A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A Guerra dos Paulistas é um documentário que conta a história da Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo rebela-se em armas contra o governo de Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

Foi um dos mais bem elaborados documentários que tive a oportunidade de participar. Estive em centros de documentação de São Paulo, Santos, Praia Grande, Campinas e Rio de Janeiro. Colaboraram com as pesquisas, enviando imagens, acervos do Paraná e de Minas Gerais.

Houve uma dupla direção. Luiz Bolognesi dirigiu a parte histórica, com as entrevistas e imagens de época. Laís Bodanzky dirigiu a parte ficcional, em película super 8, com a história de três personagens que participam dos combates pelo lado paulista, costurando as partes documentais.

Para entender a guerra que envolveu mais de 200 mil homens, artilharia pesada, combates aéreos e navais, com o bombardeio de grandes cidades é preciso retroceder até a República Velha.

As elites cafeeiras dominavam o cenário político, com eleições forjadas, onde apenas 5% da população votavam. Os partidos republicanos paulista e mineiro alternavam-se no poder, na chamada política do café com leite. O governo cuidava para os lucros certos, comprando estoques e se necessário queimando café ou jogando-o ao mar, para garantir preço no mercado. Era o auge do coronelismo e do voto de cabresto.

O Brasil transformava-se, cresciam a imigração, a urbanização e a industrialização. O movimento operário era tratado como caso de polícia, com forte repressão. A classe média, sem representação política, encontrava-se estrangulada economicamente. Seguir a carreira militar era uma opção, e o Tenentismo apresentava-se como o movimento que clamava pelas mudanças modernizantes. Os quarteis, com o apoio das ruas, levantaram-se e depuseram o presidente Washington Luís. A Revolução de 1930 botava fim à República Velha e levava Getúlio Vargas ao poder.

Em São Paulo, o Partido Democrático que havia apoiado Getúlio Vargas esperava que Francisco Morato fosse nomeado governador. Porém, Getúlio nomeia o tenente pernambucano João Alberto para o cargo de interventor do estado. Já de início, João Alberto autoriza comício do Partido Comunista, determina um aumento salarial de 5% e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Distribui as terras de cafeicultores endividados com bancos para os tenentes rebelados e dá cargos públicos para militares de outros estados. Em um São Paulo ocupado, soldados tomam produtos e serviços sem pagar por eles, em nome da Revolução.

O sentimento de revolta nasce com o clamor por um Congresso Constituinte. Em 1931, o jornal O Estado de São Paulo pressiona Vargas para que seu governo revolucionário providencie eleições e uma nova constituição. Em crítica aos paulistas, Vargas afirma que a máquina republicana ainda manipularia os resultados.

Os alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco passam a coordenar comícios contra Getúlio. João Alberto responde com prisões, destruição de jornais oposicionistas e, preventivamente, desarma os quartéis paulistas. As pressões por eleições chegam até o Rio de Janeiro e para ganhar tempo Vargas decide trocar João Alberto pelo Coronel Rabelo.

No início de 1932, o Partido Democrático rompe de vez com Getúlio e se une ao Partido Republicano Paulista, formando a Frente Única. Adotam a imagem do Bandeirante Paulista como ícone do movimento contra o governo federal. Militares incomodados em ver tenentes mandando mais que generais, começam a articular uma reação.

Em São Paulo, o General Isidoro Lopes e o Coronel Euclides Figueiredo entram em entendimento com o General Bertoldo Klinger, do Mato Grosso. Planejam um ataque ao Rio de Janeiro para depor Vargas. Klinger, trazendo 5 mil soldados e pesada artilharia, encontrar-se-ia com 10 mil homens das tropas paulistas no Vale do Paraíba. Contavam ainda com promessas de apoio de Flores da Cunha, que enviaria tropas do Rio Grande do Sul, e com o apoio de Oligário Maciel, que enviaria tropas de Minas Gerais.

Em 22 de maio, estudantes paulistas invadem cinemas e a rádio Record, convocando a população à resistência. Promovem discursos em frente aos quartéis. Animados, resolvem atacar a sede do movimento tenentista, na Praça da República. Sem conseguir entrar pela porta, os estudantes instalam escadas para subirem até o escritório no quarto andar. Armados, os tenentes resistem. A troca de tiros perdura madrugada adentro. O 23 de maio amanhece com quatro jovens mortos: Miragaia, Martins, Dráuzio e Camargo.

Surge então a associação M.M.D.C., com o intuito de organizar a guerra contra Vargas. A ideia é atacar no 14 de julho, dia da Revolução Francesa. Vargas se antecipa e demite o general Klinger, no Mato Grosso. Em São Paulo, o General Isidoro Lopes decide iniciar o movimento no 9 de julho.

Civis tomam as rádios e os telégrafos de São Paulo, convocando a participação de todo o estado. Os jornais conclamam os jovens a voluntariarem-se. A Força Pública, polícia militar da época, também adere ao movimento. Trens partem com tropas para a Serra da Mantiqueira, meio caminho para o Rio de Janeiro.

Os paulistas posicionam suas tropas no túnel da Central do Brasil, na divisa entre São Paulo e Rio, e nas escarpas da Serra da Mantiqueira. Aguardam as tropas de apoio de Minas Gerais do Rio Grande do Sul. Demitido na véspera, Klinger chega sem os prometidos reforços de 5 mil homens e artilharia.

O ex-interventor João Alberto, agora chefe de polícia no Rio de Janeiro, manda prender todos os apoiadores paulistas na capital federal. O general Góes Monteiro lidera a reação federal. Getúlio Vargas convence Flores da Cunha e Olegário Maciel a mudarem de lado, as tropas prometidas realmente chegariam, mas para combater os paulistas. Navios de guerra partem da Guanabara em direção à Santos, onde farão um bloqueio naval que impedirá a circulação de mercadoria e armas.

Em 13 de julho acontece o primeiro combate, uma tropa federal enviada por terra encontra-se com os paulistas em São José do Barreiro e são trocados os primeiros tiros. Logo em seguida, as tropas mineiras sob o comando do Coronel Eurico Dutra entram em combate com os paulistas do alto da Mantiqueira, em quatro dias de combates violentos.

Em 15 de julho, tropas paulistas conseguem deter fuzileiros navais que, aportados em Paraty, subiam em direção a Cunha. Na frente sul, os paulistas são atacados em Itararé, onde aguardavam o encontro amistoso com as tropas gaúchas. Fogem sem impor resistência, posicionando-se em Buri. Após um mês de guerra, a situação paulista não é confortável.

Do lado de São Paulo são 12 mil soldados da Força Pública, 3.600 soldados do Exército e 45 mil voluntários civis sem treinamento militar. Possuem 25 mil fuzis e munição para apenas 5 tiros por dia. A aviação paulista tem 6 aviões. As tropas federais contam com mais de 200 mil homens, vindos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Estados do Nordeste. Possuem farta munição, artilharia pesada, navios de guerra e mais de 50 aviões.

Jornais e revistas locais fazem propaganda dos avanços paulistas, dizendo que as derrotas dão boatos de traidores. Getúlio fomenta pelo Brasil que os paulistas rebelados são separatistas, liderado por italianos comunistas. Panfletos são lançados por aviões nos dois lados das fronteiras.

Mulheres e crianças se envolvem no esforço de guerra paulista. Fábricas de utensílios domésticos passam a produzir capacetes e armamentos. Uma campanha pedindo ouro para a revolução toma até alianças de casamentos. São Paulo constrói um temido trem blindado.

No final de agosto, a guerra está confinada a seis frentes de trincheiras. Em 3 de setembro, hidroaviões bombardeiam o Forte de Itaipu, na Praia Grande. Dias depois, o alvo é a central Elétrica de Cubatão, que abastecia a energia de São Paulo.
Em setembro, após feroz resistência, cai a trincheira de Buri. As tropas federais também se aproximam de Botucatu e começa um cerco à Campinas. A cidade é atacada por aviões, que lançam bombas de 40 kg.

O pânico de um futuro ataque toma conta de São Paulo. A aviação federal bombardeia o Campo de Marte. Em 12 de Setembro finalmente cai a resistência no túnel da Mantiqueira, e a cidade de Cruzeiro é tomada. A resistência recua para Aparecida do Norte.

Em 29 de setembro, Klinger escreve à Getúlio pedindo uma deposição de armas de ambos os lados. O General Góes Monteiro exige uma rendição paulista. Em 2 de outubro, o coronel Herculano de Carvalho retira os 12 mil homens da Força Pública do combate. O coronel Euclides Figueiredo tenta levar seus homens para o Mato Grosso, usando o trem blindado, mas um cerco em Jacareí faz com que a tropa se disperse. As lideranças paulistas são presas, levadas a um navio presídio e enviadas ao exílio em Lisboa.

Fracassada a tentativa de derrubar Getúlio à força, os paulistas teriam uma breve vitória política. O tema constitucionalista agora era um assunto nacional e Vargas é obrigado a convocar as eleições constituintes. A nova constituição é promulgada em 1934, mas dura pouco. Em 1937 Vargas a anularia, decretando o Estado Novo e se impondo como ditador até 1945.

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