A CAÇADA – CONTOS DE MARCELO AITH

A CAÇADA

Não houve um piu na cozinha naquela manhã. A água e o leite esquentavam no fogão. As crianças, sonolentas, resmungavam à mesa. Elisa preparava o café.

Mas, dava por falta de algo. A rotina matinal não estava completa. Faltava o gorjear costumeiro. O silêncio gerava a certeza de que alguma coisa havia mudado.

Criançada vestida, uniforme escolar, lancheira, tudo pronto para a partida. Foi então que ela finalmente percebeu o porquê da estranheza. A gaiola, era hora de pô-la para fora. Hora do banho de sol para o prisioneiro.

Não penso em bicho de estimação mais infeliz do que um pássaro. O símbolo da liberdade, asas, o poder de planar, viagens sem destino. Autonomia que há muito sonhamos, perseguimos, tentamos conquistar e que nos mata de vez em quando.

Aqueles pequeninos seres alados, confinados em espaço mínimo. Os senhores dos céus restritos a poucos centímetros apenas para o deleite dos olhos e ouvidos egoístas de seus possuidores.

Esta é uma das amputações mais violentas que nós, homens, cometemos contra a Natureza. Sim, faz parte da natureza das aves, e impedir o seu voo através de grades, confino, é como amputar seus membros locomotores, suas asas.

Penso nos peixes, que trocam a imensidão dos rios e mares por apertadas caixas de vidro. Estes aparentam uma estupidez profunda. Parecem não se entediar com o cativeiro. Mas, voltemos à história.

Faltava a ave. O pássaro sumira. Desespero entre as meninas. Não havia pistas. Nada do corpo, nada de arrombamento. A gaiola intacta, nenhum vestígio de luta, nada fora furtado. O alpiste, o jornal cagado, a água, tudo estava em seu devido lugar. Menos Alfredo, o canário belga.

Choro por todos os lados, por onde estaria Alfredo? A gaiola vazia, um vazio no peito. O canarinho era um verdadeiro “rouxinol”. Não sei porque, mas quem canta bem, canta como um rouxinol. E como cantava bem o desgraçado.

Talvez fossem as sementes de maconha que recebia escondido, para que mulher e filhas não soubessem. O pai foi chamado às pressas. Começavam as investigações.

-Meu Alfredinho! Onde foi parar o meu Alfredinho?

-Ai minha santa! O que vai ser das crianças?

-Que crianças? E eu, e EU? Cadê meu Alfredinho?

-Você está histérico.

As filhas saíram chorando da cozinha.

-Tá vendo, olha só o que você fez.

A mãe saiu da cozinha.

-Bom, filho, só me resta você. Vamos achar o Alfredinho, doa a quem doer.

Os dias passaram, Alfredinho, nada. A tristeza foi se dissipando, em breve ninguém se lembraria do pássaro. Elisa, vez em quando, prestava atenção nos cantos que vinham da rua. Vã esperança de reconhecer ali o timbre agudo que tanto animava os deveres domésticos.

Para as crianças, inventaram a história de que Alfredo fora construir um ninho, com uma linda canarinha, e que agora tinham uma família de filhotinhos para criar. Tudo ia bem, quando a notícia correu.

A empregada foi limpar o fogão. E, sob o forno, dentro da bandeja inferior…

Como poderia explicar?

Observem seus fogões, abram o forno, fechem-no. Abaixo desta porta que mexeram, existe um friso, um espaço entre a dobradiça e o piso da cozinha. Com cuidado, passando a mão por sua extensão, abrirão uma outra portinhola.

Ali, esquenta-se pão, aproveitando o calor do forno, por exemplo. Ali, ocultava-se o cadáver do pássaro. Penas, pequenos ossos, todas as evidências necessárias. Estava descoberto seu paradeiro.

-Que horror!

Exclamou Elisa.

-Que horror!

Repetiu Guilhermina, a cozinheira.

As filhas saíram chorando da cozinha.

O pai foi chamado novamente. Tínhamos um mistério. A solução logo se tornou óbvia. Um ninho de rato, confortavelmente instalado abaixo do calor do forno. As bolinhas de cocô denunciavam o inquilino.

Vingança. Era tudo o que passava na cabeça do pai. Seu companheiro de cantoria brutalmente assassinado. Sua companhia nas tardes esfumaçadas entre um trago e outro da boa erva, lá estava Alfredo a gorjear. Cantava como nunca, empolgado com as sementes que ganhava.

Furar os olhos, não. Coitadinho, era muita maldade. Mas, dopar o bicho, sim. Ah, com que beleza recitava aqueles versinhos. Compunham os dois. O animal entrava com a melodia, o pai, com a letra.

A dupla estava desfeita. E seu sangue clamava por vingança. Mais que isso, ninguém naquela casa dormiria enquanto não fosse encontrado o maldito rato.

Ser ignóbil, símbolo de tudo o que é sujo, sórdido e porque não dizermos, rasteiro. Animal que não desperta nenhuma compaixão entre os ocidentais. Elisa não dormiria com um bicho destes dentro de casa.

Mais que vingança, encontrar e exterminar o roedor era questão de honra. Sua rainha pediria a cabeça do animal, era preciso contentá-la. Não haveria paz naquele reino enquanto a bandeja de prata não lhe fosse ofertada com a cabeça decepada do inimigo.

A perplexidade era completa.

-Como o roedor escalara a lisa parede de azulejos?

-Como o roedor invadira a gaiola?

-Como matara e arrastara o corpo para baixo?

-Será que sabia abrir a porta da gaiola?

-Teria passado entre os vãos das grades?

Tudo parecia supérfluo frente ao fato consumado. Nada traria de volta a alegria perdida naquela cozinha.

Foi então que começou a maior operação militar já vista. Todos mobilizados, mulheres e crianças para fora da cozinha, portas trancadas. Dentro, apenas pai e filho. Vassoura e rodo. Todos a postos. A caçada teria início.

Arrastam-se os móveis, armários, gavetas, até que enfim lá está o alvo. O roedor. Seu corpo não é dos maiores, mas também não é um camundongo. Deve ter vindo do esgoto.

-É ele!

Gritou o menino.

-Vamos pegá-lo!

Bradou o pai.

Do outro lado da porta, as moças insistiam em ouvir.

-Pegaram ele?

Perguntou a filha mais velha.

-Deixe eu ver um pouquinho?

Pediu a mais nova.

-Fechem a porta, porra.

Gritou o pai.

O rato escapara. Vassouradas e golpes de rodo disparados a esmo. Ileso, o roedor tremia dentro do buraco do motor da geladeira.

-Ali, pai. Ali. Ele entrou ali.

Apontava o filho.

-Pegamos o bastardo. Seus dias de comedor de pássaros chegaram ao fim.

Disse o pai, triunfante.

Estudaram a situação. Tentaram a todo o custo fazê-lo sair de lá, mas o bicho não era bobo. Dali ele não sairia, dali ninguém o tirava. A mãe já reclamava das cacetadas a que seu refrigerador era submetido na esperança de desentocar o intruso. Então veio a ideia.

-O inseticida! Vamos acabar com ele. Quero ver ele não sair daí!

-Oba, guerra química.

O filho, excitadíssimo, correu até o armário.

-E a Convenção de Genebra?

Diria o rato, se este soubesse falar.

Devidamente protegidos, com panos de prato amarrados nos rostos, nossos corajosos soldados não dariam trégua ao inimigo.

-Psssssssssssssssssssssss

O pai descarregou todo o tubo de veneno. O rato aguentou firme. Silêncio mortal na cozinha, apreensão do lado de fora.

-Ai dona Elisa, vamos ter que lavar a cozinha, como é que eu vou cozinhar no meio do veneno?

Preocupou-se Guilhermina.

-Vamos jogar todas as comidas fora, amanhã você vai limpar tudo, azulejo por azulejo.

-Pega pai.

O rato correu para seu ninho, dentro do fogão.

-Vais morrer como um judeu! Escapaste do gás, mas do forno…

-Olha as crianças.

Repreendeu Elisa, com o ouvido colado à porta.

-Você quer ele morto, não quer? Então cale-se. Há homens em ação, aqui nesta cozinha.

Respondeu o pai.

-Me passe os fósforos.

Ordenou o comandante da operação.

-Vamos queimá-lo?

Indagou o subordinado.

-É isso aí filhão, agora eu quero ver esse desgraçado se esconder. Ele vai sair daí por bem ou por mal.

Riscou o fósforo, acendeu o forno.

Era o fim do animal. Envenenado, acuado, e agora submetido a calores equatoriais. Só havia uma saída, o chão da cozinha. A postos, pai, vassoura, filho e rodo esperavam o limite da resistência do comedor de aves.

Como era de se esperar, lá veio ele. Franca disparada, correu em direção do garoto. Em atitude de defesa, desferiu o golpe.

-Plaft.

A vassoura espatifou-se contra o piso. Numa agilidade única, o roedor mudou o seu rumo, para alegria do menino que gritava em pânico.

-Ele avançou em mim! Ele avançou em mim!

-Ploft.

O pai foi certeiro. Pescoço para um lado, corpo para o outro. Como divisória, a borracha do rodo. Perninhas ainda deram um último estremecer. Alfredinho estava vingado, a guerra chegava ao fim.

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Published in: on 27 de março de 2012 at 13:49  Deixe um comentário  
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