MÃE – WMulher

MÃE

O mês de maio se aproximava e eu pensava no presente que compraria para o Dia das Mães. A minha primeira ideia, vocês vão logo entender o porquê, foi um livro de Gorki. Corri à estante e, tal como um cão farejador, apanhei o livro azul na prateleira. De posse do referido volume, chequei se a história era mesmo uma boa lembrança para a ocasião. Qual foi a minha surpresa ao perceber que, mais que um bom presente, era a minha resenha para este mês. Portanto, aí vai a sugestão: leiam e presenteiem suas progenitoras com “Mãe”, de Máximo Gorki.

O romance Mãe (1907) é considerado um de seus trabalhos mais importantes. É tido como a primeira obra do Realismo Socialista, impregnado de profundo humanismo. Uma ótima leitura para um ano de eleições, onde a mulher vem buscando cada vez mais espaço na vida política brasileira, reduto estritamente masculino, representada por Martas e Luizas, na tentativa de construção de uma sociedade mais justa e humanitária.

Gorki (1868-1936), revolucionário, frequentou as cadeias da Rússia Czarista, sendo liberto por influência do próprio Tolstói. De uma genialidade comparável a Dostoiévski, é, sem dúvida alguma, um dos maiores escritores da Literatura Russa. Deu início à linha político-social do Teatro Russo. Gorki canaliza a metafísica da dor e a caridade agnóstica-cristã-socialista (Dostoiévski e Tolstói), substituindo a exaltação do sofrimento por uma raiva instintiva e uma justificável violência. Era irmanado com a multidão e o operariado. Sua visão de proletário era romântica, apaixonada, e muitas vezes ele se deixava arrebatar, prejudicando a fluência da narração para vociferar contra burgueses, vencidos e acabados, submersos na hipocrisia de uma vida medíocre e mesquinha, assumindo uma forma de manifesto panfletário.

Sobre seu nascimento escreve: “No ano de 1868, a 14 do mês de março, às duas horas da madrugada, em consequência da predileção que tem pelas partidas de mau gosto, e ainda para completar a soma de absurdos que tem cometido em diversas épocas, a Natureza fez-me nascer com uma pincelada objetiva. A despeito da importância desse fato, não conservo dele nenhuma recordação pessoal; mas minha avó disse-me que logo que me foi conferido espírito humano soltei um grito. Quero crer que foi um grito de indignação e protesto.”

Em Mãe, encontramos a descrição de uma típica família de operários russos, que enfrentam toda a sorte de dificuldades. Logo no começo da história o núcleo familiar é abalado pela morte do chefe da família, Mikhail Vlassov, que deixa o jovem Pavel órfão. Este será o centro do romance, a relação do jovem revolucionário Pavel e sua mãe, Pelaguéa Nilovna, agora viúva.

O filho desenvolve uma estranha apatia frente aos hábitos dos demais jovens de sua idade, sua única distração eram os livros. Livros proibidos, que traziam esclarecimentos sobre a exploração do povo. Pavel passa a marcar encontros com seus amigos de militância, que sob os olhos da mãe, discursavam sobre as verdades revolucionárias.

Na primeira reunião em sua casa, Pelaguéa tem o contato inicial com o ideário revolucionário: “Para compreender o motivo por que o povo vive tão mal, é preciso ver como começaram a viver.”; “Estão certos aqueles que dizem que devemos saber tudo. Precisamos iluminar-nos com a luz da razão, para que os homens pouco esclarecidos nos vejam, temos de responder a tudo com honestidade e certeza. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira”; “Será que queremos apenas estar alimentados? Não! Nós temos de mostrar àqueles, que estão montados em nossos pescoços e que nos fecham os olhos, que estamos vendo tudo, que não somos imbecis ou bárbaros, e que não nos preocupamos só com comida; queremos viver com dignidade humana! Devemos mostrar aos inimigos que nossa vida desumana, por eles imposta, não nos impede de alcançá-los em inteligência e cultura, e até mesmo de superá-los!”

Os encontros passam a ser mais frequentes e as discussões começam a adquirir um caráter por demais violento e tempestuoso. Um número maior de pessoas passa a se reunir na casa de Pavel, que se apresentam como socialistas. Parodiando Marx, Gorki escreve: “Somos todos filhos da mesma mãe, a ideia invicta da fraternidade do proletariado de todos os países da Terra. Ela nos aquece, ela é o sol que brilha no firmamento da justiça; e este firmamento está no coração do operário, seja ele quem for, socialista ou não, nosso irmão em espírito, para todo o sempre, assim na terra como no céu.”

O movimento revolucionário passa a distribuir panfletos de conscientização aos trabalhadores e rapidamente a força da repressão recai sobre Pavel e seus amigos. No meio da noite a polícia invade a casa de Pelaguéa, levando preso um dos amigos de seu filho, ela começa a temer pelo perigo que se aproxima. Rybin, um líder mais experiente, vem para orientar o afoito Pavel e trava uma interessante discussão a respeito da visão socialista de Deus.

Pavel organiza sua primeira greve, é preso e a mãe assume as rédeas do romance, justificando desta forma o título do livro. Como a própria Pelaguéa afirma: “-Eles vão ver que mesmo com Pavel preso, a mão dele alcança longe. Vão ver!”. A mãe, com a ajuda dos socialistas, passa a distribuir os panfletos revolucionários no interior da fábrica, iniciando sua vida de militância em prol dos direitos dos trabalhadores, contra a exploração capitalista. Gorki expõe, na forma de romance, toda a teoria revolucionária socialista e o seu desenvolvimento na Rússia pré-bolchevique.

Como vimos no início deste texto, Mãe é boa pedida para o mês de maio por três motivos: trata-se de um clássico da literatura universal, e está em sintonia com um ano de eleições e com as comemorações do “dia das mães”. Para os que querem escapar dos presentes tradicionais, como chocolates e flores, nada melhor do que um bom livro para presentear esta pessoa que nos concebe a vida.

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Published in: on 16 de abril de 2012 at 8:44  Deixe um comentário  
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