RAIMUNDO – CONTOS DE MARCELO AITH

RAIMUNDO

Muitos perguntam o que leva alguém a escrever uma história. Que respostas podemos dar? Necessidade, dirão alguns. Vaidade, responderão outros. Mas, qualquer que seja a motivação que impulsiona o escritor a preencher uma página em branco, o mais importante é que uma vez escrita, a história está garantida.

Passa do plano das ideias, da abstração mental do autor, para a concretude física do papel. Imutável, perpetuada através dos tempos até a destruição completa do último exemplar que a contenha. E é por isso que escrevo estas páginas, para que a história de Raimundo não caia no esquecimento. Não desapareça com o fim dos que a presenciaram.

Conheci Raimundo ainda na faculdade. Trabalhava no bar ao lado da universidade, era o chapeiro. Fritava-nos calabresas, batatas, hambúrgueres. De suas mãos saiam os sanduíches que mantinham os gloriosos estudantes do Brasil de pé, em meio a porres homéricos.

O Cais era o bar-dormitório. Ali, Raimundo e seus colegas labutavam e residiam. Todos vindos do Norte, ganhavam dinheiro para mandar aos parentes. Dormiam num quarto nos fundos do bar. Folga, uma vez por semana.

Sem ter a quem visitar, Raimundo vivia muito só. Os companheiros de serviço não eram propriamente grandes amigos. De índole fechada, não era dado a muita trela. De seu passado, pouco sabíamos. Apenas que não tinha parentes, ou não queria falar sobre o assunto.

Como cada qual folgava um dia, estava sempre solitário em seu descanso. No resto da semana, era trabalho árduo. Somente conversas profissionais e papo de bêbado. Foram anos servindo no bar de seu Barreiro.

Seu Barreiro era espanhol. Comerciante, proprietário do Cais. O bar que mais vendia cerveja nas redondezas. Comprava caixas, engradados, grades de cerveja. No auge dos negócios passou a comprar caminhões fechados. Comprava tudo o que pudessem entregar. Com isso conseguia bons preços. Quebrava qualquer concorrência.

O espanhol tinha dois filhos, Túlio e Frederico. E foi o segundo, Frederico, quem foi receber o prêmio de maior vendedor de uma certa cervejaria da cidade. Uma cerimônia em alto estilo, traje a rigor e tudo mais. Uma homenagem aos cinco bares que mais consumiam o precioso líquido.

Barreiro não era bobo, instruía os garçons.

-Uma cerveja, por favor.

E logo traziam a garrafa definida por Barreiro. Sempre que o pedido era abstrato, empurravam a mesma marca. E como vendiam cerveja.

Seu Barreiro não era um humanista nato. Não registrava os empregados, não lhes assinava a carteira profissional. Adicional noturno para ele não existia e hora extra, ah, esta era uma lenda como a curupira e o boitatá.

Nas conversas, sempre que podia, oferecia-me para ajudar os funcionários do Cais. Trabalhava com a consciência das bases, instruindo os rapazes de seus direitos trabalhistas. Cheguei mesmo a me oferecer como testemunha em futuros processos. Mas acho que os infelizes nunca foram aos tribunais.

O pensamento do patrão estava repleto de preconceitos. Julgava-se superior. Vestia o mito do colonizador civilizador. Era mais um que vinha fazer a América, engordar à custa do trabalho alheio. Às críticas, recorria sempre para o argumento de que dava casa e comida. Pagar o justo era demais.

E assim a família Barreiro prosperava, enriquecendo a olhos vistos. Também a olhos vistos a gordura depositava nos dutos do exaustor. Nas narinas de Raimundo, em suas artérias.

Raimundo passou anos trabalhando ali. Cuidava da cozinha. Coisas básicas, lanches, porções e alguns pratos simples. Descascava muitas batatas, era verdade. Mas para isso não necessitava de grandes dons culinários.

A chapa onde Raimundo fritava os lanches, o seu local de trabalho, ficava no centro do salão. Na frente ficavam as mesas e, nos dois terços restantes, o balcão. Um espelho corria as paredes, dando-lhes um ar de motel.

O balcão ia e vinha, como meandros de um rio, mas em curvas de ângulos retos, formando letras Us. Nossa turma sentava-se na última reentrância possível.

Todos os fins de tarde os vagabundos iam juntando-se. Em nosso local predileto só éramos importunados pelas garotas que precisavam ir ao banheiro, localizado logo ao lado. O sanitário masculino ficava para o outro lado.

Dali, podíamos ver todo o movimento do bar, todo o entra e sai de clientes. Raimundo e seus companheiros de trabalho também acompanhavam o dia a dia daquelas pessoas, como se assistíssemos aos capítulos de uma novela, mas de vida real.

Raimundo nunca se esqueceria do dia em que um pai furioso invadiu o Cais, uma barra de ferro nas mãos. Desferiu um golpe contra o vidro da caixa registradora, partindo-o em mil pedaços. Motivo, sua filha de quatorze anos chegara bêbada em casa, e afirmava ter amarrado seu porre ali, em frente à escola onde cursava o ginásio.

Túlio, o filho mais velho de Barreiro, era um homem sem escrúpulos. Vendia álcool para crianças vestidas de uniforme escolar, não tinha pudores. A mesma sem-vergonhice podia ser notada nas contas que deixávamos penduradas.

Invariavelmente encontrávamos mais nas notas do que o número de garrafas esvaziadas. Mas o homem contava com a vantagem da dúvida. Bêbado nunca tem certeza de quantas já tomou. Raimundo, quando podia, abria-nos cervejas sem anotá-las.

Com Raimundo ouvi algumas pérolas da sabedoria popular. Afirmava que os garotos vindos do Norte que nunca fizeram sexo com animais ou são mentirosos, ou não são tão homens como dizem.

Afirmava também que as melhores mulheres são aquelas de mais idade, de preferência aquelas com metade dos pelos pubianos brancos, metade pretos. Essas sim eram as boas.

Lembro-me do dia em que Raimundo salvou o pescoço de Frederico. Um cliente enfurecido erguia o filho de Barreiro pelo cangote, quando o pacato Raimundo resolveu interagir.

Deu uma gravata no agressor, e arrastou-o para o meio da rua. Não defendia o patrão, apenas queria paz para trabalhar. Odiava brigas. A gratidão foi se apagando com o tempo, caindo em esquecimento. E a exploração do homem pelo homem prosseguia.

Agora, o mais importante desta história. O que realmente me motivou a falar sobre todos estes fatos foi o fim de Raimundo. Ali, toda a escrotidão da família Barreto veio à tona. E em memória ao bom Raimundo preciso deixar o meu protesto.

Em seu último dia de vida, Raimundo repousava pela tarde. O movimento noturno não tinha hora para acabar. Iríamos até o último cliente, como de costume. O pós-almoço era o momento de descanso para quem iria acordado até às três, quatro da matina.

Lá pelas cinco e meia foram chamar o chapeiro. Dormia em sua cama, no quarto dos fundos.

-Raimundo, Raimundo! Acorde homem, tá na hora. Vá comprar pãozinho.

Ninguém respondia, o homem estava morto. Infarto no miocárdio. Colesterol nas veias. Tudo entupido. Morreu como viveu, só. Fora assassinado pela gordura da chapa, pelo óleo das frituras.

A notícia correu, e logo um sentimento de compaixão possuiu-nos. Os mais íntimos chegaram a umedecer a vista. Mas o espírito mercante dos Barreiros era inabalável.

O corpo duro, esfriando nos fundos do Cais. O que se esperava? Que fosse decretado luto. Que fossem baixadas as portas. Que fossem dispensados os funcionários. Mas o que vimos foi o inverso.

Túlio transferiu um garçom para a chapa, ocupando o lugar do falecido. Não respeitou a memória do morto, nem os sentimentos dos colegas de serviço. Por mais que não morressem de amores por Raimundo trabalhavam e dormiam juntos há anos.

Mas isto nada significava frente ao tilintar da máquina registradora. Os lucros, sempre os lucros. Naquela noite, tudo funcionou como sempre. Risos, cigarros, catchups, batatas fritas. Desavisados, os clientes iam entrando, fazendo seus pedidos, pagando as suas contas.

De diferente, apenas alguns lugares vazios. A antiga turma do fundão não esteve presente. Parecia-nos mórbido demais rir, gargalhar, encher o caneco ao lado do corpo enrijecido de Raimundo.

Lá pelas duas da manhã, chegou o rabecão. Constrangimentos a parte, era preciso tirar o homem de lá. O corpo de Raimundo saiu coberto por um lençol, sobre a maca do carro do IML.

Uma obrigação moral nos possuiu. Repugnante a atitude do patrão. Deveríamos boicotar seu Barreiro e filhos. A partir daquele dia, os bons clientes de sempre mudariam de bar.

Com o tempo, todos esqueceram o fato. Hoje, o Cais continua com o seu movimento normal. Mas gostaria de deixar este recado para Raimundo, onde quer que ele esteja.

-Raimundo, não me esqueci de você, não me esqueci de sua história, nunca mais pus os pés naquele lugar.

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Published in: on 5 de abril de 2012 at 9:53  Deixe um comentário  
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