HERMÍNIA, 74 – CONTOS DE MARCELO AITH

HERMÍNIA, 74

Hermínia dorme. Um sono confuso, tumultuado. Não passa das quatro e parece que vai despertar. As pálpebras vibram num movimento descoordenado. A respiração, ofegante, parece que vai falhar.

Hermínia é cardíaca. Sofre do coração. Não digo daquelas dores de amor, coisa que ela mesma nunca experimentou. Foi o cansaço da solidão que se alojou em seu músculo cardíaco. Mal que mata aos poucos.

Como se não bastasse a doença, a insônia, Hermínia é professora aposentada. De matemática. Sem dinheiro, não há quem lhe compre os remédios. Há cinco dias que não os toma.

Acorda assustada, suando. Pressentiria a morte? O corpo está fraco. Sem as cápsulas, o peito nega-lhe a força para continuar. Sentada na cama, espera o amanhecer. Hermínia já não sabe mais o que fazer.

Outra vez irá ao posto bancário. Quem sabe não lhe chega a pensão? Esta é a motivação que encontra. Levanta-se e, sem se lavar, côa o café. Ralo, para insatisfação de Hermínia.

A velhice a emporcalhou. Não trata de sua higiene pessoal. Vaidades, Hermínia as perdera com os anos. A sovinice fez-se necessária. Menos banho, menos na conta de luz. Mais xampu para o mês tão longo.

Desgrenhada, em nada lembra aquela mulher que comandava com mãos de ferro a cadeira de Matemática no Grupo Escolar Aníbal Machado. O melhor da cidade, lá pelos cinquenta.

Descendente de alemães, sempre foi sisuda. Alta, magra, ossuda. De um humor de quem sofre do fígado. O terror dos jovens aprendizes. Impiedosa, sarcástica, a antieducadora.

Espectro fantasmagórico nos sonos das crianças, Hermínia competia com os pequenos, massacrava-os. Sempre provando saber mais do que os fedelhos que infernizavam sua existência.

-Vocês acabam com o meu dia, seus energúmenos. Os pais de vocês devem ter vergonha dos filhos que têm.

Com este estímulo, Hermínia educou gerações e gerações de jovens. Até a aposentadoria. E hoje, a professora vive de pensão, só. A mãe, de quem cuidara a vida toda, já não lhe faz mais falta.

Como não se casara, não tinha filhos. Sexo, penso que Hermínia tenha uma vaga lembrança do que seja. Uma única experiência, com um primo distante. Coisa que não passou de brincadeira de criança.

Um único parente ainda a visita. Mas é coisa para uma, duas, não mais que três vezes ao ano. Sendo que nos últimos anos, as visitas andam rareando um pouco mais que o costume.

Todo dia é dia de esperança. Quem sabe hoje o Tesouro não se lembra dos velhos? Mesmo com toda essa perspectiva, as forças para continuar seguindo são menores do que nunca.

Devidamente vestida, Hermínia está pronta para a peregrinação. Lá vai a mulher tentar receber o que lhe é de direito. Mas o governo não honra os compromissos.

Hermínia tem saudades da época em que podia orgulhar-se da profissão. Sozinha, mantinha a casa, sustentava uma mãe doente. Com salário de professora do ensino público.

Tentava entender o que ocorrera. As reformas curriculares, a transformação do ensino. Bons tempos aqueles dos militares. Havia ordem, respeito, civismo. Hoje, sabia de cada caso.

Os alunos não queriam mais nada. Ameaças físicas contra o corpo docente eram diárias. Tráfico e consumo de drogas eram recorrentes. E o salário? Meu deus, mas que salário?

Aposentada, as coisas só pioraram. O dinheiro não vinha na data marcada. Devia no armazém, para desgraça de seu orgulho germânico. Sofria toda sorte de privações.

A dispensa sempre às moscas. Se bem que, tamanha carestia, nem as voadoras se interessavam por sua cozinha. O médico, pela rede pública hospitalar. Remédios era por hábito faltar.

Não como agora. Cinco dias sem o do coração. Não aguentaria por muito mais tempo. Andava alimentando-se mal, e tudo mais. Mas, não sejamos tão rudes com Hermínia.

Teve sim um amor. Bem que platônico, nem ela conseguiu entender ao certo. Um certo Monteiro. Ministrava História e Geografia para o Científico.

Fazia um sucesso com as adolescentes. Era uma espécie de liderança. Falava coisas que não devia. Um dia apareceram dois homens de terno, sentaram ao fundo da sala.

Depois disso, nem Hermínia, nem a direção do Grupo Escolar Aníbal Machado souberam do paradeiro do professor Monteiro. Correu boato de que o homem fosse terrorista. Mas isso não era problema de ninguém, era mais seguro esquecer tudo.

-Queridos alunos, essa é Alba, a nova professora de vocês.

E assim se deu o único amor de Hermínia. Pouco para o coração doente. Nada onde pudesse agarrar-se, uma velhice sem lembranças felizes. Assim era demais até mesmo para os corações sadios.

No banco, mais uma decepção. Nada em sua conta corrente. Outro dia sem os remédios. Ao menos o ônibus, este nada lhe tomava. Descia pela porta da frente, sem pagar a passagem.

É bem verdade que irritava os motoristas e passageiros com seus movimentos lentos. Paciência, um dia também seriam velhos. Ou por sorte, enfartariam antes. Como odiava o próximo, Hermínia.

A vontade de viver, de vencer, fazia parte de seu ser. A força das guerras pelas quais a família passara ainda corria em suas veias. A raça ariana triunfaria um dia. E lutaria até o fim.

Com essa disposição que Hermínia desfez-se do último rastro de amor próprio. Chegava ao fim. Não era mais Hermínia, professora de matemática, aposentada pelo Grupo Escolar Aníbal Machado.

Podia ser qualquer uma. Naquela figura trôpega, lutando pela sobrevivência, não se reconhecia Hermínia. A derrota moral, física, era completa.

O corpo carcomido. Na alma, solidão. Bolso e estômago vazios. Tentou amigos, mas estes não existiam. Ou por já terem há muito partido para outras terras, ou pior, para outros mundos. Ou por simplesmente não terem existido.

Esta era bem a verdade. Não tinha a quem recorrer. As amarguras, as maldades, moldaram-na solitária. Além disso, houvera a mãe. Esquizofrênica, demente.

Nunca recebia visitas. Tinha apenas colegas de serviço. Amizades que não superavam a sala dos professores, durante os intervalos do recreio.

Chegava ao fim um ramo da linhagem dos Zinnürhanns. Hermínia não deixava descendentes. E com seu fim próximo, estaria decretado o fim da estirpe em terras tropicais.

Fracassava a conquista da América. Se os seus antepassados a vissem neste momento, ai que vergonha. Deveriam estar se contorcendo na tumba. Pensava nisto, mas seguia em frente. Era vencer ou morrer, e não havia tempo para meios termos.

Lá estava Hermínia. Caixa de remédio amassada e receita médica nas mãos. Batia de janela em janela, nos autos parados no semáforo. Mendigava. Era o fim de sua prepotência germânica.

Não foi tarefa das mais fáceis vencer a primeira barreira, a perda de toda a autoestima. A superação da exposição à derrota e ao público. E o medo de abordar um antigo conhecido? Ou pior, um ex-aluno.

De certo, muitos dos que foram humilhados por Hermínia já eram homens feitos. E nada os impedia de serem os condutores dos veículos que se aproximavam. Estava acabada.

-Dona Hermínia, a senhora por aqui?

-É meu filho, estou trabalhando no voluntariado. Sabe como é? É preciso ocupar o dia.

Mentiria Hermínia.

Os dias se passavam, Hermínia jejuava. Pouco alimento, muito trabalho. A concorrência não era das menores. Para cada esquina parecia haver milhões de necessitados. E tão pouca solidariedade humana.

Eram ciganas, leitoras de mãos. Eram mães adolescentes carregando bebês. Eram aleijados, deficientes, chagásicos, menores de rua, escoteiros, distribuidoras de panfletos, alcoólatras, famílias de necessitados…

Uma infinidade de causas batia aos vidros em busca de socorro. Dias de sol e chuva Hermínia enfrentou até que finalmente conseguisse juntar as economias necessárias. Com esforço próprio, conseguira.

Exausta, era esta a situação de Hermínia. O desgaste físico, moral, derrubara de vez a mulher, estava um caco. Mas tinha o dinheiro, iria à farmácia, estava salva. O peito voltaria ao compasso.

Dias, semanas, para ser preciso eram nove amanheceres sem a medicação. O estrago era grave, a saúde ia mal. Um esforço heroico a matinha em pé. Naquela manhã, não foi ao cruzamento.

O dia estava claro, a esperança voltava a existir em sua alma. De posse das moedinhas, notas amassadas, foi à farmácia. Mãos tremulas, entregou a miudeza ao caixa.

No balcão ao lado, uma mocinha grampeava os pacotes das compras. Com o cupom de pagamento, Hermínia esperava o seu. O “tlac” de cada grampear doía-lhe no peito. Estava difícil manter-se viva.

Neste meio tempo, entre pagar o remédio e efetivamente apanhar o embrulho, houve o inesperado. Para azar de Hermínia, naquele momento o boticário estava sendo assaltado.

Eram três homens, todos armados. Invadiram o comércio aos berros.

-Mãos na cabeça, todos no chão.

A confusão foi generalizada.

Os olhinhos miúdos de Hermínia não desgrudavam do pacote. Estava a um passo da salvação. Tanta peleja para chegar ali, e essa agora. Passara por cada dificuldade, não podia falhar ao final.

Ficou estática, sem reação alguma. Não obedeceu às ordens dos marginais.

-Ai vovó, é todo mundo no chão.

Gritou o assaltante com a arma na têmpora da antiga professora.

Toda sua vida passou pela vista. A infância, na Alemanha. A fuga, durante a guerra. Adaptação, no novo país. O apogeu, no grupo escolar. Até mesmo a humilhação mais recente, do mendigado.

O músculo cardíaco deu um leve suspiro, um último fiapo de vida se esvaiu do corpo de Hermínia. Obedecendo, então, ao comandado, foi ao solo. Dura, seca, de uma só vez.

-Caralho, fudeu. A velha pifou.

-Tamos fudidos. Vai dar homicídio, latrocínio.

-Vamos cair fora, antes que suje.

Hermínia Zinnürhann, 74 anos, solteira. Não deixa filhos. Cemitério São Pedro. Este foi o anúncio do obituário. Ninguém compareceu ao velório. No enterro, apenas funcionários em serviço.

As despesas foram todas pagas pelo proprietário da farmácia. Que, ao longe, oculto, presenciou o sepultamento de Hermínia.

-Até que me saiu barato. Nada que pudesse comprometer os lucros da manhã.

Evitando o assalto, Hermínia fazia sua primeira e única boa ação. Eternamente grato, o comerciante mandaria rezar todos os anos uma missa para a falecida.

Ao menos na morte, conseguira cativar alguma gratidão.

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Published in: on 27 de março de 2012 at 12:55  Comments (1)  
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