GRANDMOTHER SU-RU-RU-RU – CONTOS DE MARCELO AITH

GRANDMOTHER SU-RU-RU-RU

 

         Neste verão, fui passar minhas férias numa das muitas praias afrodisíacas do Nordeste brasileiro. Depois de enfrentar horas de estradas mal asfaltadas e alguns trechos de terra, chegamos ao pé das dunas que separavam o Paraíso da Civilização, onde experientes guias desafiavam as montanhas de areia com seus veículos especiais que finalmente nos levariam à Terra Prometida.

As dificuldades de acesso eram, com certeza, o maior fator de preservação frente ao turismo predatório. Éden alcançado, o primeiro passo foi encontrar uma pousada onde pudesse esticar o corpo cansado, tomar um bom banho e encontrar alguma comida. Sem esquecer, é claro, da cerveja gelada.

A pousada de dona Albertina era perfeita. Os quartos possuíam banheiros próprios, cama de casal, criado mudo com abajur, mosquiteiro, ventilador, mesa e duas cadeiras. Na varanda, redes à vontade. Exatamente tudo o que eu precisava para o meu merecido descanso.

Dona Albertina era uma dessas simpáticas proprietárias que cativam seus clientes com sua dedicação ao trabalho. Enquanto íamos à praia, os quartos eram muito bem limpos e arrumados.

Por apenas alguns centavos a mais em nossas diárias, lavava nossas roupas sujas. Preparava os mais gostosos quitutes e licores locais e, ainda por cima, era uma verdadeira enciclopédia viva.

Dona Albertina sabia de todos os “causos” ocorridos na vila, desde os tempos de seus bisavós. E era com muito prazer que ela passava horas e horas a prosear com os hóspedes que quisessem saber a história do vilarejo.

Entre os felizardos que conheceram dona Albertina estavam Mr. e Ms. Brown. Um casal de norte-americanos, já na casa dos sessenta anos, que decidira conhecer o mundo e acabava de aportar em nosso litoral.

        Mr. Brown chamava dona Albertina carinhosamente de grandmother. Com o passar dos dias fomos ensinando aos gringos algumas poucas palavras em português, mas, para eles, era uma grande dificuldade pronunciar os fonemas latinos. Acabei servindo de intérprete para os dois.

Naquela manhã, eu e Mr. Brown iríamos ao mangue. Após o acerto na noite anterior, ficou decidido que Ednilson, o neto de dona Albertina, levaria-nos buscar sururu para que a velha preparasse-nos um maravilhoso arroz com os mariscos.

Mal o sol saiu e o menino bateu em minha porta. Em poucos minutos, eu, Mr. Brown e o rapaz estávamos a caminho.

O sol nesta época do ano costuma judiar das peles mais sensíveis. O vento não nos permite a real percepção dos efeitos dos raios, mas, ao fim do dia, o turista distraído pode ser facilmente confundido com uma lagosta.

Foi pensando nisto que Ms. Brown lambuzou devidamente o marido com cremes protetores de diversas intensidades. Uma camiseta, óculos escuros e chapéu de palha. Entregou-lhe também uma mochila onde iam câmera fotográfica, cantil e cremes sobressalentes.

Já nosso guia, com sua pele curtida pelo sol de ano a ano, vestia apenas short. Chinelos, só quando ia à cidade.

Íamos animados com a perspectiva de uma grande caçada, ou melhor, colheita. Pois mais que caçar sururu, nós iríamos mesmo era colhê-los. Cada qual levava consigo dois baldes que, segundo o menino, voltariam carregados com os moluscos.

Nosso amigo norte-americano definitivamente não aprenderia o português. Ele não conseguia nem pronunciar sururu. Insistia em acrescentar, ao fim da palavra, mais uma sílaba –RU.

Ele repetia comigo.

-SU, RU, RU, RU.

Não havia meios de fazê-lo parar no segundo –RU.

Sua língua não tinha freios. Iniciava a sequência com um sonoro –SU, seguido de três –RUs, que juntos formavam:

-SURURURU.

O pequeno ria do gringo e todos íamos felizes “colher” sururu(ru) no mangue.

Pés chafurdados na lama, tudo se passou como o previsto. O local onde o garoto nos levou era um verdadeiro cemitério de sururus. Lá estavam enterrados milhões e milhões deles.

Fomos pegando tudo o que víamos pela frente, sempre sob os olhos desconfiados dos muitos siris que, com suas garras, nos pareciam pouco amistosos para com intrusos. A princípio o medo foi grande, mas a naturalidade com que Ednilson nos conduzia por aquele mar de lama acabou por nos deixar mais confiantes no sucesso de nossa missão.

Aos poucos, o que parecia distante foi concretizando-se. O balde começou a pesar em nossas mãos. Andar naquele atoleiro não era muito simples, e logo tínhamos o corpo todo enlameado.

Estávamos tomados por um espírito de responsabilidade, aquela era a nossa parte na divisão social do trabalho. Não poderíamos falhar. Para que pudéssemos desfrutar o prato mais famoso de dona Albertina, era importante os ingredientes frescos.

O dia avançou, o ar esquentou e tivemos que parar para descansar. Um pouco mais de esforço, uma segunda temporada de caça e os baldes estavam cheios. Era hora de ir para casa.

A fome começava a apertar e todos os assuntos que foram conversados pelo caminho de volta não fugiram do ambiente da cozinha. A expectativa de provar o lendário arroz de dona Albertina nos ensandecia.

Chegar foi uma benção. O esforço de locomoção dentro do mangue consumira mais de nossas energias do que imaginávamos. Estávamos imundos, famintos e exaustos. Banho de água quente nos bichinhos, banho de mar para os homens de lama.

Um bom cheiro começou a tomar conta da cozinha. Temperos cuidadosamente preparados iam juntando-se, um a um, no seu devido tempo, àquela panela mágica. Em breve, comeríamos uma iguaria única.

Tomamos nossos banhos, vestimo-nos para a cerimônia de gala e partimos para o álcool. A conversa foi tomada por histórias de pescadores, onde cada um procurava enobrecer suas habilidades e vivências em busca do alimento marinho.

Mesmo nós, que debutávamos na pescaria, ainda que de forma menos nobre, literalmente com os pés na lama, tínhamos nossa odisseia a contar.

Enquanto discutíamos com os filhos de dona Albertina, a mãe fritava tiras salgadas de peixe para acompanhar a cerveja. O prato principal chegou acompanhado de comoção geral.

E aí está a chave da nossa história. O marisco de dona Albertina era realmente excelente, seus temperos eram dignos dos cuidados de um druida.

Comida forte, servida regada com pirão de camarão, pimentas, dendê, essas coisas que desconfio serem usadas na culinária nordestina. Por mim, perfeito, mas coitado de Mr. Brown.

Faminto, deliciou-se com o banquete. Usou e abusou da pimenta. Eufórico, repetiu pratos. Parecia um desesperado, um morto de fome. Para um homem de mais de cinquenta anos, o dia consumiu suas forças. Era preciso repô-las.

O esforço físico, a caminhada da ida, a pesca, a caminhada da volta, o sol na cabeça. Agora, Mr. Brown começava a ver trens azuis. O álcool, o sol, o cansaço, os temperos fortes, frutos do mar, digestão difícil, começou a suar frio.

Estava no quarto. Todos dormiam felizes com a comilança. Mr. Brown começou a explodir no banheiro. Por baixo e por cima. Diarreia acompanhada de vômito.

Privada e pia, posição inglória para um senhor de sua idade, de seu status. Ele, cidadão norte-americano, reduzido àquilo. Provavelmente estava com insolação.

Abusou do marisco, que é um prato pesado para uma refeição noturna, de digestão difícil. Abusou dos temperos, da pimenta. Abusou da cerveja. É claro que o corpo do gringo iria estranhar.

Nosso visitante, inferiorizado em sua fraqueza, afinal era o único a passar mal, quase uma ofensa à cozinha da anfitriã, caiu em desespero.

Americano padrão que era, vinha sob a orientação das normas de sobrevivência em países de terceiro mundo. Logo, achou que fora acometido por cólera, típica doença terceiro-mundista.

Os sintomas, a diarreia, tudo fazia sentido. Maldita terra onde fora se meter. Morrer ali, naquele ass-hole do mundo. O socorro mais próximo distava trinta quilômetros além das dunas. Estava perdido.

O gringo acordou a todos, gritava pelos corredores.

-Cooouullera, coouullera.

Era um sotaque que não consigo reproduzir por sinais gráficos, mas quem já ouviu um americano arranhar português sabe como é. Soa como aquelas entrevistas com economistas das missões do FMI que vivem nos visitando.

Mr e Ms. Brown não deram paz enquanto não arrumaram um jipeiro. Os pescadores não gostavam de atravessar as dunas na escuridão. O vento trazia e levava areia constantemente.

Os paredões movimentavam-se em minutos. Era preciso atenção para não tombar lá de cima. Além do mais, era noite. Hora de dormir, de namorar, e não hora de atravessar duna.

O gringo não morreria, todos tinham sono. Era uma indisposição, uma insolação, um piriri qualquer. Mas o desespero dos dois foi tamanho que para podermos voltar às camas só mesmo satisfazendo o casal.

O embarque foi uma dificuldade. Quando Mr. Brown pensava em entrar no automóvel, vinha uma vontade terrível de voltar ao banheiro.  O homem sumia como um foguete. Podiam-se ouvir seus gemidos, tal como lamentos de reza árabe.

Pelo que soube, Mr. e Ms. Brown seguiram para Fortaleza e de lá para os EUA, onde foi submetido aos mais diversos exames. Sobreviveu, mas jurou nunca mais pôr os pés no hemisfério Sul.

Passei mais uma semana agradabilíssima em casa de dona Albertina, de quem até hoje recebo cartões postais.

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