RENATA (2002)

RENATA (2002)

O documentário Renata é uma vídeo-biografia da nadadora santista Renata Agondi, morta aos 25 anos, ao tentar atravessar a nado o Canal da Mancha. É uma adaptação do livro Revolution 9, de Marcelo Teixeira, dirigida por Rudá de Andrade. A narrativa é baseada na leitura do diário da jovem, iniciado aos 8 anos de idade.

Renata nasce em 1963, e cresce junto com os Beatles. Essa relação afetuosa da garota com seus ídolos acompanha toda a sua breve vida, através de observações sentimentais em seu diário.

Em 1971, o pai é transferido de emprego para o Rio de Janeiro e Renata descobre a natação treinando pelo Fluminense, clube que teve a hegemonia da natação carioca. Renata começa a colecionar títulos.

Paralelamente a história da esportista, acompanhamos os questionamentos existenciais de Renata, através de Ester Góes, que narra passagens do diário. O caderno de memórias é sua válvula de escape para a realidade.

Para cobrir os trechos introspectivos, Rudá escolhe trechos de cinema mudo de Georges Méliès. Em outros momentos são usadas animações, fotos, recortes de jornais e até mesmo imagens em VHS que mostram a evolução da atleta.

Angustiada com a adolescência, deslocada do mundo, Renata larga as piscinas e dedica-se à leitura, ao violão e à busca de um amor como o que nutre pelos Beatles, para dar razão a sua vida.

O pai é transferido de volta para Santos, na época em que a jovem chega ao vestibular. Passa a trabalhar em uma loja de piscinas pré-fabricadas e a cursar a faculdade de comunicação social, onde convive com a agitação da política estudantil durante a abertura e redemocratização.

Na faculdade, participa de uma disputa aquática, e decide retornar aos treinos em 1982, competindo pelo Clube Saldanha da Gama. Nos treinos se apaixona por José Ricardo Dutra, ela com 20 anos e ele com 16. Juntos passam a competir e ganhar muitas competições em piscina e travessias em águas abertas.

Aos 22 anos estão noivos e disputando grandes distâncias em mar. Renata e Dutra saem do Saldanha da Gama e passam a competir pela equipe da Universidade Santa Cecília, crescente força da natação santista da época.

Em 1986, Renata parte para a Itália, para disputar uma das provas mais conceituadas do calendário internacional, a travessia Capri-Nápoles, de 33 km de mar. Uma prova de 9 horas, num mar de 19°C, enfrentando águas-vivas, ondas e ventos.

Renata chega com um excelente tempo, em 2º lugar na categoria feminina e em 5º lugar na classificação geral. É recebida com palmas, flores, cobertor e oxigênio. Torna-se a primeira brasileira a obter destaque em competições internacionais em águas abertas.

Ainda disputaria a Volta do Imperador, também com destaque. E repetiria as competições internacionais na Itália no ano seguinte.

Em 1987, Renata acumula 238 medalhas e 40 troféus. Confusa com a aproximação do casamento, Renata rompe o noivado e termina a relação com Dutra.

A nadadora se associa a treinadora Judith Russo e partem para uma nova viagem para a Europa em preparação para um novo desafio: a travessia do Canal da Mancha. Participa das principais provas da Itália e vai a Dover, na Inglaterra, para a tentativa da perigosa travessia.

O Canal da Mancha foi percorrido a nado pela primeira vez no final do século XIX, em quase 22 horas de percurso. Sua travessia é dificultada pelas baixas temperaturas, entre 12°C e 17°C, pelas rápidas mudanças climáticas, pela presença de manchas de esgoto e de óleo, por águas-vivas e por mais de 400 navios que cruzam diariamente o trajeto.

Renata participa de uma prova de revezamento, com outros cinco atletas, para reconhecimento do mar. Na véspera da travessia, o piloto de sua embarcação desiste de guiá-la.

Com uma tripulação desconhecida, Renata larga às 7:20 da manhã de 23 de agosto de 1988, impondo um ritmo inicial de 80 braçadas por minuto. Com cinco horas de prova, já percorreu metade da prova, mantendo o ritmo de 72 braçadas, e uma estimativa de término com 9 horas de mar.

Neste ponto, o barco parece guiar Renata por um rumo inadequado, e a nadadora passa a enfrentar marés e correntes opostas. A treinadora Judith discute com a tripulação. Após 10 horas de prova, sem alcançar o continente, Renata já não nada tão rápido.

Com 10 horas e 45 minutos de prova a equipe de bordo lança uma boia na água para recolher a nadadora do mar. Sem entender o que acontece, Renata se recusa a sair da água e se distância da embarcação.

A equipe então aciona a Guarda Costeira para o resgate da atleta. Retirada do mar a 7 km da chegada, Renata é levada de helicóptero para Calais, mas morre de exaustão e hipotermia antes de chegar ao hospital. Após 5 anos de processo, piloto e co-piloto da embarcação pegam 6 meses de prisão.

A imagem final do documentário é a emocionante chegada de Dilza Damas, que inspirada na história de Renata, é a primeira brasileira a completar a travessia do Canal da Mancha, após pouco mais de 19 horas de prova, em 1992.

Anúncios

SEGUIDORES DA GLÓRIA (2002)

SEGUIDORES DA GLÓRIA (2002)

Seguidores da Glória é um documentário que aborda a Fé Bahá’í. Esta religião surge na Pérsia, atual Irã, na metade do século XIX. Para os Bahá’ís todos os fundadores das grandes religiões: Krishna, Buda, Zoroastro, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé são educadores divinos enviados por um Deus único, que trazem leis e ensinamentos para cada um dos estágios evolutivos da humanidade. Os Bahá’ís incluem à lista os nomes de Bab e de Bahá’u’lláh, totalizando 9 mensageiros divinos vindos à Terra até o momento.

Entre os principais preceitos da Fé Bahá’í está a cresça no Deus único, independente dos diferentes credos, o amor e a unidade da raça humana. Querem um mundo sem fronteiras entre Estados, aceitam a diversidade das culturas, pregam o fim de barreiras políticas e econômicas com a presença de cidadãos planetários com igualdade de direitos e oportunidades.

A origem desta religião está associada à Bab, que nasce em Shiraz em 1819. Em 1844, Bab revela ser um mensageiro de Deus enviado à Terra para preparar a humanidade para a chegada de um mensageiro ainda superior. Neste mesmo dia, era realizada nos EUA a primeira transmissão telegráfica do mundo com a mensagem: “what hath God wrought”, ou “eis o que Deus realizou”.

O movimento Babista foi perseguido pelo clero islâmico. Bab foi preso e depois executado em 1850. Mais de 20 mil seguidores foram massacrados na Pérsia. Em 1863, seu discipulo Bahá’u’lláh proclama-se o mensageiro revelado por Bab. Bahá’u’lláh também foi perseguido, preso e enviado para o exílio, passando por prisões em Bagdá (Iraque) e Akka (Haifa, Israel).

Bahá’u’lláh passou 40 anos prisioneiro e indicou em Haifa, no Monte Carmelo, o local para a construção do túmulo de Bab. Na prisão, Bahá’u’lláh escreveu insistentemente a governantes e soberanos das nações do todo o mundo, pedindo atenção aos súditos e proclamando a paz mundial.

Em 1892, Bahá’u’lláh morre nas proximidades da cidade e Haifa passa a ser a sede mundial da religião Bahá’í. Em 1953, dá-se início a construção do atual mausoléu de Bab. Em 2001, é inaugurado um monumental jardim com 19 terraços ao longo do Monte Carmelo, tendo o domo de Bab ao centro, num custo de US$ 250 milhões.

Outra figura importante destacada no documentário é a poetisa Tahirih, também nascida na Pérsia, em 1817, e uma das primeiras seguidoras de Bab. Tahirih levantou a bandeira da igualdade entre homens e mulheres e foi apedrejada por isso. Em uma de suas palestras, ousou tirar o véu em público, o que provocou o suicídio imediato de um homem que presenciou a cena. Presa, acabou executada em 1852. Até hoje, a religião Bahá’í é perseguida no Irã.

No Brasil, os Bahá’ís chegaram em 1921. Como pesquisador, levantei as filmagens de uma viagem missionária Bahá’í pela Amazônia, realizada em 1975. A viagem parte da Venezuela, envereda na Amazônia brasileira e atinge as terras altas da Bolívia e Peru, até as nascentes do rio Amazonas, percorrendo 6 países em 13 mil quilômetros.

Durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, os Bahá’ís patrocinaram um monumento de autoria de Siron Franco, com terras de 50 países e a palavra Paz gravada em mais de 40 idiomas. O documentário mostra o trabalho dos Bahá’ís em São Paulo, Porto Feliz e Mogi Mirim. Também foi entrevistado um cacique de uma tribo na Bahia que profere a fé Bahá’í.

A Fé Bahá’í chegou ao século XXI com 7 milhões de seguidores, sendo 2 milhões na Índia. No Brasil são 50 mil. Podem não ser muitos, mas se fazem presentes em quase 200 países, só perdendo para o cristianismo em difusão.

Outros princípios importantes para os Bahá’ís são a educação e a ciência. Uma das profecias de Bahá’u’lláh é que todo o conhecimento humano caberá num grão de areia, e o chip de silício dos computadores pode ser a realização do fato. Para os Bahá’ís religião sem ciência é superstição e ciência sem religião é materialismo, e a fé e a ciência devem caminhar lado a lado.

Outras características da religião são a ausência de um clero, valorização da consulta aos membros da comunidade, recusa ao culto de imagens e repúdio ao uso de armas, bebidas alcóolicas e drogas.

AI-5, O DIA QUE NÃO EXISTIU (2001)

AI-5, O DIA QUE NÃO EXISTIU (2001)

AI-5 é um documentário que tem sua origem num fato curioso. A recuperação das notas taquigráficas da última sessão da Câmara dos Deputados, antes de sua dissolução pelo famigerado Ato Institucional que jogou o país em definitivo nas trevas da Ditadura.

Em 12 de dezembro de 1968, a Câmara através de uma votação, não permitiu a licença que o Governo queria para processar o Deputado Márcio Moreira Alves, por um discurso que este fizera, denunciando os desmandos militares.

No dia seguinte, o Presidente Costa e Silva baixou o decreto que lhe concedia amplos poderes, tais como fechar o Congresso, Assembleias e Câmaras. Poderia suspender poderes políticos por 10 anos ou mesmo caçar mandatos.

O documentário irá investigar os antecedentes de como chegamos a esse ponto negro do totalitarismo brasileiro.

Como pesquisador, tive acesso aos discursos dos deputados em defesa da liberdade de expressão na tribuna da Câmara, e também tive acesso à um áudio gravado pelo SNI, com a reunião do Conselho de Segurança Nacional, onde Presidente e Ministros decidiram por jogar o país na obscuridade de uma vez por todas.

Para este programa foram ouvidas personalidades como Boris Fausto, Kurt Mettenhein, Jarbas Passarinho, Mário Covas, Wladimir Carvalho, Marcos Santilli, Julia Steinbruch, Rubem Azevedo Lima, Lauro Leitão, Michel Temer e Geraldo Freire.

As notas taquigráficas desaparecidas do acervo da Câmara passaram anos sob a guarda de uma funcionária que temia sua destruição pelos militares. Somente no século XXI, já com a reabertura e a democracia consolidada é que a documentação foi devolvida.

A partir da transcrição dos discursos, a equipe da TV Cultura reconstituiu com atores a fatídica sessão que culminaria no decreto do AI-5.

O documentário mostra a crescente supressão dos direitos implementada pelos militares pós-64, bem como o incremento dos protestos por liberdade por parte dos estudantes, trabalhadores e da classe artística.

O ponto alto que leva Márcio Moreia Alves a proferir seu discurso contra os militares foi a invasão da Universidade de Brasília, por tropas do exército.

A deputada Julia Steinbruch, com a tribuna vazia, lê um manifesto de repudio à violência com que o poder público reprime as manifestações estudantis em todo o Brasil, comparando o regime de prisões arbitrárias e assassinatos à Alemanha às vésperas da ascensão nazista de Hitler.

Em seguida, num parlamento ainda vazio, Márcio Moreira Alves pede aos estudantes que boicotem o desfile de 7 de Setembro. Para seu azar, Rubem Azevedo Lima publica notícia de seu discurso, despertando a ira dos militares, que pedem a cabeça do deputado.

O documentário então centra na reconstituição dos discursos em defesa da liberdade de expressão do deputado Moreira Alves, recuperados a partir das notas taquigráficas que ficaram escondidas por décadas.

Em defesa ao Parlamento, a deputada Nysia Carone diz preferir ser uma dona de casa – soberana do lar – a ser uma deputada chamada de excelência e votar contra a Constituição, autorizando o processo do deputado por ter feito seu discurso.

O próprio Marcio Moreira Alves justifica-se dizendo que não quis ofender a classe militar, e que combatera na verdade o militarismo.

Ao final dos discursos, os deputados são convocados a votar, e a Câmara não autoriza a abertura de processo contra o deputado. Tomadas pela emoção, as galerias então lotadas se levantam e junto com os deputados entoam o hino nacional.

No dia seguinte, o governo desce o Ato Institucional número 5, e acaba com qualquer ar de liberdade que ainda pudesse existir.

Em 10 anos de AI-5 foram realizadas 5.785 sanções políticas, sendo 1.774 funcionários demitidos, 1.176 aposentados, 1.062 civis perderam seus direitos, 750 militares foram reformados, 154 passados para a reserva, 127 brasileiros banidos, 565 políticos cassados.

Foram censurados 500 filmes, 500 músicas, 450 peça, 200 livros, 100 revistas, além de telenovelas e documentários.

A REVOLUÇÃO TROPICALISTA (2001)

A Revolução Tropicalista (2001)

A Revolução Tropicalista fazia parte de uma série de documentários europeus que abordam a relação entre a música e o momento político em vários países. Dominique Dreyfus veio ao Brasil para a realização das entrevistas e pesquisar imagens nos acervos.
A TV Cultura apoiou a produção e eu tive a oportunidade de tomar parte nas pesquisas. Dominique é francesa, especializada em música brasileira, tem biografias lançadas sobre Luiz Gonzaga e Baden Powell.

O documentário tem inicio em 1968, mostrando os movimentos estudantis libertários pelo mundo e o crescimento das perseguições políticas e da intolerância à liberdade de expressão, no período da Ditadura Militar no Brasil. O Tropicalismo surge debaixo desse contexto repressor.

Gilberto Gil e Caetano Veloso são os personagens principais do movimento, e dão depoimentos ao longo de todo o programa. A turma Tropicalista é completada por Rogério Duprat, Os Mutantes, Tom Zé e Gal Costa.

Situada a origem do Tropicalismo, o programa faz uma digressão, voltando para a Bossa Nova e os anos JK.

Juscelino abre o Brasil para o capital estrangeiro, traz as grandes fábricas da industrialização. O Brasil entra no cenário internacional, levantando o bi-campeonato nas Copas do Mundo de Futebol de 1958-1962. Fatura o Miss Universo, mostra ao mundo o Cinema Novo. Está no primeiro mundo em cultura.

Jânio Quadros chega ao poder. Apesar de conservador, aproxima-se de Che Guevara e Mao Tsé. A Bossa Nova toma ares sociais nas temáticas de suas letras. Surgem os Centros de Cultura Popular.

Com a política social de seu sucessor, João Goulart, e os crescentes movimentos operários e campesinos, organiza-se uma reação anticomunista, que culmina com o Golpe Militar de 1964.

Os Tropicalistas se reúnem após o Golpe Militar de 1964, com a proposta de virar a Bossa Nova do avesso. Influenciados pela Cultura Pop e pelos Beatles, introduzem influências estrangeiras à música popular brasileira, que flutuava entre a Bossa Nova e a música de protesto político.

Com seus cabelos longos e guitarras elétricas causam escândalo aos nacionalistas defensivos. Para a esquerda antiamericana, os Tropicalistas se encaixam no grupo dos Imperialistas.

Caetano dá um depoimento ótimo, contando sobre a apresentação da música “É Proibido Proibir”, ele cabeludo, todo vestido em plástico preto e verde, dando as costas para o público e o público dando as costas para o artista.

Apesar de preteridos pela esquerda, os Tropicalistas apoiam os movimentos sociais e a luta pela liberdade de expressão. Estão presentes na “Passeata dos 100 mil” que pede o fim da Ditadura.

O governo que, num primeiro momento, tolerava com certa liberdade a classe artística, endurece a repressão também nas artes. O AI-5 decreta o fechamento do Congresso Nacional, Gil e Caetano são presos e mandados para o exílio em Londres.

O Tropicalismo sai de cena no meio do espetáculo. Gilberto Gil conclui que infelizmente o Tropicalismo não teve tempo para criar um gênero musical, limpou, arou, plantou, mas não colheu.

O documentário encerra então com os herdeiros do Tropicalismo, que na visão de Dominique Dreyfus seriam Lenine, Carlinhos Brown, Olodum, Chico Science e Nação Zumbi e Chico César.

PROFISSÃO PERIGO (2000) – A História dos Bandeirantes que Abriram o Brasil

PROFISSÃO PERIGO (2000) – A História dos Bandeirantes que Abriram o Brasil.

O documentário traz luz à história dos Bandeirantes de São Paulo. Nas entrevistas de rua, podemos perceber que poucos sabiam quem foram os bandeirantes. Muitas vezes retratados como heróis pelos livros de escola, foram violentos exterminadores de índios e de negros, história que não é contada aos jovens.

Para ilustrar o programa não havia muita documentação iconográfica do período. O que de mais rico sobreviveu ao tempo, são os testamentos dos bandeirantes. Os originais estão preservados no Arquivo Público de São Paulo, muitos deles escritos no leito de morte, em plena selva. Como pesquisador, fui buscar na filmografia brasileira diversos títulos que pudessem ilustrar a epopeia dos paulistas.

Esses Bandeirantes realmente tiveram uma vida épica, rompendo a pé grande parte da América do Sul. Saíram de São Paulo e foram até o Paraguai, Equador, Pernambuco, Amazônia… Como o título do programa diz, abriram o Brasil, sem respeitar a linha do Tratado de Tordesilhas.

Em 1750, com o Tratado de Madrid, o Brasil conquistou grande parte das fronteiras atuais. Nas negociações vigorou o princípio do “Uti Possidetis, Ita Possideatis”. A grosso modo, dizia que a terra pertenceria a quem a possuísse. E os Bandeirantes Paulistas haviam criado diversos núcleos para além da antiga divisão da América, entre Portugal e Espanha.

Mas, por trás desse grandioso legado dos Bandeirantes Paulistas, está uma história de horror. Historiadores, indígenas e alunos de escolas debatem sobre o tema, costurando toda a narrativa do programa. Os Paulistas, como eram conhecidos os Bandeirantes, faziam parte dos poucos portugueses que ousaram viver no interior do continente.

Viviam isolados nos planaltos de São Paulo, eram brutos e analfabetos. Descalços e vestindo tecidos simples, não eram os heróis de botas e couraças retratados pelos livros infantis. Falavam mais o Tupi que o Português.

João Ramalho foi o primeiro dos portugueses a se fixar no alto da Serra do Mar, dando inicio à história do bandeirantismo paulista. A primeira expedição, de Pêro Lobo (1531) foi completamente dizimada e nunca voltou. A partir de então as expedições só sairiam com o apoio de grandes contingentes de indígenas e mamelucos, misturados às tropas portuguesas.

O primeiro ciclo de expedições visava aprisionar índios e o foco principal era atacar as missões jesuíticas em território Guarani, para o Sul. Raposo Tavares, após vários ataques, retorna trazendo mais de 20 mil índios.

Os Paulistas desenvolveram uma ocupação própria, desafiando as instituições da época. Chegaram a expulsar os Jesuítas de São Paulo, por serem contra a escravidão indígena. Os Paulistas também desafiaram o Poder Real, ao aclamar Amador Bueno como Rei dos Paulistas, mas este abdicou qualquer pretensão, temendo a fúria de Portugal.

Num segundo momento, as Bandeiras migram para o Nordeste. Os Paulistas são convocados a lutar contra os Holandeses, em Pernambuco. Participam do ataque ao Quilombo dos Palmares, em Alagoas. E foram os responsáveis em combater os índios durante a ocupação do Piauí.

Também foram responsáveis pela descoberta de metais preciosos na região de Minas Gerais. A febre do ouro leva uma imigração de outras regiões do Brasil e de Portugal para as Minas. O conflito de interesses com os desbravadores Paulistas termina com a chamada Guerra dos Emboabas, que leva a intervenção direta da Coroa Portuguesa, controlando toda a região mineradora.

Os Paulistas não se dão por vencidos, e partem para as descobertas de ouro na região de Goiás, levando a uma nova corrida de colonização do Oeste, o último ciclo das expedições bandeirantes. Até o fim, o documentário não deixa de lembrar que por trás de toda a conquista territorial, da expansão portuguesa na América, estava também o extermínio de centenas de povos indígenas.

VIDA BANIDA (1999)

VIDA BANIDA (1999) – Documentário vencedor do prêmio Contra o Silêncio Todas as Vozes.

Naquela época a FEBEM era um caldeirão de pólvora, com fugas e rebeliões constantes. O documentário é uma reflexão sobre o tema, a cena final é uma apresentação de RAP dentro de uma unidade da FEBEM. A letra da música pede “Chega perto de mim / Me deixa falar / Sempre de muito longe / Vem me condenar”. Missão que o documentário tentou cumprir, dando voz aos que cumpriam Liberdade Assistida e também mostrando o cotidiano dos internos, nos verdadeiros presídios que eram as unidades.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) estava para completar 10 anos de existência. Na lei eram previstas medidas socioeducativas em substituição à tradicional pena de privação da liberdade. A Liberdade Assistida previa a execução de prestação de serviços à comunidade, participação obrigatória em projetos educativos, em lugar da tradicional internação.

Havia no ar uma tensão sobre o tema. A imprensa não usava mais o termo “menor infrator”, trocando-o por “menor em conflito com a lei”. Os jornais eram tomados semanalmente por notícias de rebeliões violentas, até mesmo com morte de internos, e todos buscavam entender o porquê do estado das coisas.

A equipe viajou para Belém do Pará e Recife, para mostrar medidas modernizantes que alguns juízes estavam tomando e que prometiam um modelo mais humanitário de tratamento do menor “em desacordo com a lei”.

Também tomou depoimentos de jovens atendidos pela Liberdade Assistida, contando como entraram no mundo do crime e como foram as experiência dentro do “sistema carcerário” que representava passar pela FEBEM. E foram ouvidos alguns dos pais dos depoentes, agentes do judiciário e funcionários envolvidos diretamente com as unidades que abrigavam os menores.

Algumas cenas impressionam. Os meninos vestindo uniformes monocromáticos, todos de cabeça raspadas, andando em fila indiana, com as mãos para trás como se portassem algemas, sempre olhando para baixo, incapazes de olhar nos olhos de seu interlocutor. Celas e condições de alimentação muito próximas às condições dos presídios brasileiros.

Como pesquisador, tive acesso à filmagem do Ministério Público, em visita a uma unidade recém-rebelada. Assisti à imagem chocante, que não foi ao ar, do corpo de um jovem decepado e carbonizado, entre os escombros.

A situação era gravíssima, e o próprio governador Mario Covas, em entrevista, reconhecia a necessidade de mudanças no modelo, para unidades de pequeno número de internos. Um pouco depois, a FEBEM seria extinta e substituída pela Fundação Casa.

No meio do programa há um inusitado RAP composto por menores internos, na letra uma crítica direta ao governo, na emissora pública do Estado. Talvez as TVs comerciais não deixassem passar, para agradarem ao Poder. Mas entrou na edição, e foi ao ar sem maiores problemas.

Relato comum aos internos, todos passaram pela evasão escolar antes de chegarem à vida do crime. Comum também era a opinião dos jovens que nas unidades da FEBEM predominavam agressões por parte dos monitores.

Ócio e a falta de atividade educativa ou cultural contribuíam para que ali se formasse uma escola do crime. Quem entrava no sistema por pequenos delitos, acabaria saindo de lá com uma revolta ampliada contra a sociedade, e pronto para cometer crimes ainda mais graves.

Outro ponto em destaque foi a questão da “redução da maioridade penal.” A solução imediatista de reduzir de 18 para 16 anos a maioridade é uma solução muito popular no senso comum do brasileiro. Mas o documentário traz outra proposta.

Mostra que os EUA, que punem seus jovens até mesmo na tenra idade, as estatísticas mostram uma juventude mais violenta que a brasileira, onde a legislação é mais branda. Isto comprovaria que reduzir a idade por si só não garante redução nos índices.

Para quem discorda, é só pensar no que acontece na África, com os soldados-meninos. Crianças de 10, 12 anos, assim que suportam o peso de um fuzil já estão em combate nas milícias e guerras tribais. Criminosos continuariam utilizando-se de menores cada vez mais jovens, agravando ainda mais o problema.

Os depoentes do vídeo pregam que bastaria que o Estatuto da Criança e do Adolescente fosse cumprido, para que a questão do menor em desacordo com a lei mudasse para melhor. Para quem entra no sistema judiciário ainda menor de idade deveria ser oferecido atendimento por projetos sociais, capacitação profissional, acompanhamento familiar; e não endurecer a legislação e jogar jovens de 16, 17 anos em presídios comuns, misturados a adultos como pedem os defensores da redução da maioridade.

O representante da UNICEF-ONU traz dados estatísticos que mostram que 66% dos meninos internos naquela época, estavam ali por delitos contra o patrimônio. Dos 34% restantes de outros crimes, apenas uma parte estava relacionada a atentados contra a vida humana. Apesar disso, existia uma paranoia generalizada quanto à periculosidade dos internos. O documentário fecha então com uma apresentação de RAP dentro de uma unidade da FEBEM, com a música “Realidade”, cuja letra copio abaixo:

REALIDADE
(Leandro / KS / Juninho BV / Jigaboo)

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
vem me condenar…

Brasil parece que não melhora nunca
2 manos causam KAOS E KS, e a luta continua…
sociedade nos condena, não nos ajuda
mas KS não esquenta a paciência,
pode crê somos nós antissistema

televisão explora lá fora ninguém percebe
rebelião deu ibope virou manchete
tropa de choque entrou com toda maldade
somos presas fáceis da sociedade
PMC, Déco, Suave estão ligados que é verdade de mudar
todos tem capacidade

novela o sonho do pobre o mundo que não existe
playboy com tudo na mão acha graça no que assiste
eles tem tudo na mão, não vivem como a gente vive
não precisam roubar como pobre de honestidade
então venha pra cá e levem pra fora a verdade

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

Rebelião ibope na televisão
muda de canal não aguento mais ver isso não…
é sempre assim, bem assim que acontece
ou você condena, ou você esquece
gente que nunca correu atrás de nada e tem o que quer
sempre de mão beijada
classificando a mulecada de marginal …11,12,13 anos
acha que é normal, coloca dificuldade, em todos os
sentidos, diz que a maioria ali dentro tá
perdido, insisto a maioria não é todo mundo gente
desqualificada tá cuidando do assunto, e inocente que
seja apenas esse ou aquele… não interessa tem mais é
que olhar por ele, ou será que aqui pobre que não
canta ou joga futebol
nunca terá um lugar ao sol…

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

Em pagamento as 08:00 horas o que vou fazer agora?
poucos manos é que vão embora, a violência é p/quem
vai ficar
juro que não entendo esse lugar
em minha vida quero dar outro sentido
muitos como eu não queria ser bandido quando tem
motivo de rebelião aqui ninguém presta só tem ladrão

Quero mudar este pensamento como você tá vendo
muitos tem futuro, muitos tem talento se tivesse alguma
ocupação a garotada não estaria nessa não
este lugar escuro nada acontece fico feliz quando o
dia amanhece, a justiça não me deixa falar e sem ouvir
a minha voz
me interna aqui nesse lugar

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

Como deve tá lá fora vários manos a mil tem mano da
V. Ede também do Jd. Brasil, aqui dentro da prisão
vários mano ciente, tem quebrada Itaquera e Cidade
Tiradentes
cada um convive aqui do jeito que pode
tem zona oeste, zona leste, zona sul, e zona norte
esse é o sofrimento sentimento de dor, também tem
vários mano
que mora no interior

Quem liga esse rap é o mano da Bela Vista, mando um
salve no momento pra baixada Santista, a verdade é
dita não deixe pra depois, quem liga esse rap é 16 e a
UE-2, também tem vários mano que tá na UE-12, tem mano
da EU-13, e também da UE-14
tem várias unidades a verdade que comove tem o UE-5,
tem o UE-15, e a UE-19, tem a 16 essa verdade que é
são algumas unidades da Febem Tatuapé

Chega perto de mim
Me deixa falar
Sempre de muito longe
Vem me condenar

DE VOLTA PARA CASA (1998)

DE VOLTA PARA CASA (1998) – Documentário vencedor do Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo.

O documentário aborda a trajetória de ressocialização dos menores de rua, o trabalho de reinseri-los no convívio da família. É baseado na tese da antropóloga Maria Filomena Gregori, que estudou o comportamento dos meninos de rua entre 1991-1995, pelas calçadas de São Paulo.

A equipe de gravação percorreu as ruas de São Paulo, Salvador e Fortaleza. Entre os motivos apontados pelos menores para saírem de casa estão o sentimento de revolta, os maus tratos, a pobreza, as drogas, o alcoolismo, a prostituição e o descaso dos pais.

A tese da “viração” revela que a rua é o ponto de encontro dos meninos e meninas que fazem dos espaços públicos os cômodos de sua nova casa. Um “mocó” sob um viaduto pode ser o quarto, uma praça pode ser o banheiro, e assim por diante, vão ocupando espaços da cidade.

A mobilidade dessa população é um fator marcante, há uma rotina de circulação, que pode percorrer até 6.000 km em um ano.
O programa mostra o trabalho de educadores, uma rede de assistência que tenta recriar os vínculos familiares destas crianças, para possibilitar o retorno para o lar. Alguns exemplos de inclusão são apontados.

O ponto inicial é ganhar a confiança dos garotos, com a presença diária dos educadores nas ruas. A documentação, ter uma certidão de nascimento, um RG, é o início do resgate do vínculo com a sociedade. Outras ações iniciais são atividades artísticas e profissionalizantes nos centros de atendimento.

Maria Gregori nos alerta que toda esta rede de assistência termina ao completarem 18 anos. Os projetos não atendem mais às crianças de rua, mas estes não estão capacitados para terem um projeto de vida.

Num segundo momento inicia-se então a terapia familiar, uma vez que os problemas que levaram os garotos às ruas não se restringe somente ao menor, mas envolve também todo o núcleo familiar. E muitas vezes, quando não é possível o retorno ao lar original, o programa aponta para o caminho da família substituta, através da figura da mãe social.

São abordados instituiçãos como os Projetos Travessia, Axé, Aldeia SOS, Criança Fora da Rua Dentro da Escola, Edisca e Oludum, que trabalham não só a aproximação com crianças de rua como também trabalham com a valorização de crianças pobres, evitando que estas cheguem a deixar suas famílias.

GAMÃO – O REI DOS JOGOS, E O JOGO DOS REIS

O texto apresentado hoje é algo diferente, desta vez é um fragmento de um material didático que escrevi. Este é um trecho da apostila para o Workshop de Introdução ao Gamão, desenvolvido por mim para a BIBLISPA – Biblioteca/Centro de Pesquisa América do Sul – Paí­ses Árabes, uma ONG que promove estudos de temas árabes, africanos e sul-americanos, nas mais diversas formas.

Aqui, trataremos apenas das questões históricas do jogo de gamão, suas origens que remontam também às origens da civilização humana. Foi o homem dominar a agricultura e desenvolver uma vida sedentária em cidades para o jogo de tabuleiro aparecer e matar as horas vagas proporcionadas pelo novo estilo de vida.

Se, depois da leitura, você ficar curioso em querer ouvir mais sobre gamão, entender suas regras e experimentar jogar uma partida em legítimo tabuleiro árabe, fique atento. ( http://www.bibliaspa.com.br ) A BIBLIASPA promove encontros cíclicos onde eu apresento não só os temas históricos a seguir, como também ensino os fundamentos básicos do jogo, suas regras, estratégias e etiquetas necessárias para que cada um já saia de lá dominando o jogo, em apenas uma tarde.

Gamão – O Rei dos Jogos, e o Jogo dos Reis

O conceito do jogo de gamão está entre os primeiros jogos que existiram, que são os jogos de percurso, onde o objetivo é fazer com que todas as peças atravessem o tabuleiro. Suas variações nos divertem há mais de 5 mil anos. O jogo foi praticado nos palácios e cortes dos mais variados povos, em diversas civilizações, caindo na graça de reis e imperadores, praticado por exércitos e plebeus.

O gamão é um jogo de dados, uma invenção praticada por tribos primitivas na Ásia. Os primeiros dados foram feitos com ossos de animais e utilizados para prever o futuro. Podiam ter 4, 8, 12 ou 20 faces. Posteriormente, o cubo de 6 faces acabou adotado como padrão universal por sua facilidade em fabricação e por seu volume geométrico que facilita o lançamento e a rolagem.

Ancestrais do Gamão

Com os dados inventados, não demoraram a aparecer os jogos de percurso. Os tabuleiros mais antigos já encontrados estavam em Ur, cidade Suméria da Mesopotâmia, fundada no século XXVIII a.C., uma das primeiras urbanizações da humanidade, no atual Iraque. Os tabuleiros foram encontrados nos túmulos da nobreza, que praticava o Jogo Real de Ur.

Jogo Real de Ur (2600 a.C.)

Seu tabuleiro tem 20 casas e é jogado com 14 peças, 7 para cada lado. As peças movimentam-se utilizando três dados em forma de pirâmides. Representava o voo de aves por desertos perigosos, com oásis seguros para o pouso.

Nefertari (séc. XIII a.C.)

O mais antigo hieróglifo representando um tabuleiro de Senet, data do século XXX a.C, no Egito Antigo. O jogo era popular em todas as camadas, e simbolizava a jornada da alma para alcançar a imortalidade, na vida além-túmulo. Caiu em desuso por volta do século III d.C.

Senet de Tutankhamon (1334-1325 a.C.)

O tabuleiro de senet tem 3 colunas de 10 casas. As peças variavam entre 5 a 10 para cada participante, que lançavam varetas para determinar sua movimentação.

Krishna and Radha playing pachisi

O livro sagrado indiano RigVedas (1700 a.C.) relata o jogo do pachisi, então o jogo deve ter chegado à Índia anterior à 2000 a.C.; uma de suas formas conhecidas no Brasil é o jogo de ludo, e o objetivo é contornar o circuito do tabuleiro em primeiro lugar.

Ânfora etrusca (530 a.C.)

O filósofo Platão (428-348 a.C.) fez referências ao jogo de kubéia, na Grécia Antiga, que teria vindo do Egito. Provavelmente, o jogo que chegou até os romanos.

Tabuleiro de ludus duodecim scriptorum (séc. II a.C.)

Na época romana, o ludus duodecim -> scriptorum era jogado num tabuleiro de 3 fileiras, com doze casas cada. Foi praticado por Calígula, Nero e os primeiros cristãos seguidores do apóstolo Pedro. O jogo cai em desuso a partir do século I, substituído pela tábula. E esta perderá espaço durante a Idade Média, por não ser atividade de agrado das ideias da Igreja.

O gamão moderno

Maomé unifica os povos árabes em 630. Com a expansão do império, os árabes conquistam a Pérsia e adotam o jogo de nard.

Não se sabe ao certo sua origem, os persas podem ter aprendido o jogo com os indianos ou os chineses, mas é deste ramo de jogo persa que chegamos ao gamão moderno praticado nos dias de hoje, com o atual número de casas e pedras.

Buzurgmihr demonstra o nard para um Raja indiano (1300-1330)

Há uma lenda indiana que conta que o gamão foi inventado por um sábio chamado Caflan, e que seguia a seguinte simbologia: as 24 casas representam as 24 horas do dia. Cada lado do tabuleiro, com 12 casas, representa os 12 meses do ano, ou os 12 signos do Zodíaco. As 30 peças são os 30 dias do mês. Os 2 dados, o dia e a noite. E a soma das faces opostas do dado são os 7 dias da semana.

Giulio Rosati (1917)

São os árabes que introduzem o nard na Europa. A expansão do Império Árabe chega ao seu apogeu em 732. com a conquista da Península Ibérica, de onde só serão expulsos em 1492, deixando o gosto pelo jogo.

Libro de los Juegos 3 (1283)

Outra forma de ampliação do gamão pela Europa foi durante as Cruzadas (1096-1272), quando os europeus conhecem o nard na Palestina e importam o costume. O jogo torna-se popular nas cortes europeias, competindo com o xadrez.

codex manesse 1305-1340

Na Inglaterra ganha o nome de backgammon, na Escócia de gammon, na França de trictrac, na Alemanha de puff, na Espanha de tablas reales e na Itália de tavole reale.

The Luttrell Psalter (1325-1335)

O nome backgammon pode significar “pequena batalha” (back cammaun), mas também pode ser o “jogo da volta” (back game). Também pode ser o “jogo do outro lado” pois, em muitos tabuleiros, um lado jogava-se o xadrez e virando o verso estavam as marcações para jogar o gamão.

Williem Duyster (1625-1630)

O primeiro registro do nome backgammon foi em 1645, em A History of Board-Games other than Chess, de H.J.R. Murray.

adriaen van ostade 1672

As regras do gamão são normalizadas pela primera vez em 1743, quando Edmund Hoyle escreve “Pequeno Tratado sobre o Jogo de Gamão”.

Pequeno Tratado sobre o Jogo de Gamão, Edmund Hoyle (1743)

O dado de dobra no valor das partidas é uma recente incorporação nas regras do gamão. Aparece pela primeira vez nos clubes de Nova York, no final da década de 1920.

giancarlo impiglia 1988

Em 1964, o príncipe russo Alexis Obolensky organiza o primeiro campeonato mundial de gamão, nas Bahamas. Alexis foi considerado o “pai do gamão moderno” por seus esforços em divulgar o jogo.

Alexis Obolensky

O Windows adotou o gamão na instalação do sistema operacional, ajudando a difundir o jogo em milhares de lares. A partir da versão Windows 2000 o jogo foi disponibilizado também para disputa online.

gamão da microsoft

O Gamão no Brasil

O gamão chega ao Brasil importado de Portugal junto com os primeiros navegadores, uma vez que o jogo era praticado nas longas viagens transoceânicas. Há notas no Tribunal do Santo Ofício da Bahia e de Pernambuco relatando a ocorrência de blasfêmias, proferidas durante a disputa partidas de gamão, já no século XVI.

Urs Graf (1511)

Durante a Inconfidência Mineira (1789), um dos apoiadores do movimento de Tiradentes teve seus bens apreendidos, entre eles um tabuleiro de gamão que os inconfidentes utilizavam durante seus encontros.

jan stolker

Na corte brasileira, a Imperatriz Leopoldina jogava gamão enquanto D. Pedro I divertia-se com sua amante, a Marquesa de Santos.

Com o início da imigração dos países árabes para o Brasil, no final do século XIX, novos praticantes são introduzidos no país, fortalecendo o hábito do gamão.

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

Ainda em clima de comemoração pelo Registro Profissional de Jornalista, encontrei uma série que produzi em 2000, que visava a leitura crítica das notícias que saiam na imprensa, com o sugestivo nome de “UTI – O Brasil em estado terminal”. Poderia ser um embrião do humor do Ali Ben Al Terado, que viria à tona uma década depois. Naquela época, já dava para sentir toda a ironia que iria aflorar de vez com a criação do Al Terado.

Seguem as 7 colunas produzidas naquele inicio de século.

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

SAMBA MULHER E FUTEBOL

O cerco aos milhões desaparecidos na construção do prédio do TRT chegou à cúpula do governo federal. Os dias de sossego de FHC devem estar no fim. Seu ex-secretário-geral, Eduardo Jorge, terá que se explicar na Câmara. Contra ele estão perigosas ligações com o juiz foragido Nicolau dos Santos Neto, o “Lalau”. Estranhamente, no dia seguinte aos telefonemas, iam sendo liberadas gordas parcelas de dinheiro. A defesa alega que outros assuntos estavam sendo tratados, tais como a indicação de colegas que pudessem apoiar o governo em decisões judiciais. Não teriam, tão nobres senhores, discutido também sobre samba, mulher e futebol?

RUBRO DE VERGONHA

Nem os falecidos escapam. O escândalo atinge agora a Fundação Teotônio Vilela, que deve estar se remexendo na tumba. Seu filho, senador e presidente nacional do PSDB, afirma estar com muita vergonha. Vamos aos fatos. Auditoria interna confirmou o desvio de verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que deveriam ser aplicadas no combate ao desemprego, em cursos de qualificação profissional. Dos R$ 4,5 milhões liberados, R$ 2,37 milhões foram sacados em agências bancárias. Outros R$ 120 mil são relativos à compra de material escolar de uma empresa que trabalha no ramo de cimento. Sem falarmos nos R$ 45 mil usados na compra do carro importado da mulher do ex-diretor-administrativo da Fundação.

DE OLHO NA TELINHA

O governo está prestes a emitir 168 licenças para o funcionamento de retransmissoras de TVs educativas. As concessões são gratuitas e válidas por 15 anos (renováveis). Praxe no governo Sarney, a distribuição de canais televisivos transformaram-se na mais nova moeda de negociação política do clientelismo tucano. Em 1995, Sérgio Motta dizia que não haveria mais distribuição gratuita de canais, os processos passariam por licitações públicas. Cinco anos depois, uma lista de políticos, escondidos atrás de Fundações, disputa tão sonhada mina de dinheiro. As primeiras 12 concessões assinadas por FHC já beneficiaram prefeitos, ex-prefeitos, deputados estaduais, federais e parentes. Falta afora a aprovação do Congresso Nacional.

DO LIXO AO LUXO

Nosso país se aproxima cada vez mais de um grande aterro sanitário. O lixo escorre pelas beiras. As empresas de coleta de lixo estão lucrando como nunca, ao menos as envolvidas no esquema de corrupção na prefeitura de São Paulo. Vega Engenharia Ambiental e Vega Sopave S/A mandaram para o exterior R$ 46 milhões, derivados de “resultados positivos”. Com lucros tão assustadores, o Brasil deve ser proprietário do lixo mais rico do planeta.

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

PIMENTA, NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCO!

Alguém deveria corrigir o ministro Pimenta da Veiga. O homem não deveria sair falando bobagens por aí, ainda mais com o cargo que ocupa no Ministério das Comunicações. Dizer que uma CPI para apurar o desaparecimento dos R$ 169 milhões da obra do TRT-SP “é um exagero, puro exagero” agride a nossa inteligência. Meu caro ministro, não estamos tratando de pouca bobagem não senhor. Além da montanha de dinheiro que sumiu, temos o envolvimento do ex-senador Luiz Estevão, do juiz Nicolau dos Santos e do ex-secretário da presidência Eduardo Jorge. Nós, cidadãos brasileiros, não podemos mais aceitar estes ciscos nos olhos, esses chutes nos bagos.

PISANDO EM OVOS

O ambiente anda pesado no Planalto Central do Brasil. Em visita oficial, o rei da Espanha, Juan Carlos, trouxe de seu país uma compoteira de mais fino cristal. A peça era uma reprodução artesanal inspirada em obras do século XVIII, feita pela Real Fábrica de Cristal de La Granja com as mesmas técnicas que haviam no passado. Seu valor, incalculável. Da. Ruth abriu a tampa, mas não conseguiu fechá-la e todos saíram da sala. Um segurança foi arrumar o objeto que se esfacelou. Em Brasília, nem mãe de santo tá dando certo. A bruxa anda solta. Apesar de não acreditarem nela, que ela hay, hay.

SOGRO TAMBÉM É PARENTE?

De onde estiver o juiz Nicolau dos Santos, o “Lalau”, por favor responda-nos a essa dúvida. Sogro também é parente? Digo isso porque os procuradores da República Guilherme Schelb e Luiz Francisco Fernandes de Souza descobriram que o juiz foragido viajou em aviões da FAB a convite de Eduardo Jorge, na época secretário-geral de FHC. Quem também confirma a história é o ex-genro do magistrado, que diz que às vésperas das viagens, em família, “Lalau” se gabava de estar voando em jatinho de um “figurão de Brasília”. Ainda mais, para o ex-genro o juiz está escondido no Brasil. Só falta agora a polícia agir.

LEXOTAN

Onde estão os meus calmantes? Esta deve ser a pergunta mais frequente nos quartos de dormir dos poderosos. A repercussão do caso Eduardo Jorge derrubou a bolsa de valores paulista. A queda foi de 3,38%, a pior desde abril, e zerou os ganhos acumulados no ano. Para o diretor do BNP, o mercado ficou “incomodado” com o episódio. A bolsa vinha sendo sustentada por uma série de boas notícias, segundo o diretor do Lloyds Bank. Só se esqueceu de dizer quais. Daqui para frente, só tomando pílulas.

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

ESQUEÇAM O QUE ESCREVI

Esta parece que vai ser a frase lapidar do governo FHC. Depois de renunciar aos textos publicados enquanto sociólogo, nosso presidente quer que esqueçamos a sua assinatura no pedido de liberação de verba para a construção fraudulenta do TRT-SP. O documento é de 1996, para este ano estavam orçados R$ 7 milhões para a obra em questão. Com uma canetada, FHC elevou a verba para R$ 32,7 milhões. A assessoria presidencial diz que FHC não leu o que assinou e que a responsabilidade dos despachos é dos ministros. Naquele ano, duas pessoas faziam os despachos presidenciais, Clóvis Carvalho, e adivinhem quem mais? O assessor leal, Eduardo Jorge. FHC deveria tomar mais cuidado por onde enfia a caneta.

ADVOGADO DO DIABO

Na busca dos R$ 169 milhões desaparecidos na construção do TRT-SP a Justiça deu 45 dias para o Banco Central rastrear o destino das 89 ordens de pagamentos emitidas pela Incal. Até agora, apenas 8 foram esclarecidas. Foram encontrados US$ 34 milhões nas contas das empresas do ex-senador Luiz Estevão e US$ 6,2 milhões nas contas do foragido juiz Nicolau dos Santos, o “Lalau”. A defesa do ex-senador está melindrosa contra o bloqueio dos bens de seu cliente já que a maioria dos bens adquiridos são anteriores ao desvio da verba. É mesmo uma injustiça com o coitadinho. Além disso, como serão pagos os honorários dos advogados?

JESUS, ILUMINAI-NOS

Parece que agora só entregando a Deus. A atuação do Tribunal Superior Eleitoral é tão rasa que a Igreja Católica vai criar comitês para fiscalizar as eleições. Jayme Chemello, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, explica: “O problema da corrupção no país é cultural. No nosso país, enganar o outro é sinal de experiência e sabedoria.” Para ele, o eleitor brasileiro é enganado com muita facilidade. Os comitês vão esclarecer os eleitores a não votarem em candidatos que prometam empregos e distribuam cimento e comida em troca de votos, e distribuirão cartilhas para orientá-los.

FELIZ ANIVERSÁRIO

O Estatuto da Criança e do Adolescente completou 10 anos. Para comemorar, a Anistia Internacional lançou o relatório “Brasil, Desperdício de Vidas”. Trata-se de uma análise da situação da FEBEM, onde estão guardados os jovens em conflito com a lei. No auge das rebeliões do ano passado, o governador Mário Covas prometeu não descansar enquanto não resolvesse o problema. Até hoje, os meninos continuam apanhando, em condições sub-humanas, sem nenhuma atividade sócio-educativa. Talvez não sejam anjos, mas com esse tratamento, voltarão com mais ódio às ruas. O governo está ignorando a legislação federal sobre a criança e o adolescente e o Tribunal de Justiça é cúmplice das violações de direitos humanos, diz a Anistia Internacional. Tratando seus jovens assim é que o país vai para frente? Avança Brasil!

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

EM FAMÍLIA

O PAS “agoniza, mas não morre…”. Neste samba de várias notas superfaturadas, parece que muito dinheiro vem sumindo. Diretamente tirados do caminhão de lixo, os documentos que a empresa Matmed tentava se livrar comprometem outras três. Atenção, todas ligadas aos irmãos Amauri (dono da Matmed) e Mauro Alves Pereira (dono da Falcão Comercial de Produtos Ltda). A Saúde Pública agradece ao Sr. Guerino Alves Pereira (dono da Onix) por colocar no mundo dois pimpolhos tão brejeiros. A família conta ainda com Márcia Aparecida Sotto Alves Pereira (dona da Vitrine Médica Artigos Hospitalares). A nora parece seguir bem os caminhos ensinados.

SÓ RINDO

A Justiça pôs as mãos nos empresários José Eduardo Teixeira Ferraz e Fábio Monteiro de Barros, sócios da Incal, empresa envolvida no sumiço de módicos R$ 169 milhões, na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. Os dois foram libertados sob alegação de que o principal responsável pelas irregularidades seria o ex-senador Luiz Estevão. A lógica é “vamos prender o mais culpado”? Todos os culpados deveriam continuar presos! Adivinhem o final. Os três chegaram a ser detidos, os três estão soltos. Gastando à vontade e sorrindo.

LEMBRA DO LEMBO?

Este é um exercício de memória que talvez valha a pena. Não esqueçam este nome: Cláudio Lembo. O líder paulista do PFL lança o guia “Os Caminhos da Vitória”, que prega um comportamento ético dos afiliados. O próprio admite que não tem como garantir que o PFL seja “totalmente limpinho”. Também, tendo passado por seus quadros nomes como Hildebrando Pascoal (chefe do crime organizado no Acre), Talvane Albuquerque (acusado pelo assassinato da deputada Ceci Cunha, em Alagoas), Antônio Belinati (prefeito cassado de Londrina) e um candidato a vereador por São José dos Pinhais (PR) que tem seis CPFs, dois RGs, quarenta e cinco processos, foi autuado pela Receita Federal em R$ 800 mil, entre outras coisinhas mais. Desse jeito, nem sabão Omo – o branco que sua família merece – resolveria.

PESADO E LENTO

FHC recebeu em seu apartamento o sociólogo inglês Anthony Giddens. O guru de Tony Blair, pregador da tão almejada terceira via, deu o recado: “O Estado, inclusive no Brasil, não mostrou ser solução para os problemas sociais. Ao contrário, provou ser corrupto, pesado e lento.” Continua ainda: “O desenvolvimento econômico requer ação do governo… A política econômica deve estar conectada à política social. Os neoliberais, que só pensam em eficiência, falam apenas no equilíbrio da política fiscal.” Será que os nossos neoliberais pensam? Ou apenas copiam o que escutam?

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

OS TRAPALHÕES

A Praça dos Três Poderes, em Brasília, poderia mudar de nome. Poderia ser carinhosamente chamada de Praça dos Três Patetas. Estes sim, por seus prestáveis serviços de entretenimento, merecem nossa homenagem. Já os nossos comediantes do Judiciário, estes aprontaram novamente. Com a cassação do ex-senador Luiz Estevão, seu processo de prisão não poderá mais ser julgado pelo STF, e sim pela 1ª Vara da Justiça de São Paulo. A perda da imunidade parlamentar, amo menos a curtíssimo prazo, beneficiou mais uma vez o infrator. A impunidade persiste em nosso país.

O MESMO FILME

Parece ironia, o problema se repete. No caso dos cargos executivos, foram os vices (Sarney-Tancredo, Itamar-Collor). No legislativo são os suplentes. Cassado, quem substituiu o Hildebrando? Não foi um “cordeiro de Deus”. O substituto era pior que o chefe. O suplente do recém-cassado Luiz Estevão parece repetir a película. Vladimir Amaral (PMDB-DF) está sob investigação do Ministério Público. Acusações: formação de quadrilha e falsidade ideológica. ACM teme efeito dominó, com a abertura de sucessivas investigações para punição de maus senadores. Adiaram para agosto a posse do infeliz.

COBERTOR DE POBRE

A bancada da Saúde no Congresso vem lutando pela aplicação mínima de recursos destinados ao setor. Para este ano, conseguiram aprovar R$ 502 milhões acima dos valores previstos. O coro da oposição é engrossado pelo ministro José Serra. Pedro Malan criticou a aprovação da Emenda Constitucional que beneficiou a Saúde. O ministro da fazenda diz que outros setores sociais serão prejudicados, pois o dinheiro que vai para a Saúde terá que sair de algum lugar.

PELAS ESTRADAS DA VIDA

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que apenas os governos municipais não poderão fazer propaganda durante as eleições deste ano. Desta forma, governo federal e estadual estão livres para gastar à vontade em anúncios, ajudando indiretamente os candidatos dos partidos da situação. Em Minas Gerais a temperatura já é alta. Enquanto o Planalto espalha publicidade com o tema “Minas. Aqui tem desenvolvimento, aqui tem governo federal.”, o governador Itamar Franco insiste em pregar placas acusando o mesmo governo empreendedor pelas más condições do tráfego nas estradas federais que cortam o seu bucólico Estado de Minas Gerais.

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

VALHA-ME DEUS

Com a perda da imunidade, o ex-senador Luiz Estevão ganhou mais alguns minutos de respiro. O processo que corria contra ele em Brasília terá que mudar para São Paulo, mas a Justiça está em recesso. O responsável para que o processo continue andando, mesmo durante as férias forenses, é Marco Aurélio de Mello, primo do cassado Collor. Marco Aurélio tem poderes para enviar já o processo para São Paulo, como também tem poderes para esperar a volta do juiz titular do caso, apenas em agosto.

REGULAR POSITIVO, REGULAR NEGATIVO?

Viva os institutos de pesquisas. Depois de segurarem a candidatura Marta Suplicy até o último minuto, induzindo o eleitor ao voto útil em Covas contra Maluf, agora tentam salvar a popularidade de FHC. Os últimos números apontam 73% de entrevistados desaprovando nosso príncipe da sociologia. Ainda estão com o homem 26% dos ouvidos. A maior inovação: no quesito aprovação são medidas as respostas ótimo, bom e regular positivo. No quesito desaprovação são contadas as respostas péssimo, ruim e regular negativo.

PREVISÃO DO TEMPO: CHUVAS E TROVOADAS

O ministro Andrea Matarazzo (Comunicação da Presidência) acha que a baixa popularidade do presidente não é tão ruim como pintam. Disse: “o clima é pior que a realidade.” Para os governistas a imagem do governo está sendo abalada por fatores ligados à economia externa ao país. Mas com as notas que tirou, FHC não passaria no provão: Transportes 4,43; Educação 4,18; Saúde 3,5; Agricultura 3,45; Combate à Inflação 3,43; e Reforma Agrária 3,06. Governistas acham que os investimentos na área social, ao menos nos dois últimos anos dos oito em que FHC estará no governo, possam ajudar para que seu nome não prejudique a candidatura de seu sucessor. Nuvens negras à vista.

FAMÍLIA VENDE TUDO

A onda das privatizações continua. Furnas, que deu um prejuízo de R$ 346 milhões nos cinco primeiros meses do ano passado, acusa um lucro de R$ 260 milhões para o mesmo período deste ano. A previsão do balancete para 2001 é de R$ 700 milhões positivos. Saneada, a empresa está no ponto para ser passada para o mercado privado, sempre com preços de pai para filho. Nossos governantes são dignos de uma Família Trapo.

UTI – O BRASIL EM ESTADO TERMINAL

MADRE TERESA

Somente os poderes municipais serão vigiados nas eleições de outubro. Governos estaduais e federal poderão gastar à vontade com publicidade de suas belas obras. O Tribunal Eleitoral acredita que coibirá os abusos de poder político e uso da máquina administrativa. Conta com um grande aliado na parca fiscalização: o povo! O presidente do Tribunal, Neri da Silveira, crê numa jornada cívica de candidatos e eleitores para assegurar uma campanha limpa. É muita inocência para um homem só.

QUEM AVISA AMIGO É

Foi dada a largada para a sucessão municipal. Começou, oficialmente, a campanha eleitoral 2000. O PSDB largou na frente no requisito “uso de posição previlegiada dentro do poder público federal para beneficiar candidaturas em esferas municipais”. A cúpula do partido acertou uma agenda dos ministros, que viajarão o país para divulgarem as virtudes do governo. José Serra (Saúde) e Paulo Renato (Educação) serão os mais requisitados., têm a missão de levantar a popularidade do partido. Do jeito que as coisas caminham, serão ovacionados em praça pública.

CASA DA MÃE JOANA

O Brasil se aproxima cada vez mais de um prostíbulo. O país, já famoso por suas atrações no turismo sexual, atrai centenas de civilizados europeus (e outras raças superiores) que populam nossas praias nordestinas, atrás de aventuras com meninas adolescentes subnutridas. Mas, desta vez, o caso é diplomático. O cônsul-adjunto de Israel, Arie Scher, teve que fugir para seu país enquanto a polícia vasculhava seu apartamento. O tarado mantinha 9 sites pornográficos, está envolvido até o pescoço numa rede de pedofilia e prostituição infantil. A fuga se deu no voo 1416, às 12hs 48, em plena luz do dia. A polícia não tomou medidas preventivas, pois acreditava que o maroto iria se apresentar para depor, conforme informações passadas pelo consulado.

ASSIM NÃO VALE

O Exército Brasileiro deslocou tropas para defender as posses da família do presidente FHC. O governador de Minas entendeu que esta não é a incumbência das Forças Armadas, e quer saber o custo da operação. Pretende conquistar na Justiça uma indenização aos cofres da União. No bate-boca entre as partes, a assessoria jurídica da presidência reclamou da possível vitória de Itamar com muxoxos: “Hoje, tem liminar para tudo”. O que é uma “liminarzinha” para quem vive de medidas provisórias?

ALI BEN AL TERADO, O JORNALISTA

Depois de 14 anos trabalhando em uma empresa de comunicação, finalmente obtive o Registro Profissional de Jornalista. Está certo que nos dias de hoje isto não quer dizer muita coisa, pois basta apresentar o CPF, RG e comprovante de residência para qualquer um dar entrada no pedido de registro na profissão. Mesmo assim, resolvi comemorar o fato incluindo no blog a história de Ali Ben Al Terado.

Ali “nasceu” no início de 2011, numa época em que eu andava com algum tempo livre e conheci o projeto do “A Primeira Vítima” (http://www.aprimeiravitima.blogspot.com), um blog de jornalismo satírico que visava recriar a realidade da “grande imprensa”, com um humor crítico.

Assim foi o texto de apresentação do personagem:

“Ali Ben Al Terado é antes de tudo um estrangeiro. Jornalista, correspondente sírio em terras brasileiras para o tablóide jihadista Shakeena, seus artigos também são publicados no Brasil pelo blog noticioso “A Primeira Vítima”. Apesar de anos vivendo nos trópicos, Al Terado continua se surpreendendo com a realidade brasileira, que costuma deixá-lo a ponto de explodir. Espírito indignado, anda sempre com uma notícia-bomba na mão, o que traz muitos problemas com as portas giratórias, e com os poderosos de plantão.”

Al Terado, em terras estrangeiras

A ideia era acompanhar os jornais, eleger uma matéria por dia, para ser detonada logo em seguida, em um artigo clonado, de forma distorcida, expondo os absurdos da sociedade brasileira, que nos chegam diariamente pela imprensa. O trabalho incluía também uma pesquisa de imagem, elegendo uma foto acompanhada de uma legenda absurda, para ilustrar os artigos.

Lendo agora, a frio, talvez fique um pouco sem sentido, com a distância da matéria original, mas valeu muito como exercício, e é um projeto que pode ser retomado a qualquer momento, basta ler as manchetes, nossa corrupção endêmica é sempre uma fonte inesgotável de humor.

Segue o resultado, em 8 artigos realizados naquele bolorento começo de ano.

Partido da Caixinha do Brasil faz gol de letra no Ministério da Ginástica – Orelhando promete aparelhar a pasta.

O Partido da Caixinha do Brasil, há quase uma década à frente da pasta da Ginástica, dá show de bola em São Paulo. O ministério de Orelhando Silva já liberou R$ 28 milhões para a ONG “Bola pro mato que o jogo é de campeonato” implementar o projeto “Segundo Tempo”; apesar do contrato prever apenas R$13 milhões para a inclusão social de jovens.

Ministro Orelhando testa os novos aparelhos

Segundo o próprio Orelhando, com esse dinheiro será possível ir além, realizando mesas redondas para a divisão das verbas suplementares. Quando perguntado pela reportagem se a escolha de uma ONG ligada ao partido não caracterizaria aparelhamento do Estado, o ministro respondeu de pronto que “sim”, e que “a licitação para a compra de novas esteiras, bicicletas ergométricas e aparelhos de supino já se encontra em fase adiantada”.

Brazyl terá novo policiamento poliglota – Zilma adverte: “lugar de cachorro é no quintal”.

A Cãolícia Federal anunciou a importação de mais de 100 pastores belgas para uso durante a Copa, em 2014. Um trem da alegria parte ainda esta semana para o exterior, para adquirir os primeiros animais.

Patrulha canina faz ronda no Palácio do Blá-nalto, em Brazyíia

Cada “au-au” custará 10 mil reais aos cofres públicos, sem levar em conta os custos do banho e tosa. Os animais já virão treinados para deitar, rolar e fingir de morto; além de latir em inglês, francês e italiano.

Passada a Copa, a idéia é que o exército canino atenda à Presidência da Rês-Pública, copiando o modelo norte-americano que usa os “pets” para apanhar os chinelos e o jornal do presidente Barraco Abana.

A presidenta Zilma, contrária à importação não tributada de hábitos culturais, já avisou que “lugar de cachorro é no quintal”, e os bichinhos dificilmente passarão da cozinha.

“Bruna Programinha” estreia nos cinemas – Um puta filme, de uma puta escritora, exalta a crítica.

Entra em cartaz esta semana, nos principais drive-ins do país, o longa-metragem “Bruna Programinha”. O filme, baseado em livro homônimo de Raquel Pasecco, arrancou elogios da crítica em sua pré-estréia.

Al Terado confere o set de gravação

“É um bom sinal, o público do cinema nacional não pode parar de crescer”, afirmou o diretor do longa Mar-cus Bandido, enquanto distribuía pílulas azuis aos convidados.

A mera-atriz Deborah Molhadinha foi escolhida a dedo para viver na tela o que Bruna Programinha viveu na cama, e deixou toda a platéia em pé.

“Um puta filme, baseado na obra de uma puta escritora”, disparou o crítico e cineasta Arnaldo Jebão, logo após a exibição do longa.

Apesar do sucesso, a verdadeira Bruna Programinha não demonstrou muito entusiasmo com a obra, e declarou “já ter engolido coisas piores”.

Para evitar a pirataria, os cafetões do filme distribuíram as mais de 300 cópias para todo o Brasil com o nome falso de “A Noviça Rebelde”.

Ruralistas abrem mão de anistia – Despudorado Aldo Cabelo responde generosidade com pacote de beneficies.

No apagar das luzes do governo de Luis Inácio Polvo da Silva, o então presidente criou o “Programa Mais Ambiente Degradado”, uma iniciativa nunca antes vista neste país, que prevê a anistia de R$ 10 bilhões em multas aplicadas aos proprietários rurais por devastar o meio ambiente. Próximo ao termino do prazo, nenhum ruralista aderiu ao programa.

“Arrasar a floresta nos proporcionou um lucro tão amazônico que resolvemos abrir mão do benefício concedido. Assim, o governo pode aplicar os recursos anistiando outros ramos da criminalidade mais carentes que o do agronegócio”, afirmou o líder ruralista Ronaldo Cagado.

Ronaldo Cagado, líder ruralista e adepto de práticas sustentáveis

Os ruralistas contam também com o apoio do despudorado federal Aldo Cabelo, do Partido Ceifador de Biomas, e relator do novo Código Florestal. Cabelo vem trabalhando para a aprovação de uma lei que isentará os proprietários de recompor as reservas por eles degradadas, além de reduzir a área de proteção que deveriam manter às margens dos rios, entre outras sutilezas.

“Essa gente foi tão generosa, abrindo mão de um direito concedido, que me senti na obrigação de preparar um pacote de benefícios à altura”, justificou o relator. Cabelo espera que até março a Câmara dos Despudorados aprove seu projeto.

Pré-carnaval de Minas eletriza foliões – “O trio elétrico está chegando ao fim”, profetiza o governador Anestesia.

O grito de carnaval da pequena Baderna do Sul pôde ser ouvido até na cidade vizinha de Poços em Caldas, há 24 km de distância. Embalados pela “Serpentina Metálica”, os foliões saíram do chão, e pularam em ritmo eletrizante.

Foliões tomam as ruas de Baderna do Sul, MG

Empolgado com a novidade, o governador de Minas Antônio Anestesia acredita que o exemplo mineiro tomará dimensões nacionais: “O pessoal está pulando até às cinzas; o carnaval está no DNA do povo mineiro. Afinal, mineiro é o baiano que a caminho de São Paulo resolveu parar e descansar. A energia que estamos passando é tão contagiante que o antigo modelo de trio elétrico está com seus dias contados.”

Blá-zylia

Os Sonados Federais já embarcaram na folia, e prometem trabalhar somente até esta terça-feira. “Na quarta, dificilmente alguém será encontrado, os nobres colegas estarão a caminho de suas bases, para ensinar a ‘Serpentina Metálica’ aos foliões de todo o país”, prevê o presidente do Sonado, José Barney.

Bahia

O músico Caetano Manhoso deve apresentar ainda esta semana seu hit para carnaval baiano de 2011. Manhoso disse não poder mostrar a música antes de seu lançamento oficial, mas acredita que será um sucesso estrondoso, e adiantou o primeiro verso para a reportagem: “Atrás da Serpentina Metálica só não vai quem já morreu”.

Mictório Público pede prisão preventiva de Bebê Constantino. “Ninguém mandou mijar pra fora”, endossa a Promotoria.

Já não era sem tempo, o Mictório Público do Distrito Federal finalmente pediu a prisão preventiva do afundador da Vol Linhas Aéreas, o empresário Bebê Constantino. A medida atropela a indecisão da Justiça, que fazia vistas grossas às picardias de Bebê.

Além de não levantar a tampa ao usar o vaso e esquecer-se de dar descargas, Constantino também é acusado de atrapalhar as investigações do processo que corre contra o empresário por assassinato, afirma o promotor José Pimenta No Dos Outros Neto.

No Dos Outros acredita que Bebê seja o responsável pelo atentado contra o ex-funcionário João Marques do Capeta, matador profissional que deveria depor em 1º de março, no Fórum de Tangatinta (DF).

Capeta admitiu ter mandado oito desafetos do ex-patrão para a outra vida, em anos de trabalhos sujos prestados, e estava disposto a confirmar tudo de pés juntos. Em 18 de fevereiro último, Capeta levou três tiros na porta de sua casa, porém sobreviveu para dedurar o malfeitor.

Tia Nastácia promete limpar as cacas de Bebê

Bebê Constantino negou as acusações. “Se tivesse a minha mão nisso, esse Capeta teria morrido voando”, disse o empresário com a firmeza de quem tem larga experiência em eliminar a concorrência. Tia Nastácia também partiu em defesa do pupilo e afirmou estar disposta a limpar qualquer sujeira que Bebê possa ter deixado para trás.

Arranca rabo por causa da mordida do Leão Gay. – Despudorados machões prometem descer a porrada e pôr fim na frescura.

A confusão está instaurada no Com-gesso Nacional. O Despudorado Federal Arrombado Fonseca, do Partido Retrógrado do Detrito Federal, está revoltado com a decisão da Receita em incluir companheiros homossexuais como dependentes na mordiscadela no lóbulo do Leão, deste ano.

A Consultoria de Moda da Câmara também reprovou o leão rosáceo, e publicou uma nota técnica dizendo que o novo tom de cor da juba não combinará com os tons pastéis do cerrado brasileiro. Ambos defendem também que a frescurada toda só pode ser autorizada quando os próprios com-gessistas decidirem sair do armário. O Despudorado está juntando uma turma para dar cabo no assunto.

Juba rosa foi vetada pela Consultoria de Moda da Câmara

“A Receita não tinha o direito de passar na nossa frente, tem colega que ainda não está pronto para esse tipo de declaração. Nós vamos domar esse leão afeminado, nem que seja na base da porrada”, alertou Arrombado Fonseca.

O Despudorado Jeep Wyllys, do Partido Sem Óleo Lubrificante, está em posição oposta e de costas. Ele acha que tamanha violência não levará a lugar algum.

“O colega Arrombado está sujo na rodinha. Por trás, seu discurso e a norma técnica da Consultoria de Moda da Câmara revelam o preconceito de nossa sociedade machista. Incluir o homossexual como dependente é um grande avanço, eu mesmo não conseguiria viver sem o meu homem”, pronunciou Jeep Wyllys em seu discurso em defesa da manutenção da atual isenção concedida aos parceiros gays.

Enquanto não se chega a um acordo sobre a validade jurídica de a Receita legislar sobre assunto tão delicado, a temperatura deve subir nas saunas e savanas de Blá-sylia.

Confetistas inovam mais uma vez e decretam o Carnaval de 10 dias. – “Ninguém resiste ao desejo”, afirma José Barney.

Os políticos brasileiros, sempre muito preocupados em preservar as tradições culturais de seu país, parecem ter uma criatividade sem fim. Num rompante de genialidade, decretaram o Carnaval de 10 dias. Tanto Despudorados como Sonadores só deverão retornar ao trabalho no próximo dia 12 de fevereiro.

José Barney, entusiasta do Carnaval de 10 dias

A reportagem já havia antecipado essa tendência ao tratar do caso da “Serpentina Metálica”, em Baderna do Sul (MG). Na ocasião, o presidente do Sonado José Barney, do Partido da Mordomia Distributiva Brasileira (PMDB), admitiu que seus colegas embarcariam em massa para seus estados de origem, propagando a eletrizante novidade surgida no pré-carnaval mineiro.

A medida foi recebida com muita serpentina no Confete Nacional, mas infelizmente neste caso não foi usado o mesmo material de Minas Gerais. José Barney aliviou geral, dispensando os Sonadores já na quarta, 2 de fevereiro.

Mesmo sabendo que os Sonadores são como carros alegóricos – que vivem dos penduricalhos – Barney garantiu que não serão descontados os dias parados. “O Carnaval no Brasil é uma tradição. Nunca ninguém resiste a esse desejo de participar”, afirmou José Barney.

Nesta quinta, 3 de fevereiro, a reportagem contou pouco mais de 10 Sonadores presentes ao trabalho, que logo se evadiram, antes mesmo que pudéssemos tirar o sapato e as meias para continuar somando. Ao todo são 81 Sonadores eleitos.

Um pouco diferente, na Câmara, formou-se uma longa fila pela manhã, quando 188 Despudorados compareceram para registrar o ponto e logo em seguida partir de malas prontas para a folia. Ao todo são 513 Dispudorados eleitos.

Os Confetistas não precisarão se preocupar com o trânsito das estradas na volta do feriado, pois as sessões da quinta e da sexta após o carnaval estão reservadas exclusivamente para discursos, e não haverá votação. Quem não puder comparecer para contar suas proezas carnavalescas também não terá um centavo descontado ao final do mês.

O líder do Partido do Trampolim (PT), Humberto Gosta, passou o dia preocupado em não perder o vôo para o Recife, ansioso por curtir um frevo rasgado. Já o líder do governo na Câmara dos Dispudorados, Cândido Calabrezza (PT-SP), alegou estafa como justificativa para o recesso de 10 dias.

“Em nenhum parlamento do mundo há trabalho em feriado. Acabamos de votar umas medidas provisórias, o pessoal está merecendo umas Brahmas”, decretou Calabrezza.

Além desses artigos, Ali Ben Al Terado possui perfil no facebook, onde podemos ver um pouco mais da intimidade do jornalista, através de seu álbum de fotos:

Ali (ao centro) baforando entre amigos

Ali e seu pet

Ali e colegas da redação rumo ao paint ball

Ali, Visconde de Mauá – RJ

Burkini, Ubatuba – SP

Ali em momento iluminado