POEMAS DE MARCELO AITH

Esse blog tem a função de trazer à tona minha produção literária que se encontrava restrita ao fundo da gaveta. Já publiquei uma vasta pesquisa sobre como se deu o massacre sertanejo do Contestado, no Oeste de Santa Catarina, entre 1912-1916. Publiquei uma peça modernista, retratando os personagens que atuaram na famosa Semana de Arte Moderna de 1922. Já coloquei uns 20 contos variados, e as colunas assinadas que tive nos sites Gafieiras e WMulher.

Já era tempo de publicar algumas de minhas poesias. Nunca fui muito dado ao gênero literário, encontro mais facilidade e sabor no texto corrido da prosa. Mas, como o objetivo do blog é mesmo expor a minha produção literária, achei que era uma injustiça não divulgar também os poemas. Dei uma selecionada no material e, entre os que considerei “menos piores”, inseri um breve comentário sobre cada um deles.

São dez tentativas, espero que em alguma eu agrade você, leitor.

* * *

(O poeta respira, envolto no mundo do trabalho.)

 

ALVORADA

O sono impera,

A consciência abre espaço

Para o reino dos sonhos.

Click,

O interruptor é acionado.

A fantasia liberta.

O olho treme,

Sob a pálpebra fechada.

O corpo repousa

Cansado de guerra.

Mas a mente trabalha.

O trabalho foi duro,

O trabalho é duro,

O trabalho será duro.

É preciso levantar,

Avisa lá fora.

O dragão retorna ao palácio.

A princesa e o guerreiro também.

Juntos, viverão felizes para sempre.

O dia chama.

* * *

AR CONDICIONADO

Condicionado

Sem ar

Vou trabalhar

Me falta ar

Condicionado

Sem ar

Entro no escritório

Me falta ar

Condicionado

Sem ar

Vou trabalhar

Me falta ar

* * *

(Um pouco de escatologia, para se libertar.)

CONTAGEM REGRESSIVA

Tic-tac, tic-tac,

Faz o feijão

Na barriga do negão.

Fermentando, fermentando,

Enchendo-lhe as entranhas.

Rabo solto,

Um estrondo.

São João

Fora de junho.

Tic-tac, tic-tac,

Faz o feijão

Na barriga do negão.

Fermentando, fermentando,

Enchendo-lhe as entranhas.

Rabo solto,

Um estrondo.

Bomba-relógio

Fora de hora.

* * *

(O cinema é a boia de salvação dos domingos, em São Paulo.)

DE REPENTE NUM DOMINGO

De repente num domingo,

Lá vamos nós ao cinema.

De repente num domingo,

Lindas, belas imagens.

De repente num domingo,

Foi por tão pouco tempo.

De repente num domingo,

Mesmo assim valeu a pena.

De repente num domingo,

Nos encontremos por mais tempo.

De repente num domingo,

Seremos felizes até segunda-feira.

* * *

(Um singelo poema gramatical, com o qual simpatizo muito.)

ENTRE O TU E O NÓS

Brincando com a palavra,

Eu descobri Você.

Entre o Tu e o Nós,

Ali estava Você.

Tu,

Na terceira pessoa do singular,

Esperando por Mim,

Primeira pessoa.

Juntos,

Nós,

Primeiros no plural,

Passado, Presente, Futuro,

Unidos em todos os tempos

Pela conjugação verbal.

Eles,

Sempre no fim da fila.

Desejando Você,

Separados de Nós,

Por Vós,

Mais que perfeita,

Eternamente minha.

Brincando com a palavra,

Eu descobri Você.

Entre o Tu e o Nós,

Ali estava Você.

* * *

(Tentativa de letra para Choro, se alguém quiser musicar…)

IVONE

Ainda me lembro, como se fosse hoje,

A deusa da minha rua era você, Ivone.

Boa noite, amor.

Eu me despedia no portão.

Minha rosa, minha boneca,

Você era minha inspiração,

Até a última estrofe,

Com a rapaziada lá do Brás.

Isso foi há tempos,

Que a saudade logo traz.

Mas você, malandrinha,

Não podia com o velho realejo.

Sonhava, vestida toda branca,

Ardida de desejo.

Quis caminhar um chão de estrelas.

Me deixou parado na calçada.

Foi-se embora com um doutor.

Só me resta a minha mágoa,

Só me resta a minha dor.

O flautista ficou triste,

Nunca mais se inspirou.

* * *

(Sonhando com um mundo melhor)

LAVAGEM CEREBRAL

Cabeça dura,

Miolo mole,

Cabeça oca,

Parafuso a menos.

Quem dera um dia

Todos os cérebros se abrissem.

O raio de Sol iluminando a massa mais cinzenta,

Bons ventos levando consigo os preconceitos.

A água cristalina descendo a montanha,

Molhando todos os neurônios.

Eis aí a minha lavagem cerebral.

* * *

(Algum erotismo)

MASTURBAÇÃO

O menino sonha como o vento,

No vai e vem dos lençóis.

Veloz em cada pensamento.

Encontros sinceros a sós.

* * *

SONHAR TALVEZ

Sonhar talvez…

A imaginação correndo solta,

Voando por sobre seu corpo.

Mãos abrindo asas,

Também nessa viagem.

Cada toque um estímulo,

Contorço de prazer.

 

* * *

(As novelas e a alienação do povo brasileiro)

TELEVISÃO

Cada lágrima derramada

Em frente a essa caixa da Pandora

É um pouco de sua beleza roubada.

Chore criança, chore.

Por você mesma.

Pelo mundo lá fora.

* * *

(A inquietação do fim)

TEMPO, SENHOR, FEITOR

O Tempo, sempre o Tempo,

Senhor, Feitor,

Quem sem chicote, açoite,

Nos obriga a viver.

O Tempo, sempre o Tempo,

Senhor, Feitor,

Nos empurra os anos,

Nos vê crescer.

O Tempo, sempre o Tempo,

Senhor, Feitor,

Com sua foice,

Nos traz a morte.

Anúncios