Viver de Escrever?

 gravura copista

O que será viver de escrever? Certa vez, conversando com o Antônio Abujamra, ele soltou mais uma de suas frases, algo como: -para saber se você quer ou pode ser um escritor a melhor pergunta a se fazer é consigo viver sem escrever? Se você suporta viver sem escrever, você não será nem é um escritor.

Mas como viver de escrever num país onde quase não há livrarias, onde as livrarias que existem oferecem livros no valor onde os brasileiros não podem comprar, brasileiros que não têm acesso à escola, à educação, e todas as mazelas que já cansamos de escutar sobre a tacanha realidade social de nosso país?

sombra

Viver de Escrever às vezes pode parecer um desafio tão grande como viver de luz. Você ouve falar que um aqui, outro ali, vive do que escreve, mas nunca os vê. Descartando todos aqueles que escrevem o que o patrão quer ouvir, como jornalistas e redatores em geral, quem são os que verdadeiramente vivem do que escrevem?

Desde pequeno fui tomando contato com os livros e com a leitura. Na infância, fui incentivado pelo pai, que dava o exemplo. Recordo das prateleiras de tábua fina e mão francesa, lembro das caixas de maçã que eram recicladas como estantes, pregadas nos quartos, os livros tomando os espaços livres da casa.

Quando meu pai morreu, eu tinha 11, tivemos que mudar para uma casa menor, e lá se foram os livros. Recordo de fazer apenas umas 2 ou 3 viagens com um carrinho de supermercado cheio de livros, da casa antiga para a casa nova. O resto, foi vendido a preço de banana. O irmão de meu pai também deixou para trás uma biblioteca. O espaço ficou abandonado por um tempo, até que anos e anos depois, comigo já morando com minha tia, organizei o que de melhor resistiu ao tempo do acervo dos dois irmãos. 

  Já escrevia algumas coisinhas, ainda em papel, durante a madrugada. Nas manhãs seguintes, rasgava tudo. E assim ia traçando minhas primeiras linhas sem deixar vestígios. Herdei um laptop, que depois se perdeu para todo o sempre, onde comecei a digitar as primeiras linhas devidamente registradas, mas devido à minha distração, os primeiros arquivos ” .doc” também se foram.

nelson rodrigues

  Na faculdade, acabei por me envolver com um sebo, onde fui funcionário e depois coproprietário. É claro, nunca deu lucro e o sebo acabou virando papelaria. Eu perdi o interesse em ficar comprando no atacado e revendendo no varejo. Vendi minha parte e continuei seguindo minha busca.

  Nesse meio tempo, trabalhei como redator, numa empresa de assessoria de imprensa, onde respondia cartas com dúvidas, sugestões e pedidos de consumidores da caixa postal dos produtos que representávamos. Havia um banco de opções, com parágrafos de abertura, miolos de texto para cada uma das situações, parágrafos de encerramento.

 O trabalho era ler o que o consumidor questionava, e então montar o Franknstein, com opções coerentes que formassem algum sentido. A liberdade de criação era mínima, alguma adaptação aqui e ali. Repassávamos as cartas entre os redatores, cada um lia a do colega ao lado. E lá ia eu, tentando viver de escrever.

plínio marcos

Escrevi a monografia final da graduação, que um dia ampliada dá um livro. Mas não tive coragem de partir para o mestrado. A literatura acadêmica, seus formalismos e métodos de escrita não me seduziram com todas as suas citações, notas de rodapé, referências bibliográficas e tudo que está no manual do Umberto Eco – Como se faz uma tese.

De lá, fui parar na televisão, um trabalho muito interessante, pesquisador para documentários, auxiliando roteiristas e diretores na busca de informações, bibliografias, livros, personagens, professores, arquivos históricos, museus, revistas, jornais, filmagens, vídeos, etc…

timeline

Produzi contos, crônicas, poesia, escrevi para sites, redigi para agência de eventos, fui tocando adiante. Ao mesmo tempo, aprendi a editar vídeo, o que se tornou um ganha pão concreto. Passei a contar histórias não mais no papel, mas agora na ilha de edição, na timeline.

O que o Abujamra falou lá no começo do post tem algum sentido. Um dia você acorda e sente que é preciso escrever para viver. O ato em si se faz necessário. Dando dinheiro ou não. Sendo sua profissão ou não. E lá vai você, que sempre foi avesso a orkut, blog, twitter… queimar a língua.

tipos gráficos

Então está no ar o blog Viver de Escrever !

 

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Published in: on 5 de setembro de 2009 at 21:32  Comments (1)  
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