AS MULHERES DE BUKOWSKI – WMulher

AS MULHERES DE BUKOWSKI

Quando fui convidado para escrever sobre literatura para o WMULHER tinha um objetivo em mente, escrever sobre a Literatura Universal, tomando por base livros que abordassem questões referentes às mulheres, objeto de estima e admiração, por suas qualidades e contradições, e tema central deste SITE.

A primeira obra escolhida não foi por acaso. O título “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac, retratava uma situação comum a um grande número de mulheres, o drama do casamento infeliz. O trabalho prosseguiu, analisamos a obra de Nabukov, “Lolita”, que tratava do amor entre um adulto e uma criança. Passamos por “Mãe” de Gorki, e depois Gertrude Stein, talvez uma das maiores escritoras deste século.

Continuando nesta linha de trabalho, e aproveitando o clima descontraído das férias, estudaremos um exemplar muito sugestivo. Nada melhor que escrever para o WMULHER sobre “Mulheres”, de Charles Bukowski.

Bukowski, escritor norte-americano, teve sua obra valorizada na rebeldia da década de 70. Adotado pela geração flower-power, despontou com sua literatura ácida, que retrata, de forma nua, as relações de sua sociedade. A obra de Bukowski é toda ela recheada de traços autobiográficos, apesar de sua advertência introdutória que diz: “Este romance é obra de ficção e nenhum personagem pretende reproduzir pessoas ou combinações de pessoas vivas ou mortas.”

Henry Chinaski, o personagem central do livro, em muito se parece com o autor, o sobrenome (Bukowski-Chinaski), a profissão (ambos eram ex-funcionários dos Correios e tentavam sobreviver de literatura) e o método de trabalho, como podemos ver nas próprias palavras de Chinaski: “Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de meias-cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixara uma meta de até dez páginas por noite, mas nunca sabia, até a manhã seguinte, quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, ia até a sala e conferia no sofá quantas folhas tinha ali… Claro que o trabalho de cada noite tinha que ser desbastado ou tinha que ser jogado fora. Gastei vinte e uma noites pra escrever meu primeiro livro.”

O próprio Bukowski vivia um universo semelhante ao de seu personagem. Ébrio convicto, com certeza passou por situações semelhantes, se não idênticas, às descritas em seus livros. A obra de Bukowski, se torcida, talvez pingue álcool. Seus livros cheiram a vinho barato e são povoados por prostitutas decadentes. Muitos críticos chegam até mesmo a desconsiderar seu valor literário, não o classificando no hall dos mestres da escrita.

Mas é, justamente, esse caráter underground que o destaca dos demais escritores de seu tempo, transformando-o num CULT, e que faz de seu livro “Mulheres” uma boa sugestão de leitura para as férias de julho.

“Mulheres” começa com a seguinte frase: “Muito cara legal foi parar debaixo da ponte por causa de uma mulher.” Nosso personagem, o poeta Henry Chinaski, vai descrever sua vida amorosa, seus problemas com o sexo e sua visão sobre o ser feminino. Através deste livro poderemos desfrutar de novas formas de compreender a mulher, sob a óptica de uma mente masculina bem específica, que é o pensamento Bukowskiano.

Para quem busca a compreensão dos tipos humanos, este livro é um prato cheio. Ele nos apresenta indivíduos comuns, que realmente possam existir, mostra-nos relações diárias entre as pessoas, em especial as relações carnais entre homens e mulheres.

Gostaria apenas de acrescentar algumas passagens deste livro, para que os leitores mais pudicos tenham a chance de escapar das palavras de Bukowski. Aos que tiverem coragem, e estômago, uma boa leitura. A diversão é certa!

Sobre o despestar

“Botei uma camisa, uma calça, …, corri pro banheiro e vomitei. Tentei escovar os dentes, mas só consegui vomitar de novo. … -Você tá mal – disse Lydia. -Quer que eu saia? -Não, não, eu tô legal. Sempre acordo desse jeito.”

Sobre mulheres

“-Por que é que escreve sobre mulheres daquele jeito? -Que jeito? Você sabe. Não sei não. -Ora, eu acho uma vergonha um cara escrever tão bem como você e não saber nada sobre as mulheres. Não respondi.”

A matraca

“Glendoline puxou uma cadeira e começou a falar. E como falava. Se fosse uma esfinge, ia falar, se fosse uma pedra, ia falar. Quando é que ela vai se cansar e sair, fiquei pensando. Mesmo quando parei de escutar, era como se eu estivesse sendo bombardeado com minúsculas bolinhas de pingue-pongue. Glendoline não tinha nenhuma noção do tempo e não se tocava que podia estar incomodando. Ela falava, falava.”

Sobre si mesmo

“Lá estavam as cicatrizes, o narigão de alcóolatra, a boca de macaco, os olhos reduzidos a fendas; e lá estava o sorriso burro e satisfeito de um homem feliz, ridículo, que se sente um sortudo, e nem sabe por quê. Ela tinha 30 e eu mais de 50. Não me importava.”

As referências sexuais são freqüentes, descrevendo cenas de sexo de forma mais que explícita. Cabe agora a vocês, meus caros leitores, a decisão, ou não, de prosseguirem com a leitura das palavras de Henry ‘Bukowski’ Chinaski.

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