulher vem buscando cada vez mais espaço na vida política brasileira, reduto estritamente masculino, representada por Martas e Luizas, na tentativa de construção de uma sociedade mais justa e humanitária.

Gorki (1868-1936), revolucionário, frequentou as cadeias da Rússia Czarista, sendo liberto por influência do próprio Tolstói. De uma genialidade comparável a Dostoiévski, é, sem dúvida alguma, um dos maiores escritores da Literatura Russa. Deu início à linha político-social do Teatro Russo. Gorki canaliza a metafísica da dor e a caridade agnóstica-cristã-socialista (Dostoiévski e Tolstói), substituindo a exaltação do sofrimento por uma raiva instintiva e uma justificável violência. Era irmanado com a multidão e o operariado. Sua visão de proletário era romântica, apaixonada, e muitas vezes ele se deixava arrebatar, prejudicando a fluência da narração para vociferar contra burgueses, vencidos e acabados, submersos na hipocrisia de uma vida medíocre e mesquinha, assumindo uma forma de manifesto panfletário.

Sobre seu nascimento escreve: “No ano de 1868, a 14 do mês de março, às duas horas da madrugada, em consequência da predileção que tem pelas partidas de mau gosto, e ainda para completar a soma de absurdos que tem cometido em diversas épocas, a Natureza fez-me nascer com uma pincelada objetiva. A despeito da importância desse fato, não conservo dele nenhuma recordação pessoal; mas minha avó disse-me que logo que me foi conferido espírito humano soltei um grito. Quero crer que foi um grito de indignação e protesto.”

Em Mãe, encontramos a descrição de uma típica família de operários russos, que enfrentam toda a sorte de dificuldades. Logo no começo da história o núcleo familiar é abalado pela morte do chefe da família, Mikhail Vlassov, que deixa o jovem Pavel órfão. Este será o centro do romance, a relação do jovem revolucionário Pavel e sua mãe, Pelaguéa Nilovna, agora viúva.

O filho desenvolve uma estranha apatia frente aos hábitos dos demais jovens de sua idade, sua única distração eram os livros. Livros proibidos, que traziam esclarecimentos sobre a exploração do povo. Pavel passa a marcar encontros com seus amigos de militância, que sob os olhos da mãe, discursavam sobre as verdades revolucionárias.

Na primeira reunião em sua casa, Pelaguéa tem o contato inicial com o ideário revolucionário: “Para compreender o motivo por que o povo vive tão mal, é preciso ver como começaram a viver.”; “Estão certos aqueles que dizem que devemos saber tudo. Precisamos iluminar-nos com a luz da razão, para que os homens pouco esclarecidos nos vejam, temos de responder a tudo com honestidade e certeza. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira”; “Será que queremos apenas estar alimentados? Não! Nós temos de mostrar àqueles, que estão montados em nossos pescoços e que nos fecham os olhos, que estamos vendo tudo, que não somos imbecis ou bárbaros, e que não nos preocupamos só com comida; queremos viver com dignidade humana! Devemos mostrar aos inimigos que nossa vida desumana, por eles imposta, não nos impede de alcançá-los em inteligência e cultura, e até mesmo de superá-los!”

Os encontros passam a ser mais frequentes e as discussões começam a adquirir um caráter por demais violento e tempestuoso. Um número maior de pessoas passa a se reunir na casa de Pavel, que se apresentam como socialistas. Parodiando Marx, Gorki escreve: “Somos todos filhos da mesma mãe, a ideia invicta da fraternidade do proletariado de todos os países da Terra. Ela nos aquece, ela é o sol que brilha no firmamento da justiça; e este firmamento está no coração do operário, seja ele quem for, socialista ou não, nosso irmão em espírito, para todo o sempre, assim na terra como no céu.”

O movimento revolucionário passa a distribuir panfletos de conscientização aos trabalhadores e rapidamente a força da repressão recai sobre Pavel e seus amigos. No meio da noite a polícia invade a casa de Pelaguéa, levando preso um dos amigos de seu filho, ela começa a temer pelo perigo que se aproxima. Rybin, um líder mais experiente, vem para orientar o afoito Pavel e trava uma interessante discussão a respeito da visão socialista de Deus.

Pavel organiza sua primeira greve, é preso e a mãe assume as rédeas do romance, justificando desta forma o título do livro. Como a própria Pelaguéa afirma: “-Eles vão ver que mesmo com Pavel preso, a mão dele alcança longe. Vão ver!”. A mãe, com a ajuda dos socialistas, passa a distribuir os panfletos revolucionários no interior da fábrica, iniciando sua vida de militância em prol dos direitos dos trabalhadores, contra a exploração capitalista. Gorki expõe, na forma de romance, toda a teoria revolucionária socialista e o seu desenvolvimento na Rússia pré-bolchevique.

Como vimos no início deste texto, Mãe é boa pedida para o mês de maio por três motivos: trata-se de um clássico da literatura universal, e está em sintonia com um ano de eleições e com as comemorações do “dia das mães”. Para os que querem escapar dos presentes tradicionais, como chocolates e flores, nada melhor do que um bom livro para presentear esta pessoa que nos concebe a vida.

Published in: on 16 de abril de 2012 at 8:44  Deixe um comentário  
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LOLITAS – WMulher

LOLITAS

“Lolita, luz de minha vida, fogo de meu lombo. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO. LI. TA. Era LO, apenas LO, pela manhã, com suas meias curtas e seu um metro e quarenta e oito centímetros de altura. Era Lola em seu slacks. Era Dolly na escola. Era Dolores quando assinava o nome. Mas, em meus braços, era sempre Lolita.”

É desta forma que Vladimir Nabokov, ou apenas Nabokov, inicia sua obra mais conhecida, “Lolita”. Russo, nasceu em São Petersburgo, às vésperas da virada do século passado. Vindo de família aristocrática, teve que fugir da Revolução Bolchevique de 1917. Depois de viver na Inglaterra e Alemanha, fixou-se nos EUA, onde se naturalizou como cidadão norte-americano. Escreveu seu livro de maior destaque em 1955 e aborda o nosso tema de hoje: o desejo sexual e o amor de um homem de meia idade por uma adolescente.

Em seu prefácio, a obra alerta para o fato de que pelo menos 12% dos adultos americanos do sexo masculino desfrutam, desta ou daquela maneira, da experiência vivida pelo narrador do livro (Humbert H.), homem apaixonado, capaz de cometer os atos mais insanos para garantir seu romance com uma pequena menina.

A obra seria um alerta para a existência de tendências perigosas em nossa sociedade. Lolita deveria fazer com que os leitores (pais, mestres e educadores sociais) se dedicassem mais, com vigilância e visão, à tarefa de produzir uma geração melhor num mundo mais seguro.

O tema é atual e polêmico. Em nossos dias, é comum ouvirmos histórias reais de pais que abusam das próprias filhas. Temos “sites” especializados na divulgação de imagens envolvendo sexo (ou sexualidade, para a Pedofilia) e crianças. No Japão a indústria de produtos eróticos (ou pornográficos) oferece roupas íntimas já utilizadas por colegiais, que vêm impregnadas com os odores das moças. Mesmo próximo de nós, brasileiros, em praias Nordestinas, onde é comum a exploração de meninas de dez, doze, catorze anos pelo turismo sexual internacional, enfim, por todos os lados vemos formas de violência contra a Mulher, desde a sua mais tenra idade. O fato agrava-se ao ser ampliado para a esfera da violência contra a Infância.

Mas até onde iriam os limites da Infância, até que ponto uma moça já não é mais menina? Quando pode aparecer um sentimento de desejo em uma jovem? As perguntas prosseguem ao infinito. Existiria alguma forma saudável de cumplicidade amorosa entre um homem adulto, com sua sexualidade já desenvolvida, e uma garotinha adolescente descobrindo sua feminilidade? Esse é o drama central de nosso livro de hoje, onde o narrador sofre desesperadamente de amores pela jovem Dolores, ou simplesmente Lolita.

Tudo começa no verão de 1923, quando o então jovem Humbert conhece Annabel, sua primeira paixão. Aos treze anos de idade Humbert perde seu primeiro amor, e a fixação pela imagem da pequena Annabel iria povoar a sua mente pelo resto de sua vida. Nesta etapa da narrativa há uma relação sexual sadia, pois ambos os jovens estão explorando suas sensualidades, numa cumplicidade de descobertas.

Em sua insanidade, Humbert teoriza as origens do termo ninfeta. “Entre o limite de idade que vai dos nove aos catorze, existem raparigas que, diante de certos viajantes enfeitiçados, revelam sua verdadeira natureza, que não é humana, mas “nínfica” (isto é, demoníaca), e a essas dadas criaturas proponho designar como nymphets“. Humbert, ao atribuir à natureza da menina, uma provocação de cunho erótico, exime-se da condenação moral de seu ato libidinoso.

Aos possuidores do dom de identificar, entre as meninas de nove a catorze anos, àquelas que realmente são nymphets, dá-se o nome de nympholepts. Os atributos dos nympholepts resumem-se a distinguir as características misteriosas, a graça tresloucada, o charme indefinível, astuto, insidioso, que despedaça almas e que distingue a nymphet das demais moças de sua idade. É preciso que seja um artista e um louco, uma criatura de infinita melancolia, com um borbulhar de veneno ardente no lombo e uma chama supervoluptuosa a arder permanentemente na delicada espinha, para se discernir o contorno ligeiramente felino de um osso malar, a esbeltez de um membro pudescente, bem como outros indícios. Ela, a nymphet, passa desapercebida aos olhos dos homens comuns, sem que ela própria tenha consciência se seu fantástico poder.

O distanciamento de idades entre os amantes seria outra característica na determinação da relação nympholept-nymphet. As mulheres de sua idade não interessavam ao já adulto Humbert. Na tentativa de justificar seu raciocínio, o narrador traz uma lista de casos conhecidos da história da Humanidade, em que houve relações entre homens adultos e mulheres de oito a catorze anos. A nymphet possuiria atributos que a diferenciariam das demais moçoilas, seria uma espécie de criança-demônio. Para ele existia um primeiro estágio no desenvolvimento de uma nymphet, a fase de botão de flor do desenvolvimento dos seios, a partir dos dez anos e sete meses; outro em que ocorriam as modificações somáticas da puberdade e, finalmente, o aparecimento dos primeiros pelos púbicos pigmentados, aos onze anos e dois meses. Humbert sofria de desejos ao observar meninas em parques, saídas de escola, transportes coletivos, entre outros.

Com a possibilidade de início da segunda Grande Guerra Mundial, na Europa, Humbert muda-se para os EUA. Busca abrigo num quarto de aluguel, de uma pequena cidade do interior, na casa de Mrs. Haze. Conhece, ali, sua segunda Annabel. Uma sósia perfeita de seu primeiro amor, a filha da anfitriã, Lolita.

“Era a mesma criança: os mesmos ombros frágeis, cor de mel, as mesmas costas flexíveis, nuas e sedosas, os mesmos cabelos castanho-avermelhados.”; “Reconhecia, em seu flanco, a minúscula pinta marrom-escura. Vi-lhe de novo o encantador e retraído abdome, onde minha boca, a descer-lhe pelo corpo, pousara um momento, e aquelas ancas infantis, sobre as quais eu beijara a marca crenulada deixada pelos shorts.”. A partir desta imagem estarrecedora, o fantasma de Annabel incorpora-se na alma demoníaca da nymphet Lolita.

Mais uma vez a Vida imita a Arte. Tal como ocorreu com famoso cineasta, Humbert casa-se com a mãe, Mrs. Haze, passando de inquilino a marido, para terminar se unindo à filha, Lolita, no final das contas.

Separada de sua mãe e, após um complexo jogo de sedução, Lolita parte, levada por Humbert, por uma transloucada viagem automobilística, entre estradas e motéis dos EUA, onde você, leitor(a), será a peça chave para que nossas personagens cheguem ao seu destino final.

Published in: on 13 de abril de 2012 at 11:12  Deixe um comentário  
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A MULHER DE TRINTA ANOS – WMulher

Além do Gafieiras, também tive uma coluna no site WMulher (www.wmulher.com.br) , onde eu escrevia sobre literatura e o universo feminino. Basicamente, resenhas de livros recomendados que remetessem de alguma forma a temas de interesse das mulheres, público alvo do site. A estreia foi com o clássico de Balzac, que toda mulher ao chegar aos 29 anos procura ler. Então vamos à série, também de 8 episódios.

A MULHER DE TRINTA ANOS

Muitos já ouviram ou usaram o termo “balzaquiana” para designar um certo tipo de mulher. Mas nem tantos, realmente, chegaram a ler “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac. O escritor francês viveu na primeira metade do século XIX (1799-1850) e é este o ambiente que encontraremos em sua obra. Mais do que um simples romance, é também uma aula de história, onde desfilam os acontecimentos de uma França pós-revolucionária, durante o governo de Napoleão Bonaparte.

O livro trata a fundo da questão do destino da mulher na sociedade e, em particular, dentro do casamento. “A Mulher de Trinta Anos” contém estudos de psicologia feminina de extrema agudeza. Sua personagem principal, Júlia d`Àiglemont, é o primeiro grande retrato da mulher mal casada, consciente da razão de seus sofrimentos e revoltada contra a instituição imperfeita do matrimônio.

Constitui uma etapa na história da emancipação feminina. Revela-nos os sofrimentos da mulher incompreendida que não encontrou no casamento a realização de seus sonhos. Balzac é um dos primeiros a focalizar o drama da incompatibilidade de casais. Prestou um serviço imenso às mulheres, ao duplicar para elas a idade do amor. Antes dele, todas as namoradas de romance tinham vinte anos. Ele prolongou até os trinta, quarenta anos, sua vida ativa, idade que considerava o ápice da vida amorosa da mulher.

No primeiro capítulo, em uma época onde nem ao menos se sonhava com o divórcio, o pai de Júlia a alerta sobre os cuidados da boa escolha de um marido: “As moças criam frequentemente nobres, arrebatadoras imagens, figuras ideais, e forjam ideias quiméricas a respeito dos homens, dos sentimentos, do mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições que sonham e nisso confiam; amam no homem de sua escolha essa criatura imaginária; porém mais tarde, quando não há mais tempo para libertar-se da infelicidade, a ilusória aparência que embelezaram, seu primeiro ídolo, enfim, se transforma num esqueleto odioso.”. Sobre o futuro genro ele conclui: “É um desses homens que o céu criou para tomar e digerir quatro refeições por dia, dormir, amar a primeira mulher que apareça e bater-se. Não entende a vida … não é dotado dessa delicadeza de coração que nos torna escravos da felicidade de uma mulher…”.

Mesmo assim nossa heroína casa-se com Vitor, oficial do exército de Napoleão, tornando-se a infeliz Sra. d’Aiglemont. Em carta para uma amiga confessa sua desilusão pelo amor: “Vais casar, Luisa. Essa ideia faz-me tremer. Pobre criança, casa-te; depois, dentro de poucos meses, um dos teus mais cruciantes desgostos será proveniente da recordação do que nós éramos outrora…”. Sobre a noite de núpcias, escreve: “Quando meu marido entrou, quando me procurou, o riso que ouvi, riso sufocado sob as musselinas que me envolviam, foi o último lampejo daquela suave alegria que animava os folguedos da nossa infância…”.

Um casamento infeliz, e uma filha. A situação de Júlia parece trágica. A descrença no amor toma conta da personagem. O marido, distante espiritualmente, mantendo relações de adultério, não mais lhe pertencia. Todos os seus sofrimentos e sacrifícios para manter a falsa união passam a ser justificados em nome da felicidade de Helena, sua filha, único bem que a prendia à vida.

A tristeza de Júlia seduz um jovem inglês. Artur, que promete o amor perfeito que seu verdadeiro marido nunca lhe proporcionara. Ambos passam a viver um amor irrealizável, o dever do casamento proíbe Júlia de concretizá-lo. “Não quero ser uma prostituta nem a meus olhos nem aos olhos do mundo. Se não pertenço mais ao Sr. d’Aiglemont, também não pertencerei a nenhum outro”. As barreiras morais da época condenam-na a infelicidade eterna.

Por insistência de Artur o “affair” continua. Podemos ver, no livro, a tradicional cena em que o amante, surpreendido pelo retorno do marido, esconde-se no armário. Mas, aqui o desfecho é trágico, chegando a ser cômico, pois para salvar a honra da amante, Artur, depois de ter os dedos esmagados pela porta do quarto de vestir, corre para o peitoril da janela e, morre congelado pelo frio da noite parisiense. O segundo amor de sua vida termina, as trevas invadem seu coração. Júlia, agora com 26 anos, não encontra alegria nem mais em sua filha.

Ela explica sua angústia: “O casamento, a instituição sobre a qual se apoia hoje a sociedade, só a nós faz sentir todo o seu peso: para o homem a liberdade; para a mulher os deveres. Devemos consagrar aos homens toda a nossa vida, eles nos consagram apenas raros instantes… o casamento, tal como hoje se pratica, parece-me ser uma prostituição legal. Daí nascerem os meus sofrimentos. Mas, entre tantas criaturas infelizes… só eu sou a autora do mal, porque quis o meu casamento.”

Ao, finalmente, chegar aos trinta anos Júlia conhece o Sr. Carlos Vandenesse, que nos introduzirá às ideias do que viria a ser considerada uma mulher experiente, uma mulher balzaquiana: “Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis para um rapaz… Com efeito, uma jovem tem ilusões, muita inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor… ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Lá onde uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas à do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe… dando-se, a mulher experiente parece dar mais do que ela mesma, ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar… Uma nos instrui, nos aconselha… a outra quer tudo aprender… Para que uma jovem seja amante, precisa ser muito corrompida, e então é abandonada com horror, enquanto uma mulher possui mil modos de conservar a um tempo seu poder e sua dignidade… A jovem… acredita ter dito tudo despindo o vestido; mas uma mulher… se esconde sob mil véus… afaga todas as vaidades… Chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer. Enfim, além de todas as vantagens de sua posição, a mulher de trinta anos pode se fazer jovem, desempenhar todos os papéis, ser pudica e até embelezar-se com a desgraça”.

A paixão passa a frequentar o coração dos dois, que se tornam amantes, sob o nariz do omisso d’Aiglemont. Júlia tem mais filhos. A trama familiar continua. Mas o fundamental é que estão lançados os fundamentos das ideias de um relacionamento moderno, que respeita o direito da mulher de ser feliz, antes mesmo da mudança nos valores impostos pela coletividade.

Agora a mulher está livre para amar a quem realmente demonstre merecedor de seu amor, está livre do estigma do peso da idade e, tudo isso se deve em parte a um nome, Honoré de Balzac. Escrito no início do Século XIX, “A Mulher de Trinta Anos” aborda temas que continuam atuais até os dias de hoje, sentimentos que não se apagam com o tempo, presentes em todas as sociedades humanas, em todos os tempos, que garantem a universalidade de sua obra. Um grande clássico da literatura. Indispensável a todos os que querem se aprofundar na compreensão do “ser mulher”!