A ESQUINA DO PECADO – CONTOS DE MARCELO AITH

A ESQUINA DO PECADO

 

A história que agora vamos contar trata-se, basicamente, de desejo. A satisfação pura e simples de uma vontade, talvez até um grande pecado. Tudo depende da linha ideológica adotada por vocês, caros leitores.

Passa-se, sem dúvida, numa esquina. Mais especificamente dentro de um bar, o “Esquina do Pecado”. Seu Cacique julgava-se o feliz proprietário. Toda manhã, logo cedo, estava a abrir o estabelecimento. Não confiava as chaves a funcionário algum.

Nem mesmo Serafim merecia tal crédito. O negro; de um escuro que só quem já foi a certas regiões da Bahia, ou de Minas, entende; era quem aguardava o patrão pela madrugada.

Para não perder o movimento do café da manhã, seu Cacique abria o “Esquina do Pecado” pontualmente às 4:25. Que culpa tinha ele se pobre tinha que pegar tanta condução para ir trabalhar?

Português sovina que era, abriria o bar assim que os primeiros prováveis clientes estivessem passando. Seu endereço comercial era ao lado do terminal central de ônibus. O movimento começava cedo, seu Cacique também.

Mas, não estava só. Subia as portas somente com a presença de Serafim. O cozinheiro era homem feito. Já fora boiadeiro, trabalhara com porretes quebrando pedras ou matando boi.

Até frente de trabalho governamental, obra emergencial contra o flagelo da seca, escavando açude, tinha pegado. Agora, era moleza para os músculos. A necessidade tinha feito dele cozinheiro. Trabalho de mulher, mas trabalho!

Nunca havia esmorecido frente peleja alguma. Só porque vestia avental não era menos macho, não senhor! Estava até gostando da vida mansa, longe do batente pesado do sol a sol.

Pois era esse colosso azulado que garantia as posses de seu Cacique. O português, medroso com a violência da metrópole, só se aproximava da pesada porta de metal e seus cadeados com a presença de Serafim.

O negro chegava às 4:00. Limpava qualquer espécie de escória humana que pudesse estar dormindo em frente ao “Esquina do Pecado” e garantia que nenhum vagabundo pensasse em se acolher sob a marquise do prédio.

Às 4:10 vinha seu Cacique. Entravam rapidamente e tornavam a baixar as portas. Começava o preparo do café. Às 4:25 as portas eram abertas em definitivo. Logo os primeiros vendedores ambulantes e operários estariam entrando.

O “gajo irresponsável”, como dizia o patrão, chegava logo em seguida. Manuelito era o garçom. Menino esquálido, mal enchia a camisa branca com babados. A calça preta mais parecia um saco de batatas.

O dia esquentava. Serafim se ocupava dos afazeres do almoço. A cozinha não era muito grande, ficava fácil controlar os insetos, e não só baratas, que circulavam impunimente. O menu principal contava com pratos típicos. Do mocotó à carne seca.

Era o ponto alto do dia. As refeições eram o carro-chefe do “Esquina do Pecado”. É claro que os bêbados de balcão garantiam o movimento mínimo da caixa registradora, mas era ao meio-dia que os olhinhos de seu Cacique brilhavam.

Este é o momento que a nossa história de desejo começa. Pela calçada, sujo e maltrapilho, vinha o nosso homem. Pensem num nome de um mendigo. Acho que ninguém nunca pensou que os mendigos também têm um nome. Por fim, ficaremos apenas com “o nosso homem”.

O nosso homem caminhava sem rumo, como fazia todos os dias. O sol de verão estava escaldante. Suor pingava-lhe ao rosto. Parou. Ergueu a cabeça. Encarou o astro-rei, indagou-lhe:

-Senhor, por quê? Por que, meu Senhor? Precisava tanto?

Resignado, tornou a baixar os olhos para a calçada, em direção aos pés. Dois cascos, pontas dos dedos para fora, trapos amarrando a sola ao corpo do que um dia deveriam ter sido sapatos.

Quando deu por si, estava em frente ao “Esquina do Pecado”. O bar fervia naquele instante. Serafim não parava de tirar refeições das panelas. Os pratos eram montados e passados pela janelinha.

Manuelito tratava de levá-los às mesas. Seu Cacique comandava o balcão, os pedidos, o caixa! Nossa equipe era engrossada por dona Isabel, quem dava jeito na louça, no banheiro e no lixo.

O nosso homem resolveu entrar. Mais uma vez ia se passar por pedinte. Não se considerava um, mas as circunstâncias da vida o haviam levado para aquele estado de degradação.

Tinha um enorme desejo, estava calor, queria uma coca-cola bem gelada.

-Uau!

Pensou nos goles molhando a garganta. Sem delongas entrou no “Esquina”. Certeiro, avançou em direção à primeira mesa.

-Me dá um real prá comprar coca?

O freguês, que estava comendo, ergueu a cabeça. Encarou o nosso homem com expressão de desdém e, com a boca cheia de farofa, respondeu.

-Qnhun tênhonf nãnfh.

O nosso homem não desiste, aborda uma segunda mesa.

-Pode me emprestar um real?

O operário não está para muitas conversas, muito menos tem tempo a perder com vagabundos. O capacete ao lado lembra-o que voltará ao trabalho. As três latas de cerveja já bebidas pedem para sair.

-Não.

Responde seco.

O sedento olha para a moça crente, destas evangélicas cabeludas com bíblia embaixo do braço, e cheio de esperança avança em sua direção.

-Moça, tem um real pr’eu comprar uma coca?

A tímida não tira os olhos do prato. O nosso homem hesita em partir para cima de outras vítimas. Neste momento, o operário mal humorado levanta-se. É um verdadeiro troglodita, camisa justa colada aos músculos.

Ele já acompanhara todo o movimento do nosso homem, desde a sua entrada no “Esquina do Pecado”. Após incomodar a moça frágil e indefesa, o nosso homem tinha que ser detido. O operário interpõe-se entre o nosso homem e a próxima mesa.

-Tome aqui o seu um real, mas vê se como alguma coisa, porra! Vai tomar coca? Cê acha que é o quê?

Estendeu-lhe a nota, com ar ameaçador. O nosso homem, submisso, olhos baixos, mineirinho, afirmava com o balançar da cabeça.

O operário voltou para a sua mesa com ar de desprezo. O nosso homem foi ao balcão. Seu Cacique passava um imundo pano velho dentro dos copos, como se assim os tornassem mais limpos.

O nosso homem estende a nota e, vitorioso, pede.

-Me dá uma coca. Bem gelada, sim.

Seu Cacique grita para Manuelito.

-Solta uma coca aqui.

Manuelito trouxe a garrafinha. Abriu e entregou-a. O nosso homem virou tudo num gole só, como se fosse a coisa mais maravilhosa que pudesse acontecer em sua vida. Seu Cacique, que depositara o real no caixa, voltou com as duas moedas de dez centavos, toda a fortuna que restava ao nosso homem.

-Olhe aqui o seu troco. E trate de ir dando o fora, ô piolhento.

O nosso homem bateu com a garrafa no balcão, deu aquela respirada de quem acaba de matar 300ml de coca de uma só vez, e disse.

-Eu só queria uma coca.

O nosso homem deu as costas a seu Cacique e, com toda hombridade de quem governa os rumos de sua existência, saiu cantarolando de volta às ruas. Sobre o balcão, para perplexidade dos que acompanharam a cena, jazia ambas as moedas.

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Published in: on 15 de março de 2012 at 16:40  Deixe um comentário  
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