POR DE TRÁS DOS MONTES I

Aproveito o clima de centenário, e o delicioso encarte especial publicado pelo Jornal O Estado de São Paulo sobre a Revolta do Contestado (http://topicos.estadao.com.br/contestado) para apresentar a minha tese acadêmica sobre a maior revolta civil do Século XX no Brasil, e que misteriosamente quase ninguém ouviu falar. O mais interessante do meu trabalho é que ele foi orientado sobre o prisma da Geografia. O trabalho do Estadão é um jornalismo que não resgata o conflito no que ele realmente foi, até porque não é essa a sua função. A Geografia estuda a distribuição das coisas sobre o planeta Terra. E entender a Revolta do Contestado passa por entender como as coisas se distribuíram em Santa Catarina. A História, dirá que a Revolta aconteceu assim, iniciando-se e desenvolvendo-se em uma sucessão de fatos. A Antropologia tentará entender a organização cabocla, como a irmandade se reuniu, os simbolismos em suas práticas. Mas é pela Geografia que está a resposta para a essência do movimento. É, antes de tudo, a luta pela posse da terra a maior questão envolvida. Analisar como se dá o avanço sobre as ricas terras do interior de Santa Catarina é a melhor maneira de entender como milhares de brasileiros desafiaram o exército nacional, resistindo por 4 anos. Mas como falar em questão agrária neste país de latifúndios é um tabu, o pouco do que se diz do Contestado é disfarçado por sua característica de fundo religioso, são fanáticos, uma nova Canudos do Sul contra a República, enfim, quando alguma informação chega à público, o foco é desviado da verdadeira questão central. Em boa hora, resgato esse trabalho de 1999, que lança uma nova luz sobre os sangrentos eventos de Santa Catarina.

POR DE TRÁS DOS MONTES

A REVOLTA SERTANEJA NO CONTESTADO

(1912–1916)

INTRODUÇÃO

Foi durante o que conhecemos por República Velha, entre os anos de 1912 e 1916, que estourou no planalto catarinense um dos mais sangrentos episódios do Século XX, em terras brasileiras. Quase a totalidade do exército nacional da época foi mobilizado para reprimir a organização própria que os moradores do interior de Santa Catarina, liderados por monges messiânicos, instauraram nos campos altos.

O número de civis envolvidos chegou aos 20.000 (Canudos contou com 8.000 vítimas). Ali foram realizados os primeiros bombardeios aéreos das forças armadas brasileiras, contra o povo que deveriam defender. Uma “bela glória” para nossa tão “imaculada” armada, que já exterminara quase toda a população masculina do Paraguai. E que já estava se habituando ao massacre, como nos relata Euclides da Cunha, em Os Sertões.

Por muitas vezes, o fenômeno é dado como um surto messiânico, um bando de fanáticos a perturbar a “Ordem e Progresso”, lema da bandeira republicana. Uma interpretação minimalista é atribuir ao movimento a defesa da Monarquia, contra a recém-instaurada República de 1889, uma vez que o beato João Maria, líder espiritual dos caboclos, baseava seu discurso no livro de Carlos Magno e os Doze Pares de França, símbolo do monarquismo absolutista da Idade Média.

O pouco que se fala sobre o assunto em muito chega a ser uma errônea comparação à revolta de Antônio Conselheiro, classificando a rebelião do Contestado como a “Canudos do Sul”.

Mas, através de uma análise geográfica dos fatos, procuraremos entender o processo que levou famílias inteiras a se transformarem em perigosos bandidos, que durante quatro longos anos resistiram às forças nacionais e aos interesses internacionais, pondo em risco a posse e o usufruto de vasto território catarinense.

O movimento foi antes de tudo um processo de luta contra a ordem capitalista vigente, que os marginalizava, que os excluía cada vez mais do processo produtivo, do processo da própria sobrevivência.

Os caboclos do Oeste de Santa Catarina viviam isolados do restante do país. Eram na sua grande parte analfabetos, dentro de uma estrutura coronelística, num mandacionismo local. Sobreviviam do campo, e nele fundaram sua irmandade através das Cidades Santas.

O povo, sempre deixado de lado pelos poderes públicos e locais, viu nos discursos dos monges a promessa de dias melhores. Rapidamente, os que nada tinham eram alguém. Faziam parte de uma sociedade que gerenciava o seu próprio território em benefício de si.

As transformações por que passava o país, no plano político e administrativo, com a instauração da República, trazia consigo alterações fundamentais no mandonismo.

Institucionaliza-se a propriedade privada da terra, surgem novas formas de produção e de relações de trabalho. O sistema de compadrio se rompe, e se distancia o relacionamento entre frades e monges.

As causas originais do conflito incluem uma variedade de condições objetivas e subjetivas e não podem ser entendidas apenas como de natureza eminentemente religiosa. Os caboclos, ao negarem a ordem capitalista em constituição, responderam com uma organização crescente, até encontrarem o limite imposto pelas tropas federais do General Setembrino.

Derval Peixoto, militar presente nos combates, através da observação direta da realidade, analisou a situação sob o seguinte foco, “… a região contestada esteve sempre entregue ao despotismo dos chefes locais, ao desvario de uma sorte inumerável de crimes mal apurados e ao desmando de caudilhos temíveis…”, acrescentando ainda “… esses têm sido os propulsores morais das causas que levaram à rebeldia, como recurso de defesa, os sertanejos ignorantes e espoliados pelos prepotentes.”

Pois é este novo sentido para a Revolta do Contestado que estaremos a procurar. Um sentido enraizado na terra, ou na posse desta, o principal produto colocado em cheque pelo conflito.

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