ANIMAIS – CONTOS DE MARCELO AITH

ANIMAIS

 

Os Estados Unidos da América rejeitam o Tratado de Kioto. O mundo industrializado não consegue disciplinar-se frente ao problema da poluição ambiental. A civilização gladia-se durante o encontro dos países mais ricos do planeta. Enquanto isso, nas savanas africanas….

O processo de desertificação avança. O Saara cresce a cada dia, atingindo antigas áreas férteis do continente africano. A água rareia, tornando-se elemento vital na sobrevivência das espécies.

Em volta dos últimos reservatórios, a luta pela vida aflora em atos grandiosos. Famintos leões, dois jovens irmãos para dizer bem a verdade, se aproximam do território irrigado.

Inúmeras espécies herbívoras coexistem em certa pacificidade. Aves, roedores, répteis, flora e fauna refugiam-se em busca das últimas gotas a serem sorvidas do solo.

A concentração das espécies garante a fartura de indivíduos apetitosos para nossos grandes felinos esfomeados. A primeira presa que nossos irmãos avistam:

-Gazelas!

Tudo em perfeita ordem, gazelas. Grande pedida. Suculentos, esses saltitantes bichinhos dariam uma ótima refeição. A correria começa.

As gazelas pressentem o cheiro dos jovens leões. Louca disparada em meio aos arbustos e árvores de troncos retorcidos. Os leões partem atrás, mas com certa desvantagem de largada.

As gazelas correm em direção ao local onde uma manada de búfalos pasta. Os machos mais velhos não parecem nada dispostos a conviver com novos visitantes carnívoros, mesmo não sendo eles o prato do dia.

Sabem que seus filhotes podem bem ser a sobremesa. Em ordem de tamanho dos cornos, investem contra os felinos, que são forçados a desistir de comer, ao menos naquele dia.

O sol esquenta e os jovens irmãos retiram-se para um descanso à sombra. Na margem da represa, rinocerontes tomam seu banho de lama.

Animal único, sua pele é uma verdadeira couraça. Suas semelhanças nos levam a pensar nos tempos dos dinossauros, ou quem sabe na invasão de tropas blindadas alemãs.

Um grande elefante passeia próximo. Este sim é o rei da selva. Impõe sua vontade frente a todos os demais habitantes daquele ecossistema. Seu tamanho e força monstruosa garantem a supremacia.

Resolve, então, chatear os filhotes dos rinocerontes. Com sua tromba sopra-lhes os traseiros, passa-lhes rasteiras. Não os deixa em pé. Até que os indivíduos adultos resolvem intervir.

São seis deles, realmente nervosos, dispostos a acabar com aquela brincadeira de pouca graça. Espumam de raiva. Quase cegas, muito míopes, as bestas atacam sistematicamente, todas ao mesmo tempo.

Seus cornos afiados e pontiagudos não dão descanso ao paquiderme. Logo podemos ver abertas vermelhas feridas sob a grossa epiderme.

Duelo de titãs, a força numérica supera as diferenças de potência. O elefante é obrigado a recuar. A realeza é deposta por um dia. Todo déspota tem o seu dia de Maria Antonieta.

Enfurecido, desconta sua ira nas árvores, quebrando-lhes os galhos, arrancando-lhes as copas. A noite cai.

Manhã seguinte, os leões preparam-se para a caça. A fome aumenta, e já não podem errar o bote. O gasto de energia não é pouco, cada tentativa frustrada significa menos força para novas arrancadas.

A diferença entre a vida e a morte. O dia da caça e o dia do caçador. Os leões sabem disso. Para disfarçar-lhes o cheiro que tanto pavor inspira, chafurdam em merda. Excrementos de elefantes, excrementos de búfalos.

Assim poderão se aproximar mais das vítimas, sem serem notados. E logo descobrem um grupo de javalis. Os porcos selvagens correm, mas as garras do predador não perdoam.

Um leitão é atingido, o golpe acerta-lhe o lombo. Sai de rabeira, guinchando. O leão derrapa sobre as pernas, em curva fechada. A manobra é de levantar poeira.

Mais dois pulos, e o golpe certeiro. Um abraço de morte. A presa não tem como fugir. As pesadas patas arrebentam-lhe as costelas. As afiadas unhas abrem-lhe sulcos paralelos.

É abocanhada. Guincha como nunca. Seus pés já não tocam mais o chão. O segundo leão se aproxima, examina o apanhado pelo irmão. O javali estremece.

Uns últimos solavancos são empreendidos pela cabeçorra do carnívoro. O corpo cai inerte, ao solo. Parece que finalmente farão a tão sonhada refeição. Do jeito que se encontra, o leitão não irá muito longe.

Mas o cheiro de sangue alerta o elefante. Ele avança sobre as feras. A visão da morte, o cadáver e o cheiro do combate enlouquecem o gigante. Abre suas orelhas, sacode-as com violência.

Suas presas são ameaçadoras. A força da pisada estremece o chão. A tromba apontada para frente busca atingir os felinos, que mais uma vez são obrigados a abandonar o prato às vésperas de saboreá-lo.

Logo os rinocerontes se aproximam, formando um esquadrão de defesa. Os cascudos assumem uma formação tripla, de sorte que por qualquer flanco haverá sempre um afiado chifre à espera dos assassinos.

A carcaça do animal morto está protegida. O elefante joga bocados de terra sobre o corpo. Parece que um sentimento de repúdio toma conta dos herbívoros.

O elefante deixa clara sua posição de realeza. O magistrado renega a infâmia.

Com o cair da noite, os irmãos decidem reaver o que lhes é de direito. Querem a sua conquista. E estão dispostos a tudo. Partem para o enfrentamento.

Enquanto um deles atrai os guardiões, o outro trata de roubar-lhes o protegido. E mais uma vez o ciclo da vida se completa. Da fotossíntese à decomposição, a cadeia alimentar se completa.

Anúncios
Published in: on 22 de março de 2012 at 10:44  Deixe um comentário  
Tags: , , ,