O SONHO DE UM PRÍNCIPE – CONTOS DE MARCELO AITH

O SONHO DE UM PRÍNCIPE

-Não vou, não vou e não quero! Se ele pensa que vai conseguir, pode saber que está muito enganado. Não vou mesmo.

A pequena princesa gritava pelos corredores do castelo.

-Que inferno, nunca se acha ninguém nesta casa.

Estava histérica. Também, num palácio daqueles, um sobe e desce de escadas, salas, câmaras e anticâmaras. E os jardins!

-Que inferno.

Pensou que se estivessem nos jardins, poderia gastar um dia inteiro sem os encontrar.

Nas mãos, portava uma delicada caixa de madeira. Em cedro, coberta da mais fina madrepérola. Figuras geométricas precisas, recortadas em diminutas proporções, tomavam forma semelhante à dos mosaicos da capela em que assistia às missas de domingo.

Ela própria, a caixa, já era uma joia. Cravada por pedras preciosas, estavam ali agregados os trabalhos dos mais experientes artesãos de distante reino oriental.

Mas, valor maior estava em seu interior. Se pudéssemos levantar-lhe a tampa, logo veríamos o porquê de tamanha revolta.

A princesa recebera há pouco pelas mãos do Grão-Vizir, enviado especialmente para isso, o pequeno presente. Um pedido de casamento. Desta vez, oficial!

O enviado do Sultão atravessara desertos, mares e florestas. Missão diplomática, séquito de sábios, diplomatas e nobres do reino. Uma verdadeira caravana. Presentes dos mais finos, tapetes, especiarias, cerâmicas, artesanatos em geral.

E, nas mãos da princesa, o prato principal. A “tiara nupcial”, em ouro maciço, incrustada de rubis dos mais variados tamanhos. Ao centro, a “grande safira do Éden”. A pedra sagrada do tesouro do Sultão.

Era a prova definitiva das más intenções do Sultão. E a princesa sabia disso.

-Eu não me caso. Eu não aceito. Eu não vou!

Irada, procurava seu pai pelo castelo.

Seu Luís! Seu Luís! Sua filha está tendo outro daqueles ataques.

Avisou o Camareiro Real.

O rei, importunado em seu sossego, ergueu levemente os olhos, como se perguntasse:

-O quê?

A moça, de pernas abertas, ainda tentou recolocar a cabeça de seu amo no devido lugar, puxando-lhe pela cabeleira.

-Ai amorzinho, não liga para esse chato, não.

-Sua filha, senhor, estará aqui em alguns instantes. E não está nada feliz.

-Ai meu Saco Real, não se tem um minuto de paz neste reino? Não basta vencer os ingleses, os prussianos, ou a raça que seja. Esse inimigo interno ainda acaba comigo.

E olhem que o Rei nem estava pensando em seu problema de impotência, que só era resolvido a muito custo, sempre com a ajuda das prestativas donzelas da corte.

-Vamos querida, mova-se! Dê o fora, minha filha está chegando. Não queremos mais um escândalo nesta dinastia.

Contrariada, a cortesã saiu acompanhada pelo Camareiro Real. Ainda arrumava o vestido quando esbarrou na princesa, que vinha bufando pelos corredores.

-Sua cega, curve-se diante da futura rainha.

A família, do pai aos netos, era absorvida pela obsessão de representar Deus na Terra. Era o próprio Estado, o astro-rei e seus planetas. Com a menininha mais nova não seria diferente, sua arrogância era intragável.

Entrou nos Aposentos Reais com estrondo. Esbaforido, ofegante, o rei Luís recompunha-se em seu leito que, pela quantidade de franjas e babados, mais parecia um carro alegórico.

-Eu não me caso com aquele monstro. Não adianta insistir. Pai, eu não vou.

-Calma, minha filha. Você sabe da importância dessa união. Com o domínio das rotas das caravanas superaremos os genoveses e os venezianos. Tiraremos este reino do buraco de uma vez por todas.

-Às custas do meu buraquinho? Nem pensar. Eu me recuso a ser mais uma. Você sabia que eu serei a ducentésima trigésima quarta mulher do Sultão… Além do que, aquele homem fede a camelo. Pai, eu não vou e pronto!

A filha-furação partiu batendo a porta, convicta em sua birra. Como toda boa mimada, chatear o pai era o seu passatempo predileto.

No jantar, o clima era pesado. A umidade das pedras do castelo e o frio que vinha do exterior deixavam a todos doentes. A tuberculose já matara grande parcela da Família Real.

As condições de higiene também não eram das melhores. Excrementos humanos, restos alimentares e ratazanas eram comuns pelos pátios e arredores. O que colaborava ainda mais com a queda da população.

A salvação do reino passava pela união das coroas. A Cristandade Ocidental unida ao avançado Império Islã seria o pilar de sustentação. A sofisticação árabe era impressionante perto da decadência medieval europeia.

Em seu suntuoso palácio, o Sultão e suas duzentas e trinte e três mulheres desfrutavam de todo o luxo e conforto. Mobiliário de primeira qualidade, detalhes arquitetônicos maravilhosamente trabalhados, jardins babilônicos, tudo em perfeita harmonia.

O calor do deserto era compensado por um moderno sistema hidráulico. A água vinha do degelo das altas montanhas, quase uma centena de quilômetros dali. Tudo subterrâneo.

Era toda essa riqueza, todo esse luxo e principalmente o controle de importantes rotas comerciais que estavam em jogo na pretensa união entre diferentes civilizações.

No aconchego de suas almofadas e tapetes, abanado por eunucos e servido por odaliscas, o Sultão sonhava com sua amada. A fixação pela princesa era um delírio que o atormentava há tempos. Desde a sua viagem às terras distantes dos infiéis, quando ainda era um jovem príncipe de apenas oitenta e seis mulheres.

O que mais o enlouquecia era a impossibilidade de comprar a pretendente. Fazer a corte era muito fácil para o Sultão. A mulher que o agradava era comprada com riquezas maiores ou menores que seu peso em ouro, dependendo das qualidades da moça e da lábia do pai.

A pechincha era um hábito nacional. Mas as negociações com a princesa, com seu pai, o Rei Luís, estavam indo além da conta. Já oferecera os maiores presentes, os melhores mimos.

Oferecera acordos diplomáticos, comerciais, militares. Praticamente abriria as portas de importante reinado e suas infinitas riquezas em troca daquela xoxota. Mas a moça estava irredutível.

-Não vou, não quero, não aceito e pronto! Vocês estão malucos. Já visitaram aquele fim de mundo? São todos uns loucos. E as mulheres ? Que opressão! Um dromedário tem mais valor que uma mulher.

Bradava a menina bonita.

-Ao menos os dromedários não falam de boca cheia, não comem muito, nem bebem todo dia.

-Luís!

Advertiu a Rainha.

-Com que dinheiro as madames acham que eu posso sustentar os luxos das mancebas? Sabem quanto me custou essas pedrinhas adocicadas que vocês se fartam a ingerir? Quantas vidas humanas desperdiçamos em combate para garantir a chegada das iguarias que vos engordam diariamente?

-Com o meu corpinho é que não vai ser. Eu morro, mas não vou.

O jantar fazia parte do cerimonial oficial da visita diplomática do Grão-Vizir, enviado especial do Sultão para pedir-lhes a mão de encantadora figura feminina em casamento.

Também celebrariam ali importantes acordos bilaterais, que significavam os primeiros passos para a integração militar e econômica de ambos os reinos. O que garantiria a tranquilidade, e um fim de reinado feliz para o nosso cansado Luís.

O tradutor da missão, envergonhado, tentava diminuir o peso da discussão pública, travada à mesa. Mas a comitiva trazia as mais finas e requintadas elites do Sultanato. E rapidamente a versão completa dos diálogos era disseminada de orelha em orelha.

Chocada, ofendida, a comitiva ameaçou levantar-se e retirar-se do evento. A princesa, em crise de fúria, completou a gafe internacional, destruindo a golpes vigorosos, a tiara com que fora presenteada.

Deixava de existir uma joia sagrada da dinastia árabe que atravessara gerações e gerações no seio da Família Real. Lógico, nenhum acordo foi celebrado naquela noite, nem nos próximos séculos que estariam por vir.

Na manhã seguinte, a caravana preparava seu regresso, sem a resposta tanto esperada pelo Sultão. Aconselhado por seus estrategistas, o Rei Luís mandou preparar o presente mais extraordinário possível.

Foram oferecidos, como pedidos de desculpas frente à impossibilidade de união entre os amantes, dois grandes relógios que os maiores ourives da cristandade começariam a construir imediatamente, por encomenda especial.

A modernidade mecânica dava o controle do tempo. Seu móvel, em madeira nobre, alongava-se por metro e meio. Esta caixa retangular abrigava um pesado pêndulo, no mais puro ouro. Um mostrador redondo, logo acima do pêndulo, escondia o coração da obra.

O maquinário que movia os ponteiros era a coisa mais futurista que poderia se imaginar em sua época. Os rubis pertencentes à joia destruída pela princesa agragavam-se às engrenagens.

Tratava-se, de certa forma, de uma homenagem à preciosidade maculada. Os relógios foram aceitos. O Sultão tornou-se um homem triste, melancólico, a observar as engenhocas.

Um atrasava sempre; o outro adiantava. No fim de sua vida, pediu que fosse enterrado junto aos relógios. Contava os minutos em que Alá iria uni-lo à sua amada em paraíso celestial.

Para os que pensam que esta história é mentirosa, fruto de fértil imaginação, advirto para o fato de que os relógios podem ser encontrados, ao lado do túmulo do Sultão, em algum lugar do Norte da África.

Afirmo com a certeza de quem viu com os olhos que esta terra ainda há de comer, e quero ficar cego se estiver mentindo.

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