CHACO – CONTOS DE MARCELO AITH

CHACO

 

Era um dia extremamente quente e abafado. Abriu os olhos, ficou imóvel, ouvindo o som agonizante daquele maldito ventilador de teto de aparência centenária.

-Isso porque estamos em julho.

Falou para si mesmo, já se levantando em direção ao banheiro da espelunca em que estava hospedado. Era pleno inverno segundo o calendário para o hemisfério Sul, mas naquela região o calor persistia o ano todo.

Anselmo instalara-se, pela madrugada, num pequeno hotel de terceira categoria, na localidade de Quijarro, próximo a Corumbá, no lado boliviano da fronteira com o Mato Grosso do Sul.

Durante o banho pensou no absurdo em que consistia o posto fronteiriço não funcionar à noite, teria que voltar à fronteira para carimbar o visto de entrada em seu passaporte e seguir viagem.

-Com um controle desses não é estranho haver tanto tráfico de drogas por aqui, definitivamente não estou entrando num país sério.

Concluiu.

Vendera seu automóvel e viajara até a Bolívia, onde compraria o valor do veículo em cocaína num bar próximo à pensão em que se hospedara. Pretendia, depois, revendê-la em São Paulo.

Precisava do dinheiro para saldar o financiamento de seu apartamento, um dos poucos bens; além de esposa e filha; que conseguira adquirir em seus trinta e nove anos de existência.

Pela manhã, após árdua negociata com um taxista local, fechou o preço da corrida que o levaria de volta à fronteira para receber o maldito visto.

No dia seguinte, iria ao aeroporto de Puerto Soares, de onde sairia seu voo para Santa Cruz de La Sierra. Para disfarçar a real intenção de sua viagem, a compra da droga, pensava em ir até Cusco, no Peru.

Faria a famosa caminhada para Machu-Pichu pela trilha aberta nos Andes durante o Império Inca, tal como milhares de turistas a faziam durante todo o ano, em especial naqueles meses de férias.

Cumprida as obrigações burocráticas internacionais para que pudesse prosseguir sua rota, resolveu passear pelas poucas ruas de terra que circundavam a estação ferroviária.

Quijarro era um pequeno bairro de Puerto Soares, de onde saiam os trens que atravessavam a Bolívia em direção a Santa Cruz de La Sierra.

-Santa Cruz por avião; Cochabamba, La Paz e Copacabana por terra; entro no Peru por Puno, atravessando o Titicaca e de trem chego a Cusco.

Repassou mentalmente o roteiro enquanto andava.

Adorava pensar que finalmente iria conhecer algo que fosse o maior do mundo. Divisa natural entre Bolívia e Peru, o Titicaca, cravado no meio dos Andes, é o lago situado em maior altitude no planeta.

Nunca fora ao Rio de Janeiro, nunca vira o Cristo Redentor (o maior d’Eles), não cria em deuses.

-O sistema ferroviário boliviano é péssimo e o que são vinte dólares a mais numa passagem para uma economia de onze horas de viagem.

Pensou, tentando justificar o gasto de sua opção pela via aérea até Santa Cruz.

Neste trecho da viagem enfrentaria a planície do Chaco, muito parecida com a planície do Pantanal mato-grossense, já percorrida por ônibus entre Campo Grande e Corumbá. A viagem começava a demonstrar-se por demais cansativa.

Durante o almoço comeu o principal prato da região: pollo, papas fritas, plátano e salada. Tudo isso por três bolivianos e cinquenta centavos. Menos de um dólar.

O almoço representava bem o estado de miséria em que a população boliviana se encontrava, pela cotação local um dólar valia quatro bolivianos e sessenta e cinco centavos.

Esperava ansiosamente encontrar deliciosas salteñas, tinha por hábito experimentar a tradição culinária da região em que passava.

-Puta que o pariu!

Exclamou Anselmo.

-Enquanto a gente discute a desestatização e o neoliberalismo os caras aqui têm uma estatal que fabrica cerveja.

Pensou ao ler o rótulo da garrafa. Nele estava escrito: Companhia Nacional Boliviana. Estava tomando uma Paceña.

Era considerado um alcoólatra inveterado pelos amigos, todos beberrões. Sua vida social dava-se quase toda dentro de bares. Gastava a maior parte de seu tempo livre e de seu dinheiro neles.

Conhecera sua mulher em um, e levava sempre consigo a filha, pois preferia beber o salário de uma babá a ter que pagar a alguém para olhar a criança.

Durante a tarde percebeu o quanto era ridícula a sua tentativa de comunicação com os bolivianos da fronteira, expressava-se via uma mistura de Português e Espanhol, o vulgo portunhol.

-Um copito gelado, por favor.

Insistia com o garçom.

Seu “modus operandis” consistia em diminuir a palavra originária do Português pela adição do sufixo “-ito”. Deveria ter pedido um “baso frio”, mas isso nunca viria a saber. O garçom sadicamente fingia não entender as reais intenções de Anselmo, sempre a dizer que não o compreendia.

Viu-se obrigado a interpretar uma ridícula mímica do que seria um “copito gelado” para ter seu capricho atendido por aquele índio fedorento, morador daquele cu de mundo e que com certeza compreendia muito bem o Português, estavam a dez minutos da fronteira.

Terminado o almoço e após a primeira dezena de cerveja, já sob o efeito da embriagues, resolveu ir ao bar onde, segundo um conhecido, encontraria a pessoa com quem faria o contato para a compra da droga.

No caminho, ficou impressionado com o fato de em um bairro tão pequeno haver tantos cabeleireiros. E como em todos eles haviam recortes de velhas revistas femininas, já amareladas pelo tempo, de modelos e atrizes expondo os mais variados tipos de cortes de cabelos possíveis imagináveis.

Todos num estilo hollywoodiano que nunca serviriam nas cabeças índias das mulheres de lá. Sempre acompanhava às vitrines, um letreiro que dizia “Pelucaria”, o que lhe causou fartas gargalhadas interiores.

Chegando ao local da negociata investiu, cambaleante, recinto adentro. Talvez seus passos vacilantes tenham determinado o rumo que sua vida começaria tomar.

-The bolivian way of life.

Disse, enrolando a língua, com o cérebro encharcado em álcool.

A pocilga em que entrara não se diferenciava em nada aos demais estabelecimentos comerciais bolivianos em que estivera até então. O aparelho de som sintonizava uma rádio brasileira do Mato Grosso que transmitia seu sinal em ondas curtas.

-Até que enfim escuto o velho e bom português. Não aguentava mais ouvir esse sotaque irritante.

Completou ébrio.

Não suportava mais o dialeto boliviano, como viajava só e não havia com quem conversar em sua língua nativa, Anselmo tentava falar o mínimo possível.

A negociação da compra era uma das partes mais tensas da viagem e a confusão das ideias era bem acentuada pelo alto volume de álcool ingerido.

O rádio tocava uma triste canção de amor, interpretada por nada a mais nem nada a menos que a voz de Elizeth Cardoso. Tal música trouxe a tona reminiscências do seu passado, de quando morou no Norte do Paraná, num período que foi do seu nascimento até a pré-adolescência.

Naquele tempo, costumava sentar-se junto ao pai na varanda frontal da casa em que moravam, a escutar rádio, no início da noite após o jantar. O pai pitava com alguns amigos da vizinhança.

Foi nesses encontros de fim de dia que Anselmo tomara gosto pelo álcool, especialmente pela cachaça, bebida que sempre se fizera presente nas discussões dos adultos.

Voltou à memória sensações familiares, bem próximas à realidade. No calor irradiado por terra vermelha, ao final de cada tarde, podia-se notar o odor característico das pequenas cidades de economia agrícola. Uma mistura de barro, esterco, adubo e demais insumos.

Cada vez mais melancólico, iam lhe passando as mais remotas sensações. E como tudo parecia ser tão real. Podia senti-las, uma a uma, todas as fases que marcaram sua infância.

Lembrou-se do dia da morte do pai. Tal fato fez com que saísse de seu devaneio e voltasse à realidade. Observou calmamente as mesas ao lado, com a intenção de perceber se haviam notado seu transe mental e também procurando o seu “contato” para encomendar a cocaína.

-Os bolivianos são como os japoneses, todos se parecem uns com os outros, são literalmente todos iguais.

Pensou.

Os frequentadores do bar estiveram a observar Anselmo, desde o momento em que pisara no recinto e agora não conseguiam disfarçar a curiosidade de seus olhares frente àquele forasteiro.

-Que passas?

Indagou um primeiro.

-Estou a procurar por Pedro Vivas.

Respondeu Anselmo.

-Venho por indicação do Wandeco da Joaniza, de São Paulo, Brasil.

Acrescentou.

-Ah! Wandeco, de San Pablo, si, si, me recuerdo mui bien de su amigo. Wandeco de San Pablo. Grande amigo de Vivas tambien. Uste és amigo de Wandeco?

Questionou o índio.

-Sim, eu venho a mando dele; precisava muito falar com este seu amigo Vivas. Tenho negócios a tratar com ele. Você poderia chamá-lo, por favor?

-Si, si. Vivas ficará mui contente em saber que alguém de Wandeco veio lhe procurar. Tome uma cerveza mais enquanto eu trato de avisar Vivas que uste o aguarda.

Wandeco havia comprado um carregamento de cocaína com Vivas e pago metade em dólares falsos, a outra metade da dívida seria paga após a venda da mercadoria em São Paulo, depositando o dinheiro numa certa conta bancária de alguém de confiança de Vivas.

Pensava que mandando Anselmo para lá saciaria a sede de vingança do traficante com o sangue do companheiro, evitando assim que o boliviano pudesse mandar ao Brasil algum capanga para matá-lo.

Para Wandeco, Anselmo era apenas mais um usuário viciado, uma simples peça no jogo do narcotráfico. Além do sangue, havia o dinheiro a ser roubado do cadáver inerte, o que segundo Wandeco seria o suficiente para saciar a sede de Vivas.

Enquanto aguardava a chegada de Vivas, Anselmo voltou aos seus devaneios. Lembrou-se de uma história que certa vez ouvira, não lembrava muito bem quando, nem onde, nem ao menos quem a contara.

O mote da conversa era sobre a memória. Sobre quando temos aquele sentimento próximo ao real, de um fato que marcou nosso passado. Tal qual acontecera com si próprio há poucos minutos atrás, ao lembrar-se de sua infância.

-A explicação é a seguinte.

Raciocinava Anselmo.

-A química do cérebro, isto é, a concentração dos elementos químicos em nossas cabeças determina os nossos sentimentos. Euforia, depressão, ira, alegria. A memória é capaz de recriar as mesmas concentrações químicas no cérebro ao enfrentarmos fatos semelhantes. Daí, a sensação de já termos vividos aquela experiência.

Tais confusos pensamentos talvez sejam as últimas coisas a passarem pela cabeça de Anselmo. Claro, se não levarmos em conta o projétil disparado pela arma do próprio Pedro Vivas, que atravessou o crânio do pobre infeliz.

Anúncios
Published in: on 23 de março de 2012 at 16:55  Deixe um comentário  
Tags: , , ,