POR DE TRÁS DOS MONTES VII

Na última postagem, o inico da Guerra, na verdade, ao longo de todo o trabalho, mal se fala dos combates. A ideia original é tirar da frente tudo o que possa ofuscar as verdadeiras causas do Conflito, e entender como uma massa de camponeses pegua em armas por 4 anos para combater o exército brasileiro, nos leva aos momentos que antecedem ao combate. Bem, um resumo de tudo está logo abaixo, nas “conclusões”.

A DEFLAGRAÇÃO DO MOVIMENTO

Até 1910, a população de Santa Catarina chegava a 500.000 habitantes, estando 50.000 deles na região Contestada. Apenas uma pequena parte destes possuía a propriedade legal das terras. A maior parte da população vivia atrelada às fazendas, cuidando do gado; ou às margens das propriedades dos coronéis, na roça de subsistência, nas pequenas serrarias e principalmente na coleta da erva-mate.

Nos últimos anos da primeira década do Século XX, a população sofreu do Contestado sofreu um repentino crescimento de quase 20% do número de seus habitantes. A região recebe 8.000 novos moradores. Neste mesmo período, a atividade de extração da erva entra em crise, engrossando a massa dos homens marginalizados.

Toda essa gente passa a compor um grupo humano errante, desagregado, disponível para a irrupção do movimento rebelde do Contestado. A plebe rural, abandonada e desajustada no quadro institucional, refugia-se no messianismo, em protesto difuso e sem alvo.

Em fins de 1912, o país é sacudido com a notícia de que um grupo de sertanejos, armados por uma fé exaltada e desviada da ortodoxia da Igreja Católica, atacara um contingente da Força Pública paranaense.

Os rebelados eram conduzidos por um monge ignorante e desconhecido. O ataque se deu nos campos do Irani, nas proximidades do atual município de Concórdia, em Santa Catarina. Naquela ocasião, as terras estavam sob jurisdição do Estado do Paraná.

O grupo caboclo reunira-se em torno do seguidor de João Maria, José Maria. Sua presença não era bem vista pelos coronéis, e os sertanejos são expulsos para terras vizinhas.

O poder paranaense entendeu o deslocamento dos fies, tocados pelas oligarquias do lado catarinense, como uma invasão de seus domínios. Uma tropa é enviada para o ataque. As armas dos caboclos eram facões, e tiraram a vida de numerosos soldados, incluindo o comandante da tropa.

Começava oficialmente o Conflito do Contestado. A guerra duraria quatro anos, cinco expedições militares e milhares de vidas. O último reduto sertanejo a cair, no vale de Santa Maria, resistiu até o último cartucho deflagrado pelas forças republicanas.

Descalço, mal alimentado, miserável, ignorante, sem grandes conhecimentos militares e numericamente inferior, o povo rebelado lutou até o esgotamento total, numa resistência única e heroica. Para estes, o sistema vigente não tinha mais nada a oferecer a não ser a morte.

CONCLUSÕES

A questão que se esconde por de trás dos montes, no sertão de Santa Catarina é antes de mais nada uma questão agrária. O Conflito do Contestado é muito mais uma luta de classes pelo acesso à terra do que um simples surto messiânico, monarquista, herético, ou quaisquer outros eufemismos que sempre ocultaram o massacre de milhares de caboclos “fanáticos”.

Um estudo mais crítico do fenômeno passa pelas intensas transformações ocorridas no processo de desenvolvimento das forças produtivas, na segunda metade do Século XIX e no início do Século XX.

Em 1850, é proibido o tráfico negreiro no país, criando as condições para a instauração da mão-de-obra assalariada no Brasil. Com o fim do regime escravista o país está pronto para entrar definitivamente no circuito capitalista como potência agroexportadora.

Neste mesmo ano, é aprovada a Lei de Terras, que teve como principal consequência a privatização da terra, ou o que Marx chamou de acumulação primitiva. Outro pilar básico na sustentação do projeto capitalista.

Nos campos, massas de homens livres dão forma ao incipiente campesinato nacional. Sua situação é em geral de posseiro, sem escrituras sobre as terras em que vivem, trabalhando muitas vezes como agregado ou empregado temporário para grandes fazendeiros, ou “coronéis”.

As forças produtivas do Império avançam durante a República. Questão diversas, passando pela segurança nacional e pela integração regional que vêm ocorrendo, levam regiões periféricas do território nacional para um novo status.

A valorização das terras e a especulação imobiliária vão se acentuando conforme as relações mercantis se aprofundam pelos distantes campos catarinenses. O mate, que até outrora era de livre exploração do campesinato, alcança destaque na pauta comercial e passa a ser privilégio dos senhores de terras e grandes companhias exploratórias da erva.

A expansão capitalista, em sua etapa Imperialista, atinge seu ponto crítico no sertão com a chegada do grupo americano Farquhar e sua com companhia de trens. Escutemos o que diz Lênin em O Imperialismo Fase Final do Capitalismo.

“A construção de vias férreas é aparentemente uma empresa simples, natural, democrática, cultural, civilizadora … Na realidade, os laços capitalistas, que ligam por muitas redes essas empresas à propriedade privada dos meios de produção em geral, transformaram essa construção num instrumento de opressão para um bilhão de homens (nas colônias e semi-colônias), isto é, para mais da metade da população do globo nos países dependentes …”

A chegada do trem à região Contestada significou a chegada de 8.000 novos moradores, que não serão recolocados ao fim da obra. A linha férrea trouxe também a valorização das terras, com o aumento de sua renda relativa.

O Capital Monopolista avança, a madeireira Lumber arrasa toda a concorrência da pequena indústria local, juntamente com milhares de hectares de matas nativas. Os porjetos colonizadores tomam o resto de terras disponíveis.

Ao homem do campo, esquecido pelas autoridades do Estado, desamparado de direitos, sobra sucessivas expulsões. Este perda a exploração do mate, da madeira, das terras de onde retirava sustento mínimo e de onde fazia sua morada.

Neste contexto de total exclusão, é que as vozes dos monges servem de conforto para centenas de homens. O regime republicano, para os sertanejos, significou o fim de qualquer esperança de dias melhores. Foi com naturalidade que aceitaram combater em favor de uma monarquia celeste, que rejeitava a nova ordem capitalista instaurada nos planaltos.

É somente à luz destes fatos que poderemos entender os reais motivos que levaram famílias inteiras a se transformarem em perigosos bandidos, que resistiram firme, até a última alma, combatendo o grosso das tropas do exército nacional.

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POR DE TRÁS DOS MONTES VI

Estamos chegando ao fim do trabalho, isto é, o início do massacre. Analisamos aqui as causas da Guerra do Contestado, que pouca gente conhece, ou o que conhece não diz toda a verdade. Não, o Contestado não foi uma “Canudos do Sul”, com um monte de sertanejo ignorante seguindo um líder religioso maluco. Foi antes de tudo a necessidade do Capital em limpar a área de seus antigos moradores, para ali implemetar um projeto claro de gestão do território. Além de eliminar o povo, também acabou-se com toda a Araucária de Santa Catarina.

 

 

AS TERRAS

 

A expulsão dos posseiros iniciou-se em 1911. Um corpo de segurança foi criado para agredir os moradores que se recusavam a sair das terras cedidas à Companhia. Os grupos eram formados por duzentos homens de índole violenta. Incendiavam casas, roças, chegando a cometer verdadeiras chacinas, exterminando famílias inteiras.

Cada vez mais, crescia a massa de caboclos que já não tinham mais condições de produzir seus próprios recursos de subsistência. Estes novos excluídos viriam a se somar a ervateiros, peões, posseiros em geral, que há tempos vinham caminhando à margem do sistema econômico que se estabelecia no Contestado.

A disputa pela terra faz-se cada vez mais acirrada. Ela passa a ser cada vez mais percebida como uma fonte de renda. Logo após a inserção do capital estrangeiro na região, a terra passa da sua condição de bem de uso para a condição de mercadoria, transformando-se em bem de produção. A institucionalização da propriedade privada substitui a ordem anterior, de ocupação e posse.

 

A MADEIRA E O PROJETO COLONIZADOR

 

O projeto de exploração do meio-oeste catarinense concretiza-se com a criação da Southern Brazil Lumber Company, subsidiária da Brazil Railway, em 1909. A companhia iria extrair os vastos recursos madeireiros da região. São contruídas duas imensas serrarias, iniciando-se assim a devastação de pinheirais seculares.

A unidade maior estava localizada em Três Barras, numa área de 180.000 hectares, e logo deu origem a uma cidade. Sua produção era destinada aos portos de São Francisco e Paranaguá, através da ferrovia. Esta serraria chegou a cortar 300 m3 por dia, a maior produção em toda a América do Sul.

A outra instalação é erguida em Calmon, sede do escritório da ferrovia, numa área de 52.000 hectares, nas nascentes do Rio do Peixe, ao Sul de Porto União. Ali eram produzidos dormentes dos trilhos e madeiras para a construção das estações, casas, depósitos e armazéns da Companhia.

Contratos estabelecidos entre fazendeiros e a serraria garantiam o direito de exploração de centenas de quilômetros de florestas, muito além dos já pertencentes à empresa. O impacto desse empreendimento, que contava com reduzida mão-de-obra, agilidade nos transportes e produção em larga escala, acarretou uma crise na pequena indústria local.

O trabalho de extração, tratamento e armazenagem das toras era relativamente mecanizado, e portanto não representou um incremento na oferta de empregos para o caboclo excluído de toda sorte de ocupação.

Em 1913, a madeireira muda seu estatuto, transformando-se em Southern Brazil Lumber and Colonization Company.  Colonos alemães, italianos e poloneses que já estavam nos Estados do Rio Grande do Sul e do Paraná são atraídos pelas propostas da empresa.

A limpeza humana efetivada pelo corpo de segurança da Companhia já estava concluída. Com a expulsão de todos os posseiros do território, vários núcleos coloniais se formam ao longo das férteis terras do vale do rio do Peixe.

A atividade agrícola, que até então era representada pela cultura de subsistência, passa a produzir excedentes. Os produtos alimentares abasteceriam a região da cafeicultura paulista e o mercado internacional, através dos trens do grupo estrangeiro.

 

RUPTURA COM O CORONELISMO E COM O CATOLICISMO OFICIAL

 

A estrutura de mando do coronelismo fica abalada com o surgimento desses novos agentes econômicos na região. Os interesses do capital levam ao rompimento das associações entre o coronel e seus dominados, alterando o gênero de vida costumeiro do sertanejo.

Relações de trabalho até então desconhecidas se fazem presentes. Surgem novas modalidades de controle. As companhias estrangeiras dispunham de polícia própria, que não estavam mais atreladas aos interesses de um determinado fazendeiro. Os novos jagunços são tropas estritamente mercenárias, sem vínculos de compadrio.

A figura do monge João Maria representava a possibilidade de negação à realidade vigente, fortemente opressora. Frente à pobreza, à insegurança e à violência reinantes, ele traz a proteção das forças sagradas. Considerado um grande curandeiro, sua força milagrosa transmitia-se a tudo o que fosse por ele tocado.

João Maria, assim como os demais monges que o seguiram, simbolizava a autoridade justa, o médico, o padre, o professor, anunciando ainda a vinda de novos tempos em que a felicidade, a fartura e a justiça se fariam presentes.

Era comum a realização de dois batismos, um batismo intraclasse (onde o padrinho e o pai da criança vinham da mesma classe social), que era efetivado pelo monge ou outro religioso leigo. O segundo batismo, este interclasse (onde o padrinho era de maior estirpe que os pais, geralmente um coronel), era celebrado por padre católico.

O catolicismo rústico do Contestado desvia-se cada vez mais da ortodoxia da Igreja. Os pais passam a preferir que os filhos sejam batizados exclusivamente pelo monge e que ele mesmo fosse o padrinho. O poder representado por João Maria sobrepujava o poder dos coronéis e padres, na hora do sacramento.

O Frei Rogério Neuhaus, franciscano que mais teve contato como os paroquianos do sertão, encontrava vários meninos e meninas com até doze anos de idade que, sem batismo, esperavam a passagem do monge para celebrar o ato leigo.

A crise institucional do poder de compadrio e do poder da Igreja agrava-se na medida em que os rebeldes vão criando uma nova visão de mundo. A radicalização do movimento tomará força progressiva, até a deflagração da Guerra do Contestado.

POR DE TRÁS DOS MONTES V

Finalmente chegamos no que pode ser o principal ponto da Guerra do Contestado, a chegada do Grupo Farquhar. A intervenção do capitalista norte-americano vem agravar de vez a precária situação do homem do campo, empurrando os excluídos para seu destino final. O extermínio em massa.

 

 

INCREMENTO DAS RELAÇÕES REGIONAIS

 

O Contestado era uma área isolada do restante do Estado e do Brasil, o interior comunicava-se com os centros mais populosos através de precários caminhos de tropas. A expansão da área cafeicultora gerava demanda de produtos agropastoris e contribuiu muito para que as regiões sulinas interligassem seus núcleos urbanos a rotas que levassem para os mercados de São Paulo.

Outro fator importante para o incremento das relações regionais foi a disputa de fronteiras com a Argentina (1881 – 1895). Existia a necessidade de uma ação estratégica por parte do Estado, para garantir a soberania nacional em terras em litígio com a nação vizinha.

Os extensos campos eram praticamente desabitados, ao menos por núcleos urbanos estáveis, e o poder público não detinha instituições que o representassem. Era uma terra de ninguém. Para assegurar a posse do território frente à disputa internacional, foi criado o Plano de Viação do Império, que incluía uma longa linha férrea, ligando Itararé (SP) à Boca do Monte (RS), 30 Km de Santa Maria, com 1.400 Km de extensão.

A ferrovia cortaria regiões de férteis terras devolutas, em especial no trecho ao sul do rio Iguaçu (SC) e Passo Fundo (RS). O local era abundante em ervais e em pinheiros de alta qualidade. Seu projeto data de 1889, e o prazo para a sua execução era de cinco anos.

O Decreto Imperial garantiria a concessão gratuita das terras marginais. Isto é, estava assegurada à companhia construtora o usufruto das terras por onde a linha passasse, num limite de 15 Km de extensão a partir de cada margem dos trilhos. O dinheiro foi conseguido através de investidores europeus.

Após 15 anos, a via contava com apenas 599 Km em funcionamento. Neste momento, o norte-americano Percival Farquhar assume o controle da Companhia Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, fundando a Brasil Railway Company.

 

O CAPITAL INTERNACIONAL

 

O grupo Farquhar já atuava em Cuba, Guatemala, e El Salvador, nos setores de transportes (bondes e ferrovias) e energia elétrica. Seu primeiro investimento no Brasil data de 1904, por incentivo do governo republicano. Farquhar atuou em diversas partes do território nacional.

Incorporou a Rio de Janeiro Light & Power Company (RJ), foi responsável pela construção e exploração do porto de Belém (PA) e pela Estrada de Ferro Madeira – Mamoré (AM). Participou ainda das seguintes ferrovias: E.F. Paraná, E.F. Dona Teresa Cristina, E.F. Mogiana, E.F. Mogiana, E.F. Paulista e E.F. Sorocabana.

Dominou o transporte fluvial da Amazônia com a Amazon Development Co. e a Amazon Land & Colonization Co. (empresa a que pertenciam os 60.000 Km2 do atual Amapá). Controlou os portos do Rio de Janeiro (RJ), Paranaguá (PR) e Rio Grande (RS).

Sua empresa, Brazil Land, Cattle & Packing Co. somava 4.000.000 acres do Pantanal mato-grossense com 140.000 cabeças de gado, em Descalvados. Fundou ainda o primeiro frigorífico do Brasil, em Osasco (SP), construiu um hotel-cassino no Guarujá (SP) e ergueu a maior serraria da América do Sul, em Três Barras (SC).

O investidor americano tinha o ambicioso projeto de construir um sistema ferroviário unificado na América do Sul. O primeiro passo foi a abertura da Brazil Railway Company, em 1906, quando o empresário adquiriu o trecho construído da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. Ganhava, assim, o direito sobre os 6.000.000 de acres que margeavam a linha férrea. Farquhar pretendia desenvolver a agricultura comercial, tendo em vista abastecer São Paulo, e exportar a madeira, pelo porto de Paranaguá.

Em quatro anos de sua administração, a Brasil Railway concluiu o trecho inacabado da E.F. São Paulo – Rio Grande. Em 1910 a via é entregue ao tráfego. A possibilidade de confronto armado entre Brasil e Argentina levaria o governo a incentivar o aceleramento de sua construção.

A obra a ser executada rasgaria as terras Contestadas, trazendo para lá importante contingente populacional. A empresa contratou algo em torno de 8.000 homens, vindos do proletariado de Santos, do Rio de Janeiro, de Salvador e do Recife. Eram formadas equipes de trabalho, sobre responsabilidade de um taifeiro.

Estes grupos recebiam um determinado trecho a construir e o feitor se responsabilizava pelo pagamento dos empregados. A Companhia construía armazéns onde os trabalhadores adquiriam seus próprios mantimentos. Um bem armado corpo de segurança, com dezenas de homens, controlava os descontentamentos quanto aos constantes atrasos nos pagamentos e desmandos dos capatazes.

As manifestações de protestos dos operários eram reprimidas severamente pelos homens da segurança, que empregavam a violência com tranquilidade. Com o fim dos trabalhos, os operários não foram reconduzidos aos seus estados de origem. Essa massa de descontentes com a rígida exploração vieram agravar ainda mais os problemas da população local.

O número de moradores na região Contestada não parava de crescer. A terra era cada vez mais privatizada e o mate, principal fonte de riqueza, sofria uma queda de preços no mercado internacional. Sem trabalho, esses homens foram erguendo toscas residências ao longo das terras vizinhas aos trilhos da E.F. São Paulo – Rio Grande.

A Companhia, que recebera a concessão dessas terras através de Decreto do Governo Central, tinha planos concretos para a utilização da área ocupada por seus ex-funcionários. Farquhar pretendia extrair a madeira disponível e depois lotear a área para a venda a imigrantes.

Futuramente, tais lotes produziriam produtos alimentícios para abastecer as regiões produtoras de café, em São Paulo. O transporte das mercadorias seria feito através dos trens da própria Companhia, desta forma os ganhos seriam certos.

POR DE TRÁS DOS MONTES IV

Continuando a publicação da tese sobre o Contestado, um pouco das relações entre coronéis e camponeses, o acesso às terras e o cultivo do mate, uma das principais ocupações da região antes da guerra.

 

 

ORDEM ECONÔMICA, POLÍTICA E SOCIAL

A vida econômica Planaltina estava baseada na criação extensiva do gado bovino, na coleta da erva-mate e na extração da madeira. Os coronéis eram senhores das terras e das gentes nelas presentes.

O primeiro desbravador da região, Corrêa Pinto, estabeleceu-se com outros fazendeiros paulistas, fundando a vila nos campos de Lages, em 1771. As amplas e boas pastagens, além da estratégica posição geográfica – entreposto do comércio de rebanhos entre São Paulo e o Rio Grande do Sul – garantiram o sucesso do empreendimento.

As grandes propriedades recebiam agregados, que viviam com toda a sua família. O trabalho consistia basicamente no trato do gado. Era comum a prática da pequena agricultura, de subsistência, em terrenos vizinhos às casas, geralmente associada à mulher. A criação de porcos e galinhas completavam a auto-suficiência das vastas fazendas serranas.

Quando muito, um agregado conseguia juntar algumas cabeças de gado e migrava para regiões distantes, onde fosse possível estabelecer-se como posseiro. A medida que o rebanho crescia, a ocupação estendia-se rumo ao Oeste. Mas, a atividade pastoril não acompanhava o crescimento demográfico da população. Logo, o cultivo do mate passaria a empregar importante contingente.

Os peões (mão-de-obra disponível para as épocas de maior demanda) e os agregados eram homens de inteira confiança do coronel, estando sempre à sua disposição, como uma espécie de força paramilitar, ou jagunços. Ao perguntar “-Quem é você?” para um caboclo, este respondia “-Sou do coronel fulano.”, enquanto por sua vez, o coronel dizia “-Essa gente é minha.”

O mate, já consumido entre os indígenas locais, era alvo de crescente procura. A produção serrana era escoada até o porto de Paranaguá (PR) e encaminhada para os mercados do Prata. Em 1873, a estrada de terra Dona Francisca pôs em contato a área do Contestado com o litoral catarinense, ligando Joenville a Mafra, Rio Negro e Porto União.

O mate passava a ser exportado pelo porto de São Francisco do Sul (SC). Uma intensa rota de carroças foi formada. Entre 1892 e 1920, o chá era o produto de maior valor comercial produzido em Santa Catarina. Em 1900, a erva representava 31% do total das vendas no Estado. Os camponeses sobreviviam da exploração da erva-mate, da pequena industria madeireira, da roça e dos alimentos encontrados na região (mel, palmito, pinhão, caça…)

A LEI DE TERRAS

As terras passam a ter um valor cada vez maior. A Lei de Terras de 1850 restringia o seu livre acesso, vinculando a posse das terras devolutas, ou livres, à compra. O Estado restringia artificialmente a abundância de terras disponíveis.

Supunha-se que a ampla faixa de terras poderia vir a ser ocupada por escravos emancipados e agregados, promovendo evasão da força de trabalho. A Lei apresentava compromisso com a política de imigração, pois não permitia a fácil aquisição de terras pelos imigrantes recém-chegados, que eram obrigados a trabalhar para terceiros nas grandes fazendas de café.

Desta forma, ficou assegurado aos latifundiários e aos demais grandes grupos econômicos e políticos, que dispunham de capitais para a compra, o título de propriedade em nosso país e a mão-de-obra para cultivá-la.

Nota-se que, em 1850, os EUA também lançavam uma Lei de Terras, o Homest Act, que distribuía gratuitamente propriedades a todos aqueles que se dispusessem a cultivá-las. A opção brasileira foi pela concentração da terra, enquanto que nos EUA, incentivava-se a pequena propriedade.

Ao caboclo catarinense restava apenas o acesso às terras mais distantes, sempre na situação de posseiros, à mercê dos interesses expansionistas dos latifundiários ou do surgimento de novos e fortes grupos interessados.

APOGEU DO MATE

A união de exportadores de mate de São Bento do Sul e Joinville, em 1890, gerou uma grandiosa Companhia Industrial. Esta instituição foi tão poderosa que conseguiu junto ao governo federal, através de decreto lei em 1891, permissão para explorar por vinte anos os terrenos devolutos em sete municípios (São Bento, Blumenau, Curitibanos, Campos Novos, Tubarão, Lages e São Joaquim), além de colocar três de seus diretores no cargo de prefeito de Joinville, até 1900. Neste referido ano, as quatro maiores empresas exportadoras de erva-mate do Paraná não somavam o capital social da empresa catarinense.

A Companhia tinha o direito de cortar a madeira para a construção de armazéns para o mate e para a construção de residências de seus empregados. A zona ervateira contava com onze armazéns. Um na matriz, em Joenville, seis em municípios de Santa Catarina (Porto União, Lucena, Oxford, Lençol, Campo Alegre e São Bento do Sul) e quatro no Paraná (Rio Negro, Antonina, Morretes e Paranaguá).

O produto era recebido praticamente in natura e depois de algum preparo era remetido para Joinville, onde se fazia o beneficiamento final. O mate era então acondicionado e enviado por navios até os principais centros consumidores: Buenos Aires, Montevidéu e Valparaíso.

Os caboclos que viviam da coleta do mate não tinham escrituras das terras, viviam em áreas devolutas, onde construíam toscas moradias. Nos postos da companhia, trocavam a erva por manufaturados de difícil acesso no interior do Estado, tais como sal, açúcar, farinha, munição, querosene e fósforos.

Durante longo tempo, foi costume a exploração do mate por parte dos agregados e peões dos latifundiários. Esta atividade, paralela às funções da fazenda, complementavam a remuneração dos empregados. Quando da valorização da erva e da procura por terras devolutas, os coronéis passaram a coibir o que chamaram de “coleta abusiva do mate” em suas propriedades.

Com isto formava-se dois circuitos na cultura do chá. O primeiro momento, acontecia com os pequenos proprietários e posseiros entregando o produto nas mercearias e comprando seus manufaturados. De lá o mate era levado aos armazéns do interior, até a matriz em Joinville.

O segundo circuito iniciava-se com os peões-erveiros, que trabalhavam para os latifundiários. Os fazendeiros compravam o produto por um preço baixo, e revendiam a carga para os armazéns da Companhia.

O mate, que era o principal produto exportado em Santa Catarina em 1900 (31% do total), sofreria uma constante queda na participação da balança comercial do Estado (1905 – 23,7%; 1910 – 16,5%, 1911 – 11,7%).

O decréscimo da atividade tinha como causas gerais o aumento do imposto sobre a exportação do mate para 33% e a formação de grandes estoques no mercado platino, que forçavam um aumento nos custos de produção e uma queda nos preços finais da mercadoria, respectivamente. No ano de 1905, a Companhia Industrial fecha as suas portas.

O desmantelamento da estrutura exploratória do mate foi trágico para os que dela sobreviviam. Seria exatamente no período da queda nas atividades (1905-1910) que a região receberia importantes contingentes populacionais, agravando mais ainda a situação econômica dos habitantes do interior do estado.

Durante os anos do conflito (1912 – 1916), a participação do produto na balança comercial decai sobremaneira (1912 – 14,4%; 1913 – 10,6%; 1914 – 12%; 1915 – 6,8%), uma vez que o palco dos embates estaria localizado exatamente sobre a área produtora; e a mão-de-obra, que antes cultivava os campos, estaria ocupada em combater as tropas federais.

Já no último ano do conflito, e nos que logo se seguem, podemos observar uma rápida recuperação do setor, mas que não atingiria os valores obtidos em 1905 e 1900. (1916 – 9,8%; 1917 – 20%; 1918 – 14%).

POR DE TRÁS DOS MONTES III

O nome “Contestado” deriva do problema das fronteiras da região. Um território disputado entre Santa Catarina e Paraná. A disputa tem um lado cruel, a ausência do Estado, afinal, nenhum governante iria investir numa região onde não se sabia a quem pertenceria. Neste post, a explicação de como se deu a ocupação de Santa Catarina e toda a questão dos limites e suas consequências.

 

A QUESTÃO DOS LIMITES

 

A disputa entre Santa Catarina e Paraná teve início em 1853, quando desmembrados da Província de São Paulo, os paranaenses procuraram firmar posse sobre as terras do oeste catarinense.

Em 1854, o deputado catarinense Joaquim Augusto do Livramento propunha como fronteiras para a Província de Santa Catarina as seguintes linhas: ao Sul, divisa com o Rio Grande do Sul, o rio Mampituba, o arroio das Contas, os rios Pelotas e Uruguai; e ao Norte, a divisa com o Paraná, o rio Saí Grande, o rio Negro e seu receptor.

As fronteiras ao Sul da Província foram aceita, mas a Província do Paraná questionou as linhas do Norte. Os paranaenses afirmavam ter direitos aos Campos de Palmas, “descobertos” por fazendeiros paulistas em julho de 1854.

Em 1856, o Paraná propõe uma nova divisão, onde ganharia direitos sobre os Campos de Palmas, Lajes, Campos Novos e Curitibanos, passando pelo rio Canoas, sua confluência no rio Pelotas até o rio Marombas e sua nascente. Deste ponto, a fronteira caminharia em linha reta, até a Serra do Mar, e por esta até o paralelo da nascente do rio Saí.

A divisão política daquelas terras foram sempre conflitantes, desde as capitânias hereditárias. Nenhuma proposta foi acatada, e os paranaenses continuaram sua expansão sobre terras reclamadas pelo governo da Província Catarinense. A disputa política resultou em derrubada de pontes, envios de deslocamentos policiais e criação de estações fiscais em áreas de litígio.

Para o povo espalhado pela área Contestada pertencer a Santa Catarina ou ao Paraná nada significava. O Estado inexistia. O poder local era exercido por coronéis, super-fazendeiros que dispunham da vida e do patrimônio dos cidadãos.

Em 1864, o governo do Paraná ergue um posto fiscal em Chapecó e os catarinenses no rio Uruguai. O Paraná procurava expandir-se por todo o planalto, empurrando Santa Catarina Serra do Mar abaixo, para a região litorânea.

Os postos fiscais paranaenses foram avançando, chegando ao ponto da colônia de São Bento ser invadida por policiais do Paraná. As notas, reclamações e protestos de ambas as partes eram frequentes e ineficientes.

A partir de 1881, um terceiro elemento entrará na disputa pela região. A Argentina acreditava ter direitos sobre a área em questão. Em 1895, a disputa internacional chega ao fim, com o arbitramento do presidente dos EUA – Grover Cleveland – em favor do Brasil, estabelecendo as atuais fronteiras entre os dois países.

A situação interna continuava conflitante. É proclamada a República (1889), e a nova constituiçãoo permitia aos estados decretar impostos sobre exportações de mercadorias, indústria e profissões. Os recursos naturais do planalto, mate e madeira, eram cada vez mais explorados e os tributos tornavam-se cada atraentes.

Em 1896, o Governador do agora Estado de Santa Catarina envia tropas militares para garantir, em São Bento, a reconstrução de pontes destruídas pelo município de Rio Negro. Tropas são deslocadas por ambas partes, gerando uma disposição para o conflito armado.

Em 1904, o Supremo Tribunal Federal da ganho de causa a Santa Catarina. Paraná recorre da sentença e, em 1909, é derrotado novamente. Rui Barbosa tenta, ainda em 1910, defender a causa paranaense, mas nada consegue.

O Paraná, sempre derrotado, recusa-se a aceitar o fato, até que em 20 de outubro de 1916, os governantes de Santa Catarina, Felipe Schmidt, e do Paraná, Afonso Camargo, sob mediação do presidente da República, Wenceslau Bráz, assinam um acordo, pondo fim à disputa pelas terras e estabelecendo os atuais limites entre ambos os estados.

Esta briga entre unidades da federação ajudou no agravamento da crise no Contestado, uma vez que estimulou a formação de grupos armados a serviço das partes – Santa Catarina e Paraná – aumentando a circulação de armas na região serrana.

Outra grave consequência foi a total ausência de investimentos do Estado, tais como delegacias, hospitais, escolas, etc., numa área onde ainda não estava definida a quem pertenceria no futuro próximo. As populações do Contestado viviam à própria sorte, dependendo exclusivamente do mandonismo local dos coronéis, e depois do patronato das multinacionais.

POR DE TRÁS DOS MONTES II

Este é talvez o capítulo mais denso para quem não está habituado à leitura geográfica. Explico a inclusão do Brasil na ordem mundial, mostrando como o Contestado é um bom exemplo para entendermos as transformações pelas quais o país passava. O Contestado acontece alguns anos após o fim do trabalho escravo no Brasil, e a instauração da República. O Contestado é a resposta aos novos problemas que a instauração do Capitalismo traz para o Brasil, em especial para o homem do campo. Até então, com o trabalho escravo, não podíamos pensar num pleno Capitalismo em terras brasileiras, uma vez que ele depende da mão de obra assalariada. O que virá a acontecer é consequência desta nova forma de se organizar da sociedade brasileira, agora dentro das regras do capitalismo internacional, que se expande da Europa e Estados Unidos, em busca de novos mercados.

A SITUAÇÃO BRASILEIRA

 

A deflagração da Guerra do Contestado ocorre juntamente com a imposição de fatores modernizantes da área, como a Estrada Ferroviária São Paulo – Rio Grande (do Sul) e a implantação de loteamentos para imigrantes, tentáculos do processo capitalista.

A área contestada sofre um profundo processo de desestruturação em consequência da chegada de poderosas forças econômicas, representadas pelas empresas do grupo Farquhar (Brazil Railway e Brazil Lumber). O avanço das relações capitalistas excluía cada vez mais milhares de caboclos.

As novas formas de produção e de relações no trabalho, com a crise no sistema de compadrio, leva os sertanejos a organizarem seu próprio território livre. Os pelados, como se chamaram os descamisados da época, rebelaram-se frente aos peludos, o exército republicano.

As mudanças nas relações de trabalho, os processos sociais desenvolvidos e a luta pela determinação dos rumos de uma porção do território nacional estarão diretamente envolvidos nas respostas para o porquê, sob o viés geográfico, da Revolta do Contestado.

O sertanejo catarinense, assim como o campesinato brasileiro, sempre foram, de certa forma, insubmissos. Suas lutas foram contra a dominação pessoal dos fazendeiros e coronéis, num primeiro momento, e depois contra a expropriação territorial grandes proprietários, grileiros, empresários e pela grande empresa capitalista.

Nesse sentido, podemos classificar a Campanha do Contestado como uma verdadeira luta de classe, no sentido explícito da palavra. Como nos diz José de Souza Martins: “É um campesinato que quer entrar na terra, que, ao ser expulso, com frequência retorna, mesmo que seja terra distante de onde saiu.”

Nesse movimento de avanço do capital sobre a terra, o camponês constitui uma classe migrante. A cada expansão do primeiro, o caboclo posseiro é deslocado para regiões mais inóspitas, compondo a frente pioneira de desbravamento do território. Tal movimentação é muito bem descrita no trabalho de Pierre Mongbein, Fazendeiros e Pioneiros, que detalha a colonização de São Paulo.

O incipiente campesinato é engrossado por levas de imigrantes europeus, italianos e alemães principalmente, que vêm substituir a mão-de-obra escrava. Estamos falando da mudança do sistema escravocrata para um verdadeiro capitalismo em terras brasileiras, com a implantação da mão-de-obra assalariada.

Esse novo sistema, o capitalismo, é precedido pela acumulação primitiva, exaustivamente detalhada no O Capital. O Contestado nada mais é que um exemplo claro, nítido, do processo analisado por Marx. A terra se transforma em importante mercadoria e a mão-de-obra segue o mesmo caminho. O fim da escravidão redefine as condições de existência do campesinato.

A substituição da força de trabalho escrava tem em 1850 o seu grande marco. Neste ano fica proibido o tráfego de negros e também é promulgada a Lei de Terras, que regulamentava a propriedade privada da terra no Brasil. Anterior a essa data, vigorava a estrutura fundiária colonial de sesmarias, onde a terra era uma concessão do Estado para o uso do território, mas a posse continuava estatal.

O número de posseiros não parava de crescer, num país com vastas regiões a serem exploradas. A Lei de Terras proibia a abertura de novos lotes ao limitar a aquisição de terras devolutas exclusivamente pela compra. O sertanejo, despojado de qualquer dinheiro, tem então o acesso negado ao seu único bem de onde tirava o seu sustento, o campo.

Com a primeira constituição republicana de 1891, as terras devolutas são transferidas para os recém-criados Estados e colocadas nas mãos das oligarquias regionais. Cada unidade da federação desenvolveu a sua política de concessão de terras, com transferências maciças de propriedades para grandes fazendeiros e grandes empresas de colonização interessadas na especulação imobiliária.

A acumulação primitiva, sob a forma de propriedades privadas no campo, e a substituição gradual da força de trabalho no país, são os pilares do projeto capitalista instaurado no Brasil. Suas consequências são as causas diretas que motivaram o início da revolta sertaneja nos campos de Santa Catarina e que descreveremos em breve.

As primeiras grandes lutas camponesas no Brasil datam justamente com o fim do Império e o início da República. O messianismo sertanejo culpará o novo regime pelas mazelas que sofrem. Acusados de monárquicos, seu extermínio não provocou grande culpa perante a opinião pública republicana. O monarquismo sertanejo nada tinha com o monarquismo da família de Bragança, era apenas a não aceitação da “República dos Coronéis”.

Não é difícil perceber que o agravamento da situação no campo, em especial durante o início da República, está vinculado às alterações de ordem social. Com o fim do trabalho escravo a propriedade da terra sofre profundas modificações. Dada abolição, o senhor de escravos se transforma em senhor de terras. A terra que até então fora preterida a favor da concentração de escravos passa a ser objeto de disputa.

Ao lermos as palavras de Marx, logo vemos que a realidade abaixo descrita, instaurada na Inglaterra, guardadas as devidas proporções, em muito lembram a realidade que encontramos no campo brasileiro às vésperas do Conflito do Contestado.

“…inauguram a nova era exercendo o roubo em grande escala … As terras foram dadas ou vendidas a preços ínfimos ou mesmo anexadas às propriedades privadas por usurpação direta. Tudo isso se fez sem a menor preocupação com a legalidade. Os bens do Estado, apropriados pela fraude … constituem a base dos grandes domínios atuais da oligarquia … Os Capitalistas burgueses favorecem a operação a fim de fazer do solo um artigo de comércio, estender o domínio da grande exploração agrícola, fazer afluir do campo um grande número de pobres proletarizados … Por outro lado, a nova aristocracia bancária, da alta finança recém-surgida e dos grandes proprietários de manufaturados … o roubo sistemático das propriedades comunais se juntou ao roubo dos domínios do Estado, fazendo crescer essas fazendas, que no Século XVIII eram chamadas “fazendas capitalistas”… e que “liberaram” a população agrícola em benefício da industrialização.”

Facilmente identificamos os processos acima descritos no caso brasileiro. Eles estão representados pela Lei de Terras, pelo Coronelismo, pela penetração do Capital e de suas forças modernizantes (o Grupo Farquhar) em áreas isoladas do país.

As forças produtivas atingem uma maturidade na Europa e o Capital é lançado para uma nova etapa: O  Imperialismo. Seus tentáculos passam a operar em novos mercados, impondo o que seria a matriz de todo o processo de Globalização que vemos ocorrer hoje.

Durante a Primeira República, avançam os processos de acumulação primitiva e que significa a ampliação da posse e propriedade da terra mas também o controle das nascentes trocas. A passagem para o trabalho assalariado determinou a introdução de um modo de produção de mercadorias (a troca capitalista), uma vez que a produção de subsistência dos escravos não fundava nenhuma troca.

A agricultura brasileira sofria de baixa monetarização, então as mercadorias assumem o papel do dinheiro. A mercadoria-padrão era em geral sal, querosene, vestuário e calçados. Esses artigos tomam o lugar da moeda nas novas relações de troca no conhecido esquema de “barracões”, prática corriqueira tanto ao Sul, incluindo a região Contestada, como ao Norte do país, na região canavieira.

As mudanças do sistema escravista para um sistema capitalista de mercado, apoiado na circulação de mercadorias e no trabalho livre, acarretam na criação do campesinato brasileiro propriamente dito. O antigo baronato da monarquia forma a burguesia agrária.

O Contestado é um fiel retrato de todos os processos que ocorria no Brasil, desde o fim da escravidão e da Monarquia até a implementação do trabalho livre, da República e a chegada do Capitalismo, em sua nova fase Imperialista. No movimento sertanejo encontramos todas as convulsões por que o país passava, decorrentes das mudanças radicais que o novo sistema a ser implantado produzia.

A sustentação da República se dava através de trocas de favores políticos. Governadores apoiavam o Presidente, tendo por trás deles o aval dos chefes políticos do interior, os coronéis. Desta forma, o poder antes centralizados no monarca é distribuído pelas oligarquias estaduais, na figura de seus grandes latifundiários.

Esse sistema de trocas envolvia a nomeação de funcionários municipais por indicação dos coronéis, incluindo autoridades policiais e judiciais. Cada chefe político afinado com o governo estadual tinha o domínio sobre concessões de terras e favores na realização de obras públicas.

Quando as terras devolutas passam para o domínio dos estados, a especulação imobiliária toma corpo em todo o país, incluindo áreas periféricas da antiga economia colonial. O próprio Contestado é um exemplo deste fenômeno, terras do distante sertão de Santa Catarina onde o conflito tomará dimensões de guerra civil.

POR DE TRÁS DOS MONTES I

Aproveito o clima de centenário, e o delicioso encarte especial publicado pelo Jornal O Estado de São Paulo sobre a Revolta do Contestado (http://topicos.estadao.com.br/contestado) para apresentar a minha tese acadêmica sobre a maior revolta civil do Século XX no Brasil, e que misteriosamente quase ninguém ouviu falar. O mais interessante do meu trabalho é que ele foi orientado sobre o prisma da Geografia. O trabalho do Estadão é um jornalismo que não resgata o conflito no que ele realmente foi, até porque não é essa a sua função. A Geografia estuda a distribuição das coisas sobre o planeta Terra. E entender a Revolta do Contestado passa por entender como as coisas se distribuíram em Santa Catarina. A História, dirá que a Revolta aconteceu assim, iniciando-se e desenvolvendo-se em uma sucessão de fatos. A Antropologia tentará entender a organização cabocla, como a irmandade se reuniu, os simbolismos em suas práticas. Mas é pela Geografia que está a resposta para a essência do movimento. É, antes de tudo, a luta pela posse da terra a maior questão envolvida. Analisar como se dá o avanço sobre as ricas terras do interior de Santa Catarina é a melhor maneira de entender como milhares de brasileiros desafiaram o exército nacional, resistindo por 4 anos. Mas como falar em questão agrária neste país de latifúndios é um tabu, o pouco do que se diz do Contestado é disfarçado por sua característica de fundo religioso, são fanáticos, uma nova Canudos do Sul contra a República, enfim, quando alguma informação chega à público, o foco é desviado da verdadeira questão central. Em boa hora, resgato esse trabalho de 1999, que lança uma nova luz sobre os sangrentos eventos de Santa Catarina.

POR DE TRÁS DOS MONTES

A REVOLTA SERTANEJA NO CONTESTADO

(1912–1916)

INTRODUÇÃO

Foi durante o que conhecemos por República Velha, entre os anos de 1912 e 1916, que estourou no planalto catarinense um dos mais sangrentos episódios do Século XX, em terras brasileiras. Quase a totalidade do exército nacional da época foi mobilizado para reprimir a organização própria que os moradores do interior de Santa Catarina, liderados por monges messiânicos, instauraram nos campos altos.

O número de civis envolvidos chegou aos 20.000 (Canudos contou com 8.000 vítimas). Ali foram realizados os primeiros bombardeios aéreos das forças armadas brasileiras, contra o povo que deveriam defender. Uma “bela glória” para nossa tão “imaculada” armada, que já exterminara quase toda a população masculina do Paraguai. E que já estava se habituando ao massacre, como nos relata Euclides da Cunha, em Os Sertões.

Por muitas vezes, o fenômeno é dado como um surto messiânico, um bando de fanáticos a perturbar a “Ordem e Progresso”, lema da bandeira republicana. Uma interpretação minimalista é atribuir ao movimento a defesa da Monarquia, contra a recém-instaurada República de 1889, uma vez que o beato João Maria, líder espiritual dos caboclos, baseava seu discurso no livro de Carlos Magno e os Doze Pares de França, símbolo do monarquismo absolutista da Idade Média.

O pouco que se fala sobre o assunto em muito chega a ser uma errônea comparação à revolta de Antônio Conselheiro, classificando a rebelião do Contestado como a “Canudos do Sul”.

Mas, através de uma análise geográfica dos fatos, procuraremos entender o processo que levou famílias inteiras a se transformarem em perigosos bandidos, que durante quatro longos anos resistiram às forças nacionais e aos interesses internacionais, pondo em risco a posse e o usufruto de vasto território catarinense.

O movimento foi antes de tudo um processo de luta contra a ordem capitalista vigente, que os marginalizava, que os excluía cada vez mais do processo produtivo, do processo da própria sobrevivência.

Os caboclos do Oeste de Santa Catarina viviam isolados do restante do país. Eram na sua grande parte analfabetos, dentro de uma estrutura coronelística, num mandacionismo local. Sobreviviam do campo, e nele fundaram sua irmandade através das Cidades Santas.

O povo, sempre deixado de lado pelos poderes públicos e locais, viu nos discursos dos monges a promessa de dias melhores. Rapidamente, os que nada tinham eram alguém. Faziam parte de uma sociedade que gerenciava o seu próprio território em benefício de si.

As transformações por que passava o país, no plano político e administrativo, com a instauração da República, trazia consigo alterações fundamentais no mandonismo.

Institucionaliza-se a propriedade privada da terra, surgem novas formas de produção e de relações de trabalho. O sistema de compadrio se rompe, e se distancia o relacionamento entre frades e monges.

As causas originais do conflito incluem uma variedade de condições objetivas e subjetivas e não podem ser entendidas apenas como de natureza eminentemente religiosa. Os caboclos, ao negarem a ordem capitalista em constituição, responderam com uma organização crescente, até encontrarem o limite imposto pelas tropas federais do General Setembrino.

Derval Peixoto, militar presente nos combates, através da observação direta da realidade, analisou a situação sob o seguinte foco, “… a região contestada esteve sempre entregue ao despotismo dos chefes locais, ao desvario de uma sorte inumerável de crimes mal apurados e ao desmando de caudilhos temíveis…”, acrescentando ainda “… esses têm sido os propulsores morais das causas que levaram à rebeldia, como recurso de defesa, os sertanejos ignorantes e espoliados pelos prepotentes.”

Pois é este novo sentido para a Revolta do Contestado que estaremos a procurar. Um sentido enraizado na terra, ou na posse desta, o principal produto colocado em cheque pelo conflito.

Recortes Modernos – IV Ato

IV ATO

A BATALHA FINAL

recortes modernos capa

Os relatos de quem fez a Semana; a posição dos críticos. A receptividade do público; todo o tumulto causado pelo evento; e as sementes que o movimento deixou para as gereções seguintes.

catalogo 1922

Paulo Prado:

“Dentro de pouco tempo – talvez bem pouco – o que se chamou em Fevereiro de 1922, em São Paulo, a Semana de Arte Moderna marcará uma data memorável no desenvolvimento literário e artístico do Brasil. ”

Mário de Andrade:

“São moços de tendências múltiplas, moços apenas iguais pela liberdade. Reuniram-se apenas porque união é força, e nestes tempos de sindicalismo, o ente solitário dispersa-se e empobrece. Assim somos os rapazes da Semana da Arte Moderna.”

Oswald de Andrade:

“E a semana de arte moderna virá mostrar como esses espíritos de vanguarda são apenas os guias de um movimento tão sério que é capaz de educar o Brasil e curá-Io do analfabetismo letrado em que lentamente vai para trás.”

Mário de Andrade:

“Quem teve a ideia da Semana de Arte Moderna? Por mim não sei quem foi, nunca soube, só posso garantir que não fui eu. Foi o próprio Graça Aranha? Foi o Di Cavalcanti? Porém o que importa era poder realizar essa ideia, além de audaciosa, dispendiosíssima. ”

Oswald de Andrade:

“E a chegada de Graça Aranha da Europa imprime ao movimento um interesse mais vivo. Ele ligou-se imediatamente à geração construtora. Sob a iniciativa de Paulo Prado, organizou-se uma semana de arte moderna brasileira. ”

Cândido Motta Junior:

“Graça Aranha fala em cubismo para os copistas da arte velha; fala em todas as transformações de valores artísticos com a naturalidade calma de um convencido que viu, no Velho Mundo, o enflorescimento mágico da arte nova.”

Di Cavalcanti:

“Graça Aranha tirou um pouco da nossa pureza. A culpa não foi dele. Sua habilidade de diplomata, seu savoir faire de mundano, sua autoridade de mais velho, agiam como música sedutora. Ele prometia unir-nos aos modernistas do Rio, levar o nosso movimento ao Norte e ao Sul de todo o Brasil.”

TODOS:

“Futurices

De um crítico que passa

O parecer o meu ouvido passa

A exposição de Artistas

Futuristas

Não tendo graça

Arranha.”

O Estado de S. Paulo:

“Por iniciativa do festejado escritor, Sr. Graça Aranha, haverá em S. Paulo uma Semana de Arte Moderna, em que tomarão parte os artistas que, em nosso meio, representam as mais modernas correntes artísticas. ”

Mário de Andrade:

“A ideia pertence a Di Cavalcanti. Chegado do Rio desde 1921 guerreiro, comunicara-me o projeto, bem como a Oswaldo, Anita e outros. Pretendíamos abrir um salão de pintura e escultura, com tardes literárias em que se recitariam versos e conferências. Graça Aranha chegou do Rio. Quis conhecer-nos. Auxiliado por Paulo Prado, René Thiollier e outros. Organizou-a. ”

René Thiollier:

“O fato é que, sobre as minhas costas, choveram pesadíssimos encargos. Nunca me vi assim metido num afogo de trabalhos. Corria de um lado para o outro, perseguido pelo tilintar do telefone. ”

Di Cavalcanti:

“Era preciso uma base econômica para a realização do plano de conferências, exposições e concertos. Graça Aranha tinha uma ligação de amizade com Paulo Prado, deu-me um cartão de apresentação, lá fui eu me encontrar com Paulo Prado na avenida Higienópolis e, da conversa com aquele grande homem que possuía um passado intelectual e boa vida parisiense, nasceu a ideia da Semana de Arte Moderna.”

Mário de Andrade:

“E o autor verdadeiro da Semana de Arte Moderna foi Paulo Prado. E só mesmo uma figura como ele e uma cidade grande mas provinciana como São Paulo, poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-Io na Semana.”

Di Cavalcanti:

“Eu sugeri a Paulo Prado a nossa semana, que seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter estribos na barriga da burguesiazinha paulistana.”

Mário de Andrade:

“Paulo Prado, com a sua autoridade intelectual e tradicional, tomou a peito a realização da Semana, abriu a lista das contribuições e arrastou atrás de si os seus pares aristocratas. ”

René Thiollier:

“Consegui ainda de outro amigo meu, o Sr. Dr. Washington Luís, presidente do Estado, que seu governo custeasse uma parte das despesas com a hospedagem dos artistas e escritores que vinham do Rio.”

Correio Paulistano:

“Assim, será aberto o Teatro Municipal durante a semana de 11 a 18 de fevereiro próximo, instalando-se aí uma curiosa e importante exposição, para qual concorrem os nossos melhores artistas modernos.”

Oswald de Andrade:

“No palco nos alinhamos Menotti del Picchia, eu, Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Ronald de Carvalho, o poeta suíço Henri Mugnier e Agenor Barbosa. A tela subiu e vi que o teatro estava repleto.”

Mário de Andrade:

“Estamos célebres! Enfim! Nossos livros serão comprados! Ganharemos dinheiro! Seremos lidíssimos! Insultadíssimos! Celebérrimos! Teremos os nossos nomes eternizados nos jornais e na História da Arte Brasileira.”

Oswald de Andrade:

“Menotti, de pé, iniciou a apresentação dos novos escritores,aproveitando o primeiro silêncio. Ouviram-no atenciosamente até o fim. Aí, disse ele, apontando-me, que para dar um exemplo do que era a prosa nova, ia eu ler um trecho de um romance inédito.”

Correio Paulistano:

“Nunca os nossos artistas se congregaram ligando num mesmo elo a pintura, a escultura, a música e a poesia. Essas formas das expressões emotivas andaram sempre isoladas e quase interindependentes. Sob esse ponto de vista, a Semana de Arte Moderna é digna de nota.”

Oswald de Andrade:

“Mas a pouca gente interessava o que eu ia ler e apresentar. Apenas Menotti se sentou e eu me levantei e o Teatro estrugiu numa vaia irracional infame. Antes mesmo d’eu pronunciar uma só palavra. ”

Jornal do Comércio:

“A embaixada de arte moderna não passa de uma patacoada, procurando imitar um grupo de desequilibrados, que criaram a escola do absurdo com a pretensão de desbancar a arte que vem sendo aperfeiçoada através dos séculos.”

Oswald de Andrade:

“Esperei de pé, calmo, sorrindo como pude, que o barulho serenasse. Depois de alguns minutos isso se deu. Abri a boca então. Ia começar a ler, mas a pateada se elevou, imensa, proibitiva. ”

Graça Aranha:

“Da libertação do nosso espírito sairá a arte vitoriosa. E os primeiros anúncios da nossa esperança são os que oferecemos aqui à vossa curiosidade. São estas pinturas extravagantes, estas esculturas absurdadas, esta poesia aérea e desarticulada. Maravilhosa aurora!”

Oswald de Andrade:

“Nova e calma espera, novo apaziguamento. Então pude começar. Devia ter lido baixo e comovido. O que me interessava era representar o meu papel, acabar depressa, sair se possível. ”

Jornal do Comércio:

“Quem for justo como homem de sua época, concordará que na exposição de trabalhos artísticos no Municipal, há irradiações maravilhosas de talento, aromas sonoros, sangue a ferver, nervos eletrizados, cartilagens crispadas, enfim, o sopro vital fremente, de uma ressurreição de arte.”

Oswald de Andrade:

“No fim quando me sentei e me sucedeu Mário de Andrade, a vaia estrondou de novo. Mário, com aquela santidade que às vezes o marcava, gritou.”

Mário de Andrade:

“Assim não recito mais!”

Oswald de Andrade:

“Houve grossas risadas. ”

Mário de Andrade:

“Oh! Semana sem juízo. Desorganizada, prematura. Irritante. Ninguém se entendia. Cada qual pregava uma coisa. Uns pediam liberdade absoluta. Outros não a queriam mais. O público vinha saber. Mas ninguém lembrava de ensinar. Os discursos não esclareciam coisa nenhuma. Nem podiam, porque não havia tempo: os programas estavam abarrotados de música.”

Graça Aranha:

“Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida.”

Mário de Andrade:

“Foi no meio da mais tremenda as suada, dos maiores insultos, que a Semana de Arte Moderna abriu a Segunda fase do movimento modernista, o período realmente destruidor. ”

Oswald de Andrade:

“Queremos mal ao academismo porque ele é o sufocador de todas as aspirações joviais. Para vencê-Io destruímos. Somos boxeurs na arena. Não podemos refletir ainda atitudes de serenidade. Essa virá quando vier e o futurismo alcançar o seu ideal clássico.”

Graça Aranha:

“Outros horrores vós esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do passado.”

Villa-Lobos:

“Demos três concertos, ou melhor, três festas de arte. No primeiro, o amigo Graça Aranha fez uma conferência violentíssima, derrubando quase pro completo todo o passado artístico. O público levantou-se indignado. Protestou, blasfemou, vomitou, gemeu e caiu silencioso.”

Guiomar Novaes:

“Em virtude do carácter bastante exclusivista e intolerante, que assumiu a primeira festa de arte moderna, realizada na noite de 13 do corrente no Theatro Municipal, em relação às demais escolas de música, das quais sou intérprete, e admiradora, não posso deixar de aqui declarar o meu desacordo com esse modo de pensar. Senti-me sinceramente contristada. ”

Menotti del Picchia:

“Morra a mulher tuberculosa lírica! No acampamento da nossa civilização pragmatista, a mulher é colaboradora inteligente e solerte da batalha diuturna, e voa no aeroplano, que reafirma a vitória brasileira de Santos Dumont.”

Renato de Almeida:

“A nossa grande Guiomar Novais ameaçou não continuar participando da Semana. Alguém foi dizer isso a Graça Aranha e ele replicou imediatamente.”

Graça Aranha:

“Pois que não tome.”

Renato de Almeida:

“Sei que o caso ia azedando e se falou até em duelo. E os escândalos da Exposição de Pintura e Escultura, sobretudo o ‘Homem Amarelo’, de Anita Malfatti que, então, consideravam o fim.”

Graça Aranha:

“Que importa o homem amarelo ou a paisagem louca, ou o Gênio angustiado não sejam o que se chama convencionalmente reais? O que nos interessa é a emoção que nos vem daquelas cores intensas e surpreendentes, daquelas formas estranhas, inspiradoras de imagens.”

A Gazeta:

“Como se vê a senhorita Malfatti desconhece por completo harmonia, cor e perspectiva, consequências lógicas do desenho, cujos enigmas só agora está tentando decifrar. Tanto ela como o mestre desanimaram, A primeira por incapacidade, o segundo por desânimo, diante das dificuldades incríveis de atenuar na sua aluna as desastrosas influências da iniciação abexim.”

Graça Aranha:

“A remodelação estética do Brasil iniciada na música de Villa-Lobos, na escultura de Brecheret, na pintura de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, e na jovem e ousada poesia, será a libertação da arte dos perigos que a ameaçam do inoportuno arcadismo, do academismo e do provincialismo.”

Jornal do Comércio:

“O conferencista discorreu sobre as diversas manifestações da pintura e da escultura moderna no Brasil fazendo ver que nenhum deles obedecia a nenhuma escola. Elevou um hino ao Brasil novo e forte. As últimas palavras do orador foram ditas debaixo de vibrantes aplausos.”

ANoite:

“O que sabemos é que muita gente vai zangar-se, muita gente vai aplaudir, muita gente vai rebentar em gargalhadas. O futurismo vive nesse triângulo: os que o guerreiam, os que o aplaudem, os que dele se riem. E a graça é que os futuristas gostam mais dos primeiros – dos que guerreiam.”

Menotti Del Picchia:

“Que engano! Nada mais ordeiro e pacífico que este bando de vanguarda, liberto do totemismo tradicionalista, atualizado na vida policiada, violenta e americana de hoje. Ninguém respeita mais o casse-tête do guarda-cívico da esquina.”

TODOS:

“Eu insulto o burguês!

O burguês-níquel, O burguês-burguês!

A digestão bem feita de São Paulo!

O homem-curva! O homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

AGazeta:

“Não falando, por hoje, senão nos pseudo-artistas que expõem no saguão do Municipal, podemos afirmar sem rebuço que nunca houve mais deslavado cinismo do que o deles próprios e dos seus asseclas ao afirmarem em altos brados a própria originalidade e personalidade acima de toda a grita que desenvolvem, há de estar, por força, incorruptível, a consciência da própria nulidade e esterilidade.”

Ronald Carvalho:

“Mas esta reunião modernista está cheia de passadistas!”

Paulo Prado:

“Isso não tem importância. O que é importante é a reunião!”

Menotti del Picchia:

“Para eles – idiotas! – não havia automóveis, corsos, sapateiros martelando solas, ministros vendendo pátrias a varejo no balcão internacional de conferências e tribunais de arbitragem. ”

Graça Aranha:

“Reclamemos contra essa arte imitativa e voluntária que dá uma feição artificial. Louvemos aqueles poetas que se libertam pelos seus próprios meios e cuja força de ascensão lhes é intrínseca.”

AGazeta:

“Este movimento, pois, é uma manifestação de mais desabusada improbidade artística de que há memória, um verdadeiro estelionato, praticado por sujeitos que, simples aprendizes desastrados, reles imitadores ou deslocados plagiadores, dizendo-se gênios autênticos, originais, livres e pessoais.”

Menotti del Picchia:

“Somos o escândalo com duas pernas, o cabotinismo organizado em escola. Julgam-nos uns cangaceiros da prosa, do verso, da escultura, da pintura, da coreografia, da música, amotinados na jagunçada do Canudos literário da Paulicéia Desvairada.”

AGazeta:

“Brecheret, o artista genial é o mesmo que, plagiando, quase copiando o Ídolo de Attilo Selva com a alcunha de Eva, impingiu-o àcegueira artística da Câmara Municipal. Como se vê, o sr. Brecheret, um dos grandes artistas da Semana Futurista, depois Semana Moderna, pode ir pregar originalidade a outras terras.”

Menotti del Picchia:

“Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminé de fábricas, sangue, velocidade, sonho na nossa Arte! E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último deus homérico.”

Paulo Prado:

“A ela, Semana devemos o terem-se aberto, bem largas, as portas do municipal, para uma rajada de ar puro que limpou o palco e corredores do teatro. E, pela primeira vez, S.Paulo se interessou com paixão, por um problema de arte; pela primeira vez em meio do nosso industrialismo.”

A Gazeta:

“O mal, porém, assume tais proporções, que é necessário aplicar sem detença e sem piedade a estes propagadores da peste artística o remédio heroico com que se alcançou extinguir a peste bovina, mais extensa é certo, mas menos desastrosa que esta.”

Mário de Andrade:

“A verdade é que o futurismo é hoje um caso chocantemente sensacional. Uns proclamam-no, aplaudem-no, veneram-no, outros o agridem, o repudiam, o guerreiam e o arrasam. Outros ainda acham-lhe infinita graça.”

René Thiollier:

“No saguão do teatro apinhado e rumorejante não havia quem se não deixasse tomar de pavor e êxtase, ao defrontar com os horrores épicos da senhorinha Anita Malfatti. E não a poupavam! Era com requinte que se punham a gozar.”

Anita Malfatti:

“No saguão do Teatro, tudo era revolucionário, tudo diferente.”

Menotti dei Picchia:

“Mário de Andrade, o diabólico, dirá coisas infernais sobre as alucinantes criações dos pintores futuristas, justificando as telas que tanto escândalo e tanta grita têm causado no hall do Municipal. Só isso valeria a Noitada.”

Sérgio Milliet:

“E foi lá que se viu homens como Mário de Andrade e outros distinguirem-se por sua coragem calma e sua fé, explicando, sob os assovios e o sarcasmo, as teorias da arte moderna e afirmando com voz forte no meio das vaias.”

Mário de Andrade:

“Os velhos morrerão, senhores.”

Anita Malfatti:

“Foi com esta conferência que apareceram as primeiras ideias modernas na literatura paulista. ”

Mário de Andrade:

“Como tive coragem de participar daquela batalha! Como tive coragem para dizer versos diante duma vaia tão barulhenta que eu não escutava no palco o que o Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas? Como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?”

Anita Malfatti:

“Mário não tinha voz para empolgar as massas. Sua voz desaparecia no barulho das vaias e gritaria. Resolveu, pois, ler a sua conferência ‘A Escrava que Não é Isaura’, da escadaria do saguão.”

Mário de Andrade:

“Fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança absolutamente firme que eu tinha, mais que confiança, fé verdadeira, eu não teria forças nem físicas nem morais para arrostar aquela tempestade de achincalhes. Se aguentei o tranco, foi porque estava delirando. O entusiasmo dos outros me embebe dava, não o meu.

Por mim teria cedido.”

Anita Malfatti:

“Pegou pois o pessoal de surpresa e leu, nervoso mas resolvido, sua célebre conferência. O saguão e a escadaria ficaram repletos e quando o pessoal da vaia deu com que estava se passando, recomeçou, mas logo cessou, pois o Mário tinha terminado.”

Sérgio Milliet:

“O público, hostil e refratário, diante da calma olímpica dos artistas sentiu-se, perto do final, petrificado.”

Mário de Andrade:

“Grande espanto, indignação mesmo, provocados pela grita desses galos turbulentos e nem sempre razoáveis. Mas estes já sabiam que sempre se irrita quem acorda no meio do sono. O erro deles foi imaginar que os cocoricós adiantam a aparição da madrugada. ”

Graça Aranha:

“Que nos importa que a música transcendente que vamos ouvir não seja realizada segundo as fórmulas consagradas? O que nos interessa é a transfiguração de nós mesmos pela magia do som, que exprimirá a arte do músico divino. É na essência da arte que está a Arte.”

Villa-Lobos:

“Fui atacado no pé de uma bruta manifestação de ácido úrico, levando-me para cama diversos dias, até o meu amigo Graça Aranha vir me contratar para uma Semana de Arte Moderna em São Paulo. Ainda capengando parti com os meus melhores intérpretes para São Paulo.”

Menotti Dei Picchia:

“Villa-Lobos pode ficar tranquilo; A Semana Não destruirá sua originalidade pioneira, apenas a registrará com o seu comparecimento tão pitoresco na ribalta do nosso Municipal, cabeleira agitada, chinelo no pé, marcadamente modernista.”

Villa-Lobos:

“Quando chegou a vez da música, as piadas das galerias foram tão interessantes, que quase tive a certeza de a minha obra atingir um ideal, tais foram as vaias que cobriam os louros.”

René Thiollier:

“A atmosfera cada vez se tomava mais agressiva, mormente em relação às composições de Villa-Lobos. Até que, a súbitas, por entre gritos ululantes, apupos e assobios, estrugiu, num escarcéu de fúria, uma vaia prolongada. ”

Villa-Lobos:

“Chegamos ao terceiro concerto, que era em minha homenagem. Organizei um bom programa. Começamos pelo 3° Trio, que, de quando em quando, um espectador musicista assobiava o principal tema, paralelamente com o instrumento que o desenhava.”

Renato de Almeida:

“A vaia mesmo estrugiu com a música de Villa-Lobos. Levaram gaitinhas para as torrinhas e comentavam certas passagens mais ousadas. Algumas intérpretes chegaram a chorar. Mas para nós era o desafio que se aceitava.”

Villa-Lobos:

“Nos outros números, novas manifestações de desagrado, até o último número, que foi o quarteto simbólico, onde consegui uma execução perfeita, com projeção de luzes e cenários apropriados a fornecerem ambientes estranhos, de bosques místicos, sombras fantásticas, simbolizando a minha obra como a imaginei. Na segunda parte desse quarteto o conjunto esclarece um ambiente elevado, cheio de sensações novas. Pois bem. Um gaiato qualquer, no mais profundo silêncio, canta de galo com muita perícia. Bumba, pôs abaixo toda a comoção que o auditório possuía. ”

Jornal do Comércio:

“Tivemos aqui um futurista que foi vaiado em Paris; temos agora o sr. Villa-Lobos, que ouviu assobios e gaitadas em São Paulo.”

Menotti dei Picchia:

“De um lado, artistas de fama faziam versos, recitavam trechos de prosa, enchiam o ambiente de harmonias. De outro lado, alguns indivíduos, que chegaram a envergonhar o gênero humano, ladravam e cacarejavam.”

Villa-Lobos:

“A polícia finalmente interveio prendendo os graçolas e mais duas latas grandes de manteiga cheias de ovos podres e batatas. Esses moços, ao serem interrogados, declararam que aqueles presentes estavam destinados a coroarem os promotores da Semana de Arte Moderna em São Paulo, como se fossem flores e palmas.”

Menotti del Picchia:

“Tudo o que nesta terra não ladra, não gane, não cacareja, não morde, aplaudiu com calor os libertadores da Arte, sagrando o seu esforço e fazendo frutificar, gloriosamente, o seu exemplo!”

Jornal do Comércio:

“Essa nova arte, que tem por base a ausência de arte, invadiu a música, a pintura e a escultura sob diversas denominações, mas sem nenhuma novidade, nem interesse, a não ser para os psiquiatras.”

Mário de Andrade:

“Insultaram-nos. Somos bestas, doentes, idiotas. Mas como os jornais o disseram e o público não acredita. Toda gente imagina que somos perfeitíssimos de corpo e alma, inteligentes, honestos e eruditos.”

Folha da Noite:

“Foi, como se esperava, um notável fracasso, a récita de ontem da pomposa Semana de Arte Moderna, que mais acertadamente deveria chamar-se Semana de Mal – às artes.”

Renato de Almeida:

“A Semana foi uma delícia. Aconteceu que nós queríamos e provocamos, a vaia, o apupo, a descompostura. Quando Ronald de Carvalho leu ‘Os Sapos’, de Manuel Bandeira que não pudera comparecer, as galerias glosavam o refrão.”

TODOS:

“Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

-Meu pai foi à guerra!

-Não foi! – Não foi!

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: -Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vêde como primo

Em comer hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

O meu verso é bom

Frutamento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos.

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas.”

 

Di Cavalcanti:

“A confusão era geral. René Thiollier não sabia por que admirar tudo aquilo. Uma noite, no Bar do Municipal, pergunta-me com o coração aberto.”

René Thioller:

“Di, você é sincero com esses seus bonecos loucos?”

Di Cavalcanti:

“Sinceríssimo! Todos nós somos sinceros”

René Thioller:

“Até o Oswald de Andrade?”

Di Cavalcanti:

“Sim!”

René ThioUer:

“Merde alors!”

Menotti Dei Picchia:

“Este é o estilo que de nós esperam os passadistas, para enforcar-nos, um a um, nos finos baraços dos assobios das suas vaias. Para eles nós somos um bando de bolchevistas da estética, correndo a 80 H.P. rumo da paranoia.”

A Gazeta:

“O sr. Di Cavalcanti, que por ser de fato um molecote ainda em cueiros, é quase irresponsável pelos atendados burlescos que pratica, pois nunca aprendeu nada em sua vida: desenho, cor, proporções, perspectiva, são para ele verdadeiros logogrifos. Enquanto não os resolve, vai pacificamente masturbando telas abracadabrantes, dolorosos produtos de um onanismo cerebral desenfreado, próprio da idade, infelizmente, e que só com a idade passará. A sua obra não merece ser considerada. É um menino vicioso, que faz coisas feias pelos cantos da arte, de onde será enxotado a correadas.”

Mário de Andrade:

“Nessa inesquecível Semana, passaram-se em revista as forças da orientação. Bruta sacudidela nas artes nacionais! É indiscutível que jamais reviravolta de arte movimentou, apaixonou e enlouqueceu mais a monotonia brasileira que o chamado futurismo. Enchentes de tinta, vulcões de lama, saraivada de calúnias. Muito riso e pouco siso. De ambas as partes. A Semana de Arte Moderna foi um triunfo!”

Jornal do Comércio:

“Enterro dos vivos. A Semana de Arte Moderna está para acabar. É pena porque, com franqueza, se do ponto de vista artístico aquilo representa o definitivo fracasso da escola futurista, como divertimento foi insuperável.”

Fanfulla:

“Futurismo? Não. Simplesmente um ato de rebelião contra tudo que constitui idolatria pelo passado. Futurismo? Não. Nada de futurismo se vós entendeis por futurismo tudo o que represente insulto à arte. Futurismo, sim, se futurismo deve significar uma provocação arrogante, desdenhosa e orgulhosa.”

Folha da Noite:

“De tudo quanto vimos e observamos do tal Futurismo, metidos sempre no nosso atraso mental, deduzimos que os modernistas possuem uma coisa: topete, muito topete.”

Oswald de Andrade:

“Futuristas, apenas porque tendíamos para um futuro construtor, em oposição à decadência melodramática do passado de que não queríamos depender. Denominar-nos pois ainda e futuristas é renunciar à crítica pelo coice.”

A Gazeta:

“Eis aí em que dão os independentes, os geniais, os originalíssimos mequetrefes, libertos de influências e de cânones: uns copistas, uns incapazes, uns masturbadores. Amanhã ou depois lhe indicarei as fontes Castálias onde os Del Picchia, os Guilhermes, os Osvaldos, os Ronaldes de Carvalho, os Graça Aranha, vão beber, vão tomar as suas carraspanas de

gênio, que depois vomitam sobre as turbas como produtos autênticos e originais, distilados das próprias circunvoluções cerebrais. O plágio e a imitação! A imitação e o plágio!”

Mário de Andrade:

“A Semana de arte Moderna não representa nenhum triunfo, como também não quer dizer nenhum triunfo, como também não quer dizer nenhuma derrota. Foi uma demonstração que não foi. Realizou-se.”

Sérgio Milliet:

“Dizer-lhe que o público aceitou as teorias seria falso. Ele vaiou e, mais ainda, urrou manifestou-se ao longo de toda a noitada. Os estudantes comprimidos nas galerias do grande teatro frequentemente impediram a plateia de ouvir.”

Mário de Andrade:

“Somos burríssimos. Idiotas. Ignorantíssimos. Só havia um meio de alcançar a celebridade: lançar uma arte verdadeiramente incompreensível, fabricar o carnaval de Semana de Arte Moderna. Estamos célebres, amados e detestados.”

Yan de Almeida Prado:

“A Semana de Arte Moderna pouco ou nenhuma ação desenvolveu no mundo das artes e da literatura. Nem com extrema boa vontade pode ser comparada à Vila Kyrial de quem pouco se fala. Pensar-se de modo diverso, crer que a Semana descobriu gênios e influiu na evolução das artes e letras da Pauliceia e do Brasil, é imaginação de ingênuos.”

Mário de Andrade:

“Outras vozes pode haver surgidas antes. Mas viveram ilhadas; e realmente nenhuma influência tiveram nesse grupo, do qual partiu todo o movimento de modernização, hoje espalhado. ”

Ronald Carvalho:

“Após a famosa Semana de Arte Moderna, organizada e dirigida por Graça Aranha, em que os filisteus colaboraram com balões de assobio, piadas medrosas, latidos, miados e cocoricós, os independentes de S. Paulo não cruzaram os braços. Levantaram os martelos e começaram a malhar. Aos insultos, acudiram com riso, um riso largo e generoso, de pena e ironia.”

Mário de Andrade:

“Cada um seguiu para seu lado, depois. Precipitada. Divertida. Inútil. A fantasia dos acasos fez dela uma data das artes nacionais. Eis a famosa Semana. A culpa não cabe a ninguém.”

Menotti del Picchia:

“Demais, ao nosso individualismo estético, repugna a jaula de uma escola. Procuramos, cada um, atuar de acordo com nosso temperamento, dentro da mais arrojada sinceridade.”

Paulo Prado:

“A própria indignação dos adversários, prolongando-se por meses e meses, foi um fenômeno animador, sendo uma das provas da existência de forças latentes de reação no nosso organismo social. Quem tanto odeia, não está longe de amar.”

Mário de Andrade:

“Foi nesse delírio de profunda raiva que Paulicéia Desvairada se escreveu. Paulicéia manifesta um estado de espírito eminentemente transitório: cólera cega que se vinga, revolta que não se esconde.”

Klaxon:

“Houve erros proclamados em voz alta. Pregaram-se idéias inadmissíveis. É preciso refletir. É preciso esclarecer. É preciso construir. Daí, Klaxon. E Klaxon não se queixará jamais de ser incompreendido pelo Brasil. O Brasil é que deverá se esforçar para compreender Klaxon.”

Ronald Carvalho:

“Klaxon é a voz de todas essas vozes libertas de sinuosos compromissos.”

Guilherme de Almeida:

“Klaxon, que teve a alegre coragem de “continuar” a escandalosa tertúlia do Municipal, foi a única revista brasileira que, não tirando sequer mil exemplares teve forte repercussão além-fronteiras … viveu, no ventre fecundo da “Semana”, os biológicos nove meses da vida gestatória: de maio de 1922 a janeiro de 1923. Quando então se partiu o cordão umbilical, Klaxon morreu. Porque não saberia viver sem a materna influência vital. Não pode haver mais legítimo, fiel e amoroso filho.”

Mário de Andrade:

“A Semana de Arte Moderna dava um primeiro golpe na pureza do nosso aristocracismo espiritual. E vivemos uns oito anos, até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história artística do país registrara.”

Paulo Prado:

“A Semana de Arte foi o primeiro protesto coletivo que se ergueu no Brasil contra esses fantoches do passado. Graças aos seus ataques irreverentes de um delicioso exagero, muito livro de verso de rima rica e idéia pobre deixou de aparecer, muito quadro fugiu, e muita caduquice rabugenta voltou amedrontada. Assim iniciou o grupo da Arte Moderna a obra de saneamento intelectual de que tanto precisamos. ”

Mário de Andrade:

“Eu creio que os modernistas da Semana de Arte Moderna não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição.”

Recortes Modernos – III Ato

recortes modernos capa

O PERÍODO HERÓICO

A fermentação das idéias modernistas em um grupo de jovens (Oswald e Mário de Andrade, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Menotti del Picchia…) que se une entre os anos de 1918 e 1921.

 brecheret

Mário de Andrade:

“O real movimento de modernização das artes brasileiras partiu do caso de se encontrarem um dia em São Paulo 7 ou 8 artistas paranoicos e mistificadores.”

Oswald de Andrade:

“Somos um perdido tropel em território irregular e hostil. Falo em nome de meia dúzia de artistas moços de São Paulo e daí o meu cálido orgulho incontido.”

Mário de Andrade:

“O Brasil não é para tais artistas assunto literário escolhido entre mil. É preocupação imperiosa. A realidade brasileira é trabalho consciente. Muito nos ajudará a obra dos historiadores, dos folcloristas, dos regionalistas, dos sociólogos. Não nos deve preocupar a opinião dessa gente séria possa ter de nós. Somos naturalmente para eles: loucos, pândegos e talvez mesmo cabotinos.”

Oswald de Andrade:

“São Paulo é já a cidade que pede romancistas e poetas, que impõe pasmosos problemas humanos e agita, no seu tumulto discreto, egoísta e inteligente, as profundas revoluções criadoras de imortalidade.”

Menotti del Picchia:

“São Paulo de hoje é um Paris, um Nova Iorque menos intenso, um Milão mais vasto. É uma formidável e gloriosa cidade ultramodema.”

Mário de Andrade:

“E, socialmente falando, o modernismo só podia mesmo ser importado por São Paulo. O Rio era muito mais internacional, com norma de vida exterior, porto de mar e capital do país. São Paulo era espiritualmente muito mais moderna porém. Fruto da economia do café e do industrialismo, São Paulo estava ao mesmo tempo em contato mais espiritual e mais técnico com a atualidade do mundo.”

Menotti del Picchia:

“Aos nossos olhos riscados pela velocidade dos bondes elétricos e dos aviões, choca a visão das múmias eternizadas pela arte dos embalsamadores. Cultivar o helenismo como força dinâmica de uma poética do século é colocar o corpo seco de um Ramsés a governar uma república democrática, onde há fraudes eleitorais e greves anarquistas.”

Oswald de Andrade:

“E com a mudança diária e formidável da própria graça fisionômica, a metrópole incontida, absorvente, diluviana de gente nova, de gente ávida, de gente viva, pensa outras ideias, escuta outros carrilhões, procura novos ritmos, perscruta e requer horizontes futuros.”

Mário de Andrade:

“É muito sabido já que um grupo de moços brasileiros pretendeu tirar o Brasil da pasmaceira artística em que vivia, colocando a consciência nacional no presente do universo. ”

Oswald de Andrade:

“A juventude extravasante nas escolas, nas calçadas, nos jardins citadinos está reclamando pelos cem poros ativos de sua sensibilidade, uma arte à altura da sua efusiva aspiração vital e de compasso com o senso profundo da sua responsabilidade americana. Essa arte existe.”

Mário de Andrade:

“Onde haja no território da pátria uma porção de raparigas lindas e de rapazes orgulhosos há latente, pulsando, um desejo de consagrar o sangue se preciso for para o engrandecimento e glorificação este Brasil bem-querido que merece e terá todo o nosso ardor e a nossa vida!”

Menotti del Picchia:

“Dar à prosa e ao verso o que ainda lhes falta entre nós: ossos, músculos, nervos. Queremos escrever com sangue – que é humanidade; com eletricidade – que é movimento, expressão dinâmica do século; com violência – que é energia bandeirante. Assim nascerá uma arte genuinamente brasileira, filha do céu e da terra, do Homem e do mistério.”

Mário de Andrade:

“Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional.”

Sérgio Milliet:

“O poeta moderno vive de verdade. Às vezes, tem automóvel. Faz negócios quando pode. Há tanta poesia na Bolsa do café! Os trens, os autos, os vapores, as máquinas, são assuntos essencialmente poéticos.”

Oswald de Andrade:

“A questão paulista é uma questão futurista. Nunca nenhuma aglomeração humana esteve tão fatalizada a futurismos de atividade, de indústria, de história e de arte como a aglomeração paulista, povo de mil origens.”

Ronald Carvalho:

“O italiano, o alemão, o eslavo e o saxão trouxeram a máquina para a nossa economia. A vida tomou-se mais ativa, mais vertiginosa, mais cosmopolita, menos conservadora, enfim.”

Menotti del Picchia:

“Esse entrechocar de ambições, de gostos, de vontades, de raças oriundas dos quatro pontos cardeais, se refletem em todas as manifestações da vitalidade citadina, nos seus tipos de rua, na sua arquitetura, nas coisas expostas ao comércio, nas línguas que se falam pelas calçadas.”

Oswald de Andrade:

“Estamos no Trianon, devassando a cidade panorâmica no recorte desassombrado das suas ruas de fábricas e dos seus conjuntos de palácios americanos. É a cidade que, na ambição improvisada das suas feiras e na vitória dos seus mercados, ulula uma desconhecida harmonia de violências humanas, de ascensões e desastres, de lutas, ódios e amores.”

Menotti del Picchia:

“E a agitação da grande cidade, da grande feira, começou a ensanguentar as crônicas policiais. A fome do ouro, monstruosa tentou abalar a ética~ a luta agrícola, comercial, industrial, calafriou os nervos dos nossos artistas, latejando agora nos seus livros, como pegadas tangíveis da tragédia urbana atual.”

Mário de Andrade:

“Nós só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um contingente original e nacional de cultura. O Modernismo brasileiro está ajudando a conquista desse dia. E muito, juro para você.”

Tristão de Atayde:

“Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu isolamento, livro, que já encerra uma lição fecunda, uma comoção superior, é certamente o pregoeiro de outros surtos.”

Mário de Andrade:

“Ninguém pode se libertar duma vez só das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria hipócrita se pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem.”

Oswald de Andrade:

“Bendito esse futurismo paulista, que surge companheiro de jornada dos que aqui gastam os nervos e o coração na luta brutal, na luta americana, bandeirantemente!”

Mário de Andrade:

Tenho horror inato às escolas e abomino aqueles que se imaginam condutores de artistas.”

Mário Brito:

“Oswald de Andrade era repórter, entusiasmado pelo discurso quis publicá-Io, e para conseguir as laudas originais de Mário, brigou a tapa. No dia seguinte, publicava o discurso de Mário de Morais Andrade, que se tomou, então, amigo.”

Ronald Carvalho:

“Se o sr. Mário de Andrade, através de todos os excessos desejados e passageiros de sua cruzada combativa, procura uma expressão poética nova da civilização brasileira do século XX. O sr. Osvald de Andrade penetra a realidade social de hoje.”

Mário de Andrade:

“Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o fim! Liberdade. Uso dela; não abuso. Tanto não abuso! não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Costumo andar sozinho.”

Oswald de Andrade:

“Mário de Andrade publicou então as suas primeiras poesias. Conhecedor da terra e da língua, dos ritmos regulares e dos novos efeitos, criou a poesia livre, desconhecida do Brasil. ”

Ronald Carvalho:

“Nada de supérfluo. A palavra tomada em seu valor exato e incisivo. A realidade, tema e episódios, possuída em bloco no espírito e procurando realizar-se sem artifício, com o máximo efeito na maior simplicidade.”

Oswald de Andrade:

“Uma estuante geração paulista quebra nas mãos a arapuca de taquara dos versos medidos.”

Mário de Andrade:

“Nossos sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar.”

Menotti del Picchia:

“Não só os vocábulos caem, chochos e secos, da árvore do vocabulário. Com as transmutações da ética e com as investigações do gênio industrial humano os sentimentos mudam, alguns surgem novos, outros desaparecem.”

Mário de Andrade:

“Em família o clima era torvo. Si Mãe eirmãos não se amolavam com as minhas loucuras, o resto da família me retalhava sem piedade. Eu tinha discussões brutais, em que os desaforos mútuos não raro chegavam àquele ponto de arrebentação. A briga era braba.”

Ronald Carvalho:

“Mário de Andrade é um homem do seu tempo e de sua raça, um homem tentado pelo demônio da realidade transcendente. Não são propriamente os elementos acessórios da atualidade – o automóvel, o aeroplano, a fábrica, as multidões desvairadas – que imprimem à sua poesia o caráter de modernidade que a distingue. Suas imagens são despojadas, geralmente, de qualquer artificialismo. São concretas, cruas e definidas. Ele reduz o espetáculo universal a esquemas audaciosos, e gira no tumulto de um realismo bárbaro magnífico.”

Mário de Andrade:

“Eu passara 1920 sem fazer poesia. Na minha leitura desarvorada, já conhecia até alguns futuristas de última hora. Concebi imediatamente fazer um livro de poesias modernas, em verso-livre, sobre a minha cidade. Não sei o que me deu. Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara Paulicéia Desvairada. O estouro chegara afinal, depois de quase ano de angústias interrogativas.”

Tristão de Athayde:

“Longe de ser mero futurismo de imitação, como se espalha, é Paulicéia Desvairada um livro que procura o que há de novo nesta civilização americana que tentamos, o significado literário de cem anos de independência.”

Menotti del Picchia:

“São Paulo de hoje, chegou a tal fastígio econômico que começa a dedicar seus ócios de enriquecido às produções de arte. Esse fenômeno – inédito ainda para a nossa vida de nacionalidade recente – é agradável de se constatar. Registra um duplo progresso: financeiro e cultural.”

Oswald de Andrade:

“Mas o ponto culminante da vitoriosa Guerra que os novos paulistas vêm fazendo contra os academismos produziu-se com Victor Brecheret que aí esteve jogado muitos meses num recanto do Palácio das Indústrias.”

Mário de Andrade:

“O movimento modernista tem, nos seus primórdios, dois fulcros. Um é Anita Malfatti. Outro é, agora, Victor Brecheret. Em tomo deles gira os vanguardistas de primeira hora.”

Menotti del Picchia:

“Certa vez, quando levam Monteiro Lobato para ver as suas esculturas, não suporta que o contista largue o chapéu sobre uma das estátuas. Retira-o com maus modos e joga-o acintosamente no chão.”

Victor Brecheret:

“Meus parentes não acreditavam mais em mim e, muito menos, em minhas esculturas. Fiquei um estrangeiro em minha própria terra, sem amigos, sem ninguém.”

Menotti del Picchia:

“Não se queixava o artista resignado: trabalhava, trabalhava. Esculpia, arrancava à greda carnosa figuras gigantes, gênios de olhos parados e músculos de aço, ídolos de ouro, misteriosos, esfingéticos Cristos pálidos, vitórias aladas.”

Mário de Andrade:

“Menotti deI Pie chia e Osvaldo de Andrade descobriram o escultor Vitor Brecheret, que modorrava em São Paulo numa espécie de exílio, um quarto que lhe tinham dado grátis, no Palácio das Indústrias, pra guardar os seus calungas.”

Menotti del Picchia:

“Só o grande Ramos de Azevedo o cobria com a sua proteção amiga e o seu entusiasmo de artista, o resto, ao ver-lhe as estátuas, essas torturas humanas, vazadas em barro, esses gritos de alma eternizados em pedra, escamecia-o.”

Mário de Andrade:

“Ora, Osvaldo de Andrade, passando pelas ruínas em construção do Palácio das Indústrias, soube que no segundo andar do prédio vivia um escultor. Subiu disposto a caçoar das academias. O hominho narigudo, com voz de baixo russo, abriu a porta. Brecheret. Osvaldo olhou o artista, já divertido. Brecheret olhou desdenhosamente o intruso. Inimigos. Uma hora depois: amigos íntimos.”

Oswald de Andrade:

“O porteiro nos disse que lá em cima anda um escultor trabalhando, um tipo esquisitão, de pouca prosa e que faz estátuas enormes e estranhas. Resolvemos subir para arreliar o excêntrico artista e o que vimos foi um deslumbramento para nós, pois estávamos diante de escultor original e poderoso.”

Mário de Andrade:

“Brecheret me concedeu uma Cabeça de Cristo. Afinal pude desembrulhar em casa a minha Cabeça de Cristo, sensualissimamente feliz. Isso a notícia correu e aparentada invadiu a casa para ver. E pra brigar. Berravam, berrava. Aquilo era até pecado mortal! Onde se viu Cristo de trancinha!”

Di Cavalcanti:

“O academismo idiota das críticas literárias e artísticas dos grandes jornais, isso desesperava nosso pequeno clã de criaturas abertas a novas especulações artísticas, curiosas de novas formas literárias, já impregnadas de novas doutrinas filosóficas.”

Mário de Andrade:

“Mas logo começou a luta por Brecheret, nosso estandarte. Oswaldo, Menotti e eu pelos jornais, críticos improvisados. Puxa! Fizemos uma barulheira danada. Divertimo-nos à farta.”

Klaxon:

“A luta começou de verdade em princípios de 1921 pelas colunas do Jornal do Comércio e do Correio Paulistano. Primeiro resultado: Semana de Arte Moderna.”

Mário de Andrade:

“Porque Victor Brecheret, para nós, era no mínimo gênio. Este o mínimo com que podíamos nos contentar, tais os entusiasmos a que ele nos sacudia.”

Monteiro Lobato:

“Admiremos sem reserva, que isso é arte de verdade, da boa, da grande, da que põe o espectador sério. Victor Brecheret – é este o nome do novo escultor, paulista de nascimento, extremamente novo ainda, 22 anos apenas, – Brecheret como escultor é produto do seu próprio esforço.”

A Gazeta:

“E os nossos críticos de arte, os lobos ferozes que, de dentuça arrefilada saíam outrora para despedaçar os transviados e os desequilibrados da arte, dormem agora o seu lento sono de inocência e de condescendência. Daqui a pouco, fazendo causa comum com aqueles que antes atacavam, pretenderão por certo que se arborize a cidade com matapaus e urupês para festejar dignamente o centenário.”

Menotti del Picchia:

“A liquidação literária, no Brasil, assume proporções de queima. O Brasil continuou colônia nas letras. É preciso reagir.”

Oswald de Andrade:

“Cuidado, senhores da camelote, a verdadeira cultura e a verdadeira arte vencem sempre. Um pugilo pequeno, mas forte, prepara-se para fazer valer o nosso Centenário.”

Mário de Andrade:

“São Paulo toda se agita com a aproximação do Centenário. Germinam monumentos numa floração de gestos heroicos e os jardins se congregam em formosos jogos florais de poesia e perfume. São Paulo se arreia de graças. São Paulo quer tomar-se bela e apreciada. ”

Menotti del Picchia:

“A nossa independência política não nos alforriou numa independência mental. O Brasil continuou colônia nas letras, que contestamos com patrióticos berros.”

Oswald de Andrade:

“Mas, senhores, é isso que vamos apresentar como expressão de cem anos de independência! Mas independência não é somente independência política, é acima de tudo independência mental e independência moral.”

Menotti del Picchia:

“Os paulistas, renovando as façanhas dos seus maiores, reeditam no século da gasolina, a epopéia das bandeiras.”

O Estado de S. Paulo:

“O trabalho do jovem e já consagrado escultor paulista, bela e audaciosa obra de arte, foge a todos os moldes até hoje seguidos para a concepção e realização dos monumentos comemorativos tomou do riquíssimo tema das bandeiras e sobre ele plasmou um potente trabalho escultural.”

Victor Brecheret:

“Essa figura enigmática que pompeia na frente do monumento, solene como uma deusa, é a Terra Brasileira. Foi ela quem os atraiu com o esplendor das suas promessas, monstro verde dos seios de ouro.”

Paulo Prado:

“Brecheret não imita nem copia os mestres do passado; é moderno na concepção e na execução. O escultor não pertence a nenhuma escola em ismo e da sua imaginação criadora brotam espontânea e ingenuamente as formas plásticas do seu sonho.”

Mário de Andrade:

“Brecheret, para melhor caracterizar o espírito dessas bandeiras e o sonho destes homens magníficos, usa do símbolo. Uma longa teoria de seres gigantescos, desnudos, avança lentamente para a conquista do ideal que os enleva. Os últimos deles, figuras dum movimento extraordinário, arrastam a barcaça que as corredeiras impediram de passar. Nada os detém.”

Victor Brecheret:

“O Movimento devia exprimir, na harmonia do seu conjunto, unificados em bloco, toda a audácia, o heroísmo, a abnegação, a força, expedidas em desvendar e integralizar o arcabouço geográfico da Pátria. É por isso que o monumento foi inicialmente concebido em bloco, exprimindo no seu conjunto, pela sóbria imponência de suas linhas e pela solidez dos seus grupos, as duas forças criadoras da Epopéia: Audácia consciente e Heroísmo abnegado.”

Menotti del Picchia:

“Brecheret é brasileiro, paulista, fruto de uma amálgama de raças caldeadas no nosso clima profundamente tocado pelas forças ambientes. Daí sua arte conservar algo visceralmente nosso, tropical, indígena, quer na expressão anatômica das suas figuras, quer no movimento bárbaro e interior que as anima.”

Di Cavalcanti:

“Brecheret realiza estes conceitos. Sua obra é a representação de um espírito maior. Está na altura dos grandes artistas, pela forma e pela ideia. O Brasil deve ter orgulho em possuir um artista como é o solitário escultor paulista. ”

Monteiro Lobato:

“Honesto, fisicamente sólido, moralmente emperrado na convicção de que o artista moderno não pode ser um mero ecletisador de formas revelhas e há de criar arrancando-se à tirania do autoritarismo clássico, Brecheret apresenta-se-nos com a mais séria manifestação de gênio escultural surgida entre nós.”

Di Cavalcanti:

“Victor Brecheret é na escultura brasileira uma força nova. Culto, criado num ambiente moderno, ele realiza sempre dentro dos mais puros ideais artísticos, obras cheias de verdade e personalidade. Na escultura brasileira Brecheret é o vulto maior.”

Menotti deI Picchia:

“Daqui há anos, quando o nome de Brecheret estiver, em Paris, os seus patrícios olharão agradecidos para o mármore soberbo, louvando aqueles que em boa hora dotaram São Paulo com uma da criações máximas da nossa capacidade artística.”

Mário de Andrade:

“Mas o Osvaldo sofreu golpe decisivo. Ficou doente. Doença deliciosa e gravíssima não registrada nos dicionários médicos. Mania de descobrir gênios. De repente todos nós viramos gênios. Di Cavalcanti era gênio. Menotti Del Picchia era gênio. Brecheret outro. Também Anita, Guilherme de Almeida e todos nós. Um limbo dantesco! Foram momentos de gostosa ebriedade. Que entusiasmo!”

Oswald de Andrade:

“Fui eu quem escreveu contra o ambiente oficial e definitivo, o primeiro artigo sobre Mário de Andrade e primeiro sobre Portinari.”

TODOS:

“na Cadillac mansa e glauca da ilusão

passa o Oswald de Andrade

mariscando gênios entre a multidão. “

Antonio Ferro:

“Oswald, na sua vibração contínua, na sua inteligência trepidante, na sua inteligência elétrica, no tumulto das suas palavras que atropelam como automóveis, é uma cidade, uma capital, um país. Oswald é o Brasil, o Brasil que se multiplica, o Brasil enorme, o Brasil que chega até Paris.”

Sérgio Milliet:

“Era um porão alto na praça da República. Alguns quadros de Di Cavalcanti, um busto de Brecheret e o gordo anfitrião Oswald de Andrade a descobrir gênios nos amigos. Os freqüentadores do porão eram tão diferentes de gostos e temperamentos que só mesmo a personalidade mais que complexa, surre alista, de Oswald os podia reunir num mesmo local.”

Sérgio Milliet:

“Você já ouviu falar de Villa-Lobos? Pois ele fez executar suas obras em Paris com sucesso. É um compositor vagamente ligado ao grupo dos Seis, mas o maior músico do Brasil assim mesmo.”

Ronald Carvalho:

“A música e Villa-Lobos é uma das mais perfeitas expressões da nossa cultura. Palpita nela a chama da nossa raça, do que há de mais belo e original na raça brasileira. Não é a índole portuguesa, africana ou indígena. O que ela nos mostra é uma entidade nova, o caráter especial de um povo que principia a se definir livremente.”

Sérgio Milliet:

“A música de Villa-Lobos é uma das mais perfeitas manifestações da alma brasileira. Feita de melancolia e de humor, ela traduz o que caracteriza esse povo jovem saído de um povo triste.”

Ronald Carvalho:

“Villa-Lobos sente a vida como uma criação contínua. Sua arte é masculina, imperiosa. Ele compreende a realidade como uma sucessão contínua de instantes, onde cada instante de degrada em movimentos infinitos. Ele não quer ser novo nem antigo, mas simplesmente Villa-Lobos.”

Mário de Andrade:

“A pré-consciência primeiro, e em seguida a convicção de uma arte nova, de um espírito novo viera se definindo no sentimento de um grupo de intelectuais paulistas. De primeiro foi um fenômeno estritamente sentimental, uma intuição divinatória, um estado de poesia. E ilhados na enchente de escândalo que tomara a cidade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase.”

Folha da Noite:

“Não é só um problema de estética, mas deve ser estudado como fenômeno de patologia mental. O desejo incontido de chamar a atenção, o desequilíbrio de alguns cérebros e o verdor da mocidade são os principais motivos e o que caracteriza os adeptos desta escola. ”

Oswald de Andrade:

“Considera-se um povo pela sua cultura; é a expressão máxima da raça. Passam os politiqueiros, passam os tiranos, passam os milionários e os agitadores de praça pública, apaga-se a memória dos que foram grandes à força, e ficam os artistas.”

Mário de Andrade:

“Osvaldo crê nas ideias que prega e nos seus próprios gestos. Daí viver assim entregando a alma como distribuidor de anúncios. Uma das faculdades que mais admiro em Osvaldo é esse poder certeiro de interessar e divertir. A raridade do bom palhaço vem disso.”

Oswald de Andrade:

“Eu nunca fui capaz de contar sílabas. A métrica era coisa a que minha inteligência não se adaptava, uma insubordinação a que eu me recusava terminantemente.”

Mário de Andrade:

“Osvaldo acredita no que faz. Está certo de que descobriu a pólvora e agora a arte vai se remodelar, faz. Tem assim duas das maiores riquezas do artista: fé criadora e dom de divertir. Admiráveis qualidades de clown.”

Oswald de Andrade:

“Último Passeio de Um Tuberculoso Pela Cidade De Bonde, o poema, descritivo, de inspiração urbana, mais lírico do que romântico, quando mostrado aos amigos, era pretexto para zombarias. Ao lê-lo ou ouvi-lo perguntavam, invariavelmente, da métrica e da rima.”

Carlos Drummond:

“Como todos os de sua geração, talvez sem saber, Oswald de Andrade está se sacrificando para que amanhã os nossos meninos tenham uma poesia com a cor e o cheiro do Brasil.”

A Noite:

“O que há no Brasil, o que ele e os seus companheiros fazem, é o modernismo, puro modernismo, isto é, guerra ao passadismo.”

Carlos Drummond:

“A grande tolice do meu amigo Oswald de Andrade é imaginar que descobriu o Brasil. Absolutamente não descobriu tal. O que ele fez foi descobrir-se a si mesmo. Verificou que era brasileiro, achou graça na história e acabou levando a sério a idéia de pátria.”

Mário de Andrade:

“Isolados do mundo ambiente, caçoados, evitados, achincalhados, malditos, ninguém não pode imaginar o delírio ingênuo de grandeza e convencimento pessoal com que reagimos. Qualquer página de qualquer um de nós jogava os outros a comoções prodigiosas, mas aquilo era genial!”

TODOS:

“O intelectual brilhante Oswald de Andrade

Divulgou lisamente, em seu artigo,

O plano de arrasar tudo o que antigo

For em Arte e bancar novidade.

E, para tal provar à saciedade,

Citou soberbos versos. Mas que digo?

Se nem os entendi! Perdoe o amigo

E não me leve a mal esta verdade!

Penso, no entanto, que o bizarre Artista.

Embora seja um poeta futurista,

Não é, por certo, um poeta futuroso.”

Mário de Andrade:

“Houve de fato reação. Mas que de inexatidões! que de injustiças! que de perversidades! A luta pudera ser bela e nobre: não foi mais que um acervo de leviandades, mentiras, baldões. As leviandades estiveram mais conosco, mas não os baldões nem as mentiras.”

Crítica:

“O último escândalo literário, proveniente da publicação dumas poesias de tendência modernista por Oswald de Andrade, trouxe-me o nojo de ver a leviandade com que as penas correm sobre o papel.”

Oswald de Andrade:

“O erro dos nossos censores é o erro de todos os envelhecidos: estão fora da psicologia do telégrafo sem fios, do aeroplano, da estrada empedrada de automóveis. Respeitemoolos. Mas que eles também respeitem o surto divino da metrópole cosmopolita.”

Mário de Andrade:

“Foi uma ruptura, foi um abandono de princípios e técnicas conseqüentemente, foi uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. ”

Oswald de Andrade:

“Um, Menotti, e outro, Ronald, combatem ao lado de Mário de Andrade, que é atacado pelos srs. parnasianos e maníacos da escolástica.”

Jornal do Comércio:

“Falta-lhe ardor, veemência, fulguração. Há trechos de prosa vil, enastoados em doses métricas, rematadas pelas rimas mais pobres.”

Menotti del Picchia:

“Fui fulminado com excomunhão maior. E eu sofri, porque era muito moço e tinha ainda vaidades. ”

Sousa Bandeira:

“Fala-nos o poeta dos seus sonhos, dos seus amores, do que supõe serem as suas desilusões, do que percebemos serem as suas crenças. E fala com arte, graça e entusiasmo. Que mais poderíamos desejar?”

Di Cavalcanti:

“A arte nos deve sempre trazer aos sentidos alguma coisa que faltava à nossa sensibilidade, ou que dentro dela adormecera. Se não traz, se é apenas reprodução do que estamos acostumados a ver sobre outra modalidade então não é arte.”

Menotti del Picchia:

“Com mais alguns anos e mais uns gestos desses, poderemos declamar São Paulo livre da endemia dos burros, mal que tantos estragos tem feito entre nós.”

Ronald Carvalho:

“É dos modernos rapsodos de S. Paulo que eu falo, agora. Eles são os bandeirantes de uma cruzada única, por enquanto no Brasil. Diante deles estava uma terra cansada, esgotada, empobrecida: a terra das letras nacionais. Eles trouxeram sementes novas e as lançaram, cantando, no chão fatigado. E o chão se abriu, de repente, em floradas impetuosas, e uma folhagem, picada de flores e de frutos virgens, se alastrou por toda a parte.”

Menotti del Picchia:

“É preciso reagir. É preciso esfacelarem-se os velhos e râncidos moldes literários, reformar-se a técnica, arejar-se o pensamento surrado no eterno uso das mesmas imagens. A vida não para e a arte é vida. Mostraremos, afinal, que no Brasil não somos um montão inerte e inútil de cadáveres.”

Mário de Andrade:

“Embora aqueles primeiros modernistas das cavernas, que nos reunimos em tomo da pintora Anitta Malfatti e do escultor Vitor Brecheret, tenhamos como que apenas servido de altiJalantes de uma força universal e nacional muito mais complexa que nós. Força vital que viria mesmo porque tudo isso que se faria, mesmo sem o movimento modernista, seria pura e simplesmente o movimento modernista.”

Menotti del Picchia:

“O aspecto de nossa vida mudou; a arte, que é o seu comentário, segue-lhe as pegadas, surgirá uma estética original e nossa, tocada de regionalismo amplo, fruto da fixação do tipo étnico nacional. Será essa a arte brasileira independente, sonhada pelos nacionalistas de visão larga.”

Correio Paulistano:

“Estamos numa fase de evolução, ou melhor, de gênese, em que todos os valoressartísticos, morais, sociais, raciais – existentes no país tendem a fundir-se para daí nascer um tipo. Tipo de tudo: raça, costumes, pensamento, estética. Estamos absorvendo.”

Menotti del Picchia:

“Tudo isso – e o automóvel, os fios elétricos, as usinas, os aeroplanos, a arte – tudo isso forma os nossos elementos da estética moderna, fragmentos de pedra com que construiremos, dia a dia, a Babel do nosso Sonho, no nosso desespero de exilados de um céu que fulge lá em cima, para o qual galgamos na ânsia devoradora de tocar com as mãos as estrelas.”

A Gazeta:

“Um grupo de distintos cavalheiros da nossa sociedade vai tentar a organização de um sarau futurista, que será sem dúvida, o maior escândalo artístico de que se tem notícia em São Paulo. Nós, que pensamos que a grande arte deve ser compreendida por todos, prometemos desde já a nossa crítica severa contra a iniciativa.”

Mário de Andrade:

“O período heroico, fora esse anterior, iniciado com a exposição de pintura de Anita Malfatti e terminado na festa da Semana de Arte Moderna.”

Menotti del Picchia:

“Essa vitória dá o que pensar. Pelo menos dá para pensar nisto:

1°) Que há muitos cérebros atrasados entre nós.

2°) Que esses cérebros representam a maioria.

3°) Que em matéria de arte estamos no período da pedra lascada.

4°) Que há um pequeno grupo, o tal caluniado grupo futurista, que parece enxergar mais que outros.”

Recortes Modernos – II Ato

recortes modernos capa

O CASO MALFATTI

Os acontecimentos em terras brasileiras em 1917 (o ano da primeira exposição de pintura moderna de Anita Malfatti); a repercussão da nova arte; a agressividade de Monteiro Lobato em suas críticas servindo para unir os que tentavam articular individualmente a estética modernista nacional.

  

anita

  

Paim Vieira:
“Nossa realidade era a realidade do fazendeiro rico na cidade, com os pretos sambando nos morros. As manifestações artísticas desejosas de estar a par do que se fazia na Europa eram mantidas artificialmente.”

  

Jornal do Comércio:
“O ambiente sufocante em que se estraçalham as nossas capacidades artísticas e se esgotam inutilmente as energias da juventude que luta e que trabalha, envenena quase todos os produtos do pensamento humano que se lembra de vir à luz nessas paragens.”

  

Oswald de Andrade:
“Não poderia dizer como conheci Lasar Segall. Talvez numa das reuniões avinhadas da Vila Kirial enquanto eu fazia um jornalzinho tumultuário, Segall realiza em 1913 a primeira exposição de arte moderna no Brasil.”

  

Mario Brito:
“Anita Malfatti se afirmará na sua posição legítima de despertadora do movimento moderno. A prova de qualquer revolução é a luta, a briga. Eu desafio quem quer que seja a produzir documentos que denunciem diante da exposição de 1913 o menor prurido da revolta, a menor consequência sequer de um movimento. ”

  

Mário de Andrade:
“Lasar Segall está de posse duma data. Isso ninguém pode lhe tirar, nem quer.”

  

Correio Paulistano:
“A exposição, estamos certos, fará sucesso em São Paulo, pois trata-se de um artista de uma muito interessante técnica, ainda quase não conhecida em nosso meio.”

  

Mário de Andrade:
“A presença do moço expressionista era por demais prematura para que a arte brasileira então em plena unanimidade acadêmica, se fecundasse com ela. ”

  

O Estado de São Paulo:
“Não é o Sr. Segall um pintor cuja personalidade se tenha afirmado de modo definitivo, mas é incontestavelmente um talento vigoroso e revela uma verdadeira alma de artista.”

  

Mário de Andrade:
“Este movimento modernizante de arte quem se vem delineando cada vez mais nítido e rico, teve em São Paulo o seu início. Quem primeiro trouxe uma sistematizada de arte moderna para o Brasil foi Anita Malfatti.”

 

Correio Paulistano:
“A arte da Srta. Malfatti se distancia consideravelmente dos métodos clássicos. Apresenta um aspecto original e bizarro, desde a disposição dos quadros aos motivos tratados em cada um deles. Esta é a arte que se faz atualmente nos mais adiantados meios de cultura.”

 

Mário de Andrade:
“Anita Malfatti é um nome definitivamente colocado na história da arte brasileira. Original e corajosa, foi ela antes de qualquer outro quem deu o grito de alarma aqui, avisando da existência de uma arte contemporânea com que nem sonhávamos.”

 

Oswald de Andrade:
“Em 1917, quando Di Cavalcanti chegava a essa capital, trazendo sua arte nervosa e cerebral, a grande Anita Malfatti expunha pela primeira vez. E diante de ambos, o público pasmou à espera talvez de que lhe dissessem os caminhos novos que traziam os dois perturbadores artistas.”

 

Di Cavalcanti:
“Em 1917 realizei na redação da Cigarra, rua de São Bento, uma exposição muito individual. Não sei se outros antes de 17 expuseram, mas a verdade é que a minha exposição era antiacadêmica.”

 

Vida Moderna:
“Filiada à mais moderna escola de pintura a Srta. Anita Malfatti executa com uma largueza e uma liberdade inexcedíveis os seus trabalhos, manchando as paisagens a largas pinceladas violentas, com a segurança de quem se sente absolutamente à vontade na sua arte.”

 

Mário de Andrade:
“Quando ela voltou pra São Paulo depois dos estudos na Alemanha estava artista livre e completa. Possuía uma técnica fortíssima dirigida pra orientação artística a que se filiaria.”

 

Vida Moderna:
“Uma arte adiantada e, por isso mesmo nem sempre acessível ao grande público, é visitada por avultado número de artistas e amadores, tendo sido já adquiridos boa cópia de trabalhos.”

 

Jornal do Comércio:
“Três desses trabalhos foram imediatamente adquiridos.”

 

Monteiro Lobato:
“Não fosse a profunda simpatia que nos inspira o formoso talento da Sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis. Se víssemos na Sra. Malfatti apenas uma moça que pinta, como há centenas por aí, sem denunciar centelha de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meio dúzia desses adjetivos bombons, que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças.”

 

Anita Malfatti:
“Essa coisa tão simples trouxe uma tempestade de protestos, insultos e divagações de pura invencionice, sem nenhum fundamento.”

 

Monteiro Lobato:
“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida. A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza, e a interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.”

 

Mário de Andrade:
“Vejo nela uma das mais fortes expressões da faculdade artística nacional. Deixo-lhe aqui a afirmativa desassombrada do meu grandíssimo entusiasmo; e também a minha admiração pela calma firmeza com que, entre incréus e indiferentes, vai construindo na sua obra um exemplo que infelizmente não é para os nossos dias.”

 

Osvald de Andrade:
“As suas telas chocam o preconceito fotográfico que geralmente se leva no espírito para as nossas exposições de pintura. A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleigrafia.”

 

Vida Moderna:
“Choca, por isso às vezes, o observador, – pouco afeito àquele genero de pintura, – mas ninguém, ao fim de algum tempo de observação, deixa de reconhecer na expositora um formoso e original talento e, nos seus quadros, brilhantes qualidades técnicas, de observação e de colorido.”

 

Oswald de Andrade:
“De fato, o artista é um ser de privilégio que produz um mundo, supraterreno, antifotográfico, irreal que seja, mas um mundo existente, chocante e profundo, deflagrado a qualquer faísca divina.”

 

Monteiro Lobato:
“Embora eles se deem como novos, precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação. De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvida por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, sem nenhuma lógica, sendo mistificação pura.”

 

Osvald de Andrade:
“Diante disso, surgem desencontrados comentários e críticas exacerbadas. No entanto, um pouco de reflexão, desfaria, sem dúvida, as mais severas atitudes. Na arte, a realidade e a ilusão é o que todos procuram. Anita Malfatti é um temperamento nervoso e uma intelectualidade apurada, a serviço do seu século. A ilusão que ela constrói é particularmente comovida, é individual e forte e carrega consigo as próprias virtudes e os próprios defeitos da artista.”

 

Menotti del Picchia:
“Anita Malfatti foi chefe da vanguarda na arrancada inicial do movimento moderno da vanguarda na arrancada inicial do movimento modernista na pintura de São Paulo. Sua arte mereceu a honra consagradora do martírio: foi recebida a pedradas.”

 

Revista do Brasil:
“A Srta. Malfatti, a pretexto de romper com as convenções da arte aceita, adotou sem discutir todo o estapafúrdio convencionalismo de uma falsa arte em que só se exibem os ralés e os desequilibrados.”

 

Osvald de Andrade:
“Numa pequena nota cabe apenas o aplauso a quem se arroja a expor, no nosso pequeno mundo de arte, pintura tão pessoal e tão moderna. Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e da sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades.”

 

Anita Malfatti:
“A arte chamada moderna é por sua própria razão de ser, individual. O interesse da arte está na sua variedade infinita, é a escrita que cada um de nós tem dentro de si. Nem todas as obras são belas, mas todas são diferentes e têm a sua história. Devemos ir ao encontro da arte com despreocupação e com o espírito livre.”

 

Monteiro Lobato:
“Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Entretanto, seduzi da pelas teorias do que ela chama de arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.”

 

Mário de Andrade:
Homo Imbecilis acabará entregando os pontos à grandeza do seu destino.”

 

Menotti del Picchia:
“Deixo a Lobato a responsabilidade de me ter posto no mau caminho, no julgamento dos quadros da minha ilustre patrícia, certo de que o autor fará, logo que reconheça o seu erro, sua penitência pública. Estou certo de que será o primeiro a fazer justiça à vibrante criadora de uma arte moderna, forte, livre, penitenciando-se do mal que, com tanta injustiça e irreflexão, fez.”

 

Anita Malfatti:
“A visão toma-se sempre obscurecida com os óculos da opinião alheia. A arte moderna é a expressão do indivíduo de hoje. Ninguém ainda soube criticar um trabalho de inspiração individual pois não havendo precedentes só poderiam limitar-se a um insulto. É preciso porém, ter coragem, ou como no meu caso, a inconsciência do protesto das grandes casas acadêmicas construídas para o sustento de estruturas já arrumadas pelas gerações que passaram. ”

 

Monteiro Lobato:
“Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós sentimos; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em panne por virtude de alguma grave lesão.”

 

Mário de Andrade:
“Ninguém pensava em sacrifício, ninguém bancava o incompreendido, nenhum se imaginava precursor nem mártir: éramos uma arrancada de heróis convencidos. E muito saudáveis. ”

 

Anita Malfatti:
“Num sábado chegaram dois rapazes numa chuvarada. Começaram a rir a toda e um deles não parava. Eu fiquei furiosa e pedi satisfação. Quanto mais eu zangava, mais o tal não se continha. Afinal meio que sossegou e ao sair apresentou-se: Sou o poeta Mário Sobral. Dias depois muito sério se despede e me oferece um soneto parnasiano sobre o Homem Amarelo.”

 

Mário de Andrade:
“A um destes, o Homem Amarelo, eu dedicava até um soneto, ricamente rimado, bem parnasianozinho. ”

 

Osvald de Andrade:
“A distinta artista conseguiu, para o meio, um bom proveito, agitou-o, tirou-o da sua tradicional lerdeza de comentários e a nós deu uma das mais profundas impressões da boa arte.”

 

Monteiro Lobato:
“Na poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos, e a justificativa é sempre a mesma: arte moderna.”

 

Anita Malfatti:
“Quando viram minhas telas, todas acharam-nas feias, dantesca, e todos ficaram tristes, não eram os santinhos dos colégios. Guardei as telas.”

 

Oswald de Andrade:
“Encerra-se hoje a exposição da pintora paulista Sra. Anita Malfatti, que durante um mês, levou ao salão da Rua Líbero Badaró, 111, uma constante romaria de curiosos.”

 

Mário de Andrade:
“Quando viu a obra modernista que apresentava repudiada com insulto e cada gargalhada besta, Anita Malfatti fraquejou. Não sei de alma carecendo mais de ser compreendida, amada e louvada que a dessa sensitiva do Brasil. ”

 

Anita Malfatti:
“Críticos de arte, o Brasil não possuía então. Não não havia museus só de arte, não havia estudos especializados sobre a crítica construtiva que muita falta nos fez.”

 

Mário de Andrade:
“Ninguém pode imaginar a curiosidade, o ódio, o entusiasmo que Anita Malfatti despertou. ”

 

Menotti del Picchia:
“Anita Malfatti passou então para o nosso martirológico artístico. Resultado: ganhando terreno o modernismo, a pintora ilustre tomou-se uma espécie de santa da ala demoníaca dos reformadores. Seu nome traz o prestígio dos taumaturgos e dos mártires.”

 

Oswald de Andrade:
“Fora eu o único a responder, na hora, ao assalto desastrado com que Monteiro Lobato encerrou a carreira de Anita Malfatti.”

 

Mário de Andrade:
“O artigo contra do pintor Monteiro Lobato, embora fosse um chorrilho de tolices, sacudiu uma população, modificou uma vida.”

 

Menotti del Picchia:
“A crítica. Não falemos nessa megera.”

 

Mário de Andrade:
“Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre. Ela ocultava-se.”

 

Menotti del Picchia:
“Mulher singular, que, quando não tivesse outro mérito, teria o de haver rompido, com audácia de arte independente e nova, a nossa sonolência de retardatários e paralíticos da pintura.”