Recortes Modernos – II Ato

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O CASO MALFATTI

Os acontecimentos em terras brasileiras em 1917 (o ano da primeira exposição de pintura moderna de Anita Malfatti); a repercussão da nova arte; a agressividade de Monteiro Lobato em suas críticas servindo para unir os que tentavam articular individualmente a estética modernista nacional.

  

anita

  

Paim Vieira:
“Nossa realidade era a realidade do fazendeiro rico na cidade, com os pretos sambando nos morros. As manifestações artísticas desejosas de estar a par do que se fazia na Europa eram mantidas artificialmente.”

  

Jornal do Comércio:
“O ambiente sufocante em que se estraçalham as nossas capacidades artísticas e se esgotam inutilmente as energias da juventude que luta e que trabalha, envenena quase todos os produtos do pensamento humano que se lembra de vir à luz nessas paragens.”

  

Oswald de Andrade:
“Não poderia dizer como conheci Lasar Segall. Talvez numa das reuniões avinhadas da Vila Kirial enquanto eu fazia um jornalzinho tumultuário, Segall realiza em 1913 a primeira exposição de arte moderna no Brasil.”

  

Mario Brito:
“Anita Malfatti se afirmará na sua posição legítima de despertadora do movimento moderno. A prova de qualquer revolução é a luta, a briga. Eu desafio quem quer que seja a produzir documentos que denunciem diante da exposição de 1913 o menor prurido da revolta, a menor consequência sequer de um movimento. ”

  

Mário de Andrade:
“Lasar Segall está de posse duma data. Isso ninguém pode lhe tirar, nem quer.”

  

Correio Paulistano:
“A exposição, estamos certos, fará sucesso em São Paulo, pois trata-se de um artista de uma muito interessante técnica, ainda quase não conhecida em nosso meio.”

  

Mário de Andrade:
“A presença do moço expressionista era por demais prematura para que a arte brasileira então em plena unanimidade acadêmica, se fecundasse com ela. ”

  

O Estado de São Paulo:
“Não é o Sr. Segall um pintor cuja personalidade se tenha afirmado de modo definitivo, mas é incontestavelmente um talento vigoroso e revela uma verdadeira alma de artista.”

  

Mário de Andrade:
“Este movimento modernizante de arte quem se vem delineando cada vez mais nítido e rico, teve em São Paulo o seu início. Quem primeiro trouxe uma sistematizada de arte moderna para o Brasil foi Anita Malfatti.”

 

Correio Paulistano:
“A arte da Srta. Malfatti se distancia consideravelmente dos métodos clássicos. Apresenta um aspecto original e bizarro, desde a disposição dos quadros aos motivos tratados em cada um deles. Esta é a arte que se faz atualmente nos mais adiantados meios de cultura.”

 

Mário de Andrade:
“Anita Malfatti é um nome definitivamente colocado na história da arte brasileira. Original e corajosa, foi ela antes de qualquer outro quem deu o grito de alarma aqui, avisando da existência de uma arte contemporânea com que nem sonhávamos.”

 

Oswald de Andrade:
“Em 1917, quando Di Cavalcanti chegava a essa capital, trazendo sua arte nervosa e cerebral, a grande Anita Malfatti expunha pela primeira vez. E diante de ambos, o público pasmou à espera talvez de que lhe dissessem os caminhos novos que traziam os dois perturbadores artistas.”

 

Di Cavalcanti:
“Em 1917 realizei na redação da Cigarra, rua de São Bento, uma exposição muito individual. Não sei se outros antes de 17 expuseram, mas a verdade é que a minha exposição era antiacadêmica.”

 

Vida Moderna:
“Filiada à mais moderna escola de pintura a Srta. Anita Malfatti executa com uma largueza e uma liberdade inexcedíveis os seus trabalhos, manchando as paisagens a largas pinceladas violentas, com a segurança de quem se sente absolutamente à vontade na sua arte.”

 

Mário de Andrade:
“Quando ela voltou pra São Paulo depois dos estudos na Alemanha estava artista livre e completa. Possuía uma técnica fortíssima dirigida pra orientação artística a que se filiaria.”

 

Vida Moderna:
“Uma arte adiantada e, por isso mesmo nem sempre acessível ao grande público, é visitada por avultado número de artistas e amadores, tendo sido já adquiridos boa cópia de trabalhos.”

 

Jornal do Comércio:
“Três desses trabalhos foram imediatamente adquiridos.”

 

Monteiro Lobato:
“Não fosse a profunda simpatia que nos inspira o formoso talento da Sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis. Se víssemos na Sra. Malfatti apenas uma moça que pinta, como há centenas por aí, sem denunciar centelha de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meio dúzia desses adjetivos bombons, que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças.”

 

Anita Malfatti:
“Essa coisa tão simples trouxe uma tempestade de protestos, insultos e divagações de pura invencionice, sem nenhum fundamento.”

 

Monteiro Lobato:
“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida. A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza, e a interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.”

 

Mário de Andrade:
“Vejo nela uma das mais fortes expressões da faculdade artística nacional. Deixo-lhe aqui a afirmativa desassombrada do meu grandíssimo entusiasmo; e também a minha admiração pela calma firmeza com que, entre incréus e indiferentes, vai construindo na sua obra um exemplo que infelizmente não é para os nossos dias.”

 

Osvald de Andrade:
“As suas telas chocam o preconceito fotográfico que geralmente se leva no espírito para as nossas exposições de pintura. A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleigrafia.”

 

Vida Moderna:
“Choca, por isso às vezes, o observador, – pouco afeito àquele genero de pintura, – mas ninguém, ao fim de algum tempo de observação, deixa de reconhecer na expositora um formoso e original talento e, nos seus quadros, brilhantes qualidades técnicas, de observação e de colorido.”

 

Oswald de Andrade:
“De fato, o artista é um ser de privilégio que produz um mundo, supraterreno, antifotográfico, irreal que seja, mas um mundo existente, chocante e profundo, deflagrado a qualquer faísca divina.”

 

Monteiro Lobato:
“Embora eles se deem como novos, precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação. De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvida por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, sem nenhuma lógica, sendo mistificação pura.”

 

Osvald de Andrade:
“Diante disso, surgem desencontrados comentários e críticas exacerbadas. No entanto, um pouco de reflexão, desfaria, sem dúvida, as mais severas atitudes. Na arte, a realidade e a ilusão é o que todos procuram. Anita Malfatti é um temperamento nervoso e uma intelectualidade apurada, a serviço do seu século. A ilusão que ela constrói é particularmente comovida, é individual e forte e carrega consigo as próprias virtudes e os próprios defeitos da artista.”

 

Menotti del Picchia:
“Anita Malfatti foi chefe da vanguarda na arrancada inicial do movimento moderno da vanguarda na arrancada inicial do movimento modernista na pintura de São Paulo. Sua arte mereceu a honra consagradora do martírio: foi recebida a pedradas.”

 

Revista do Brasil:
“A Srta. Malfatti, a pretexto de romper com as convenções da arte aceita, adotou sem discutir todo o estapafúrdio convencionalismo de uma falsa arte em que só se exibem os ralés e os desequilibrados.”

 

Osvald de Andrade:
“Numa pequena nota cabe apenas o aplauso a quem se arroja a expor, no nosso pequeno mundo de arte, pintura tão pessoal e tão moderna. Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e da sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades.”

 

Anita Malfatti:
“A arte chamada moderna é por sua própria razão de ser, individual. O interesse da arte está na sua variedade infinita, é a escrita que cada um de nós tem dentro de si. Nem todas as obras são belas, mas todas são diferentes e têm a sua história. Devemos ir ao encontro da arte com despreocupação e com o espírito livre.”

 

Monteiro Lobato:
“Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Entretanto, seduzi da pelas teorias do que ela chama de arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.”

 

Mário de Andrade:
Homo Imbecilis acabará entregando os pontos à grandeza do seu destino.”

 

Menotti del Picchia:
“Deixo a Lobato a responsabilidade de me ter posto no mau caminho, no julgamento dos quadros da minha ilustre patrícia, certo de que o autor fará, logo que reconheça o seu erro, sua penitência pública. Estou certo de que será o primeiro a fazer justiça à vibrante criadora de uma arte moderna, forte, livre, penitenciando-se do mal que, com tanta injustiça e irreflexão, fez.”

 

Anita Malfatti:
“A visão toma-se sempre obscurecida com os óculos da opinião alheia. A arte moderna é a expressão do indivíduo de hoje. Ninguém ainda soube criticar um trabalho de inspiração individual pois não havendo precedentes só poderiam limitar-se a um insulto. É preciso porém, ter coragem, ou como no meu caso, a inconsciência do protesto das grandes casas acadêmicas construídas para o sustento de estruturas já arrumadas pelas gerações que passaram. ”

 

Monteiro Lobato:
“Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós sentimos; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em panne por virtude de alguma grave lesão.”

 

Mário de Andrade:
“Ninguém pensava em sacrifício, ninguém bancava o incompreendido, nenhum se imaginava precursor nem mártir: éramos uma arrancada de heróis convencidos. E muito saudáveis. ”

 

Anita Malfatti:
“Num sábado chegaram dois rapazes numa chuvarada. Começaram a rir a toda e um deles não parava. Eu fiquei furiosa e pedi satisfação. Quanto mais eu zangava, mais o tal não se continha. Afinal meio que sossegou e ao sair apresentou-se: Sou o poeta Mário Sobral. Dias depois muito sério se despede e me oferece um soneto parnasiano sobre o Homem Amarelo.”

 

Mário de Andrade:
“A um destes, o Homem Amarelo, eu dedicava até um soneto, ricamente rimado, bem parnasianozinho. ”

 

Osvald de Andrade:
“A distinta artista conseguiu, para o meio, um bom proveito, agitou-o, tirou-o da sua tradicional lerdeza de comentários e a nós deu uma das mais profundas impressões da boa arte.”

 

Monteiro Lobato:
“Na poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos, e a justificativa é sempre a mesma: arte moderna.”

 

Anita Malfatti:
“Quando viram minhas telas, todas acharam-nas feias, dantesca, e todos ficaram tristes, não eram os santinhos dos colégios. Guardei as telas.”

 

Oswald de Andrade:
“Encerra-se hoje a exposição da pintora paulista Sra. Anita Malfatti, que durante um mês, levou ao salão da Rua Líbero Badaró, 111, uma constante romaria de curiosos.”

 

Mário de Andrade:
“Quando viu a obra modernista que apresentava repudiada com insulto e cada gargalhada besta, Anita Malfatti fraquejou. Não sei de alma carecendo mais de ser compreendida, amada e louvada que a dessa sensitiva do Brasil. ”

 

Anita Malfatti:
“Críticos de arte, o Brasil não possuía então. Não não havia museus só de arte, não havia estudos especializados sobre a crítica construtiva que muita falta nos fez.”

 

Mário de Andrade:
“Ninguém pode imaginar a curiosidade, o ódio, o entusiasmo que Anita Malfatti despertou. ”

 

Menotti del Picchia:
“Anita Malfatti passou então para o nosso martirológico artístico. Resultado: ganhando terreno o modernismo, a pintora ilustre tomou-se uma espécie de santa da ala demoníaca dos reformadores. Seu nome traz o prestígio dos taumaturgos e dos mártires.”

 

Oswald de Andrade:
“Fora eu o único a responder, na hora, ao assalto desastrado com que Monteiro Lobato encerrou a carreira de Anita Malfatti.”

 

Mário de Andrade:
“O artigo contra do pintor Monteiro Lobato, embora fosse um chorrilho de tolices, sacudiu uma população, modificou uma vida.”

 

Menotti del Picchia:
“A crítica. Não falemos nessa megera.”

 

Mário de Andrade:
“Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre. Ela ocultava-se.”

 

Menotti del Picchia:
“Mulher singular, que, quando não tivesse outro mérito, teria o de haver rompido, com audácia de arte independente e nova, a nossa sonolência de retardatários e paralíticos da pintura.”

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