DUZENTOS CAMELOS – CONTOS DE MARCELO AITH

DUZENTOS CAMELOS

No carro, ia mais uma vez ao trabalho. Coisas do dia a dia, até a aposentadoria, pensava, resignado. No rádio, recitavam poesias que chamavam um mundo melhor. Sua cabeça rodava, os dias estavam conturbados. A maior turbulência que já passara em sua vida.

Amanhecia quente, sol forte, logo nas primeiras horas. Prometia. Já não se concentrava mais, a mente voava solta. Não conseguia sentir-se culpado, mas também não tinha paz. Sua alma era um espírito incomodado. Estava em dívida. Mas, raios, o que fazer? Acontecera.

No caminho entre sua casa e o emprego, legiões de folhetos invadiam seu carro. A maior parte dos motoristas recusava os panfletos. Mas, de vidros abertos, não conseguia negar oferta tão pouco tentadora. Eram lançamentos imobiliários, planos de saúde, ofertas de informática, enfim, toda sorte de material gráfico.

Havia uma esquina, um semáforo demorado, e moças pouco renomadas distribuindo promessas de prazer. Esse sim era o único anuncio que o tocava, o único que não atirava diretamente ao chão do veículo, onde montes de papéis iam se acumulando. O informe publicitário da casa de tolerância oferecia descontos nos primeiros “drinks”, um dia ainda visitaria o local.

Seu sangue árabe fervia por mulheres. Deveria ser o hábito ancestral de possuir haréns. Amava como nunca. Cada mulher era vivida como se fosse a última de sua vida. Dispensava toda atenção a elas. Péssimo comportamento que tinha lhe posto naquela enrascada.

A mocinha se aproximou, não a reconhecia. Naquela profissão a rotatividade devia ser alta. Pensou. Sorriu gentilmente e recebeu o informe. Os carros andaram. Segurando o panfleto, engatou a primeira marcha e partiu.

“Tem um problema! Não se dizispere.”

Assim começava o informe que pensava ser da clínica de massagens.

O erro de português era gritante, perdera toda a esperança. Nada salvaria o seu dia. Continuou lendo. A vidente prometia tudo, passado, futuro, retomar amor perdido, desfazer trabalho. Sigilo absoluto. Só não conseguira prever a gafe literária.

Uma estranha comichão o levou para a porta da vidente. Induzido pela força que move os desesperados em busca de uma saída para suas aflições entrou no prédio. “Madame Zulmira”, estava escrito na tabuleta. Subiu a escadaria.

A mulher falou, falou. Mal ouvia as previsões. Sua mente estava monotemática. Seu maior problema o consumia por inteiro. Foi quando ela tocou no ponto. A dívida. Dívida de sangue. Dívida que precisava ser acertada. Não poderia continuar vivendo carregando aquele débito, tinha que quitá-lo.

Sim, agora dava ouvido. A solução parecia próxima. Ficaria livre do peso de seus antepassados. Teria um presente leve, um futuro promissor. Era só cumprir à risca o comando dos búzios. E o que diziam as conchas?

Duzentos camelos. Cem para o patrício, a modo de pagar pela mulher roubada. Cem para mandar sangrar nas areias do deserto, a modo de aplacar a ira de Alá. Aqueles genes árabes estavam mesmo dando trabalho. Não seria mais fácil um despacho com vela, galinha e charuto como todos faziam? Com ele nada podia ser simples.

A loucura tomou conta de seu corpo. Onde arrumaria camelos? A última vez que foi visto, rondava os muros do Zoológico. Naquele dia, os leões apresentaram uma estranha falta de apetite.

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Published in: on 27 de março de 2012 at 15:00  Deixe um comentário  
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