POEMAS DE MARCELO AITH

Esse blog tem a função de trazer à tona minha produção literária que se encontrava restrita ao fundo da gaveta. Já publiquei uma vasta pesquisa sobre como se deu o massacre sertanejo do Contestado, no Oeste de Santa Catarina, entre 1912-1916. Publiquei uma peça modernista, retratando os personagens que atuaram na famosa Semana de Arte Moderna de 1922. Já coloquei uns 20 contos variados, e as colunas assinadas que tive nos sites Gafieiras e WMulher.

Já era tempo de publicar algumas de minhas poesias. Nunca fui muito dado ao gênero literário, encontro mais facilidade e sabor no texto corrido da prosa. Mas, como o objetivo do blog é mesmo expor a minha produção literária, achei que era uma injustiça não divulgar também os poemas. Dei uma selecionada no material e, entre os que considerei “menos piores”, inseri um breve comentário sobre cada um deles.

São dez tentativas, espero que em alguma eu agrade você, leitor.

* * *

(O poeta respira, envolto no mundo do trabalho.)

 

ALVORADA

O sono impera,

A consciência abre espaço

Para o reino dos sonhos.

Click,

O interruptor é acionado.

A fantasia liberta.

O olho treme,

Sob a pálpebra fechada.

O corpo repousa

Cansado de guerra.

Mas a mente trabalha.

O trabalho foi duro,

O trabalho é duro,

O trabalho será duro.

É preciso levantar,

Avisa lá fora.

O dragão retorna ao palácio.

A princesa e o guerreiro também.

Juntos, viverão felizes para sempre.

O dia chama.

* * *

AR CONDICIONADO

Condicionado

Sem ar

Vou trabalhar

Me falta ar

Condicionado

Sem ar

Entro no escritório

Me falta ar

Condicionado

Sem ar

Vou trabalhar

Me falta ar

* * *

(Um pouco de escatologia, para se libertar.)

CONTAGEM REGRESSIVA

Tic-tac, tic-tac,

Faz o feijão

Na barriga do negão.

Fermentando, fermentando,

Enchendo-lhe as entranhas.

Rabo solto,

Um estrondo.

São João

Fora de junho.

Tic-tac, tic-tac,

Faz o feijão

Na barriga do negão.

Fermentando, fermentando,

Enchendo-lhe as entranhas.

Rabo solto,

Um estrondo.

Bomba-relógio

Fora de hora.

* * *

(O cinema é a boia de salvação dos domingos, em São Paulo.)

DE REPENTE NUM DOMINGO

De repente num domingo,

Lá vamos nós ao cinema.

De repente num domingo,

Lindas, belas imagens.

De repente num domingo,

Foi por tão pouco tempo.

De repente num domingo,

Mesmo assim valeu a pena.

De repente num domingo,

Nos encontremos por mais tempo.

De repente num domingo,

Seremos felizes até segunda-feira.

* * *

(Um singelo poema gramatical, com o qual simpatizo muito.)

ENTRE O TU E O NÓS

Brincando com a palavra,

Eu descobri Você.

Entre o Tu e o Nós,

Ali estava Você.

Tu,

Na terceira pessoa do singular,

Esperando por Mim,

Primeira pessoa.

Juntos,

Nós,

Primeiros no plural,

Passado, Presente, Futuro,

Unidos em todos os tempos

Pela conjugação verbal.

Eles,

Sempre no fim da fila.

Desejando Você,

Separados de Nós,

Por Vós,

Mais que perfeita,

Eternamente minha.

Brincando com a palavra,

Eu descobri Você.

Entre o Tu e o Nós,

Ali estava Você.

* * *

(Tentativa de letra para Choro, se alguém quiser musicar…)

IVONE

Ainda me lembro, como se fosse hoje,

A deusa da minha rua era você, Ivone.

Boa noite, amor.

Eu me despedia no portão.

Minha rosa, minha boneca,

Você era minha inspiração,

Até a última estrofe,

Com a rapaziada lá do Brás.

Isso foi há tempos,

Que a saudade logo traz.

Mas você, malandrinha,

Não podia com o velho realejo.

Sonhava, vestida toda branca,

Ardida de desejo.

Quis caminhar um chão de estrelas.

Me deixou parado na calçada.

Foi-se embora com um doutor.

Só me resta a minha mágoa,

Só me resta a minha dor.

O flautista ficou triste,

Nunca mais se inspirou.

* * *

(Sonhando com um mundo melhor)

LAVAGEM CEREBRAL

Cabeça dura,

Miolo mole,

Cabeça oca,

Parafuso a menos.

Quem dera um dia

Todos os cérebros se abrissem.

O raio de Sol iluminando a massa mais cinzenta,

Bons ventos levando consigo os preconceitos.

A água cristalina descendo a montanha,

Molhando todos os neurônios.

Eis aí a minha lavagem cerebral.

* * *

(Algum erotismo)

MASTURBAÇÃO

O menino sonha como o vento,

No vai e vem dos lençóis.

Veloz em cada pensamento.

Encontros sinceros a sós.

* * *

SONHAR TALVEZ

Sonhar talvez…

A imaginação correndo solta,

Voando por sobre seu corpo.

Mãos abrindo asas,

Também nessa viagem.

Cada toque um estímulo,

Contorço de prazer.

 

* * *

(As novelas e a alienação do povo brasileiro)

TELEVISÃO

Cada lágrima derramada

Em frente a essa caixa da Pandora

É um pouco de sua beleza roubada.

Chore criança, chore.

Por você mesma.

Pelo mundo lá fora.

* * *

(A inquietação do fim)

TEMPO, SENHOR, FEITOR

O Tempo, sempre o Tempo,

Senhor, Feitor,

Quem sem chicote, açoite,

Nos obriga a viver.

O Tempo, sempre o Tempo,

Senhor, Feitor,

Nos empurra os anos,

Nos vê crescer.

O Tempo, sempre o Tempo,

Senhor, Feitor,

Com sua foice,

Nos traz a morte.

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BOLETIM DE OCORRÊNCIA – CRÔNICAS MUSICADAS

Boletim de ocorrência

Abri os olhos, o cenário continuava o mesmo. Há dias naquele leito, sem colocar os pés no chão e eles ainda doíam. Maldito ácido úrico que me ceifava as forças. Passei a mão sobre os pés. Eram duas batatas, dois pães inchados.

Pela manhã, recebi a visita de meu amigo, o escritor e poeta Aranha.

– Qual a graça, Aranha?

Provoquei-o, divertindo-me pela primeira vez em dias.

– Preciso de você, Maestro. Você tem que me socorrer. Só você, nesse país, pode se encarregar da missão que eu tenho que cumprir.

– Ora, Aranha, o que há de grave?

– Você tem que me ajudar, voltei da Europa com algumas ideias. Juntos, vamos curar o Brasil. Vamos educar o país. Vamos libertá-lo das forças do passado!

– Quanto entusiasmo para uma manhã! Pois vamos dar três vivas para o Brasil! Viva o Brasil! Viva! Viva o Brasil! Viva! Viva o Brasil! Viva!

Gargalhei.

– Muito me alegra fazê-lo rir, pois bem se vê o quanto deve aborrecer-se o dia inteiro deitado nesta cama. Mas é preciso levantar-se, Maestro! É chegada a hora de rompermos com as amarras e embarcarmos no Século XX, a Era da Eletro-Velocidade.

Cheio de energia, Aranha explicou-me seus planos. Juntos, partiríamos numa longa viagem à capital paulista. Minha função era organizar a parte musical para uma semana de eventos culturais.

Aranha tinha o espaço, os artistas, estava entusiasmado. Ele se juntara à uma trupe de intrépidos paulistas. Escultura, pintura, literatura e música, eis o que tinham a oferecer.

Não pude negar-lhe o favor. Eu o ajudaria a varrer para baixo do tapete o ranço de nosso passado colonial. Levantei-me e, capengando, aceitei a incumbência.

Organizei o repertório, recrutei os intérpretes e, em poucos dias, estávamos de malas prontas. Era fevereiro, e sair do calor do Rio de Janeiro talvez ajudasse na recuperação de meus queridos pés.

Abrindo as atividades, foi o próprio Aranha quem discursou, no palco de um teatro lotado.

– …para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores…

Pouco a pouco foi explicando uma nova estética para as artes.
– …se não são jogos da fantasia de artistas zombateiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida…

Com as obras expostas no saguão e com os discursos declamados no palco, os artistas renegavam tudo o que a aristocracia brasileira aprendera como ideal de belo.

Suas teorias punham fim ao parnasiano século XIX. Provocava a elite paulistana em seu maior templo, destruindo os valores estéticos da Europa Novecentista.

As vaias não poderiam ser piores. Da coxia, ouvíamos os maiores insultos. Aranha continuava provocando.

– …outros horrores vós esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do passado…

O público protestava, blasfemava, gemia! Nos bastidores, esperávamos por nossa vez.
– Meus pés ainda me matam, eu não vou conseguir.

Reclamei, em chinelos, pois os pés inchados não entravam nos sapatos. Um dos paulistas que assistia à cena defendeu-se.

– Pode ficar tranquilo Maestro, avançar sobre o palco do Municipal, cabeleira agitada, casaca e chinelos será um passo verdadeiramente modernista!

Acabei por me sentir à vontade entre aqueles guerrilheiros e aceitei o desafio. Invadi o palco – de chinelos, pois os sapatos não me cabiam – e lancei-me aos furiosos Senhores de Café e meia-dúzia de Industriais Piolhentos.

Gritos ululantes, apupos e assobios. A música prosseguia, eu firme na regência. Escarcéu de fúria, vaias prolongadas e latidos. Quase não terminamos a primeira noite.

No dia seguinte, estava nas primeiras páginas; – ASSOBIOS & GAITADAS EM S.PAULO – ; mais uma vez, um solícito paulista veio me socorrer.

– O que não ladra, não gane e não cacareja o aplaudiu com calor, Maestro.

Nem tudo eram flores. Nossa principal solista recusava-se a continuar, alguns músicos choravam e tínhamos mais duas apresentações pela frente.

As tropas inimigas cresceram. A divulgação do movimento só fez unir os grupos rivais. De minha parte, optei por divertir-me com a situação. Mas na última noite foi a gota d’ água.

Desde o começo do concerto um engraçadinho assobiava, acompanhando os temas e roubando as atenções. A última obra a ser executada era o meu Quarteto Simbólico.

Havia projeção de luzes e cenários, criando um ambiente de bosque místico com sombras fantásticas. Por trás de tudo, ocultava-se um coro feminino. Era uma peça de um ano atrás, acompanhada por flauta, sax, celesta e piano.

No segundo movimento, criava um ambiente elevado, cheio de sensações novas. Quando, na platéia, explode novamente o gaiato:

– Có-Có-Ri-Có-Có!

Sua imitação de galo zombava da ambientação que eu criara, colocando-a numa situação rural que fugia ao idílio programado. A plateia explodiu em risos, quebrando toda a concentração alcançada.

A coisa só sossegou quando a polícia interveio, prendendo o graçola. Terminada a apresentação, fiz questão de dar parte.

– Bote aí. Reclamante: Heitor Villa-Lobos. Profissão: Maestro. Idade: 35 anos.

Na delegacia fiquei sabendo que o maroto trazia latas recheadas de ovos e batatas, com as quais iria coroar os promotores da Semana de Arte Moderna.

RAIMUNDO – CONTOS DE MARCELO AITH

RAIMUNDO

Muitos perguntam o que leva alguém a escrever uma história. Que respostas podemos dar? Necessidade, dirão alguns. Vaidade, responderão outros. Mas, qualquer que seja a motivação que impulsiona o escritor a preencher uma página em branco, o mais importante é que uma vez escrita, a história está garantida.

Passa do plano das ideias, da abstração mental do autor, para a concretude física do papel. Imutável, perpetuada através dos tempos até a destruição completa do último exemplar que a contenha. E é por isso que escrevo estas páginas, para que a história de Raimundo não caia no esquecimento. Não desapareça com o fim dos que a presenciaram.

Conheci Raimundo ainda na faculdade. Trabalhava no bar ao lado da universidade, era o chapeiro. Fritava-nos calabresas, batatas, hambúrgueres. De suas mãos saiam os sanduíches que mantinham os gloriosos estudantes do Brasil de pé, em meio a porres homéricos.

O Cais era o bar-dormitório. Ali, Raimundo e seus colegas labutavam e residiam. Todos vindos do Norte, ganhavam dinheiro para mandar aos parentes. Dormiam num quarto nos fundos do bar. Folga, uma vez por semana.

Sem ter a quem visitar, Raimundo vivia muito só. Os companheiros de serviço não eram propriamente grandes amigos. De índole fechada, não era dado a muita trela. De seu passado, pouco sabíamos. Apenas que não tinha parentes, ou não queria falar sobre o assunto.

Como cada qual folgava um dia, estava sempre solitário em seu descanso. No resto da semana, era trabalho árduo. Somente conversas profissionais e papo de bêbado. Foram anos servindo no bar de seu Barreiro.

Seu Barreiro era espanhol. Comerciante, proprietário do Cais. O bar que mais vendia cerveja nas redondezas. Comprava caixas, engradados, grades de cerveja. No auge dos negócios passou a comprar caminhões fechados. Comprava tudo o que pudessem entregar. Com isso conseguia bons preços. Quebrava qualquer concorrência.

O espanhol tinha dois filhos, Túlio e Frederico. E foi o segundo, Frederico, quem foi receber o prêmio de maior vendedor de uma certa cervejaria da cidade. Uma cerimônia em alto estilo, traje a rigor e tudo mais. Uma homenagem aos cinco bares que mais consumiam o precioso líquido.

Barreiro não era bobo, instruía os garçons.

-Uma cerveja, por favor.

E logo traziam a garrafa definida por Barreiro. Sempre que o pedido era abstrato, empurravam a mesma marca. E como vendiam cerveja.

Seu Barreiro não era um humanista nato. Não registrava os empregados, não lhes assinava a carteira profissional. Adicional noturno para ele não existia e hora extra, ah, esta era uma lenda como a curupira e o boitatá.

Nas conversas, sempre que podia, oferecia-me para ajudar os funcionários do Cais. Trabalhava com a consciência das bases, instruindo os rapazes de seus direitos trabalhistas. Cheguei mesmo a me oferecer como testemunha em futuros processos. Mas acho que os infelizes nunca foram aos tribunais.

O pensamento do patrão estava repleto de preconceitos. Julgava-se superior. Vestia o mito do colonizador civilizador. Era mais um que vinha fazer a América, engordar à custa do trabalho alheio. Às críticas, recorria sempre para o argumento de que dava casa e comida. Pagar o justo era demais.

E assim a família Barreiro prosperava, enriquecendo a olhos vistos. Também a olhos vistos a gordura depositava nos dutos do exaustor. Nas narinas de Raimundo, em suas artérias.

Raimundo passou anos trabalhando ali. Cuidava da cozinha. Coisas básicas, lanches, porções e alguns pratos simples. Descascava muitas batatas, era verdade. Mas para isso não necessitava de grandes dons culinários.

A chapa onde Raimundo fritava os lanches, o seu local de trabalho, ficava no centro do salão. Na frente ficavam as mesas e, nos dois terços restantes, o balcão. Um espelho corria as paredes, dando-lhes um ar de motel.

O balcão ia e vinha, como meandros de um rio, mas em curvas de ângulos retos, formando letras Us. Nossa turma sentava-se na última reentrância possível.

Todos os fins de tarde os vagabundos iam juntando-se. Em nosso local predileto só éramos importunados pelas garotas que precisavam ir ao banheiro, localizado logo ao lado. O sanitário masculino ficava para o outro lado.

Dali, podíamos ver todo o movimento do bar, todo o entra e sai de clientes. Raimundo e seus companheiros de trabalho também acompanhavam o dia a dia daquelas pessoas, como se assistíssemos aos capítulos de uma novela, mas de vida real.

Raimundo nunca se esqueceria do dia em que um pai furioso invadiu o Cais, uma barra de ferro nas mãos. Desferiu um golpe contra o vidro da caixa registradora, partindo-o em mil pedaços. Motivo, sua filha de quatorze anos chegara bêbada em casa, e afirmava ter amarrado seu porre ali, em frente à escola onde cursava o ginásio.

Túlio, o filho mais velho de Barreiro, era um homem sem escrúpulos. Vendia álcool para crianças vestidas de uniforme escolar, não tinha pudores. A mesma sem-vergonhice podia ser notada nas contas que deixávamos penduradas.

Invariavelmente encontrávamos mais nas notas do que o número de garrafas esvaziadas. Mas o homem contava com a vantagem da dúvida. Bêbado nunca tem certeza de quantas já tomou. Raimundo, quando podia, abria-nos cervejas sem anotá-las.

Com Raimundo ouvi algumas pérolas da sabedoria popular. Afirmava que os garotos vindos do Norte que nunca fizeram sexo com animais ou são mentirosos, ou não são tão homens como dizem.

Afirmava também que as melhores mulheres são aquelas de mais idade, de preferência aquelas com metade dos pelos pubianos brancos, metade pretos. Essas sim eram as boas.

Lembro-me do dia em que Raimundo salvou o pescoço de Frederico. Um cliente enfurecido erguia o filho de Barreiro pelo cangote, quando o pacato Raimundo resolveu interagir.

Deu uma gravata no agressor, e arrastou-o para o meio da rua. Não defendia o patrão, apenas queria paz para trabalhar. Odiava brigas. A gratidão foi se apagando com o tempo, caindo em esquecimento. E a exploração do homem pelo homem prosseguia.

Agora, o mais importante desta história. O que realmente me motivou a falar sobre todos estes fatos foi o fim de Raimundo. Ali, toda a escrotidão da família Barreto veio à tona. E em memória ao bom Raimundo preciso deixar o meu protesto.

Em seu último dia de vida, Raimundo repousava pela tarde. O movimento noturno não tinha hora para acabar. Iríamos até o último cliente, como de costume. O pós-almoço era o momento de descanso para quem iria acordado até às três, quatro da matina.

Lá pelas cinco e meia foram chamar o chapeiro. Dormia em sua cama, no quarto dos fundos.

-Raimundo, Raimundo! Acorde homem, tá na hora. Vá comprar pãozinho.

Ninguém respondia, o homem estava morto. Infarto no miocárdio. Colesterol nas veias. Tudo entupido. Morreu como viveu, só. Fora assassinado pela gordura da chapa, pelo óleo das frituras.

A notícia correu, e logo um sentimento de compaixão possuiu-nos. Os mais íntimos chegaram a umedecer a vista. Mas o espírito mercante dos Barreiros era inabalável.

O corpo duro, esfriando nos fundos do Cais. O que se esperava? Que fosse decretado luto. Que fossem baixadas as portas. Que fossem dispensados os funcionários. Mas o que vimos foi o inverso.

Túlio transferiu um garçom para a chapa, ocupando o lugar do falecido. Não respeitou a memória do morto, nem os sentimentos dos colegas de serviço. Por mais que não morressem de amores por Raimundo trabalhavam e dormiam juntos há anos.

Mas isto nada significava frente ao tilintar da máquina registradora. Os lucros, sempre os lucros. Naquela noite, tudo funcionou como sempre. Risos, cigarros, catchups, batatas fritas. Desavisados, os clientes iam entrando, fazendo seus pedidos, pagando as suas contas.

De diferente, apenas alguns lugares vazios. A antiga turma do fundão não esteve presente. Parecia-nos mórbido demais rir, gargalhar, encher o caneco ao lado do corpo enrijecido de Raimundo.

Lá pelas duas da manhã, chegou o rabecão. Constrangimentos a parte, era preciso tirar o homem de lá. O corpo de Raimundo saiu coberto por um lençol, sobre a maca do carro do IML.

Uma obrigação moral nos possuiu. Repugnante a atitude do patrão. Deveríamos boicotar seu Barreiro e filhos. A partir daquele dia, os bons clientes de sempre mudariam de bar.

Com o tempo, todos esqueceram o fato. Hoje, o Cais continua com o seu movimento normal. Mas gostaria de deixar este recado para Raimundo, onde quer que ele esteja.

-Raimundo, não me esqueci de você, não me esqueci de sua história, nunca mais pus os pés naquele lugar.

Published in: on 5 de abril de 2012 at 9:53  Deixe um comentário  
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ACADEMIA DO AMOR – CONTOS DE MARCELO AITH

ACADEMIA DO AMOR

Há sujeitos que não têm sorte na vida. Não digo azar, caras azarados. Digo sem sorte, mesmo. Uma diferença sutil. O azar aparece como algo negativo que acontece na vida da gente. A falta de sorte é quando alguma coisa que tinha muita chance para dar certo não se concretiza. O que poderia ter sido, mas não foi. Apenas por… falta de sorte.

Bem, Expedivan era um desses tipos. Não era de fato um azarado. Era apenas sem sorte. De vida medíocre, nunca foi dado a grandes arroubos. Pacato, tímido, quieto, posição social mediana, nunca passara necessidade. Mas, a fartura também não lhe batia à porta.

Esse era o nosso Expedivan. Nome estranho. Coisa do pai. Seu Ruphino. Santo Expedito, padroeiro da família. Ivã, não sabia ao certo, mas seu Ruphino lembrava-se de um tal Ivã, talvez na cartilha de história, dos tempos de criança.

Deveria ser alguém importante. Um grande conquistador.

-E-X, EX.

-P-E, PE.

-D-I, DI.

-V-A-til, VÃ.

-EX-PE-DI-VÃ.

-EXPEDIVÃ, bote aí hómi, que o filho é meu!

Contrariada, a máquina de escrever correu sobre o papel. As mãos habilidosas do escriturário datilografavam a certidão de nascimento. Mas saiu com N no fim, Expedivan, para desgosto da mãe que, na maternidade, sonhava com Bruno ou algo parecido.

Expedivan levou uma vida sem brilho. Inúmeras vezes a sorte lhe faltou. Não era azar, não senhor. Era apenas falta de sorte. Para ilustrarmos melhor o que digo, contarei o caso do dia em que Expedivan se apaixonou por Janaína.

Nosso Expedivan já estava na faculdade. Suava pelo salário, que não era muito. Para reforçar o modesto orçamento, fazia trabalhos para terceiros. Fraude intelectual, o golpe consistia no seguinte:

-Eu faço, você assina.

E sem a assinatura dos outros, Expedivan teria se formado em pelo menos três ou quatro cursos. Passava madrugadas estudando. Os textos de apoio vinham do contratante. Livros, cadernos, anotações, tudo o que pudesse ajudá-lo.

De posse de tal conhecimento, Expedivan tinha a capacidade de entregar o trabalho pedido pelo professor de qualquer disciplina, fosse o curso que fosse, sempre na área de humanidades. E as notas, invariavelmente, acima de sete. Ninguém se queixava.

Ia fazendo o dinheirinho extra que o ajudava a pagar a mensalidade e garantia um pouco de lazer em sua modesta vida. Seu público alvo eram colegas dos cursos de Direito, Economia, Administração; que pagavam bem; e mais alguns lá pelas áreas pobres das Ciências Sociais, como a História e a Sociologia.

E foi justamente nesta última disciplina em que conheceu sua paixão. Seu nome era Janaína. Pele morena, cabelos escorridos, longos, pela cintura. Olhos negros, redondos. Um frescor de sorriso. Caiu apaixonado.

-Olá, você é o Expedivan? Tá certo o nome?

-É, sou eu mesmo, a culpa é de meu pai, mamãe protestou, mas era tarde.

-Até que não é feio.

-Obrigado.

-Não, quero dizer…

-Não precisa se explicar, é estranho mesmo, mas acostuma-se.

E assim, Janaína e Expedivan passaram a se conhecer. A moça estava em apuros. Tinha uma dificuldade enorme em redação. Estudava, estudava, mas na hora de pôr no papel era uma desgraça.

Problema de base. Na pré-escola, na alfabetização. A moça, além de linda, era rica. Estudara em boas escolas, viagens, museus, teatro e cinema. Burra não era. Mas não havia meios de conjuminar pensamento e escrita.

Seu texto era ruim. Não desenvolvia ideias com clareza. Ora tópicos se atropelavam, num congestionamento de pensamentos simultâneos, ora cessavam abruptamente, como os rios perenes do Nordeste, deixando seco o leito dos parágrafos.

Expedivan era sua salvação. Muito bem recomendado por amigas que já usufruíam de seus serviços, o rapaz foi procurado por Janaína.

-Sabe, umas amigas minhas me disseram que você fazia…

-Pssssiu. Fale baixo.

Puxou a moça pela mão. Entraram em uma sala de aula vazia.

-Aqui poderemos conversar melhor. Neste mercado, sigilo é fundamental.

-Ai, não é muito certo, né?

-Se ficam sabendo, podemos ser expulsos.

-Isso não, meu pai me mata!

-Bom, vamos ao seu caso.

A moça explicou suas dificuldades. Expedivan ficou de entregar-lhe um orçamento. Passou a noite em claro, pensando em sua musa. Perdeu a fome, perdeu o sono. Estava apaixonado. Na manhã seguinte, teve uma luz.

-Olhe, se a gente já começa entregando um texto meu o cara saca logo a diferença.

-Uhum.

-Então a gente faz o seguitne, eu vou fazendo os seus trabalhos, cada dia melhor.

-Uhum.

-Até que no fim do ano a gente entrega os melhores trabalhos.

-Uhum.

-Assim, vai parecer que você foi melhorando seu texto, e não levanta suspeita.

-Uhum.

O plano de Expedivan começava a funcionar. Arrumava um pretexto para ver a garota até o fim do ano. O tempo necessário para que o seu projeto de sedução intelectual desse resultado. O preço, quase de graça. O negócio não se tratava de dinheiro. Era questão de amor.

Dedicou-se com esmero, deixando para trás encomendas maiores que pudessem comprometer seu desempenho. Todo esforço valia a pena. Sonhava acordado com Janaína, mas faltava-lhe coragem para a abordagem fatal.

Em fogo lento, cozinhou a paixão. O bolo subia, mas como era de esperar a sorte faltou-lhe e a receita desandou. Realmente, o projeto de conquista funcionou, mas às avessas. O professor de Janaína, que nunca prestara atenção na moça, foi aos poucos se interessando pelos trabalhos que lia.

A qualidade crescente dos exames despertou-lhe para o amor. Como não percebera antes aquela formosura de pessoa? Que pernas, que olhos, que cérebro. Precisava apenas de orientação. E imbuído do mais puro espírito educacional passou a auxiliar a mocinha nos estudos. Logo, estavam enamorados.

Como podemos ver, não foi azar de Expedivan. Vivia sozinho, e assim continuou. Foi falta de sorte, mesmo. Nada de ruim lhe aconteceu, apenas não teve sucesso.

Azar mesmo quem teve foi o professor. Janaína era namorada de um homem truculento, um verdadeiro brutamontes. Líder de uma gangue de motoqueiros, pesava para lá de cem. Braços fortes, pesados, mãos firmes, de dedos grossos.

Trazia tatuado no peito os irmãos Harley e os irmãos Davidson, criadores da renomada marca de motocicleta, vestidos em roupas do início do século. Devia ser o único no mundo a ter quatro sujeitos de terno estampados na pele.

De tamanho avantajado, seu porte físico lembrava o dos guerreiros bárbaros da Idade Média. Ostrogodo ou Viking, a violência não desaparecera com os séculos. Era também colecionador de armas antigas.

Machadinha Sioux, aríate germânico, tacape pré-histórico, capacete da Primeira Grande Guerra. Estes, após os cavalos mecânicos, eram a segunda paixão do neobárbaro. A terceira vocês nem podem imaginar.

Quando Janaína tentou dar um fim no relacionamento com indócil ser, para entregar-se aos braços do mestre amado, desgraça maior. Movido por ciúme, criminoso golpe desferido na calada da noite pôs fim na existência da nova paixão de Janaína.

A arma usada foi um cilíndrico extintor de incêndio. Afundamento craniano com perda de massa encefálica. O corpo, com a coluna cervical rachada, foi encontrado ao lado do automóvel, estacionado nas imediações da universidade. Suspeitaram de roubo.

Sem sorte, Expedivan formou-se bacharel e hoje está aposentado pela Previdência Social. Nas lembranças, o antigo amor não lhe faz falta, ainda mais quando se recorda do fim trágico do professor azarado.

Published in: on 3 de abril de 2012 at 8:48  Comments (1)  
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O DIA EM QUE SANTIAGO PAROU DE FUMAR – CONTOS DE MARCELO AITH

O DIA EM QUE SANTIAGO PAROU DE FUMAR

Santiago era turista. Como todo bom turista, meio dado a otário. Homem ingênuo, de boa fé, simplório, fácil de ser enganado. Como preza a sintaxe, um otário. Excursionava pelo Rio de Janeiro, feliz, maravilhado com suas belezas.

Praia, mata, biquínis, um mar de imagens coloria a vista. Deslumbrado, numa alegria pueril, circulava pelas ruas cariocas. Brasileiro, vindo do interior, da roça, era o seu primeiro encontro com água salgada.

Sabia dos perigos, vinha bem avisado.

-Cuidado com a cidade grande, não dê ouvidos a estranhos, não vá ao fundo do mar.

A cabeça cheia de nãos. Mas no peito, no fundo do coração, batia um enorme sim.

Os dias foram lindos, um céu azul de doer. Todas as recomendações deixadas para trás. Santiago era um despudorado. Entregou corpo e alma à nova cidade. Parecia ter “naiscido” ali, até o sotaque estava pegando.

A família esperava por notícias que não vinham. Santiago também não aparecia. O que era para ser uma semana de passeios, transformou-se em algo muito maior.

Estava instalado num cortiço, um casarão do início do século. O mofo da maresia tomava conta das paredes. Do barro dos tijolos brotavam samambaias e liquens. Uma pequena orquídea branca surgia no canto mais úmido de seu quarto.

Sua vontade era de morar ali, não tinha saudades em nada da sua antiga terra. Adotara um novo berço. Paixão instantânea. Caipira na metrópole cumprimentava a todos. Mesmo a falta de educação dos transeuntes anônimos lhe agradava. Que gente ocupada.

Em todas as direções, apressadas, as pessoas passavam e ignoravam Santiago. Mas que maravilha a cidade grande. Pegava seu cigarro de palha e percorria a orla. Sentado na pedra do Arpoador, pitava olhando o rebentar das ondas. A semana se aproximava do fim. Foi quando conheceu Maria Lúcia. Naquele instante esqueceu-se de tudo. A mulher era grande, um metro e oitenta, que orgulho. Desfilava, maravilhado com o achado.

Não teve dúvidas, perdeu a data da passagem, não voltou para casa. Era véspera de carnaval. Encheu Maria Lúcia de presentes, sacou todo o dinheiro da poupança das crianças. A mulher ria, bebia e amava. Santiago financiava.

Maria Lúcia trabalhava na noite. Há anos fazia ponto na Avenida Copacabana. Estava em férias, afinal, era carnaval. Santiago era um bom namorado, carinhoso, nem desconfiava dos amores remunerados de Maria Lúcia.

Juntos, passeavam de mãos dadas, comiam algodão-doce na Lagoa, pareciam noivos. Ele pensava padecer no Paraíso, ela já pensava em voltar ao trabalho. Até que chegou o dia do desfile das escolas.

Maria Lúcia não perderia o desfile por nada neste mundo, Pipoca sabia disto. A vagabunda podia não aparecer há dias em seu posto de trabalho, mas no sambódromo ela não faltaria. Lá estava o cafetão, bermuda e chinelo, carregado nas pulseiras. Bebia, encostado num trailler.

Atento, observava o movimento das alas que chegavam. Os carros alegóricos tomavam posição, alinhados, prontos para entrar no templo do samba. Legiões de fantasias tumultuavam a passagem. Eram centenas de milhares de plumas, lantejoulas, purpurinas a reluzirem pela avenida interditada.

No meio da confusão, ambulantes vendiam churrascos, cervejas, ingressos. Mal se conseguia andar.

-Eu acho que ela não aparece.

Insinuou o amigo Luciano. Pipoca, sem tirar os olhos do infinito, foi categórico.

-Ela vem, posso sentir na pele.

-E quanto ela te deve?

-Este é assunto meu, quem cuida das minhas negas sou seu.

-Calma malandro. Se você não consegue nem receber o que é seu não venha descontar no irmãozinho aqui, não.

-Irmãozinho, o caralho. Você acha que a minha mãe ia criar um bicho ruim assim como você?

-Em qual escola a Lúcia sai?

-Na Estácio, já deve estar para chegar. E eu que adiantei a grana da fantasia, devia ter tomado tudo o que era meu.

-Hoje, não se pode confiar em mais ninguém. Em que tempos chegamos?

Indignou-se Luciano.

-Como ela quer que eu brinque o carnaval sem algum? Mas deixe estar, a Lucinha vai ter o que merece.

-Isso mesmo, cara. Desce a mão nela.

-Cala a sua boca, o malandragem. Já não disse que quem cuida das minhas negas sou eu?

Neste momento, Santiago e Maria Lúcia desciam na Central. A mulher estava um arraso. Seminua, corpo todo coberto de purpurina, chamava atenção por onde passava.

Santiago estava enlouquecido. A cada passo que davam em direção à Sapucaí aumentava sua emoção. A vibração das ruas era contagiante. Seu primeiro carnaval no Rio de Janeiro, seu primeiro carnaval com Maria Lucia.

-Eu não perco a Estácio por nada neste mundo. Corre Santiago. Corre que já tamo atrasados. Maldita trepada, cê devia ter gozado logo, seu puto.

-Você bem que tava gostando, Lucinha.

-Já falei pra não me chamar de Lucinha.

Correu a mulher que sabia enganar os homens. Santiago tentou acompanhá-la, mas a malemolência da garota criada nos morros superava de longe a sabedoria do matuto da roça. A moça deslocava-se com agilidade pela multidão, Santiago foi ficando para trás.

Um par de peitos balançando, assim Pipoca reconheceu Maria Lúcia em meio ao povo que se aglomerava ao redor dos alegóricos. Passou a mão sobre o pano de bermuda, como se checasse o que continham os bolsos. Endireitou o corpo e partiu ao encontro da vadia.

Maria Lúcia percebera a presença do patrão, diminuiu a marcha, abaixou os olhos. Seu semblante transformou-se de uma radiante alegria para uma apreensiva decepção. Daria merda.

Pipoca pegou-a com firmeza pelo braço.

-E aí, Lucinha? Tá sumida. Não gosta mais do seu paizinho, não? Sua vaca.

Desferiu-lhe um golpe na face, de mão aberta. O estalo assustou os que passavam próximo.

-Ah, meu deus, me desculpe. Não se deve bater numa dama. Mesmo quando ele não passa de uma putinha sem-vergonha que se esquece do papaizinho dela.

As pessoas passavam indiferentes à cena. Os que pararam estarrecidos recomeçaram a andar.

-Vocês sabem quem pagou a fantasia de madame pra essa desqualificada aqui? Fui eu, e a vagabunda nem aparece pra trabalhar.

-Olha quanto gringo, o Lucinha. Apertou-lhe mais o braço.

A moça permanecia indiferente.

-Tem dó. Sabe quanto eu tô deixando de faturar? E em dólar, filhinha.  Em dólar!

Maria Lúcia continuava muda, cabisbaixa, pensativa.

-Vai dar merda, vai dar merda, vai d…

-E ai, não tem nada pra dizer, não? Como é que vai me pagar o prejuízo dos dias parados, boneca?

-Tem dó você, o Pipoca. Dá um tempo, porra. É carnaval. Deixe que depois eu acerto. Tá bom? Eu já te passei pra trás alguma vez?

-Aí meu irmão, não dá mole pra mulher senão elas montam.

Corrigiu Luciano.

-Já não mandei calar essa boca! Quem manda aqui sou eu.

Bradou Pipoca, já segurando no cabo da arma escondida.

-Deixe eu falar. Eu tô com um carinha, do interior. Ele tá torrando uma grana. Eu tava precisando de férias, deixe eu curtir esse namorinho. Depois eu dou um jeito.

-Até quarta de cinzas, e nem um dia a mais. Só porque eu te amo. Sabe que eu faço tudo pra você, meu amor?

Perguntou Pipoca, alisando-lhe a face enrubescida pela tapona. Maria Lúcia virou por alguns graus o pescoço, como se oferecesse a face oposta. Fechou os olhos, com um certo nojo daquele toque.

-Isso tudo é por ciúmes, meu bem. Você não sabe como eu sofro em vê-la com outros. Mas quem vai vestir o velho Pipoca, aqui?

-Me deixe brincar o carnaval, depois a gente limpa o Santiago. Quando ele dormir eu tomo as coisas dele e desapareço. Aí ele volta pra família.

-Ou vira desses miseráveis pelas calçadas. Mendigo de amor.

Interrompeu Luciano.

-O urubu, sai de trás dos outros. Onde você arruma esses trastes?

Indagou Maria Lúcia.

-Traste o cacete, sua… Daqui eu não saio sem dinheiro. O Pipoca pode ser seu macho, mas eu não perco viagem. Não saí lá do morro pra voltar de mãos vazias. Tô precisando fazer algum, e é agora.

Luciano estava fixo nos olhos de Pipoca. No meio da malandragem ninguém podia vacilar.

Atrasado, Santiago se aproximava. Mesmo na multidão, Maria Lúcia continuava parecendo linda. Estava apaixonado. Seus olhos captaram a presença da mulher.

Não podia escutar-lhes a conversa, mas os movimentos de lábios e mãos não o agradavam. A cada toque de Pipoca aumentava o seu ódio. Estava cego de ciúmes.

Interrompeu a discussão.

-Vamos Lucinha. Vamos que já tá na hora.

Mais uma vez apertaram o braço da mulher, como se fosse objeto de propriedade. A mulher não se moveu.

-Esse é o Santiago?

Quis saber Pipoca.

-Sou eu, sim senhor. Algum problema?

-Fica na sua, Santiago. Tô tratando de negócios, ou você vai me sustentar pro resto da vida?

-É só que eu não gosto de mulher minha falando com estranhos.

-Ih, ó o cara, te tirando de estranho, Pipoca.

Falou o amigo.

-Aqui o bacaninha.

Disse Pipoca, cutucando Santiago com o indicador no peito.

-Você pode ser esperto lá na sua terra, mas não vai durar muito numa cidade como o Rio, não.

-Vamos andando, Lucinha?

Apertou Santiago.

-Não me chama de Lucinha que eu não gosto. Merda.

-Qual é, Lucinha? Eu sempre te chamei assim.

-Babaca.

Murmurou o mulherão.

Neste instante, Luciano, que não era de perder viagem, percebeu um volume no bolso da camisa de Santiago. A discussão prosseguia, os rojões anunciavam a entrada da Estácio. Foi o bote.

Mãos ágeis, Luciano livrou Santiago do peso nos tecidos. Nem sequer ousou correr. Alguns passos do furto, conferia o produto. Notas graúdas, outras miúdas, o maço de cigarro de palha.

-Filho da puta, levou o meu cigarro.

Partiu para cima do larápio, amigo do alheio. Lucinha ainda tentou detê-lo, mas foi segura por Pipoca.

-Ladrãozinho de merda, devolve o meu cigarro.

Disse Santiago, ao pôr a mão no ombro de Luciano.

-Eu não acredito.

Surpreendeu-se Luciano com a ousadia do furtado. Virou-se de frente para o desafiante.

-Ladrãozinho de merda, já mandei. Devolve o meu cigarro.

-Tá maluco? Tá querendo morrer, porra? Sai de mim.

Advertiu o criminoso.

Santiago fechou a mão, anunciando que desferiria um golpe. Luciano, precavido, enterrou-lhe o punhal no baço, torcendo-o em movimentos circulares.

Um jorro quente inundou a camisa. Santiago caiu de joelhos na avenida. Seus olhos vertiam lágrimas ao verem a sua Maria Lúcia desaparecer na multidão, braços dados ao cafetão. Corriam apressados em alcançar a Escola.

-Se eu perder a Estácio sou capaz de matar mais um.

Avisava a prostituta.

-Eu mando repetir o desfile pra você, minha princesa.

-Manda mesmo, Pipoquinha?

-Claro, Lucinha. Você é a minha flor. Sem você não vivo.

No Souza Aguiar ninguém soube dizer a quem pertencera o corpo de baço perfurado. Não portava documentos, nenhum parente veio reconhecê-lo.

Entre ser enterrado como indigente e ir parar numa vala comum ou servir para a Ciência; Santiago teve o fim mais nobre. O corpo foi doado para estudos.

Hoje, encontra-se fragmentado pelas dependências da Escola de Manguinhos. Sepulcro suntuoso, o castelinho de Oswaldo Cruz era o melhor mausoléu que poderia encontrar. Seu pulmão ainda é muito disputado nas demonstrações sobre malefícios do tabaco.

CONTO DE NATAL – CONTOS DE MARCELO AITH

CONTO DE NATAL

-Papai Noel existe, ou existia, e eu tenho a prova irrefutável disto.

Foi com esta frase que Abelardo se apresentou em minha sala. Era véspera de natal. Walter, meu editor, perseguia-me há dias, e eu não fazia ideia do que escreveria para a edição natalina.

Aquele maluco afirmava ter provas concretas da existência do bom velhinho, o relógio corria, meus neurônios recusavam-se a funcionar. Era pegar ou largar.

Na redação, a notícia da presença de Abelardo causava uma comoção geral. As bolsas de apostas estavam abertas, cada um acreditando decifrar minha decisão.

O clima era dos piores, todos neuróticos, festas de final de ano, perus, listas de presentes, viagens, e era preciso entregar as matérias. Cada qual em sua aflição, e os editores no pé. Sempre os mesmos assuntos.

Essas edições de festas poderiam ser arquivadas, já estavam atemporais pela repetição. A rua enfeitada, as compras de última hora, o indulto de natal do Presidente da República, era só mudar a data, um nome aqui, outro ali, mas a essência era a mesma.

Um casal de velhinhos que há anos preparava um suculento pururuca, ou outra besteira qualquer. Já podia ouvir no ar “So this is Christmas, and what have you done?”.

Agora, a prova definitiva da existência de Papai Noel, o Santa Claus em pessoa, isso sim era um furo. Isso sim era matéria de capa, renderia uma bela primeira página.

Eu estava salvo, ganharia o Prêmio Politzer, faria a alegria de milhares de crianças e traria o sonho de volta aos adultos incrédulos. Entre acreditar no maluco, ou esperar meu editor invadir a sala perguntando “-E aí?”, optei pelo primeiro.

Com isso ganharia um tempo, iria para a rua com o doido, investigaria sua história. Quem sabe no caminho, com a mente arejada pelo movimento das ruas, não me viria alguma ideia?

-Sente-se.

Ordenei.

-Acho que ainda não nos conhecemos, não é? Sou Délmo.

Disse, oferecendo a mão.

-Abelardo.

Retribuiu o cumprimento.

Suas unhas, seus dedos, pareciam encardidos. Não apenas sujos, encardidos era a palavra. Nem uma bela escovada resolveria. Deveria ser mecânico, pensei.

-Você poderia me contar um pouco mais de sua história?

-Olha seu doutor, o que eu vi é coisa difícil de acreditar, mas eu sei onde Papai Noel está.

Por trás do homem eu podia ver as cabeças curiosas de meus colegas, que se acotovelavam no vidro da janela. O meu aquário, era assim que eu me sentia naquela sala, era ponto de referência para todos, também conhecido como sanatório geral.

Os tipos mais desequilibrados eram enviados a mim. Só eu tinha a paciência de escutá-los. Eu realmente não conseguia evitar, era o meu velho problema de não saber dizer não.

Mas, no fim, eu gostava da companhia dos insanos. O censo comum muitas vezes me dava náuseas. E eu conseguia enxergar algo de positivo por trás da demência, das histórias escatológicas, por trás de toda a sordidez que a raça humana pudesse produzir. Este era o meu ofício.

Enquanto o homem falava, eu me levantei e comecei a arrumar as coisas. Estava decidido, partiríamos. Urgia ser breve. Walter poderia chegar a qualquer instante. Iria querer saber onde eu estava indo, perderia tempo mentindo, inventando uma pauta plausível. Investigar Papai Noel não passaria, perderia a minha história, o meu bom motivo para ir à rua.

Abelardo continuava falando, sua voz entrava pelo meu canal auditivo, vibrava os tímpanos, mas não produzia cognição. Fechei as gavetas, apanhei a pasta e peguei o homem que não parava de falar, pela mão.

-Vamos embora, no carro você conta os detalhes.

-Mas, e o meu dinheiro?

-Como?

-Sabe como é, doutor? Preciso fazer um agradinho lá com a patroa, e tem os meninos também. A história é boa. Eu posso levá-la para outro jornal. Será que não dá pra adiantar qualquer coisinha, não?

-Meu amigo, você vem à minha sala dizendo que Papai Noel existe e ainda quer levar algum? Você acha que eu sou o Coelhinho da Páscoa? Se a matéria for boa eu consigo uma verba para você, mas agora, assim, adiantado?

-Vamos lá doutor, só pra eu não chegar de mãos abanando em casa. A mesa lá é farta, farta pão, farta vinho, farta peru.

O homem conseguira. Mexera com os meus instintos mais humanitários. A cena da mesa vazia, a noite de natal, quantas mil famílias não deveriam viver nessa situação?

Noite glamourosa, o cacete! Noel, porco capitalista, presenteia os ricos, esquece os pobres. Se o velho existisse mesmo, eu trataria de lhe dar umas belas porradas. Abri a carteira e passei-lhe tudo o que tinha.

-Ah, agora sim estamos falando a mesma língua. O senhor não vai se arrepender, tudo o que eu prometi existe, é tudo verdade, o senhor acaba de tirar a sorte grande, vamos ficar famosos, eu e o senhor. Já posso até ver, a TV não vai mais me deixar em paz. Vou aparecer em todos os programas de domingo. Eu falei pra Cleuza. Nega metida, agora não vai mais largar do meu pé, vai querer posar de primeira-dama, mas ela tá é muito enganada, agora eu é que não quero mais saber dela, o meu negócio é a Guilhermina, a nega só vai me ver ano que vem, só no século XXI…

E lá fomos nós, o homem não parava de falar, o dinheiro deixara-o verborrágico.

-É por aqui doutor, entre ali à direita, e pode ir parando atrás daquela caçamba de entulho. É ali naquela obra, onde eu trabalho.

Chegamos ao local indicado pela minha fonte. Era ali que encontraríamos o legítimo Papai Noel. Não aqueles que povoam os shopping centers, não aqueles de agência de figuração. Este era o legítimo. Mas, pelo que pude entender, já morto.

O local onde jazia o corpo de Papai Noel fazia parte de um complexo industrial, todo em tijolos à mostra, num estilo inglês, do começo da industrialização do país. Fora uma famosa e poderosa indústria durante o período da Primeira Guerra.

Agora, estava sendo recuperada, transformar-se-ia num grande espaço para eventos, destas festas modernas, com música eletrônica, êxtase até o dia claro. Também estavam planejadas salas de cinema, centro de alimentação, estacionamento e não sei mais o que.

Abelardo contava os detalhes, ele era o responsável pelo restauro das chaminés, altíssimas, pujantes, que pareciam querer arranhar o céu. Há décadas já não cuspiam mais uma fumacinha sequer.

Os novos tecidos sintéticos tinham levado o industrial à falência. Tudo o que a Primeira Grande Guerra trouxera de prosperidade, a Segunda levara embora. Eram cinquenta anos de abandono.

-Cuidado seu doutor, pule pra cá, cuidado com aquela tábua com pregos.

Estávamos entrando, o local fora invadido várias vezes ao longo dos anos em que nada funcionara lá dentro. As paredes estavam pichadas, restos, vestígios de acampamento humano podiam ser vistos por várias partes.

Mendigos, bromélias, vagabundos, samambaias, usuários de drogas, musgos, fugitivos, liquens, cães, ratazanas, toda sorte de fauna e flora utilizara-se daquele teto por anos.

A luta para reconstruir o espaço estava sendo vencida com ajuda de um grande grupo financeiro internacional, que via ali uma mina de riqueza, adquirida a preço de banana.

-É por aqui. Sabe, eu vinha recuperando todas essas chaminés, até que um dia, foi quando a Cleuza veio aqui comigo, a gente se enfiou aqui no galpão três, aí a gente começou a transar, foi uma loucura, aí ela queria gritar, e gemia, uma loucura. Foi quando ela teve aquela ideia maluca, o senhor já teve uma mulher maluca?

-Todas elas são umas loucas.

-Pois é, mas têm umas mais loucas que as outras, e a nega é a mais louca delas. Ela queria gritar, sabe? Gritar de verdade. Daquela maneira que faz a gente passar vergonha. Eu falava “-Cala a boca, o caralho!”. Mas não dava jeito, a mulher tava possuída. Foi aí que ela pirou, quis porque quis foder dentro da chaminé, sabe? Pode parecer estranho, mas o eco dos gritos a excitava. Eu, que não perco uma, topei.

-Vocês foderam aqui? Passando por este duto?

-Isso mesmo, vamos entrando, foi bem ali, ali mesmo. Ela começou a gritar muito mesmo. Eu gozei como nunca, foi uma loucura. No começo achei que estava abafando, que estava com tudo, que ia fazer a nega morrer de prazer, ela parecia subir pelas paredes, como se fosse sair flutuando pelo duto feito fumaça, só depois é que percebi, a louca gritava era de pânico. Cuidado, abaixe a cabeça, agora estamos quase lá, já tá vendo?

-Não, não dá pra ver porra nenhuma daqui.

-Pois é, nesta hora do dia o sol deveria iluminar o fundo, mas está escuro não é?

-Como a vista do Stevie Wonder.

-O quê?

-Deixa pra lá.

-É aqui, chegamos.

Abelardo riscou um fósforo. Uma fraca luminosidade nos dava a ideia dos contornos, um estranho objeto bloqueava a passagem do duto. O homem passou o palito em volta do corpo. Parecia ser um cadáver.

Era um corpo putrefato, deveria estar lá há anos, em suas costas estava um saco. Tudo levava a crer que estávamos de frente ao que poderia ter sido o bom velhinho. Não mais em carne e osso, gora apenas ossos, cabelos, dentes e unhas. A roupa puída pelo tempo.

-Meu deus! Há um morto aqui. Quem mais sabe disso?

-Fora eu, a Cleuza e o senhor, só o pessoal da birosca do Arthur. Mas ninguém quis me levar a sério.

-Isto é grave, você deveria ter chamado a polícia. Você já tocou no corpo?

-Já, o saco está cheio de presentes, mas eu não peguei nenhum não senhor. É pecado. Roubar um homem santo, onde já se viu? Eu tô falando, é o homem. É Papai Noel em pessoa. Quem mais morreria descendo uma chaminé com um saco desses nas costas. Pelo peso, deve ter sido enfarte. O coração do velho não aguentou. São muitas casas pra visitar em uma noite. Eu, que sou acostumado a subir e descer chaminé, já fico cansado, imagina um senhor da idade do Papai Noel, e ainda por cima com um sacão pesado destes.

-Deixe de ser louco, Papai Noel não existe catso. O que nós temos aqui é um corpo de um homem morto. E morto há muito tempo. A sua história era realmente boa. Preciso ligar para o jornal. Onde arrumamos um telefone?

E foi assim que consegui a minha melhor matéria natalina. Deu na primeira página, furamos todos os outros diários. O homem morte não era Papai Noel, tratava-se de Hilton Salvatore, famoso ladrão de obras de arte que atuou em toda a América durante os anos quarenta.

Em seu saco recuperamos preciosidades julgadas perdidas para todo o sempre. Aparentemente, fazia daquele local seu esconderijo. Estava com o pescoço partido, deve ter caído de uma altura considerável, antes mesmo de poder avaliar o fruto de seu dia de trabalho.

Abelardo ficou famoso, ao menos até o fim daquele ano. Depois disto, nunca mais tive notícias do homem que chegou a acreditar na existência do velho Noel. O engano dos cadáveres recolocou a história em seu eixo normal. Hilton Salvatore estava morto, e o mito de Noel continuaria vivo no coração de todas as crianças.

Published in: on 30 de março de 2012 at 9:45  Deixe um comentário  
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DUZENTOS CAMELOS – CONTOS DE MARCELO AITH

DUZENTOS CAMELOS

No carro, ia mais uma vez ao trabalho. Coisas do dia a dia, até a aposentadoria, pensava, resignado. No rádio, recitavam poesias que chamavam um mundo melhor. Sua cabeça rodava, os dias estavam conturbados. A maior turbulência que já passara em sua vida.

Amanhecia quente, sol forte, logo nas primeiras horas. Prometia. Já não se concentrava mais, a mente voava solta. Não conseguia sentir-se culpado, mas também não tinha paz. Sua alma era um espírito incomodado. Estava em dívida. Mas, raios, o que fazer? Acontecera.

No caminho entre sua casa e o emprego, legiões de folhetos invadiam seu carro. A maior parte dos motoristas recusava os panfletos. Mas, de vidros abertos, não conseguia negar oferta tão pouco tentadora. Eram lançamentos imobiliários, planos de saúde, ofertas de informática, enfim, toda sorte de material gráfico.

Havia uma esquina, um semáforo demorado, e moças pouco renomadas distribuindo promessas de prazer. Esse sim era o único anuncio que o tocava, o único que não atirava diretamente ao chão do veículo, onde montes de papéis iam se acumulando. O informe publicitário da casa de tolerância oferecia descontos nos primeiros “drinks”, um dia ainda visitaria o local.

Seu sangue árabe fervia por mulheres. Deveria ser o hábito ancestral de possuir haréns. Amava como nunca. Cada mulher era vivida como se fosse a última de sua vida. Dispensava toda atenção a elas. Péssimo comportamento que tinha lhe posto naquela enrascada.

A mocinha se aproximou, não a reconhecia. Naquela profissão a rotatividade devia ser alta. Pensou. Sorriu gentilmente e recebeu o informe. Os carros andaram. Segurando o panfleto, engatou a primeira marcha e partiu.

“Tem um problema! Não se dizispere.”

Assim começava o informe que pensava ser da clínica de massagens.

O erro de português era gritante, perdera toda a esperança. Nada salvaria o seu dia. Continuou lendo. A vidente prometia tudo, passado, futuro, retomar amor perdido, desfazer trabalho. Sigilo absoluto. Só não conseguira prever a gafe literária.

Uma estranha comichão o levou para a porta da vidente. Induzido pela força que move os desesperados em busca de uma saída para suas aflições entrou no prédio. “Madame Zulmira”, estava escrito na tabuleta. Subiu a escadaria.

A mulher falou, falou. Mal ouvia as previsões. Sua mente estava monotemática. Seu maior problema o consumia por inteiro. Foi quando ela tocou no ponto. A dívida. Dívida de sangue. Dívida que precisava ser acertada. Não poderia continuar vivendo carregando aquele débito, tinha que quitá-lo.

Sim, agora dava ouvido. A solução parecia próxima. Ficaria livre do peso de seus antepassados. Teria um presente leve, um futuro promissor. Era só cumprir à risca o comando dos búzios. E o que diziam as conchas?

Duzentos camelos. Cem para o patrício, a modo de pagar pela mulher roubada. Cem para mandar sangrar nas areias do deserto, a modo de aplacar a ira de Alá. Aqueles genes árabes estavam mesmo dando trabalho. Não seria mais fácil um despacho com vela, galinha e charuto como todos faziam? Com ele nada podia ser simples.

A loucura tomou conta de seu corpo. Onde arrumaria camelos? A última vez que foi visto, rondava os muros do Zoológico. Naquele dia, os leões apresentaram uma estranha falta de apetite.

Published in: on 27 de março de 2012 at 15:00  Deixe um comentário  
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ESTRELA DALVA – CONTOS DE MARCELO AITH

ESTRELA DALVA

-O Sol é apenas uma estrela matutina!

-Pare com isso!

-Mas é verdade.

Disse ele, após o quinto uísque.

-É sempre assim, Albert. Toda vez que a gente vai a uma festa, você tem que ficar bebendo desse jeito?

-O Sol é apenas uma estrela matutina. Qualquer um deveria conseguir ver isto!

O garçom passava com a bandeja de canapés.

-Este Buffet é realmente bom, precisava saber o nome dele. A Estelinha vem pensando há tempos qual o melhor Buffet para o casamento da irmã dela, e eu acho que este aqui vai ser ótimo.

Disse Dalva, enquanto o garçom lhes esticava os guardanapos.

-Se pensarmos que não existe a divisão entre noite e dia, poderíamos ver que o Sol não passa de uma estrela matutina.

-Tá bom, tá bom, vamos prossiga no seu raciocínio, você não vai me deixar em paz mesmo.

-Veja bem, Dalva, se você pensar que a Terra gira, solta no espaço, e que o céu é a vista que temos do Cosmos que nos cerca.

Gesticulava, reproduzindo em mímicas todo o movimento da Terra em relação ao Universo.

-Você tá me entendendo, Dalva?

-Fale Albert, fale que eu te escuto.

Respondeu ela, que não tirava os olhos do vestido da mulher do Nestor.

Ele era astrofísico, ela socialite.

Published in: on 27 de março de 2012 at 14:28  Deixe um comentário  
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A CAÇADA – CONTOS DE MARCELO AITH

A CAÇADA

Não houve um piu na cozinha naquela manhã. A água e o leite esquentavam no fogão. As crianças, sonolentas, resmungavam à mesa. Elisa preparava o café.

Mas, dava por falta de algo. A rotina matinal não estava completa. Faltava o gorjear costumeiro. O silêncio gerava a certeza de que alguma coisa havia mudado.

Criançada vestida, uniforme escolar, lancheira, tudo pronto para a partida. Foi então que ela finalmente percebeu o porquê da estranheza. A gaiola, era hora de pô-la para fora. Hora do banho de sol para o prisioneiro.

Não penso em bicho de estimação mais infeliz do que um pássaro. O símbolo da liberdade, asas, o poder de planar, viagens sem destino. Autonomia que há muito sonhamos, perseguimos, tentamos conquistar e que nos mata de vez em quando.

Aqueles pequeninos seres alados, confinados em espaço mínimo. Os senhores dos céus restritos a poucos centímetros apenas para o deleite dos olhos e ouvidos egoístas de seus possuidores.

Esta é uma das amputações mais violentas que nós, homens, cometemos contra a Natureza. Sim, faz parte da natureza das aves, e impedir o seu voo através de grades, confino, é como amputar seus membros locomotores, suas asas.

Penso nos peixes, que trocam a imensidão dos rios e mares por apertadas caixas de vidro. Estes aparentam uma estupidez profunda. Parecem não se entediar com o cativeiro. Mas, voltemos à história.

Faltava a ave. O pássaro sumira. Desespero entre as meninas. Não havia pistas. Nada do corpo, nada de arrombamento. A gaiola intacta, nenhum vestígio de luta, nada fora furtado. O alpiste, o jornal cagado, a água, tudo estava em seu devido lugar. Menos Alfredo, o canário belga.

Choro por todos os lados, por onde estaria Alfredo? A gaiola vazia, um vazio no peito. O canarinho era um verdadeiro “rouxinol”. Não sei porque, mas quem canta bem, canta como um rouxinol. E como cantava bem o desgraçado.

Talvez fossem as sementes de maconha que recebia escondido, para que mulher e filhas não soubessem. O pai foi chamado às pressas. Começavam as investigações.

-Meu Alfredinho! Onde foi parar o meu Alfredinho?

-Ai minha santa! O que vai ser das crianças?

-Que crianças? E eu, e EU? Cadê meu Alfredinho?

-Você está histérico.

As filhas saíram chorando da cozinha.

-Tá vendo, olha só o que você fez.

A mãe saiu da cozinha.

-Bom, filho, só me resta você. Vamos achar o Alfredinho, doa a quem doer.

Os dias passaram, Alfredinho, nada. A tristeza foi se dissipando, em breve ninguém se lembraria do pássaro. Elisa, vez em quando, prestava atenção nos cantos que vinham da rua. Vã esperança de reconhecer ali o timbre agudo que tanto animava os deveres domésticos.

Para as crianças, inventaram a história de que Alfredo fora construir um ninho, com uma linda canarinha, e que agora tinham uma família de filhotinhos para criar. Tudo ia bem, quando a notícia correu.

A empregada foi limpar o fogão. E, sob o forno, dentro da bandeja inferior…

Como poderia explicar?

Observem seus fogões, abram o forno, fechem-no. Abaixo desta porta que mexeram, existe um friso, um espaço entre a dobradiça e o piso da cozinha. Com cuidado, passando a mão por sua extensão, abrirão uma outra portinhola.

Ali, esquenta-se pão, aproveitando o calor do forno, por exemplo. Ali, ocultava-se o cadáver do pássaro. Penas, pequenos ossos, todas as evidências necessárias. Estava descoberto seu paradeiro.

-Que horror!

Exclamou Elisa.

-Que horror!

Repetiu Guilhermina, a cozinheira.

As filhas saíram chorando da cozinha.

O pai foi chamado novamente. Tínhamos um mistério. A solução logo se tornou óbvia. Um ninho de rato, confortavelmente instalado abaixo do calor do forno. As bolinhas de cocô denunciavam o inquilino.

Vingança. Era tudo o que passava na cabeça do pai. Seu companheiro de cantoria brutalmente assassinado. Sua companhia nas tardes esfumaçadas entre um trago e outro da boa erva, lá estava Alfredo a gorjear. Cantava como nunca, empolgado com as sementes que ganhava.

Furar os olhos, não. Coitadinho, era muita maldade. Mas, dopar o bicho, sim. Ah, com que beleza recitava aqueles versinhos. Compunham os dois. O animal entrava com a melodia, o pai, com a letra.

A dupla estava desfeita. E seu sangue clamava por vingança. Mais que isso, ninguém naquela casa dormiria enquanto não fosse encontrado o maldito rato.

Ser ignóbil, símbolo de tudo o que é sujo, sórdido e porque não dizermos, rasteiro. Animal que não desperta nenhuma compaixão entre os ocidentais. Elisa não dormiria com um bicho destes dentro de casa.

Mais que vingança, encontrar e exterminar o roedor era questão de honra. Sua rainha pediria a cabeça do animal, era preciso contentá-la. Não haveria paz naquele reino enquanto a bandeja de prata não lhe fosse ofertada com a cabeça decepada do inimigo.

A perplexidade era completa.

-Como o roedor escalara a lisa parede de azulejos?

-Como o roedor invadira a gaiola?

-Como matara e arrastara o corpo para baixo?

-Será que sabia abrir a porta da gaiola?

-Teria passado entre os vãos das grades?

Tudo parecia supérfluo frente ao fato consumado. Nada traria de volta a alegria perdida naquela cozinha.

Foi então que começou a maior operação militar já vista. Todos mobilizados, mulheres e crianças para fora da cozinha, portas trancadas. Dentro, apenas pai e filho. Vassoura e rodo. Todos a postos. A caçada teria início.

Arrastam-se os móveis, armários, gavetas, até que enfim lá está o alvo. O roedor. Seu corpo não é dos maiores, mas também não é um camundongo. Deve ter vindo do esgoto.

-É ele!

Gritou o menino.

-Vamos pegá-lo!

Bradou o pai.

Do outro lado da porta, as moças insistiam em ouvir.

-Pegaram ele?

Perguntou a filha mais velha.

-Deixe eu ver um pouquinho?

Pediu a mais nova.

-Fechem a porta, porra.

Gritou o pai.

O rato escapara. Vassouradas e golpes de rodo disparados a esmo. Ileso, o roedor tremia dentro do buraco do motor da geladeira.

-Ali, pai. Ali. Ele entrou ali.

Apontava o filho.

-Pegamos o bastardo. Seus dias de comedor de pássaros chegaram ao fim.

Disse o pai, triunfante.

Estudaram a situação. Tentaram a todo o custo fazê-lo sair de lá, mas o bicho não era bobo. Dali ele não sairia, dali ninguém o tirava. A mãe já reclamava das cacetadas a que seu refrigerador era submetido na esperança de desentocar o intruso. Então veio a ideia.

-O inseticida! Vamos acabar com ele. Quero ver ele não sair daí!

-Oba, guerra química.

O filho, excitadíssimo, correu até o armário.

-E a Convenção de Genebra?

Diria o rato, se este soubesse falar.

Devidamente protegidos, com panos de prato amarrados nos rostos, nossos corajosos soldados não dariam trégua ao inimigo.

-Psssssssssssssssssssssss

O pai descarregou todo o tubo de veneno. O rato aguentou firme. Silêncio mortal na cozinha, apreensão do lado de fora.

-Ai dona Elisa, vamos ter que lavar a cozinha, como é que eu vou cozinhar no meio do veneno?

Preocupou-se Guilhermina.

-Vamos jogar todas as comidas fora, amanhã você vai limpar tudo, azulejo por azulejo.

-Pega pai.

O rato correu para seu ninho, dentro do fogão.

-Vais morrer como um judeu! Escapaste do gás, mas do forno…

-Olha as crianças.

Repreendeu Elisa, com o ouvido colado à porta.

-Você quer ele morto, não quer? Então cale-se. Há homens em ação, aqui nesta cozinha.

Respondeu o pai.

-Me passe os fósforos.

Ordenou o comandante da operação.

-Vamos queimá-lo?

Indagou o subordinado.

-É isso aí filhão, agora eu quero ver esse desgraçado se esconder. Ele vai sair daí por bem ou por mal.

Riscou o fósforo, acendeu o forno.

Era o fim do animal. Envenenado, acuado, e agora submetido a calores equatoriais. Só havia uma saída, o chão da cozinha. A postos, pai, vassoura, filho e rodo esperavam o limite da resistência do comedor de aves.

Como era de se esperar, lá veio ele. Franca disparada, correu em direção do garoto. Em atitude de defesa, desferiu o golpe.

-Plaft.

A vassoura espatifou-se contra o piso. Numa agilidade única, o roedor mudou o seu rumo, para alegria do menino que gritava em pânico.

-Ele avançou em mim! Ele avançou em mim!

-Ploft.

O pai foi certeiro. Pescoço para um lado, corpo para o outro. Como divisória, a borracha do rodo. Perninhas ainda deram um último estremecer. Alfredinho estava vingado, a guerra chegava ao fim.

Published in: on 27 de março de 2012 at 13:49  Deixe um comentário  
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HERMÍNIA, 74 – CONTOS DE MARCELO AITH

HERMÍNIA, 74

Hermínia dorme. Um sono confuso, tumultuado. Não passa das quatro e parece que vai despertar. As pálpebras vibram num movimento descoordenado. A respiração, ofegante, parece que vai falhar.

Hermínia é cardíaca. Sofre do coração. Não digo daquelas dores de amor, coisa que ela mesma nunca experimentou. Foi o cansaço da solidão que se alojou em seu músculo cardíaco. Mal que mata aos poucos.

Como se não bastasse a doença, a insônia, Hermínia é professora aposentada. De matemática. Sem dinheiro, não há quem lhe compre os remédios. Há cinco dias que não os toma.

Acorda assustada, suando. Pressentiria a morte? O corpo está fraco. Sem as cápsulas, o peito nega-lhe a força para continuar. Sentada na cama, espera o amanhecer. Hermínia já não sabe mais o que fazer.

Outra vez irá ao posto bancário. Quem sabe não lhe chega a pensão? Esta é a motivação que encontra. Levanta-se e, sem se lavar, côa o café. Ralo, para insatisfação de Hermínia.

A velhice a emporcalhou. Não trata de sua higiene pessoal. Vaidades, Hermínia as perdera com os anos. A sovinice fez-se necessária. Menos banho, menos na conta de luz. Mais xampu para o mês tão longo.

Desgrenhada, em nada lembra aquela mulher que comandava com mãos de ferro a cadeira de Matemática no Grupo Escolar Aníbal Machado. O melhor da cidade, lá pelos cinquenta.

Descendente de alemães, sempre foi sisuda. Alta, magra, ossuda. De um humor de quem sofre do fígado. O terror dos jovens aprendizes. Impiedosa, sarcástica, a antieducadora.

Espectro fantasmagórico nos sonos das crianças, Hermínia competia com os pequenos, massacrava-os. Sempre provando saber mais do que os fedelhos que infernizavam sua existência.

-Vocês acabam com o meu dia, seus energúmenos. Os pais de vocês devem ter vergonha dos filhos que têm.

Com este estímulo, Hermínia educou gerações e gerações de jovens. Até a aposentadoria. E hoje, a professora vive de pensão, só. A mãe, de quem cuidara a vida toda, já não lhe faz mais falta.

Como não se casara, não tinha filhos. Sexo, penso que Hermínia tenha uma vaga lembrança do que seja. Uma única experiência, com um primo distante. Coisa que não passou de brincadeira de criança.

Um único parente ainda a visita. Mas é coisa para uma, duas, não mais que três vezes ao ano. Sendo que nos últimos anos, as visitas andam rareando um pouco mais que o costume.

Todo dia é dia de esperança. Quem sabe hoje o Tesouro não se lembra dos velhos? Mesmo com toda essa perspectiva, as forças para continuar seguindo são menores do que nunca.

Devidamente vestida, Hermínia está pronta para a peregrinação. Lá vai a mulher tentar receber o que lhe é de direito. Mas o governo não honra os compromissos.

Hermínia tem saudades da época em que podia orgulhar-se da profissão. Sozinha, mantinha a casa, sustentava uma mãe doente. Com salário de professora do ensino público.

Tentava entender o que ocorrera. As reformas curriculares, a transformação do ensino. Bons tempos aqueles dos militares. Havia ordem, respeito, civismo. Hoje, sabia de cada caso.

Os alunos não queriam mais nada. Ameaças físicas contra o corpo docente eram diárias. Tráfico e consumo de drogas eram recorrentes. E o salário? Meu deus, mas que salário?

Aposentada, as coisas só pioraram. O dinheiro não vinha na data marcada. Devia no armazém, para desgraça de seu orgulho germânico. Sofria toda sorte de privações.

A dispensa sempre às moscas. Se bem que, tamanha carestia, nem as voadoras se interessavam por sua cozinha. O médico, pela rede pública hospitalar. Remédios era por hábito faltar.

Não como agora. Cinco dias sem o do coração. Não aguentaria por muito mais tempo. Andava alimentando-se mal, e tudo mais. Mas, não sejamos tão rudes com Hermínia.

Teve sim um amor. Bem que platônico, nem ela conseguiu entender ao certo. Um certo Monteiro. Ministrava História e Geografia para o Científico.

Fazia um sucesso com as adolescentes. Era uma espécie de liderança. Falava coisas que não devia. Um dia apareceram dois homens de terno, sentaram ao fundo da sala.

Depois disso, nem Hermínia, nem a direção do Grupo Escolar Aníbal Machado souberam do paradeiro do professor Monteiro. Correu boato de que o homem fosse terrorista. Mas isso não era problema de ninguém, era mais seguro esquecer tudo.

-Queridos alunos, essa é Alba, a nova professora de vocês.

E assim se deu o único amor de Hermínia. Pouco para o coração doente. Nada onde pudesse agarrar-se, uma velhice sem lembranças felizes. Assim era demais até mesmo para os corações sadios.

No banco, mais uma decepção. Nada em sua conta corrente. Outro dia sem os remédios. Ao menos o ônibus, este nada lhe tomava. Descia pela porta da frente, sem pagar a passagem.

É bem verdade que irritava os motoristas e passageiros com seus movimentos lentos. Paciência, um dia também seriam velhos. Ou por sorte, enfartariam antes. Como odiava o próximo, Hermínia.

A vontade de viver, de vencer, fazia parte de seu ser. A força das guerras pelas quais a família passara ainda corria em suas veias. A raça ariana triunfaria um dia. E lutaria até o fim.

Com essa disposição que Hermínia desfez-se do último rastro de amor próprio. Chegava ao fim. Não era mais Hermínia, professora de matemática, aposentada pelo Grupo Escolar Aníbal Machado.

Podia ser qualquer uma. Naquela figura trôpega, lutando pela sobrevivência, não se reconhecia Hermínia. A derrota moral, física, era completa.

O corpo carcomido. Na alma, solidão. Bolso e estômago vazios. Tentou amigos, mas estes não existiam. Ou por já terem há muito partido para outras terras, ou pior, para outros mundos. Ou por simplesmente não terem existido.

Esta era bem a verdade. Não tinha a quem recorrer. As amarguras, as maldades, moldaram-na solitária. Além disso, houvera a mãe. Esquizofrênica, demente.

Nunca recebia visitas. Tinha apenas colegas de serviço. Amizades que não superavam a sala dos professores, durante os intervalos do recreio.

Chegava ao fim um ramo da linhagem dos Zinnürhanns. Hermínia não deixava descendentes. E com seu fim próximo, estaria decretado o fim da estirpe em terras tropicais.

Fracassava a conquista da América. Se os seus antepassados a vissem neste momento, ai que vergonha. Deveriam estar se contorcendo na tumba. Pensava nisto, mas seguia em frente. Era vencer ou morrer, e não havia tempo para meios termos.

Lá estava Hermínia. Caixa de remédio amassada e receita médica nas mãos. Batia de janela em janela, nos autos parados no semáforo. Mendigava. Era o fim de sua prepotência germânica.

Não foi tarefa das mais fáceis vencer a primeira barreira, a perda de toda a autoestima. A superação da exposição à derrota e ao público. E o medo de abordar um antigo conhecido? Ou pior, um ex-aluno.

De certo, muitos dos que foram humilhados por Hermínia já eram homens feitos. E nada os impedia de serem os condutores dos veículos que se aproximavam. Estava acabada.

-Dona Hermínia, a senhora por aqui?

-É meu filho, estou trabalhando no voluntariado. Sabe como é? É preciso ocupar o dia.

Mentiria Hermínia.

Os dias se passavam, Hermínia jejuava. Pouco alimento, muito trabalho. A concorrência não era das menores. Para cada esquina parecia haver milhões de necessitados. E tão pouca solidariedade humana.

Eram ciganas, leitoras de mãos. Eram mães adolescentes carregando bebês. Eram aleijados, deficientes, chagásicos, menores de rua, escoteiros, distribuidoras de panfletos, alcoólatras, famílias de necessitados…

Uma infinidade de causas batia aos vidros em busca de socorro. Dias de sol e chuva Hermínia enfrentou até que finalmente conseguisse juntar as economias necessárias. Com esforço próprio, conseguira.

Exausta, era esta a situação de Hermínia. O desgaste físico, moral, derrubara de vez a mulher, estava um caco. Mas tinha o dinheiro, iria à farmácia, estava salva. O peito voltaria ao compasso.

Dias, semanas, para ser preciso eram nove amanheceres sem a medicação. O estrago era grave, a saúde ia mal. Um esforço heroico a matinha em pé. Naquela manhã, não foi ao cruzamento.

O dia estava claro, a esperança voltava a existir em sua alma. De posse das moedinhas, notas amassadas, foi à farmácia. Mãos tremulas, entregou a miudeza ao caixa.

No balcão ao lado, uma mocinha grampeava os pacotes das compras. Com o cupom de pagamento, Hermínia esperava o seu. O “tlac” de cada grampear doía-lhe no peito. Estava difícil manter-se viva.

Neste meio tempo, entre pagar o remédio e efetivamente apanhar o embrulho, houve o inesperado. Para azar de Hermínia, naquele momento o boticário estava sendo assaltado.

Eram três homens, todos armados. Invadiram o comércio aos berros.

-Mãos na cabeça, todos no chão.

A confusão foi generalizada.

Os olhinhos miúdos de Hermínia não desgrudavam do pacote. Estava a um passo da salvação. Tanta peleja para chegar ali, e essa agora. Passara por cada dificuldade, não podia falhar ao final.

Ficou estática, sem reação alguma. Não obedeceu às ordens dos marginais.

-Ai vovó, é todo mundo no chão.

Gritou o assaltante com a arma na têmpora da antiga professora.

Toda sua vida passou pela vista. A infância, na Alemanha. A fuga, durante a guerra. Adaptação, no novo país. O apogeu, no grupo escolar. Até mesmo a humilhação mais recente, do mendigado.

O músculo cardíaco deu um leve suspiro, um último fiapo de vida se esvaiu do corpo de Hermínia. Obedecendo, então, ao comandado, foi ao solo. Dura, seca, de uma só vez.

-Caralho, fudeu. A velha pifou.

-Tamos fudidos. Vai dar homicídio, latrocínio.

-Vamos cair fora, antes que suje.

Hermínia Zinnürhann, 74 anos, solteira. Não deixa filhos. Cemitério São Pedro. Este foi o anúncio do obituário. Ninguém compareceu ao velório. No enterro, apenas funcionários em serviço.

As despesas foram todas pagas pelo proprietário da farmácia. Que, ao longe, oculto, presenciou o sepultamento de Hermínia.

-Até que me saiu barato. Nada que pudesse comprometer os lucros da manhã.

Evitando o assalto, Hermínia fazia sua primeira e única boa ação. Eternamente grato, o comerciante mandaria rezar todos os anos uma missa para a falecida.

Ao menos na morte, conseguira cativar alguma gratidão.

Published in: on 27 de março de 2012 at 12:55  Comments (1)  
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