PARADA SOLICITADA – CONTOS DE MARCELO AITH

Nos anos 90, dei início a uma série de contos, que ficou guardada por todo esse tempo. Aproveito a vida virtual para compartilhar o que mofava na gaveta.

PARADA SOLICITADA

 

O Rubem Fonseca era, como o próprio nome sugeria, uma fonte seca. Fora ele inteiramente devorado linha por linha, parágrafo por parágrafo. A fila do banco e a espera pela entrevista de emprego foram tempo suficiente para que eu pudesse esgotar o universo de palavras contido no livro que portava.

Recorri à revista esquecida há uma semana do fundo da bolsa. “Caros Amigos”, este era o nome da preciosidade guardada a sete chaves, num canto obscuro e que viria a me salvar do tédio. Foi um encontro daqueles, parecíamos dois velhos amigos que após anos sem se verem transbordam em emoções. Num segundo momento, percebi que a distância do reencontro nada mais era que a própria distância da amizade perdida; eu já lera as melhores matérias, restavam apenas alguns poucos artigos menores há serem lidos e que foram rapidamente checados.

A enorme sala de espera estava repleta de candidatos. Ela possuía a estrutura de uma sala de colégio: a mesa do professor à frente e as cadeiras dos alunos perfiladas. Eu já havia vencido a etapa inicial da competição, estava sentado na primeira carteira da primeira fila, aguardava ser chamado pela voz que vinha da sala ao lado, autorizando a entrada do entrevistado.

Sentadas à minha frente estavam as duas atendentes. Uma jovem de longos cabelos negros e pele extremamente branca, aparentando a menoridade, ouvia, atenta, as instruções a respeito de suas novas obrigações. Devia ser recém-contratada da agência de empregos.

Sua companheira, a que ditava ordens, era uma moça um pouco mais velha, de pele escura e formas arredondadas. A veterana estava sentindo pela primeira vez em sua curta existência a sensação de autoridade. Sempre obedecera a ordens, agora tinha alguém subordinada a ela. A mais jovem certamente não se lembraria de tudo o que lhe havia ensinado, o que renderia severa desaprovação da superiora.

Os candidatos, impelidos pelo anúncio de domingo, disputavam a vaga de atendente de telemarketing. Ao chegarem à recepção recebiam uma ficha a preencher com dados pessoais: nome, endereço, formação, atividades profissionais exercidas anteriormente…

Recebiam uma folha sulfite em branco onde, em vinte linhas, descreviam o perfil pessoal. As fichas preenchidas eram entregues às meninas da mesa em frente e encaminhadas em ordem de chegada para a sala ao lado. Os pretendentes ao posto oferecido eram ouvidos um a um, por poucos minutos.

“Operador de telemarketing, empresa de previdência privada, quinze vagas, 2º grau técnico ou superir, dispensa experiência na área, curso preparatório, boa dicção, desinibição, salário $750,00 – Comparecer nesta segunda-feira, após às 9:00 hs.”

E lá estávamos nós, disputando a chance de passar oito horas por dia, cinco dias por semana, pendurados ao telefone, invadindo a casa alheia, empurrando planos de previdência. O sonho da velhice dourada, a independência financeira assegurada no fim da vida. Nunca mais trabalhar, viver de renda após anos de contribuições ao fundo privado, fugir da seguridade social oferecida pelo Estado.

Todo ano o governo arrecadava milhões dos trabalhadores contribuintes da previdência pública. Mas para a alegria do empresariado do setor, o dinheiro sempre dava um jeito de desaparecer. Os fundos prometiam garantir uma velhice dignamente remunerada.

A infelicidade maior do aposentado é a sua falta de poder reivindicatório. Além de ter uma militância exausta pela idade avançada, atacada por reumatismos, labirintites, osteoporoses, escleroses múltiplas e cataratas; o setor dos pensionistas perde o usufruto do instrumento de greve. Quem se incomodaria com uma greve de aposentados?

-Greve geral! Vovôs cruzam os braços!

Restavam apenas as intermináveis filas dos postos de atendimento onde, desde fria madrugada, os idosos, com seus problemas respiratórios, comentavam suas desventuras, enquanto disputavam as migalhas oferecidas pelo “generoso” Estado a seus “honrados” cidadãos.

Às vezes, algum jornal mostrava a situação de miséria que é imposta a esta população “não-mais-economicamente-ativa”; ou então um grupo de senhoras em defesa da classe tentava sacudir os alicerces do poder, enchendo as galerias do Congresso Nacional, em Brasília.

A voz da sala de entrevista anunciou o nome do próximo candidato. Pelo vidro da janela, que funcionava como espelho, tentava observar os meus concorrentes. Os minutos pareciam intermináveis, qualquer movimentação era uma distração para os meus olhos que já não tinham o que ler.

Estava procurando por uma caneta para escrever desintencionadas linhas quando a porta mais uma vez se abriu. O candidato entrevistado saiu, a voz anunciou o meu nome.

-Paulo André.

Ecoou pelo ar.

Levantei-me ainda com a bolsa aberta, atrapalhadamente confuso, com o bloco de anotações e a caneta por guardar. Saí de uma inércia de mais de uma hora e pus-me a caminhar em direção ao som que me chamava.

-Boa tarde.

Cumprimentei com um aperto de mão a funcionária do recursos humanos que me entrevistaria.

-Boa tarde.

Respondeu-me.

A nova sala em nada se parecia com a de espera. Era pequena, delimitada por aquelas paredes divisórias de escritório feitas em madeira compensada e fórmica. Dentro havia espaço apenas para a minha cadeira, uma mesa e a cadeira da entrevistadora. Sobre sua mesa estavam pilhas de papéis desarrumados, um telefone e a cesta onde eram recolhidas as fichas que aguardavam seus autores. Pegou a minha.

-Pois bem, Paulo André. Como você ficou sabendo do emprego?

Perguntou-me.

-Vim pelo anúncio do jornal.

Respondi.

-Vejamos aqui a sua ficha. Solteiro, vinte e oito anos, estudante. Você estuda o quê?

-Estou cursando Filosofia.

-E por que o interesse na vaga?

-Enquanto eu não me formo, as oportunidades em minha área são reduzidas. Eu dava aulas na rede pública de ensino, mas o salário é desestimulador. Eu pretendo ir trabalhando em outras coisas até poder concluir o meu curso.

-Acredito ser bem ruim o salário de professor.

Concordou.

-Muito bem, Paulo.

Ela falou-me, encerrando a conversa.

-Nós estaremos examinando os currículos. Qualquer coisa, entraremos em contato.

-Está certo.

Respondi.

Não havia outra coisa a fazer. Levantei-me e saí.

-Qualquer coisa, entraremos em contato!

Um dia inteiro gasto em função daquela entrevista e a mulher me respondia com “-Qualquer coisa, entraremos em contato.”???

A situação do país realmente não era das melhores. Um simples anúncio de atendente de telemarketing mobilizava legiões de desempregados, muitos deles com curso superior e esperançosos por passarem a vida atendendo telefones. Ainda no hall do elevador pude ouvir a voz que chamava o próximo nome.

Enquanto descia para a rua lembrei-me de uma observação de um amigo. Ele comentava que antigamente o movimento sindicalista vinha numa linha de questionar a exploração do trabalho, lutando contra o Capital, combatendo a mais-valia; hoje, ao contrário, o operariado implorava pela exploração, a principal conquista dos sindicatos era a garantia do posto de trabalho, o trabalhador estava disputando a tapas o direito de ter a sua mais-valia extraída. Realmente, até o desenvolvido hemisfério Norte e sua cúpula, o G-7, perdem o sono debatendo as soluções para a crise generalizada e a falta de empregos que norteiam tanto as discussões dos explorados quanto dos exploradores.

Uma vez na rua misturei-me à multidão que circulava diariamente pelo centro da cidade. Dirigi-me a uma dessas tradicionais casas que vendem mate gelado. Costumava pedir a minha bebida batida com leite em pó. Tal combinação formava um líquido denso, uma espécie de cimento fresco que ao cair no estômago produzia a sensação de termos feito uma refeição completa. Com apenas o dinheiro do refresco poderia iludir a minha fome por mais algumas horas. O líquido deveria cimentar os espaços vazios de meu tubo digestivo, que era deveras sensível a grandes períodos de inanição.

A volta para casa não era das tarefas mais agradáveis, ainda mais ao final da tarde, quando milhares de pessoas desejavam dividir o mesmo espaço nos ineficientes ônibus que dominavam o transporte público da cidade. O ponto de espera estava repleto de gente cansada, ansiosa por voltar para casa. Os coletivos passavam lotados. Dentro dos veículos não havia assentos vagos, até os corredores estavam cheios, e mesmo assim os que aguardavam na calçada tentavam subir.

Foi num desses lances de sorte que o meu ônibus parou justamente com a porta de entrada à minha frente. Rapidamente escorreguei para dentro, passando entre uma velha isenta de pagar passagem e que descia pela entrada e a multidão enfurecida que forçava subida no transporte.

-O ser humano é uma espécie única.

Pensei comigo mesmo.

-Dentro os demais seres vivos intitulamo-nos de racionais, mas vejam só a nossa situação, estamos comportadamente espremidos numa caixa de metal e rodas, dividindo o mesmo metro quadrado entre cinco pessoas quando, na Natureza, entre os animais irracionais, essa hipótese não aconteceria.

-Isso mesmo, os animais ao terem seu espaço mínimo diminuído a proporções ínfimas são atingidos por um desequilíbrio que só é regulado pelo extermínio da população excedente. Migração, autofagia, redução da taxa de fertilidade, suicídio, sei lá?

-Mas os ditos animais irracionais não se acomodam. Ao socarmos vários ratos, ou galinhas, num mesmo recipiente a confusão será generalizada. Os indivíduos não se acomodarão como fazem os racionais perante uma situação crítica de falta de espaço.

Seguindo tal “irraciocínio” e cada vez mais enjoado pelo mate, puxei a campainha de descida. Sobre a porta acendeu o aviso.

-Parada Solicitada.

Estava há vários pontos de onde deveria saltar.

Completei o restante do trajeto a pé, sob o luar que crescia a cada quarteirão.

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