POR DE TRÁS DOS MONTES VI

Estamos chegando ao fim do trabalho, isto é, o início do massacre. Analisamos aqui as causas da Guerra do Contestado, que pouca gente conhece, ou o que conhece não diz toda a verdade. Não, o Contestado não foi uma “Canudos do Sul”, com um monte de sertanejo ignorante seguindo um líder religioso maluco. Foi antes de tudo a necessidade do Capital em limpar a área de seus antigos moradores, para ali implemetar um projeto claro de gestão do território. Além de eliminar o povo, também acabou-se com toda a Araucária de Santa Catarina.

 

 

AS TERRAS

 

A expulsão dos posseiros iniciou-se em 1911. Um corpo de segurança foi criado para agredir os moradores que se recusavam a sair das terras cedidas à Companhia. Os grupos eram formados por duzentos homens de índole violenta. Incendiavam casas, roças, chegando a cometer verdadeiras chacinas, exterminando famílias inteiras.

Cada vez mais, crescia a massa de caboclos que já não tinham mais condições de produzir seus próprios recursos de subsistência. Estes novos excluídos viriam a se somar a ervateiros, peões, posseiros em geral, que há tempos vinham caminhando à margem do sistema econômico que se estabelecia no Contestado.

A disputa pela terra faz-se cada vez mais acirrada. Ela passa a ser cada vez mais percebida como uma fonte de renda. Logo após a inserção do capital estrangeiro na região, a terra passa da sua condição de bem de uso para a condição de mercadoria, transformando-se em bem de produção. A institucionalização da propriedade privada substitui a ordem anterior, de ocupação e posse.

 

A MADEIRA E O PROJETO COLONIZADOR

 

O projeto de exploração do meio-oeste catarinense concretiza-se com a criação da Southern Brazil Lumber Company, subsidiária da Brazil Railway, em 1909. A companhia iria extrair os vastos recursos madeireiros da região. São contruídas duas imensas serrarias, iniciando-se assim a devastação de pinheirais seculares.

A unidade maior estava localizada em Três Barras, numa área de 180.000 hectares, e logo deu origem a uma cidade. Sua produção era destinada aos portos de São Francisco e Paranaguá, através da ferrovia. Esta serraria chegou a cortar 300 m3 por dia, a maior produção em toda a América do Sul.

A outra instalação é erguida em Calmon, sede do escritório da ferrovia, numa área de 52.000 hectares, nas nascentes do Rio do Peixe, ao Sul de Porto União. Ali eram produzidos dormentes dos trilhos e madeiras para a construção das estações, casas, depósitos e armazéns da Companhia.

Contratos estabelecidos entre fazendeiros e a serraria garantiam o direito de exploração de centenas de quilômetros de florestas, muito além dos já pertencentes à empresa. O impacto desse empreendimento, que contava com reduzida mão-de-obra, agilidade nos transportes e produção em larga escala, acarretou uma crise na pequena indústria local.

O trabalho de extração, tratamento e armazenagem das toras era relativamente mecanizado, e portanto não representou um incremento na oferta de empregos para o caboclo excluído de toda sorte de ocupação.

Em 1913, a madeireira muda seu estatuto, transformando-se em Southern Brazil Lumber and Colonization Company.  Colonos alemães, italianos e poloneses que já estavam nos Estados do Rio Grande do Sul e do Paraná são atraídos pelas propostas da empresa.

A limpeza humana efetivada pelo corpo de segurança da Companhia já estava concluída. Com a expulsão de todos os posseiros do território, vários núcleos coloniais se formam ao longo das férteis terras do vale do rio do Peixe.

A atividade agrícola, que até então era representada pela cultura de subsistência, passa a produzir excedentes. Os produtos alimentares abasteceriam a região da cafeicultura paulista e o mercado internacional, através dos trens do grupo estrangeiro.

 

RUPTURA COM O CORONELISMO E COM O CATOLICISMO OFICIAL

 

A estrutura de mando do coronelismo fica abalada com o surgimento desses novos agentes econômicos na região. Os interesses do capital levam ao rompimento das associações entre o coronel e seus dominados, alterando o gênero de vida costumeiro do sertanejo.

Relações de trabalho até então desconhecidas se fazem presentes. Surgem novas modalidades de controle. As companhias estrangeiras dispunham de polícia própria, que não estavam mais atreladas aos interesses de um determinado fazendeiro. Os novos jagunços são tropas estritamente mercenárias, sem vínculos de compadrio.

A figura do monge João Maria representava a possibilidade de negação à realidade vigente, fortemente opressora. Frente à pobreza, à insegurança e à violência reinantes, ele traz a proteção das forças sagradas. Considerado um grande curandeiro, sua força milagrosa transmitia-se a tudo o que fosse por ele tocado.

João Maria, assim como os demais monges que o seguiram, simbolizava a autoridade justa, o médico, o padre, o professor, anunciando ainda a vinda de novos tempos em que a felicidade, a fartura e a justiça se fariam presentes.

Era comum a realização de dois batismos, um batismo intraclasse (onde o padrinho e o pai da criança vinham da mesma classe social), que era efetivado pelo monge ou outro religioso leigo. O segundo batismo, este interclasse (onde o padrinho era de maior estirpe que os pais, geralmente um coronel), era celebrado por padre católico.

O catolicismo rústico do Contestado desvia-se cada vez mais da ortodoxia da Igreja. Os pais passam a preferir que os filhos sejam batizados exclusivamente pelo monge e que ele mesmo fosse o padrinho. O poder representado por João Maria sobrepujava o poder dos coronéis e padres, na hora do sacramento.

O Frei Rogério Neuhaus, franciscano que mais teve contato como os paroquianos do sertão, encontrava vários meninos e meninas com até doze anos de idade que, sem batismo, esperavam a passagem do monge para celebrar o ato leigo.

A crise institucional do poder de compadrio e do poder da Igreja agrava-se na medida em que os rebeldes vão criando uma nova visão de mundo. A radicalização do movimento tomará força progressiva, até a deflagração da Guerra do Contestado.

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