O CAMINHO DO AÇO (2004)

O CAMINHO DO AÇO (2004)

O Caminho do aço é um documentário que conta a história da siderurgia no Brasil. Para entender esta história tive que fazer o curso “siderurgia para não siderurgistas” promovido pela Associação Brasileira de Metais.

Além da parte técnica sobre como se produz o aço, também fui buscar a presença do aço na história do Brasil. O roteiro é construído unindo a evolução das formas de fazer o aço à evolução política e econômica brasileira.

Uma rápida abertura contextualiza o uso do ferro nos primórdios da humanidade. A Idade do Ferro começa 3.500 anos atrás. Dominar a técnica de manipular o metal significava o sucesso de uma civilização sobre outra que não a dominasse.

Partindo deste preceito, dominar o ferro e posteriormente o aço torna-se um elemento fundamental para a solidificação do Brasil como uma nação independente. E é esta a história que o documentário investiga.

O descobridor português, ao chegar à costa brasileira, encontra índios ainda na idade da pedra. Nossos primitivos habitantes não dominam o trabalho de metais, para decepção do conquistador.

O primeiro documento histórico utilizado pelo programa é uma carta do Padre Anchieta que, cheio de esperança, acredita que logo os portugueses encontrarão metais no interior do continente e com isso os recursos para catequisar os índios.

Afonso Sardinha parte em busca desses metais e na região de Araçoiaba cria a primeira forja catalã, em 1587. Nos séculos seguintes, pequenas forjas se espalham pelo território brasileiro, fabricando os apetrechos como machados e enxadas necessárias para a colonização.

Por esse processo, minério de ferro e carvão vegetal são aquecidos numa espécie de churrasqueira. O calor faz com que o carbono do carvão se funda ao ferro, produzindo a liga chamada ferro-gusa, uma liga de ferro-carbono com 4,5% de carbono.

O aço trata-se do mesmo material, mas o teor de carbono não pode ultrapassar 2% para que mantenha suas propriedades de maleabilidade e resistência.

O próximo documento-chave na evolução da siderurgia brasileira foi o edital de D. Maria, de 1785, proibindo a existência de fábricas em toda a colônia. Portugal não queria ver o desenvolvimento autônomo do Brasil, que deveria manter-se dependente da Metrópole.

D. João, ao assumir o trono, revoga a proibição de sua mãe, mas o desenvolvimento de uma verdadeira siderurgia nacional só viria mais tarde. Em 1808 a corte portuguesa, ameaçada pela invasão napoleônica, é obrigada a deixar Portugal e se fixar na colônia. Agora sede do Reino, é preciso desenvolver o Brasil.

Em 1811, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, localizada próxima aos primeiros fornos de Afonso Sardinha, torna-se o primeiro complexo siderúrgico no Brasil. D. João traz técnicos da Europa e monta ali os primeiros altos-fornos, um avanço tecnológico considerável sobre as antigas forjas catalãs.

Uma carta de Barão de Mauá é o próximo documento escolhido para ilustrar o programa. Mauá viaja à Inglaterra em 1840 e fica maravilhado com a revolução industrial, o uso do ferro e do vapor. Em seus escritos fala do sonho de implementar um parque similar no Brasil, mas as nossas elites enxergam o país como um exportador agrário e Mauá fracassa.

Até o inicio do século XX não há grandes avanços na fabricação do ferro e do aço no país. Empresas de capital estrangeiro atuam no Brasil no intuito de exportar o minério de ferro enquanto o país importa o metal já manufaturado. A Crise de 1929 derruba a economia do café, mostrando a necessidade urgente do Brasil deixar de ser agroexportador.

Na luta por um projeto de nação, Monteiro Lobato clama pela instalação de uma indústria siderúrgica 100% nacional. É dele um artigo no jornal O Estado de São Paulo escolhido para ilustrar o momento crucial por qual passávamos.

O grande passo no sentido de termos uma siderurgia brasileira vem na Era Vargas. Com o inicio da Segunda Guerra, Getúlio toma uma posição ambígua, aproximando-se da Alemanha. Interessado no apoio brasileiro e no uso da base de Natal, o presidente americano firma acordo com Vargas, liberando os recursos para criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda.

É um novo avanço tecnológico, agora utilizando o carvão mineral no lugar do carvão vegetal em seus altos-fornos, mas que ainda não atende a todas as necessidades de consumo de um país que cresce e se urbaniza.

O programa então busca as memórias de Juscelino Kubitscheck, onde o presidente fala da autonomia da indústria siderúrgica nacional. Sua maior obra, Brasília, ainda é construída usando material importado. Em seu governo surgem a Usiminas e a Cosipa, além da ampliação da CSN.

Durante o período da Ditadura Militar, no milagre econômico dos anos 70, acontece a atualização tecnológica do parque siderúrgico brasileiro, com a instalação de modernos equipamentos, como os conversores LD e o lingotamento contínuo.

Com a recessão pós-milagre a indústria siderúrgica sofre com o crescente endividamento das empresas do setor, que são obrigadas a manter preços tabelados numa tentativa do governo em frear a inflação. Em greve, a CSN é ocupada por 800 homens e tanques do exército, com um saldo de três metalúrgicos mortos e quarenta feridos.

No período Collor-FHC acontece a privatização do setor, cercada de polêmicas, em leilões tumultuados, com agressões aos investidores por parte da militância contrária. O documentário encerra com o discurso otimista de crescimento da então Ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff e a fala do Presidente Lula elogiando os esforços de Vargas, o entusiasmo de JK e a visão de longo prazo dos militares.

Anúncios

A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A GUERRA DOS PAULISTAS (2002)

A Guerra dos Paulistas é um documentário que conta a história da Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo rebela-se em armas contra o governo de Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro.

Foi um dos mais bem elaborados documentários que tive a oportunidade de participar. Estive em centros de documentação de São Paulo, Santos, Praia Grande, Campinas e Rio de Janeiro. Colaboraram com as pesquisas, enviando imagens, acervos do Paraná e de Minas Gerais.

Houve uma dupla direção. Luiz Bolognesi dirigiu a parte histórica, com as entrevistas e imagens de época. Laís Bodanzky dirigiu a parte ficcional, em película super 8, com a história de três personagens que participam dos combates pelo lado paulista, costurando as partes documentais.

Para entender a guerra que envolveu mais de 200 mil homens, artilharia pesada, combates aéreos e navais, com o bombardeio de grandes cidades é preciso retroceder até a República Velha.

As elites cafeeiras dominavam o cenário político, com eleições forjadas, onde apenas 5% da população votavam. Os partidos republicanos paulista e mineiro alternavam-se no poder, na chamada política do café com leite. O governo cuidava para os lucros certos, comprando estoques e se necessário queimando café ou jogando-o ao mar, para garantir preço no mercado. Era o auge do coronelismo e do voto de cabresto.

O Brasil transformava-se, cresciam a imigração, a urbanização e a industrialização. O movimento operário era tratado como caso de polícia, com forte repressão. A classe média, sem representação política, encontrava-se estrangulada economicamente. Seguir a carreira militar era uma opção, e o Tenentismo apresentava-se como o movimento que clamava pelas mudanças modernizantes. Os quarteis, com o apoio das ruas, levantaram-se e depuseram o presidente Washington Luís. A Revolução de 1930 botava fim à República Velha e levava Getúlio Vargas ao poder.

Em São Paulo, o Partido Democrático que havia apoiado Getúlio Vargas esperava que Francisco Morato fosse nomeado governador. Porém, Getúlio nomeia o tenente pernambucano João Alberto para o cargo de interventor do estado. Já de início, João Alberto autoriza comício do Partido Comunista, determina um aumento salarial de 5% e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Distribui as terras de cafeicultores endividados com bancos para os tenentes rebelados e dá cargos públicos para militares de outros estados. Em um São Paulo ocupado, soldados tomam produtos e serviços sem pagar por eles, em nome da Revolução.

O sentimento de revolta nasce com o clamor por um Congresso Constituinte. Em 1931, o jornal O Estado de São Paulo pressiona Vargas para que seu governo revolucionário providencie eleições e uma nova constituição. Em crítica aos paulistas, Vargas afirma que a máquina republicana ainda manipularia os resultados.

Os alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco passam a coordenar comícios contra Getúlio. João Alberto responde com prisões, destruição de jornais oposicionistas e, preventivamente, desarma os quartéis paulistas. As pressões por eleições chegam até o Rio de Janeiro e para ganhar tempo Vargas decide trocar João Alberto pelo Coronel Rabelo.

No início de 1932, o Partido Democrático rompe de vez com Getúlio e se une ao Partido Republicano Paulista, formando a Frente Única. Adotam a imagem do Bandeirante Paulista como ícone do movimento contra o governo federal. Militares incomodados em ver tenentes mandando mais que generais, começam a articular uma reação.

Em São Paulo, o General Isidoro Lopes e o Coronel Euclides Figueiredo entram em entendimento com o General Bertoldo Klinger, do Mato Grosso. Planejam um ataque ao Rio de Janeiro para depor Vargas. Klinger, trazendo 5 mil soldados e pesada artilharia, encontrar-se-ia com 10 mil homens das tropas paulistas no Vale do Paraíba. Contavam ainda com promessas de apoio de Flores da Cunha, que enviaria tropas do Rio Grande do Sul, e com o apoio de Oligário Maciel, que enviaria tropas de Minas Gerais.

Em 22 de maio, estudantes paulistas invadem cinemas e a rádio Record, convocando a população à resistência. Promovem discursos em frente aos quartéis. Animados, resolvem atacar a sede do movimento tenentista, na Praça da República. Sem conseguir entrar pela porta, os estudantes instalam escadas para subirem até o escritório no quarto andar. Armados, os tenentes resistem. A troca de tiros perdura madrugada adentro. O 23 de maio amanhece com quatro jovens mortos: Miragaia, Martins, Dráuzio e Camargo.

Surge então a associação M.M.D.C., com o intuito de organizar a guerra contra Vargas. A ideia é atacar no 14 de julho, dia da Revolução Francesa. Vargas se antecipa e demite o general Klinger, no Mato Grosso. Em São Paulo, o General Isidoro Lopes decide iniciar o movimento no 9 de julho.

Civis tomam as rádios e os telégrafos de São Paulo, convocando a participação de todo o estado. Os jornais conclamam os jovens a voluntariarem-se. A Força Pública, polícia militar da época, também adere ao movimento. Trens partem com tropas para a Serra da Mantiqueira, meio caminho para o Rio de Janeiro.

Os paulistas posicionam suas tropas no túnel da Central do Brasil, na divisa entre São Paulo e Rio, e nas escarpas da Serra da Mantiqueira. Aguardam as tropas de apoio de Minas Gerais do Rio Grande do Sul. Demitido na véspera, Klinger chega sem os prometidos reforços de 5 mil homens e artilharia.

O ex-interventor João Alberto, agora chefe de polícia no Rio de Janeiro, manda prender todos os apoiadores paulistas na capital federal. O general Góes Monteiro lidera a reação federal. Getúlio Vargas convence Flores da Cunha e Olegário Maciel a mudarem de lado, as tropas prometidas realmente chegariam, mas para combater os paulistas. Navios de guerra partem da Guanabara em direção à Santos, onde farão um bloqueio naval que impedirá a circulação de mercadoria e armas.

Em 13 de julho acontece o primeiro combate, uma tropa federal enviada por terra encontra-se com os paulistas em São José do Barreiro e são trocados os primeiros tiros. Logo em seguida, as tropas mineiras sob o comando do Coronel Eurico Dutra entram em combate com os paulistas do alto da Mantiqueira, em quatro dias de combates violentos.

Em 15 de julho, tropas paulistas conseguem deter fuzileiros navais que, aportados em Paraty, subiam em direção a Cunha. Na frente sul, os paulistas são atacados em Itararé, onde aguardavam o encontro amistoso com as tropas gaúchas. Fogem sem impor resistência, posicionando-se em Buri. Após um mês de guerra, a situação paulista não é confortável.

Do lado de São Paulo são 12 mil soldados da Força Pública, 3.600 soldados do Exército e 45 mil voluntários civis sem treinamento militar. Possuem 25 mil fuzis e munição para apenas 5 tiros por dia. A aviação paulista tem 6 aviões. As tropas federais contam com mais de 200 mil homens, vindos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Estados do Nordeste. Possuem farta munição, artilharia pesada, navios de guerra e mais de 50 aviões.

Jornais e revistas locais fazem propaganda dos avanços paulistas, dizendo que as derrotas dão boatos de traidores. Getúlio fomenta pelo Brasil que os paulistas rebelados são separatistas, liderado por italianos comunistas. Panfletos são lançados por aviões nos dois lados das fronteiras.

Mulheres e crianças se envolvem no esforço de guerra paulista. Fábricas de utensílios domésticos passam a produzir capacetes e armamentos. Uma campanha pedindo ouro para a revolução toma até alianças de casamentos. São Paulo constrói um temido trem blindado.

No final de agosto, a guerra está confinada a seis frentes de trincheiras. Em 3 de setembro, hidroaviões bombardeiam o Forte de Itaipu, na Praia Grande. Dias depois, o alvo é a central Elétrica de Cubatão, que abastecia a energia de São Paulo.
Em setembro, após feroz resistência, cai a trincheira de Buri. As tropas federais também se aproximam de Botucatu e começa um cerco à Campinas. A cidade é atacada por aviões, que lançam bombas de 40 kg.

O pânico de um futuro ataque toma conta de São Paulo. A aviação federal bombardeia o Campo de Marte. Em 12 de Setembro finalmente cai a resistência no túnel da Mantiqueira, e a cidade de Cruzeiro é tomada. A resistência recua para Aparecida do Norte.

Em 29 de setembro, Klinger escreve à Getúlio pedindo uma deposição de armas de ambos os lados. O General Góes Monteiro exige uma rendição paulista. Em 2 de outubro, o coronel Herculano de Carvalho retira os 12 mil homens da Força Pública do combate. O coronel Euclides Figueiredo tenta levar seus homens para o Mato Grosso, usando o trem blindado, mas um cerco em Jacareí faz com que a tropa se disperse. As lideranças paulistas são presas, levadas a um navio presídio e enviadas ao exílio em Lisboa.

Fracassada a tentativa de derrubar Getúlio à força, os paulistas teriam uma breve vitória política. O tema constitucionalista agora era um assunto nacional e Vargas é obrigado a convocar as eleições constituintes. A nova constituição é promulgada em 1934, mas dura pouco. Em 1937 Vargas a anularia, decretando o Estado Novo e se impondo como ditador até 1945.