CONTO DE NATAL – CONTOS DE MARCELO AITH

CONTO DE NATAL

-Papai Noel existe, ou existia, e eu tenho a prova irrefutável disto.

Foi com esta frase que Abelardo se apresentou em minha sala. Era véspera de natal. Walter, meu editor, perseguia-me há dias, e eu não fazia ideia do que escreveria para a edição natalina.

Aquele maluco afirmava ter provas concretas da existência do bom velhinho, o relógio corria, meus neurônios recusavam-se a funcionar. Era pegar ou largar.

Na redação, a notícia da presença de Abelardo causava uma comoção geral. As bolsas de apostas estavam abertas, cada um acreditando decifrar minha decisão.

O clima era dos piores, todos neuróticos, festas de final de ano, perus, listas de presentes, viagens, e era preciso entregar as matérias. Cada qual em sua aflição, e os editores no pé. Sempre os mesmos assuntos.

Essas edições de festas poderiam ser arquivadas, já estavam atemporais pela repetição. A rua enfeitada, as compras de última hora, o indulto de natal do Presidente da República, era só mudar a data, um nome aqui, outro ali, mas a essência era a mesma.

Um casal de velhinhos que há anos preparava um suculento pururuca, ou outra besteira qualquer. Já podia ouvir no ar “So this is Christmas, and what have you done?”.

Agora, a prova definitiva da existência de Papai Noel, o Santa Claus em pessoa, isso sim era um furo. Isso sim era matéria de capa, renderia uma bela primeira página.

Eu estava salvo, ganharia o Prêmio Politzer, faria a alegria de milhares de crianças e traria o sonho de volta aos adultos incrédulos. Entre acreditar no maluco, ou esperar meu editor invadir a sala perguntando “-E aí?”, optei pelo primeiro.

Com isso ganharia um tempo, iria para a rua com o doido, investigaria sua história. Quem sabe no caminho, com a mente arejada pelo movimento das ruas, não me viria alguma ideia?

-Sente-se.

Ordenei.

-Acho que ainda não nos conhecemos, não é? Sou Délmo.

Disse, oferecendo a mão.

-Abelardo.

Retribuiu o cumprimento.

Suas unhas, seus dedos, pareciam encardidos. Não apenas sujos, encardidos era a palavra. Nem uma bela escovada resolveria. Deveria ser mecânico, pensei.

-Você poderia me contar um pouco mais de sua história?

-Olha seu doutor, o que eu vi é coisa difícil de acreditar, mas eu sei onde Papai Noel está.

Por trás do homem eu podia ver as cabeças curiosas de meus colegas, que se acotovelavam no vidro da janela. O meu aquário, era assim que eu me sentia naquela sala, era ponto de referência para todos, também conhecido como sanatório geral.

Os tipos mais desequilibrados eram enviados a mim. Só eu tinha a paciência de escutá-los. Eu realmente não conseguia evitar, era o meu velho problema de não saber dizer não.

Mas, no fim, eu gostava da companhia dos insanos. O censo comum muitas vezes me dava náuseas. E eu conseguia enxergar algo de positivo por trás da demência, das histórias escatológicas, por trás de toda a sordidez que a raça humana pudesse produzir. Este era o meu ofício.

Enquanto o homem falava, eu me levantei e comecei a arrumar as coisas. Estava decidido, partiríamos. Urgia ser breve. Walter poderia chegar a qualquer instante. Iria querer saber onde eu estava indo, perderia tempo mentindo, inventando uma pauta plausível. Investigar Papai Noel não passaria, perderia a minha história, o meu bom motivo para ir à rua.

Abelardo continuava falando, sua voz entrava pelo meu canal auditivo, vibrava os tímpanos, mas não produzia cognição. Fechei as gavetas, apanhei a pasta e peguei o homem que não parava de falar, pela mão.

-Vamos embora, no carro você conta os detalhes.

-Mas, e o meu dinheiro?

-Como?

-Sabe como é, doutor? Preciso fazer um agradinho lá com a patroa, e tem os meninos também. A história é boa. Eu posso levá-la para outro jornal. Será que não dá pra adiantar qualquer coisinha, não?

-Meu amigo, você vem à minha sala dizendo que Papai Noel existe e ainda quer levar algum? Você acha que eu sou o Coelhinho da Páscoa? Se a matéria for boa eu consigo uma verba para você, mas agora, assim, adiantado?

-Vamos lá doutor, só pra eu não chegar de mãos abanando em casa. A mesa lá é farta, farta pão, farta vinho, farta peru.

O homem conseguira. Mexera com os meus instintos mais humanitários. A cena da mesa vazia, a noite de natal, quantas mil famílias não deveriam viver nessa situação?

Noite glamourosa, o cacete! Noel, porco capitalista, presenteia os ricos, esquece os pobres. Se o velho existisse mesmo, eu trataria de lhe dar umas belas porradas. Abri a carteira e passei-lhe tudo o que tinha.

-Ah, agora sim estamos falando a mesma língua. O senhor não vai se arrepender, tudo o que eu prometi existe, é tudo verdade, o senhor acaba de tirar a sorte grande, vamos ficar famosos, eu e o senhor. Já posso até ver, a TV não vai mais me deixar em paz. Vou aparecer em todos os programas de domingo. Eu falei pra Cleuza. Nega metida, agora não vai mais largar do meu pé, vai querer posar de primeira-dama, mas ela tá é muito enganada, agora eu é que não quero mais saber dela, o meu negócio é a Guilhermina, a nega só vai me ver ano que vem, só no século XXI…

E lá fomos nós, o homem não parava de falar, o dinheiro deixara-o verborrágico.

-É por aqui doutor, entre ali à direita, e pode ir parando atrás daquela caçamba de entulho. É ali naquela obra, onde eu trabalho.

Chegamos ao local indicado pela minha fonte. Era ali que encontraríamos o legítimo Papai Noel. Não aqueles que povoam os shopping centers, não aqueles de agência de figuração. Este era o legítimo. Mas, pelo que pude entender, já morto.

O local onde jazia o corpo de Papai Noel fazia parte de um complexo industrial, todo em tijolos à mostra, num estilo inglês, do começo da industrialização do país. Fora uma famosa e poderosa indústria durante o período da Primeira Guerra.

Agora, estava sendo recuperada, transformar-se-ia num grande espaço para eventos, destas festas modernas, com música eletrônica, êxtase até o dia claro. Também estavam planejadas salas de cinema, centro de alimentação, estacionamento e não sei mais o que.

Abelardo contava os detalhes, ele era o responsável pelo restauro das chaminés, altíssimas, pujantes, que pareciam querer arranhar o céu. Há décadas já não cuspiam mais uma fumacinha sequer.

Os novos tecidos sintéticos tinham levado o industrial à falência. Tudo o que a Primeira Grande Guerra trouxera de prosperidade, a Segunda levara embora. Eram cinquenta anos de abandono.

-Cuidado seu doutor, pule pra cá, cuidado com aquela tábua com pregos.

Estávamos entrando, o local fora invadido várias vezes ao longo dos anos em que nada funcionara lá dentro. As paredes estavam pichadas, restos, vestígios de acampamento humano podiam ser vistos por várias partes.

Mendigos, bromélias, vagabundos, samambaias, usuários de drogas, musgos, fugitivos, liquens, cães, ratazanas, toda sorte de fauna e flora utilizara-se daquele teto por anos.

A luta para reconstruir o espaço estava sendo vencida com ajuda de um grande grupo financeiro internacional, que via ali uma mina de riqueza, adquirida a preço de banana.

-É por aqui. Sabe, eu vinha recuperando todas essas chaminés, até que um dia, foi quando a Cleuza veio aqui comigo, a gente se enfiou aqui no galpão três, aí a gente começou a transar, foi uma loucura, aí ela queria gritar, e gemia, uma loucura. Foi quando ela teve aquela ideia maluca, o senhor já teve uma mulher maluca?

-Todas elas são umas loucas.

-Pois é, mas têm umas mais loucas que as outras, e a nega é a mais louca delas. Ela queria gritar, sabe? Gritar de verdade. Daquela maneira que faz a gente passar vergonha. Eu falava “-Cala a boca, o caralho!”. Mas não dava jeito, a mulher tava possuída. Foi aí que ela pirou, quis porque quis foder dentro da chaminé, sabe? Pode parecer estranho, mas o eco dos gritos a excitava. Eu, que não perco uma, topei.

-Vocês foderam aqui? Passando por este duto?

-Isso mesmo, vamos entrando, foi bem ali, ali mesmo. Ela começou a gritar muito mesmo. Eu gozei como nunca, foi uma loucura. No começo achei que estava abafando, que estava com tudo, que ia fazer a nega morrer de prazer, ela parecia subir pelas paredes, como se fosse sair flutuando pelo duto feito fumaça, só depois é que percebi, a louca gritava era de pânico. Cuidado, abaixe a cabeça, agora estamos quase lá, já tá vendo?

-Não, não dá pra ver porra nenhuma daqui.

-Pois é, nesta hora do dia o sol deveria iluminar o fundo, mas está escuro não é?

-Como a vista do Stevie Wonder.

-O quê?

-Deixa pra lá.

-É aqui, chegamos.

Abelardo riscou um fósforo. Uma fraca luminosidade nos dava a ideia dos contornos, um estranho objeto bloqueava a passagem do duto. O homem passou o palito em volta do corpo. Parecia ser um cadáver.

Era um corpo putrefato, deveria estar lá há anos, em suas costas estava um saco. Tudo levava a crer que estávamos de frente ao que poderia ter sido o bom velhinho. Não mais em carne e osso, gora apenas ossos, cabelos, dentes e unhas. A roupa puída pelo tempo.

-Meu deus! Há um morto aqui. Quem mais sabe disso?

-Fora eu, a Cleuza e o senhor, só o pessoal da birosca do Arthur. Mas ninguém quis me levar a sério.

-Isto é grave, você deveria ter chamado a polícia. Você já tocou no corpo?

-Já, o saco está cheio de presentes, mas eu não peguei nenhum não senhor. É pecado. Roubar um homem santo, onde já se viu? Eu tô falando, é o homem. É Papai Noel em pessoa. Quem mais morreria descendo uma chaminé com um saco desses nas costas. Pelo peso, deve ter sido enfarte. O coração do velho não aguentou. São muitas casas pra visitar em uma noite. Eu, que sou acostumado a subir e descer chaminé, já fico cansado, imagina um senhor da idade do Papai Noel, e ainda por cima com um sacão pesado destes.

-Deixe de ser louco, Papai Noel não existe catso. O que nós temos aqui é um corpo de um homem morto. E morto há muito tempo. A sua história era realmente boa. Preciso ligar para o jornal. Onde arrumamos um telefone?

E foi assim que consegui a minha melhor matéria natalina. Deu na primeira página, furamos todos os outros diários. O homem morte não era Papai Noel, tratava-se de Hilton Salvatore, famoso ladrão de obras de arte que atuou em toda a América durante os anos quarenta.

Em seu saco recuperamos preciosidades julgadas perdidas para todo o sempre. Aparentemente, fazia daquele local seu esconderijo. Estava com o pescoço partido, deve ter caído de uma altura considerável, antes mesmo de poder avaliar o fruto de seu dia de trabalho.

Abelardo ficou famoso, ao menos até o fim daquele ano. Depois disto, nunca mais tive notícias do homem que chegou a acreditar na existência do velho Noel. O engano dos cadáveres recolocou a história em seu eixo normal. Hilton Salvatore estava morto, e o mito de Noel continuaria vivo no coração de todas as crianças.

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Published in: on 30 de março de 2012 at 9:45  Deixe um comentário  
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