O DIA EM QUE SANTIAGO PAROU DE FUMAR – CONTOS DE MARCELO AITH

O DIA EM QUE SANTIAGO PAROU DE FUMAR

Santiago era turista. Como todo bom turista, meio dado a otário. Homem ingênuo, de boa fé, simplório, fácil de ser enganado. Como preza a sintaxe, um otário. Excursionava pelo Rio de Janeiro, feliz, maravilhado com suas belezas.

Praia, mata, biquínis, um mar de imagens coloria a vista. Deslumbrado, numa alegria pueril, circulava pelas ruas cariocas. Brasileiro, vindo do interior, da roça, era o seu primeiro encontro com água salgada.

Sabia dos perigos, vinha bem avisado.

-Cuidado com a cidade grande, não dê ouvidos a estranhos, não vá ao fundo do mar.

A cabeça cheia de nãos. Mas no peito, no fundo do coração, batia um enorme sim.

Os dias foram lindos, um céu azul de doer. Todas as recomendações deixadas para trás. Santiago era um despudorado. Entregou corpo e alma à nova cidade. Parecia ter “naiscido” ali, até o sotaque estava pegando.

A família esperava por notícias que não vinham. Santiago também não aparecia. O que era para ser uma semana de passeios, transformou-se em algo muito maior.

Estava instalado num cortiço, um casarão do início do século. O mofo da maresia tomava conta das paredes. Do barro dos tijolos brotavam samambaias e liquens. Uma pequena orquídea branca surgia no canto mais úmido de seu quarto.

Sua vontade era de morar ali, não tinha saudades em nada da sua antiga terra. Adotara um novo berço. Paixão instantânea. Caipira na metrópole cumprimentava a todos. Mesmo a falta de educação dos transeuntes anônimos lhe agradava. Que gente ocupada.

Em todas as direções, apressadas, as pessoas passavam e ignoravam Santiago. Mas que maravilha a cidade grande. Pegava seu cigarro de palha e percorria a orla. Sentado na pedra do Arpoador, pitava olhando o rebentar das ondas. A semana se aproximava do fim. Foi quando conheceu Maria Lúcia. Naquele instante esqueceu-se de tudo. A mulher era grande, um metro e oitenta, que orgulho. Desfilava, maravilhado com o achado.

Não teve dúvidas, perdeu a data da passagem, não voltou para casa. Era véspera de carnaval. Encheu Maria Lúcia de presentes, sacou todo o dinheiro da poupança das crianças. A mulher ria, bebia e amava. Santiago financiava.

Maria Lúcia trabalhava na noite. Há anos fazia ponto na Avenida Copacabana. Estava em férias, afinal, era carnaval. Santiago era um bom namorado, carinhoso, nem desconfiava dos amores remunerados de Maria Lúcia.

Juntos, passeavam de mãos dadas, comiam algodão-doce na Lagoa, pareciam noivos. Ele pensava padecer no Paraíso, ela já pensava em voltar ao trabalho. Até que chegou o dia do desfile das escolas.

Maria Lúcia não perderia o desfile por nada neste mundo, Pipoca sabia disto. A vagabunda podia não aparecer há dias em seu posto de trabalho, mas no sambódromo ela não faltaria. Lá estava o cafetão, bermuda e chinelo, carregado nas pulseiras. Bebia, encostado num trailler.

Atento, observava o movimento das alas que chegavam. Os carros alegóricos tomavam posição, alinhados, prontos para entrar no templo do samba. Legiões de fantasias tumultuavam a passagem. Eram centenas de milhares de plumas, lantejoulas, purpurinas a reluzirem pela avenida interditada.

No meio da confusão, ambulantes vendiam churrascos, cervejas, ingressos. Mal se conseguia andar.

-Eu acho que ela não aparece.

Insinuou o amigo Luciano. Pipoca, sem tirar os olhos do infinito, foi categórico.

-Ela vem, posso sentir na pele.

-E quanto ela te deve?

-Este é assunto meu, quem cuida das minhas negas sou seu.

-Calma malandro. Se você não consegue nem receber o que é seu não venha descontar no irmãozinho aqui, não.

-Irmãozinho, o caralho. Você acha que a minha mãe ia criar um bicho ruim assim como você?

-Em qual escola a Lúcia sai?

-Na Estácio, já deve estar para chegar. E eu que adiantei a grana da fantasia, devia ter tomado tudo o que era meu.

-Hoje, não se pode confiar em mais ninguém. Em que tempos chegamos?

Indignou-se Luciano.

-Como ela quer que eu brinque o carnaval sem algum? Mas deixe estar, a Lucinha vai ter o que merece.

-Isso mesmo, cara. Desce a mão nela.

-Cala a sua boca, o malandragem. Já não disse que quem cuida das minhas negas sou eu?

Neste momento, Santiago e Maria Lúcia desciam na Central. A mulher estava um arraso. Seminua, corpo todo coberto de purpurina, chamava atenção por onde passava.

Santiago estava enlouquecido. A cada passo que davam em direção à Sapucaí aumentava sua emoção. A vibração das ruas era contagiante. Seu primeiro carnaval no Rio de Janeiro, seu primeiro carnaval com Maria Lucia.

-Eu não perco a Estácio por nada neste mundo. Corre Santiago. Corre que já tamo atrasados. Maldita trepada, cê devia ter gozado logo, seu puto.

-Você bem que tava gostando, Lucinha.

-Já falei pra não me chamar de Lucinha.

Correu a mulher que sabia enganar os homens. Santiago tentou acompanhá-la, mas a malemolência da garota criada nos morros superava de longe a sabedoria do matuto da roça. A moça deslocava-se com agilidade pela multidão, Santiago foi ficando para trás.

Um par de peitos balançando, assim Pipoca reconheceu Maria Lúcia em meio ao povo que se aglomerava ao redor dos alegóricos. Passou a mão sobre o pano de bermuda, como se checasse o que continham os bolsos. Endireitou o corpo e partiu ao encontro da vadia.

Maria Lúcia percebera a presença do patrão, diminuiu a marcha, abaixou os olhos. Seu semblante transformou-se de uma radiante alegria para uma apreensiva decepção. Daria merda.

Pipoca pegou-a com firmeza pelo braço.

-E aí, Lucinha? Tá sumida. Não gosta mais do seu paizinho, não? Sua vaca.

Desferiu-lhe um golpe na face, de mão aberta. O estalo assustou os que passavam próximo.

-Ah, meu deus, me desculpe. Não se deve bater numa dama. Mesmo quando ele não passa de uma putinha sem-vergonha que se esquece do papaizinho dela.

As pessoas passavam indiferentes à cena. Os que pararam estarrecidos recomeçaram a andar.

-Vocês sabem quem pagou a fantasia de madame pra essa desqualificada aqui? Fui eu, e a vagabunda nem aparece pra trabalhar.

-Olha quanto gringo, o Lucinha. Apertou-lhe mais o braço.

A moça permanecia indiferente.

-Tem dó. Sabe quanto eu tô deixando de faturar? E em dólar, filhinha.  Em dólar!

Maria Lúcia continuava muda, cabisbaixa, pensativa.

-Vai dar merda, vai dar merda, vai d…

-E ai, não tem nada pra dizer, não? Como é que vai me pagar o prejuízo dos dias parados, boneca?

-Tem dó você, o Pipoca. Dá um tempo, porra. É carnaval. Deixe que depois eu acerto. Tá bom? Eu já te passei pra trás alguma vez?

-Aí meu irmão, não dá mole pra mulher senão elas montam.

Corrigiu Luciano.

-Já não mandei calar essa boca! Quem manda aqui sou eu.

Bradou Pipoca, já segurando no cabo da arma escondida.

-Deixe eu falar. Eu tô com um carinha, do interior. Ele tá torrando uma grana. Eu tava precisando de férias, deixe eu curtir esse namorinho. Depois eu dou um jeito.

-Até quarta de cinzas, e nem um dia a mais. Só porque eu te amo. Sabe que eu faço tudo pra você, meu amor?

Perguntou Pipoca, alisando-lhe a face enrubescida pela tapona. Maria Lúcia virou por alguns graus o pescoço, como se oferecesse a face oposta. Fechou os olhos, com um certo nojo daquele toque.

-Isso tudo é por ciúmes, meu bem. Você não sabe como eu sofro em vê-la com outros. Mas quem vai vestir o velho Pipoca, aqui?

-Me deixe brincar o carnaval, depois a gente limpa o Santiago. Quando ele dormir eu tomo as coisas dele e desapareço. Aí ele volta pra família.

-Ou vira desses miseráveis pelas calçadas. Mendigo de amor.

Interrompeu Luciano.

-O urubu, sai de trás dos outros. Onde você arruma esses trastes?

Indagou Maria Lúcia.

-Traste o cacete, sua… Daqui eu não saio sem dinheiro. O Pipoca pode ser seu macho, mas eu não perco viagem. Não saí lá do morro pra voltar de mãos vazias. Tô precisando fazer algum, e é agora.

Luciano estava fixo nos olhos de Pipoca. No meio da malandragem ninguém podia vacilar.

Atrasado, Santiago se aproximava. Mesmo na multidão, Maria Lúcia continuava parecendo linda. Estava apaixonado. Seus olhos captaram a presença da mulher.

Não podia escutar-lhes a conversa, mas os movimentos de lábios e mãos não o agradavam. A cada toque de Pipoca aumentava o seu ódio. Estava cego de ciúmes.

Interrompeu a discussão.

-Vamos Lucinha. Vamos que já tá na hora.

Mais uma vez apertaram o braço da mulher, como se fosse objeto de propriedade. A mulher não se moveu.

-Esse é o Santiago?

Quis saber Pipoca.

-Sou eu, sim senhor. Algum problema?

-Fica na sua, Santiago. Tô tratando de negócios, ou você vai me sustentar pro resto da vida?

-É só que eu não gosto de mulher minha falando com estranhos.

-Ih, ó o cara, te tirando de estranho, Pipoca.

Falou o amigo.

-Aqui o bacaninha.

Disse Pipoca, cutucando Santiago com o indicador no peito.

-Você pode ser esperto lá na sua terra, mas não vai durar muito numa cidade como o Rio, não.

-Vamos andando, Lucinha?

Apertou Santiago.

-Não me chama de Lucinha que eu não gosto. Merda.

-Qual é, Lucinha? Eu sempre te chamei assim.

-Babaca.

Murmurou o mulherão.

Neste instante, Luciano, que não era de perder viagem, percebeu um volume no bolso da camisa de Santiago. A discussão prosseguia, os rojões anunciavam a entrada da Estácio. Foi o bote.

Mãos ágeis, Luciano livrou Santiago do peso nos tecidos. Nem sequer ousou correr. Alguns passos do furto, conferia o produto. Notas graúdas, outras miúdas, o maço de cigarro de palha.

-Filho da puta, levou o meu cigarro.

Partiu para cima do larápio, amigo do alheio. Lucinha ainda tentou detê-lo, mas foi segura por Pipoca.

-Ladrãozinho de merda, devolve o meu cigarro.

Disse Santiago, ao pôr a mão no ombro de Luciano.

-Eu não acredito.

Surpreendeu-se Luciano com a ousadia do furtado. Virou-se de frente para o desafiante.

-Ladrãozinho de merda, já mandei. Devolve o meu cigarro.

-Tá maluco? Tá querendo morrer, porra? Sai de mim.

Advertiu o criminoso.

Santiago fechou a mão, anunciando que desferiria um golpe. Luciano, precavido, enterrou-lhe o punhal no baço, torcendo-o em movimentos circulares.

Um jorro quente inundou a camisa. Santiago caiu de joelhos na avenida. Seus olhos vertiam lágrimas ao verem a sua Maria Lúcia desaparecer na multidão, braços dados ao cafetão. Corriam apressados em alcançar a Escola.

-Se eu perder a Estácio sou capaz de matar mais um.

Avisava a prostituta.

-Eu mando repetir o desfile pra você, minha princesa.

-Manda mesmo, Pipoquinha?

-Claro, Lucinha. Você é a minha flor. Sem você não vivo.

No Souza Aguiar ninguém soube dizer a quem pertencera o corpo de baço perfurado. Não portava documentos, nenhum parente veio reconhecê-lo.

Entre ser enterrado como indigente e ir parar numa vala comum ou servir para a Ciência; Santiago teve o fim mais nobre. O corpo foi doado para estudos.

Hoje, encontra-se fragmentado pelas dependências da Escola de Manguinhos. Sepulcro suntuoso, o castelinho de Oswaldo Cruz era o melhor mausoléu que poderia encontrar. Seu pulmão ainda é muito disputado nas demonstrações sobre malefícios do tabaco.

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