O SANTO INQUÉRITO – CONTOS DE MARCELO AITH

O SANTO INQUÉRITO

Dantas entrou em casa, como de costume, duas vezes. Sempre deixava para fora, presas à fechadura, suas chaves. Acendeu a luz da sala recriminando-se pelo mau hábito. Livrou-se rapidamente das roupas, que foram caindo uma a uma, formando um rastro de sapatos, meias, calça, camisa e cueca. Subiu, nu, as escadas em direção ao banheiro. No andar superior, lembrou-se que além do banho precisava de uma dose dupla de alguma bebida quente para relaxar naquela noite.

O detetive Dantas, após meses de investigação e horas de tocaia na mata fria, finalmente conseguira pôr as mãos em Wandeco, famoso traficante de cocaína da zona Sul da capital. As últimas trinta e seis horas da vida do policial passaram-se nas redondezas de uma chácara no Embu, região da grande São Paulo, onde a quadrilha de Wandeco refinava a pasta vinda da Bolívia, acrescida dos mais diversos tipos de pó branco, transformando-a na lucrativa mistura que iriam comercializar pelas ruas.

Loco cedo, despertou. Parecia prever os acontecimentos. A partir daquela manhã, começaria a estudar o caso que viria a ser o mais peculiar de toda a sua carreira na corporação. Sobre sua mesa, no distrito policial, estava a pasta do que seria chamado de “O Santo Inquérito”. O novo desafio do investigador era descobrir os responsáveis pelos desaparecimentos de religiosas ocorridos nas últimas semanas.

Pela terceira vez, em menos de quinze dias, chegava ao Departamento de Investigações Especiais a queixa pela falta de uma colega de convento. As madres pareciam sair do claustro para liberdade e nunca mais voltarem. Madre Helena acabara de se somar às madres Amélia e Alberta, ambas desaparecidas no dia oito do corrente mês. As três eram estudantes de Teologia na Pontifícia Universidade Católica. Haviam saído de seus respectivos conventos para irem assistir às aulas, como rotineiramente faziam, e não retornavam. Madre Amélia e madre Alberta cursavam o quarto ano, enquanto madre Helena debutava na vida acadêmica, era primeiranista.

-Será que as freiras veteranas aplicam trotes nas freiras calouras?

Perguntou o detetive Renato, que já estava a par dos documentos pacientemente analisados pelos olhos do colega.

-Não enche o saco!

Respondeu Dantas.

-A gente mal tem tempo de descansar e, ainda por cima, tem que conviver com este ambiente insalubre de trabalho.

Disse Renato, ao vislumbrar uma barata, que passava de sua sala para o corredor, em direção à sala do delegado Mendonça.

-Será que nunca vão dedetizar esta merda de departamento e eliminar esses vermes que circulam livremente?

-Pelo jeito que a sujeira anda crescendo por aqui, é capaz de um dia haver tanto bicho que vamos ser tocados para fora.

-As baratas andam cada vez mais gordas e saudáveis. Vou ver o dia em que teremos que pedir reforço policial para chegarmos às nossas mesas.

Filosofavam Dantas e Renato.

A mal encarada face do delegado Mendonça projetou-se para dentro da sala onde os detetives papeavam.

-Acabou a moleza bonecas. Parabéns pelo bom serviço, mas agora eu quero ver todo mundo trabalhando. Levantem essas bundas gordas da cadeira e vamos para a rua, que é o lugar de onde vocês nunca deveriam ter saído.

Disse, jogando sobre a mesa os jornais do dia, que traziam estampados na primeira página o grande feito de nossos heróis.

-Eu sempre dizia para a minha mãe que um dia ela teria orgulho do filho. Olha aí cara, estamos na primeira página dos jornais!

-Renato, nós só estamos na primeira página por causa da fama do Wandeco. Quantos outros traficantes nós não prendemos? Nós não somos nada, entenda isso de uma vez por todas. Nós apenas controlamos a escória que a sociedade cria.

Respondeu o detetive otimista.

-Você e o Mendonça se merecem. Espero que vocês trabalhem nesse buraco até o fim de suas vidas.

-Quem mandou a moçoila não estudar, como a mamãe queria. Hoje, você poderia ser doutor em medicina, quem sabe até engenheiro.

-Agora calem a boca crianças. Quero ver os relatórios desse caso em cima da minha mesa até o final da semana. A coisa é séria. O Vaticano está segurando a imprensa, temos que mostrar resultados rápidos. Movam-se!

Bradou o delegado.

Dantas coçou a barba, Renato alisou a careca, levantaram-se. Um colocou os óculos escuros, o outro vestiu um casaco de couro. Desceram para o pátio do estacionamento da delegacia, onde a viatura os aguardava. O primeiro passo era examinar os caminhos feitos pelas madres nos dias de seus respectivos sumiços.

Lá estava ela, Vitória. Esse era o carinhoso nome com que o pessoal da delegacia batizara a viatura preta das missões especiais. O Opala tinha várias marcas de remendo em sua lataria, os furos provocados por disparos contra o carro podiam ser vistos por todos os lados. O farol direito, quebrado na última ação, ainda não estava arrumado. O cano de descarga produzia um estridente ruído, enquanto emitia uma fumaça escura. Os pneus blindados estavam levemente carecas. A suspensão reforçada e o motor de grande cilindrada garantiam agilidade ao veículo em eventuais perseguições. O adesivo com o brasão do Estado no vidro frontal denunciava a origem do veículo.

Renato montou no lado do motorista, Dantas foi de copiloto.

-O tanque está cheio. Para onde vamos?

Perguntou Renato, engatando a primeira marcha.

-Deixe-me ver nos autos.

Respondeu o colega.

Dantas abriu a pasta do inquérito policial sobre as pernas. Madre Alberta fora a primeira a desaparecer. Sumira no dia oito, pela manhã. Não foi a aula neste dia, é o que mostrava o diário de classe do professor Marcos. Os depoimentos das colegas também confirmavam a informação. Ninguém viu Alberta naquele dia.

-A primeira a sumir saiu acompanhada do convento, às seis e meia da manhã. Tomou o metrô em Santana. Saltou na Sé, onde se separou das amigas, que seguiram no ramal Norte-Sul. Pegou o ramal Leste-Oeste, em direção à Barra Funda. Normalmente, pegaria um ônibus que subiria a Cardoso de Almeida até a PUC, mas nesse dia não concluiu o trajeto.

Disse ele.

-Então ela tem que ter sumido entre as estações Sé e Barra Funda, ou entre o metrô e a PUC, já na superfície. Vamos refazer o trajeto dos ônibus que sobem a Cardoso.

Respondeu Renato.

Pegaram a avenida São João. O caso era misterioso. Madre Alberta desaparecera entre sete e oito horas. Não havia relato de anormalidades nos trens durante aquele horário. Nada ocorrera, segundo os relatórios da segurança. A vigésima terceira delegacia também não recebera nenhuma ocorrência na tranquila manhã do dia oito.

Madre Amélia estudava no período noturno. Seu sumiço fora notado também no dia oito. Mas diferente da primeira, desaparecera na volta para casa. Sua presença estava confirmada nos diários dos professores, e as colegas concordavam em gênero, número e grau com as anotações dos mestres. Também havia sido acompanhada até um determinado trecho. Nada de anormal acontecera. Simplesmente evaporara no ar.

Já madre Helena, a primeiranista, sumira no dia vinte. O professor daquele dia não costumava fazer a chamada dos alunos. Nada tinha registrado em seus diários. Não tinha esse tipo de preocupação.

-Interessa-me apenas o desempenho acadêmico do aluno.

Justificava-se.

As coleguinhas de classe ainda não se conheciam muito bem. Algumas diziam ter visto Helena, outras alternavam a opinião de depoimento para depoimento, entre tantas que negavam veementemente a presença da aluna.

-Todas sumiram no meio do caminho, entre a faculdade e os seus respectivos conventos, certo?

-Certo.

Confirmou Dantas.

-Cada qual se utilizava de um transporte coletivo diferente, certo?

-Certo.

-Ninguém viu nada acontecendo, certo?

-Isso mesmo. Não estamos chegando em lugar algum. Sumiram em horários diferentes, moravam em conventos diferentes e, portanto, faziam caminhos diferentes. Não temos suspeitos, nem possíveis motivos, certo?

-Certo.

-E por que você não vai perguntar ao Bispo o que poderia ter acontecido com as meninas?

-Olha aqui Dantas, eu estou cansado de ouvir suas malcriações. Esse seu senso de humor um dia vai lhe matar. Alguém mais nervoso que eu ainda lhe enfia um balaço no meio da fuça.

Alertou Renato.

-Está para nascer o homem que vai ter peito para isso, Renato.

-Falou o homem de aço.

Ironizou o colega.

A viatura parou no sinal vermelho. Rapidamente uma legião de meninos de rua avançou sobre os carros parados.

-Esses não. Esses são polícia, esses não prestam.

Advertiu o menino maior.

O grupo passou entre as fileiras de autos que aguardavam a abertura do farol, fazendo a coleta das doações. Ao lado de Dantas, uma mulher guiava uma Mercedes vermelha, último modelo, de vidros fechados e ar condicionado ligado. A sirigaita parecia indiferente à cidade.

-Ou a burguesia brasileira é almoçada pelo capital internacional, ou é jantada pelo proletariado nativo.

Observou Dantas.

-Deixe de sociologismo barato. Você deveria é se preocupar com o nosso prestígio frente à população. Nem as crianças nos respeitam.

Acrescentou Renato.

O sinal abriu. Renato disparou. Foi quando a foto de madre Helena caiu da pasta. Dantas esticou o braço e apanhou-a. Uma pinta surgia, um pouco acima da linha dos lábios, uns dois ou três centímetros para a direita, próximo ao local onde surgiriam as covinhas da bochecha se as tivesse. O rosto era ovalado, o queixo fino. Finas também eram as sobrancelhas, que se encontravam num pequeno nariz.

Seus olhos eram levemente estrábicos, de um verde água quase transparente. As orelhas eram de delicadas proporções. Os cabelos loiros caiam sobre os ombros. Seu sorriso sedutor encantaria a qualquer mortal. Os pequenos seios desafiavam as leis da gravidade, firmes, sempre empinados, apontando para o céu. Eram a promessa de Paraíso na Terra. O detetive estava embriagado pela beleza mais que angelical da religiosa. Helena estava mais para uma tentadora diabinha do que para uma imaculada beata.

-Quem poderia ter feito mal a uma criatura tão bela como essa?

Mostrou a foto ao colega que dirigia.

-Ela é realmente linda. Que desperdício de mulher, que bobagem manter casto um monumento desses. Quantos anos tinha a pequena?

-Por que “tinha”, Renato? Quem falou que a coitada está morta. Olha só, a menina deve ser virgem e eu chamando-a de coitada. Nunca deve ter tido os prazeres do coito. Ela tem apenas vinte aninhos.

-Madre Alberta e madre Amélia já passaram dos cinquenta pelo que li nos autos. Quem sabe você também não tem dó das vovós e faz um favor para todos nós, iniciando-as na arte do sexo?

-Como você é escroto, Renato.

-Ter dó só da bonitinha não vale. Para salvar a princesa tem que encarar o dragão.

Gargalharam.

Perderam o dia reconstruindo os prováveis caminhos seguidos pelas desaparecidas em seus últimos dias. Nada que pudesse esclarecer o caso foi encontrado. Os trajetos eram todos de grande circulação de pessoas. Não havia um beco escuro, um terreno baldio, nenhum ponto onde alguém pudesse se esconder e surpreender as moças.

Perguntas atormentavam a cabeça de Dantas, logo que a deitou no travesseiro. O que acontecera com as freiras? Onde elas poderiam estar? Teriam cansado da vida espiritual? Nada das respostas aparecerem. Perdeu o sono. Definitivamente não conseguiria dormir. Levantou-se, calçou os chinelos e foi ao banheiro.

A ducha fria, somada ao bule de café que fervia sobre o fogão, seria o combustível para a noite. Na mesa da sala, pilhas de papéis desordenados guardavam as respostas procuradas. Na parede, o relógio marcava onze horas e quarenta minutos. O detetive acendeu o primeiro cigarro, encheu a xícara com o café recém-passado e sentou-se frente aos documentos que deveriam conter alguma pista que norteasse as investigações.

Leu, releu, examinou, reexaminou. As horas passavam, a noite avançava. Nenhuma pista, nada que pudesse ajudar. A garrafa térmica esvaziou-se, e o cinzeiro cada vez mais lotado. Até que um pequeno detalhe foi notado. Havia um nome, era o único nome que se repetia na lista de presença das três religiosas. Apesar de estudarem em turmas diferentes, havia um sujeito, um tal Alcides Monteiro dos Santos, que estava matriculado simultaneamente nas três classes. Seu nome era o único a aparecer nas três listas de chamada. Tinha que ser isto, só poderia ser isto.

Uma excitação percorreu o corpo do policial. Seu faro investigador não o enganaria, não naquele momento. Não enxergava outra alternativa, era ele. Alcides, esse era o nome a ser investigado. O único elo que unia os desaparecimentos. Correu para o telefone. Ligou para o colega que dormia tranquilamente em seu lar.

A campainha tocou uma, duas, três, quatro, cinco vezes até que uma voz assustada respondeu.

-Alô!

-Alô, Renato? Aqui é o Dantas. Você estava dormindo?

-Dantas! Você está maluco? Você sabe que horas são? Isso lá é hora de ligar para a casa dos outros! É claro que eu estava dormindo.

A mulher de Renato acordou.

-O que foi amor? Aconteceu alguma coisa?

-Não benzinho. É só o palhaço do Dantas. Pode voltar a dormir, eu vou atender lá na sala.

Passava das quatro da manhã.

-Muito bem, doutor Dantas. É bom ter um motivo muito grande para você ter me ligado. Alguém de sua família morreu?

-Antes fosse. Escute Renato, a coisa é séria. Eu já sei quem pode estar envolvido em tudo. Tem um tal Alcides Monteiro dos Santos, ele era colega de sala das três desaparecidas. Ele é o único nome a aparecer nas três listas de presença. Tem que ser esse o nosso homem!

-Você enlouqueceu de vez. Você está se drogando de novo, Dantas? Por que você não está dormindo, como toda pessoa normal? Você já viu que horas são? Sabia que aqui tem crianças dormindo! Você quase acordou a Sônia. Vê se volta para a cama, oh infeliz. Amanhã a gente conversa.

Desligou o aparelho.

Nenhum dos dois voltou a dormir. O sol clareou. Bem cedo, lá estavam eles na delegacia.

-Bom dia, Dantas. Você está com uma cara péssima. O que houve?

-Renato, eu passei a noite em claro, estudando o caso. Entornei dois litros de café, e maço e maio de cigarro. Estou me sentindo um cinzeiro.

-Isto que é amor! Você está realmente apaixonado. Fazendo hora extra em casa. Quem diria, o doutor revoltado trabalhando fora do horário. E por esse salariozinho de merda. Não era esse o seu discurso?

-Porra, Renato! Eu tô falando sério. A coisa esquentou. Acho que estou na pista certa. Nosso homem se chama Alcides Monteiro dos Santos. Tem que ser ele. É o único matriculado nas três turmas das desaparecidas.

-Então, é melhor a gente partir logo para a casa deste homem. Antes que o Mendonça nos encontre. Depois de acordar com o seu telefonema, ia ser demais aturar o delegado. É muito para uma manhã só.

Resignou-se.

-Levantei todas as informações sobre esse tal Alcides. Ele tem cinquenta e quatro anos, é formado em psicologia. Recentemente se aposentou e começou a cursar teologia. Seus pais morreram na infância, foi criado por um orfanato da Igreja. Agora mora no Pacaembu. Dos irmãos que teve, parece que foi o único que conseguiu vingar. Os demais parece que morreram, ou tiveram um fim na miséria absoluta e na mendicância. Nunca mais os viu. Não se casou. Foi só na vida.

-Espero que você esteja certo na sua suspeita. O infeliz já teve problemas suficientes para irmos perturbá-lo em sua aposentadoria.

Partiram em direção ao Pacaembu. A casa era uma enorme mansão. Alcides fora a vida toda um homem muito trabalhador. Num determinado momento de sua carreira, adquirira uma clientela de renome que pagava caro por uma consulta de quarenta minutos.

-Olha só, uma consulta com o cara custava metade do nosso salário. Eu sempre achei esse papo de analista uma bruta viadagem. Imagina pagar setecentas pilas por uma consulta.

-Pois, para mim, isso tudo é falta de amizade. O sujeito deve ser tão chato que o único que o atura é o analista, que está recebendo para ouvi-lo.

-Eu não entendo esses ricos. Têm tudo na vida para serem felizes. Tudo o que a população deseja. São a ponta da pirâmide social e ficam arrumando minhoca na cabeça.

-Crise, para mim, é sobreviver com dois, três salários mínimos. O resto é refresco.

Os refinados espíritos de nossos policiais ainda eram crus demais para compreenderem Freud ou Jung.

A conversa seguiu descontraída, sempre abordando ironias a respeito de fatos, especulações e suspeitas. Como usualmente faziam, pararam o carro a algumas quadras de distância do verdadeiro endereço a ser investigado. Ao se aproximarem da casa puderam ver um guarda de rua, um vigia.

O homem estava sentado numa cadeira, ao lado da guarita de fibra de vidro. O sol já começava a aquecer-lhe o cubículo. Pela porta entreaberta o sujeito assistia a um programa televisivo. Era um desses programas matinais, para crianças, animado por um par de botas qualquer. O rebolado da loira o distraia de tal forma que os detetives  aproximaram-se sem despertá-lo de suas mais vis fantasias.

-Bom dia, o senhor poderia me ajudar?

Disse Dantas.

O vigilante tomou um susto.

-Oh, sim. É…, bom dia. Desculpe. Sabe como é. A gente fica aqui parado. É tanto tempo. Às vezes a cabeça da gente avoa. Esses aparelhinhos distraem que é uma beleza. A manhã passa rapidinho. Logo, logo já é hora de armoçar. Não é mesmo?

-Olha o cara. Se o mundo terminar em barranco, esse morre encostado.

Resmungou Renato.

-Bom, sabe o que é? Nós estamos procurando por um endereço. Por uma pessoa.

Dantas emendou rapidamente.

-É um primo distante, faz muito tempo que não nos vemos. Eu soube que ele estava morando neste bairro, mas não tenho o endereço certo. Eu estou perguntando por toda a vizinhança, buscando alguma pista. Será que o senhor não poderia me ajudar?

-Mais é claro, sô. Se o senhor é parente, tem mais é que encontrar mesmo. Família é tudo na vida da gente.

-O meu primo se chama Alcides. Ele é médico. O nome dele todo é Alcides Monteiro dos Santos. Ele teve ter um pouco mais de cinquenta anos…

-Com esse nome assim, Alcides Monteiro dos Santos, eu num to alembrado não. Médico tem o dr. Peres e o dr. Romeu, que moram ali pra cima, depois daquele ipê florido.

Renato, que já sabia o endereço do suspeito, subia a rua. Dantas continuou tentando extrair alguma informação do matuto.

Ao se aproximar do número 743, Renato diminuiu o passo. Cada detalhe das fachadas das casas, a altura dos muros, a presença de cães, o número de automóveis na garagem, praticamente tudo o que era visível, era registrado em seu cérebro.

Lentamente, percorreu todo o trajeto que separava a casa do psicólogo aposentado e a esquina. Fez meia volta, e começou a descer a rua. Em sua direção vinha Dantas, com as últimas informações.

O vigia em nada ajudara, mas o endereço parecia claro, a melhor fonte de notícias estava ali. Estes fiéis guardiães eram uma faca de dois gumes. Sabiam de tudo, os vigias são os centros de fofocas. Olhos e ouvidos do bairro. Nada acontecia sem que eles ficassem sabendo. O corporativismo da classe, incrementado pela curiosidade das candinhas, senhoras sem ocupação que traziam lanchinhos e veneno para tão respeitos trabalhadores, fazia dos vigias os melhores informantes possíveis.

-O que acha, Renato?

Perguntou Dantas.

-Bem, não sinto firmeza, deixe o homem em paz.

-Tem que ser ele, entende? Não há outra saída.

-Ninguém pode ser culpado só porque você não encontra um suspeito melhor. Concluiu Renato.

Dantas não se conformava.

-Pense como quiser, eu vou nesta sozinho. Eu vou entrar.

-Você está louco. Eu te proíbo.

-Vai ser fora de serviço, eu volto depois. Ameaçou Dantas.

-Eu te proíbo, está ouvindo. Deixe o homem em paz.

Desceram a rua discutindo, passaram pelo vigia e voltaram para a central. Mendonça queria resultados, e eles não tinham para onde fugir. A vida deles iria se transformar num inferno. Essa era a tática do delegado para forçar produtividade.

Ia ser naquela noite, pensava Dantas, deitado em sua cama. De cuecas e meia, fumava. Cinzeiro no colo, TV ligada, som ligado. Pensava, pensava, pensava. Resoluto, levantou-se.

Em menos de meia hora, lá estava ele. Todo de preto, desceu do carro. Olhou para os lados, ninguém. Madrugada, bairro residencial, todos dormiam. Incluindo o vigia do quiosque de fibra de vidro. Colocou o gorro, também preto. Investiu contra o muro. Numa agilidade, lançou um daqueles cabos com gancho, os mesmos dos filmes de espionagem. A coisa escapou uma, duas, mas não mais que três vezes.

A ponta enroscara em algo. Testou a resistência ao peso. Ia subir. De cima do muro pôde ter uma vista geral do quintal. A mansão era magnífica. O jardim, babilônico. Só faltavam as cachoeiras. Pulou para o lado de dentro.

Em sua casa, no subsolo, Alcides contemplava sua coleção de peças humanas. Era uma parede repleta de potes de formol. Banhados pelo líquido, pedaços de carne, pedaços das religiosas desaparecidas. A parte que mais lhe emocionava era a vulva. A ala das vaginas merecia posição de destaque. Os cortes foram feitos de forma a preservarem ao máximo a genitália feminina. Um primeiro corte era feito logo abaixo da linha da virilha, outro pouco acima do umbigo.

Com isso, tal fragmento de abdômen incluía os lábios vaginais assim como o útero e os ovários. Guardava todo o aparelho reprodutor de suas vítimas, sempre mulheres, sempre religiosas. Essa estranha coleção de bucetinhas era o que mais fascinava Alcides. Seu ódio por Deus, a rixa pessoal com o Senhor, culminara naquele insano projeto de colecionador.

Odiava Deus acima de todas as coisas. Tinha os seus motivos. Na infância, muita infelicidade, muita desgraça. A perda dos pais, a separação dos irmãos, de quem nunca mais tivera notícias, a educação traumática em orfanatos católicos, onde sofrera os mais graves abusos sexuais. Em sua cabeça, apenas um culpado: Ele.

Agora era um homem bem sucedido. Criado no meio religioso, Alcides tinha grande influência na comunidade. Era respeitado, doava vultosas quantias às associações cristãs, frequentava paróquias. Era reservado, isto é verdade. Nunca organizava encontros em sua casa, uma fortaleza armada de dispositivos de segurança por todos os lados. Não recebia ninguém. Era considerado um excêntrico, assim como todo louco que tem dinheiro. Estes nunca são chamados de dementes, são sempre excêntricos. Já quando se é pobre…

Gozava de grande respeito no meio conservador. Era convidado para tudo. Estava sempre em eventos sociais. Conhecia o mais alto escalão do clero nacional. Diziam alguns que tinha afinidades com a TFP, mas duvido muito. Em sua mente perturbada, apenas um plano. Aproximar-se das freiras, arrastá-las para casa e a execução de mais uma vítima. Há anos vinha engordando sua coleção de genitálias, sem que ninguém levantasse a menor suspeita sobre a sua pessoa.

Neste momento, a luz do porão foi diminuindo até ser substituída por uma fraca luminosidade vermelha. Era o alarme, algum invasor fora detectado. Trancou a porta metálica que encobria a parede com os potes e passou para a sala ao lado. De lá, controlava-se o sistema de segurança. Monitores de vídeo permitiam checar em segundos tudo o que se passava dentro e fora da casa. No painel de controle piscava o sensor 18.

-Pegamos um ursinho! Vamos lá meus queridos, vamos trazê-lo para dentro de casa.

Vibrou Alcides, alisando seus cães.

Neste momento, Dantas perdia a consciência. Caíra de uma altura de cinco metros, num fosso coberto por folhas. No fundo, uma daquelas armadilhas dentadas. Sua perna direita estava reduzida a pedaços, fraturada pelo tombo, esmigalhada pelo aparato mecânico. Quando abriu os olhos, estava armado a uma mesa cirúrgica, o altar onde Alcides oferendava suas vítimas.

-Olá, meu ursinho. Acordou bem?

-Alcides? Alcides Monteiro dos Santos?

-Aqui quem pergunta sou eu. A sua posição não é das melhores, meu querido. Ah, esta cidade. Que coisa violenta, não é mesmo? Se a gente não se previne. Veja só você, meu caro. Um dia desses eu resolvi pôr esse fosso com uma armadilha para caçar ursos. Coisa canadense, de qualidade. Acho que deveríamos regular melhor a pressão da mola. Sua perna humana não é tão resistente como a perna do urso, não é mesmo? Ficou péssima, tivemos que arrancá-la.

Dantas debateu-se, tentando alcançar com a mão o membro em questão. Mas, amarrado do jeito que estava não alcançava nem a vista.

-Não lute contra o inevitável, já foi. Pobre criança. Nunca mais saltará para dentro da casa dos outros, reles bandidinho.

Dantas não sabia o que fazer. Confessar-se policial ou deixar-se passar por larápio. Nem ao certo sabia se tinha as pernas. Voltou a desmaiar. Quando recobrou a consciência, Alcides encontrava-se em pé, de costas, contemplando a coleção de vulvas. Os potes recebiam uma iluminação azulada, era um cenário de horror. Duas dezenas de xoxotas conservadas em formol.

Anos e anos de estudos sobre as vítimas, mudando sempre de região. Já matara no Sul, já matara no Norte. Já matara no sertão, já matara no litoral. No campo e na cidade. Agora, cansado de guerra, dera mole. Arriscou-se demais. Três vítimas em quinze dias. Duas no mesmo dia. As três da mesma universidade. Seu disfarce de bom aluno caíra.

Agora Dantas tinha certeza. Ali, em sua frente, estava um assassino. Lembrou-se da formosa madre Helena. Qual daquelas vulvas pertenceriam a madre Helena?

Ah, se pudesse pôr as mãos nesse canalha.

Pensou Dantas.

Algum tempo se passou até que Alcides notasse o despertar do prisioneiro.

-Olá, minha flor. Está mais calmo agora? Sabe de uma coisa, eu decidi que você vai ser um homem de sorte. Está me ouvindo? Eu disse um homem de sorte, muita sorte.

-Não brinca!

Respondeu irônico.

-Já que vai morrer mesmo, você vai poder presenciar minha maior obra prima. Você será o primeiro a compartilhar comigo desta experiência mágica que estou vivendo.

-Você é louco!

-Louco! Sim, louco! Me fizeram louco! Aqueles anos inglórios, todos aqueles abusos em nome do Senhor! Grande filho da puta, não passa de um grande filho da puta. E essas vacas? Quem se preocupa com essas vacas? Profanas, fornicadoras, trepam com os sodomitas, padrecos viados!

O homem estava fora de controle.

-Fodi a todas, cada uma delas. Dizem-se casadas com o Senhor, pois então Senhor, no cu, no cu. Corno, viado. Esporrei em todas. Corno, escroto. E você, meu caro. Olhe bem, porra! Abra bem os olhos, admire minha coleção. Aproveite, pois esta será a última imagem em sua íris.

Naquele instante, Renato, que presenciava a cena, sacou a arma e disparou para matar. Um estilhaço de crânio acabou acertando um dos potes, que se quebrou. Renato não podia abandonar o amigo. Enquanto Dantas pulava o muro, ele estacionava o seu carro. Havia pressentido os fatos. Ao ligar para Dantas e este não atender, imaginou logo o acontecido. Correu para o Pacaembu.

Deu tempo de ver o companheiro pulando o muro. Saltou alguns segundos depois. Ao atingir o solo, Dantas já havia desaparecido, caíra na armadilha. No gramado, a luz de emergência do sistema de segurança se acendeu. Renato de escondeu e assistiu a tudo o que se passou com Dantas. Seu resgate, a cirurgia que o salvou de morrer. A amputação fora mesmo necessária, mas não permitiria o fim da vida do colega.

Essa foi sem sombra de dúvida a mais louca experiência vivida por nossos heróis em anos de corporação. Tudo foi abafado, nenhuma nota, nada vazou. Os crimes estavam solucionados, a cidade se livrara de mais um maluco.

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Published in: on 21 de março de 2012 at 13:52  Deixe um comentário  
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