A CHAVE – CONTOS DE MARCELO AITH

A CHAVE

Era um daqueles sujeitos que acreditava nas coisas do destino, em algumas predestinações em nossas vidas. Tinha o seu próprio Destino Manifesto, sua Doutrina Monroe. Para ele, alguns teriam nascido para brilhar. Um futuro grandioso os aguardava. As oportunidades iriam surgindo aos afortunados que tivessem a capacidade de canalizar as chances da vida. Foi justamente o que lhe aconteceu naquele dia, quando voltava para casa.

Depois de bater o cartão do ponto na firma em que trabalhava, bateu o cartão de ponto no bar em frente à estação de trens onde se embebedava diariamente com os amigos do escritório.

Tomou a última composição que partia em direção ao seu bairro. Ao descer encontrou as ruas desertas. A noite estava fria, o asfalto estava molhado pela fina chuva que caíra o dia inteiro e que ameaçava recomeçar a qualquer momento. Caminhou pela avenida principal por um quarteirão e dobrou à direita, pegando a rua que o levava ladeira abaixo de volta para o lar.

Logo ali, no meio do caminho, na trajetória de sua curva, foi que ele viu caída no chão uma pequena chave. Parou. Abaixou-se e apanhou o objeto perdido. Olhou para os lados, não avistou ninguém. Próximos à esquina, dois homens ocupavam uma mesa de bar na calçada da avenida. As plantas da floreira o encobririam. Não seria visto.

Impulsionado pela ação da gravidade imposta pelo íngreme desnível, encoberto pelo anonimato de seu ato, e pensando na adversidade climática com que a noite se fazia presente, recomeçou a andar.

O que poderia ter feito? Não havia ninguém por perto, quem poderia ser o dono de tal chave? Ir ao bar da esquina perguntar se alguém ali seria o suposto proprietário? Entregá-la ao caixa para caso alguém fosse procurá-la?

As alternativas apresentavam-se à mente de nosso amigo, sem que esse pudesse discernir entre as opções qual realizar. Simplesmente seguiu o seu rumo.

Quantos mistérios poderiam conter naquela única chave? Que porta poderia abrir? Ou o que poderia estar fechado por ela? Estas foram as ideias que o atingiram.

Sim, era isso mesmo. Deveria haver algo importante, valioso, fechado por aquela chave. Agora, era ele o proprietário do poder de abrir tal compartimento. A chave era pequena, dessas que pertencem a cadeados. Não parecia tratar-se nem de chave de porta, nem de chave de automóvel. Era, com certeza, uma chave de cadeado.

Dinheiro, joias, documentos, ações, seria ela a chave de um cofre? Quem sabe um cinto de castidade de alguma virgem donzela aguardava, ansiosamente, a chegada do libertador e futuro príncipe de um reino distante? Mais fácil seria a chave pertencer a algum marido ciumento que acorrentava a mulher dentro de casa ao sair para o trabalho.

Infinitas eram as hipóteses para a origem da chave. Quem sabe uma caixa postal, dessas de correio, onde se guarda correspondência entre amantes? Talvez um armário de rodoviária, ou de aeroporto, que contivesse o produto de algum roubo ou um carregamento de drogas?

O destino zombava dele, só podia ser isto. Os deuses riam lá de cima, deleitando-se com sua agonia. A chance de sua vida, tesouros inimagináveis o aguardavam e ele jamais os acessaria. Simplesmente pelo fato de que nunca encontraria a fechadura para a sua nova chave.

Quantas fechaduras poderia haver no mundo? Quais as chances concretas dele encontrar o local certo para o uso da chave, mesmo que a partir daquele momento dedicasse toda uma vida à procura de uma saída para tal enigma?

Tinha que pensar em algo melhor. Procuraria o dono da chave e proporia a divisão dos bens trancados. Mas como saber quem era o homem? A fechadura era inatingível, mas quem sabe através do chaveiro pudesse identificar seu dono? Quem sabe um nome gravado, um número de telefone?

Passou a concentrar sua atenção no chaveiro. A noite estava escura e pouca luz passava por entre as sombras das árvores que margeavam a rua. Continuou a sua marcha, descendo até a próxima esquina. Lá, sob a lâmpada de um poste, pôde ver os detalhes com maior clareza.

O chaveiro imitava uma bota de cowboy em tamanho miniatura. Podia ser um brinde do Beto Carreiro World ou uma lembrança de alguma etapa do torneio de rodeios. Quem sabe alguma loja de calçados ou mesmo uma refinada selaria contemplava seus clientes com estranho objeto?

Nada foi encontrado além do formato do chaveiro que pudesse fornecer maiores informações a respeito de suas prováveis origens. O trabalho de miniaturização era tão perfeito que era possível identificar o tamanho da botina. A mini-bota era número quarenta e dois, conforme a gravação na sola.

Não havia mais nada, nenhuma etiqueta, nenhum nome, nenhuma pista sobre o paradeiro do antigo proprietário. Seus neurônios fritavam numa certa convulsão epiléptica. Estava ficando maluco. Imaginava que aquela podia ser a sua grande chance que a vida gentilmente lhe ofertava e ele a deixaria escorrer por entre os dedos.

Precisava de paz, tinha tido um dia duro de trabalho, tudo o que queria era chegar em casa, deitar a cabeça no travesseiro e ter uma boa noite de sonhos. Agora, não conseguiria dormir, aquela chave representava um tormento.

Resoluto, decidiu livrar-se dela. Nem ele, nem ninguém a possuiria. Atirou a chave com bota e tudo na água que corria pelo meio-fio. Ainda pôde ver o chaveiro enroscar na entrada do bueiro, antes de desaparecer para todo o sempre.

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Published in: on 2 de março de 2012 at 14:00  Comments (2)  
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