CONVERSA DE BOTIQUIM – CRÔNICAS MUSICADAS

CONVERSA DE BOTIQUIM

Carlos tenta animar Marcus:
– Vamos amigo, coragem! O que é que há, meu rapaz? Alegria. Olhe que não devemos perder tempo, ou não vai sobrar mulher bonita e inteligente para nós.

– Não se trata de mulheres. O problema é A Mulher. Eu não tenho paz. Desde que a Camille foi para a França, minha vida se tornou um desalento. Ela não é bonita, é a própria PanAir, aquilo sim é avião.

– Vai dizer que voltou a te escrever?

Emenda Adauto.

Juntos, os três leem a mais uma carta que Marcus traz.

– Eu cheguei a uma conclusão: mulher muito bonita ou é neurótica, ou é burra ou é mau caráter.

E se consolam. Os desenganos do amor eram assunto predileto entre os boêmios rapazes. Conversavam longamente, discutindo os amores solitários, não correspondidos, contraditórios, instáveis e impossíveis de se realizarem. Uma noite, Carlos aproxima-se de Marcus, e acompanhado do violão de Adauto, entoa “De amor e paz”:

– Quem anda atrás de amor e paz não anda bem… / Sei que é demais querer-se a paz e o amor também… / Não hei de ver envelhecer meu coração / Vou sempre ter em vez de paz inquietação…
Com olhos mareados, os amigos se abraçam, enquanto as mesas em volta batem palmas. Os aplausos vão crescendo e logo a música alcança o estrelato, ao ser defendida por Elza Soares nas eliminatórias do II Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record.

Entre o sábado da classificação e a segunda-feira da final, são dez dias em que o Brasil para. Não há quem pense outra coisa. Quem levará o troféu Viola de Ouro e os 20 milhões de cruzeiros do 1º prêmio?
Na disputa, uma dúzia de canções assinadas por nomes como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Edu Lobo, Carlos Lyra, Millôr Fernandes…

Convocado para dar voz às obras, o time de estrelas da emissora paulista: Elis Regina, Roberto Carlos, Jair Rodrigues, Nara Leão, Elza Soares, Maysa, MPB-4, Maria Odete e Leny Everson.

No bar onde nascera “De amor e paz”, o assunto não pode ser outro:

– E então Carlos, o que é que você fará com seus 20 milhões? Vai comprar um fusca, como fez o Edu?

– Riam de minha música, em breve terei uma frota rodando a cidade. Cada bêbado que sair daqui vai deixar dinheiro em um de meus táxis! Volto pro Paraná, ouvir Guarânia e ficar bem longe de vocês. Isso, sim.

Brincadeiras à parte, “A banda”, de Chico, e “Disparada’, de Vandré, monopolizavam as atenções. Não restava dúvida, uma delas sairia vencedora e a outra seria a vice-campeã. A disputa ficava entre 3º e 5º lugar.

“Estava à toa na vida o meu amor me chamou…”

“Prepare o seu coração para as coisas que eu vou contar…”

Era o que se ouvia o tempo todo, entre as mesas. Bastava um começar para outro responder:
– Estava à toa na vida…

– Prepare o seu coração…
Os grupos rivalizavam-se com ofensas pessoais, insultos familiares e, às vezes, força física. Era preciso a intervenção de garçons para acalmar os ânimos.

– Vai ser de disparada!

– Alguém com o nome de Vandregésilo pode fazer poesia?

– Quer coisa mais alienante que passar a vida vendo a banda passar?

Perdidos os argumentos, lá iam mais dois bêbados terminar a disputa no muque. No dia da final, Carlos não vai ao bar. Marcus reúne os mais íntimos em sua casa, para verem a transmissão:

– Senta que já vai começar!

– Traz mais uma bem gelada, por favor?

– Quer tirar a fumaça do seu cigarro de meu nariz?

Ainda demarcavam suas posses, quando a apresentadora escolhe a garota da plateia para sortear a primeira música. Jair Rodrigues interpreta “Disparada” e o auditório vem abaixo:

– Já ganhou! Já ganhou! Gritam pela TV.

– Cacete, perdemos o 1º prêmio.

Brinca o Adauto.

– O Paulo tá no júri, ele garantiu que a gente tava classificado. Vamos esperar! Tranquiliza Marcus.

Ninguém consegue manter controle. Verborrágicos, não conseguem ver o MPB-4. O silêncio só se faz quando chamam o nome de Elza Soares. A tensão é enorme, parecem assistir à cobrança de um pênalti. Angústia maior vem com o anúncio das cinco vencedoras:

– Em 5º lugar, de Gilberto Gil, “Ensaio geral”…

Elis volta ao palco.

– Dessa vez não deu pra ela, não teve Arrastão que a salvasse, não adianta abanar os braços!

– Deixe de implicância, a moça é boa, a letra é engajada.

– Bom, agora só têm dois prêmios.

– O Paulo nos garantiu…

Vêm os anúncios de 4º e 3º lugar. A decepção é geral, não chamam “De amor e paz”. Carlos levanta-se e sai da sala. Talvez para chorar escondido. E na TV:

– Atenção!… Muita calma!… Pedimos silêncio no auditório!… Temos o prazer de apresentar o 2º lugar desta noite… que receberá o prêmio de 10 milhões…

Todos esperam por Vandré ou Chico. Então vem:

– Em 2º lugar, de Adauto Santos e Carlos Paraná…

– Carlos, meu velho, você ganhou!

Abandonam o aparelho e carregam o amigo sobre os ombros até o bar. Não ficam para assistir o júri decidir pela divisão do 1º lugar, entre A Banda e Disparada. A festa transborda pelos corredores da Galeria Metrópole. Só termina pela manhã, com o secar da última gota de álcool do estabelecimento.

Luis Carlos Paraná, compositor, cantor, e violonista, era também o feliz proprietário de O Jogral, a mais importante casa de música brasileira, em meados dos anos 60.

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CARTA DE ANARFABETO – CRÔNICAS MUSICADAS

Carta de anarfabeto

Silêncio, é madrugada, a raça dorme em paz. Dois amigos caminham rua abaixo. Em breve, centenas de trabalhadores também os seguirão. Homens descolando-se por todos os lados, abandonando lares que só os terão ao fim do dia. A vila operária esvazia-se.

– Trouxe o tambor?

– Tá na mão. O Souza vai com a cuíca, e quem faz o cavaco é o Oliveira Penteado. – Responde o que toca agogô.

Logo mais, Laércio e Valdir cruzam com Rubinato, enrolado em seu cobertor, violão embaixo do braço, seguido pelo cão amigo.

– E aí turma, tudo combinado?

– Está tudo certo.

E juntos caminham à plataforma de trem, onde o resto do grupo se une. – Hoje o samba vai comer!

A animação geral não contamina Laércio, que geme bem baixinho, assim como quem tem algum dodói.

– Que bicho o mordeu? – Pergunta o Souza.

– Você não sabe? Não é que a Malvina o abandonou logo depois de perder o emprego! – Indignou-se o Penteado.

– Laércio, eu não sabia… – Desculpou-se o Souza.

– O homem era feliz enquanto Deus assim quis, mas depois pegou Adão, tirou a costela e fez a mulher. – Filosofou o abandonado Laércio.

– Não se escracha, mulher, patrão e cachaça em qualquer canto se acha.

– “Contra filosofou” Valdir.

Por falar em cana, resolveram aquecer-se com o ambulante que passava. Cada qual tomou a sua, naquela fria manhã paulistana.

-Deus dá o frio conforme o cobertor. -Disse alguém, antes do último gole.

No canteiro de obras o trabalho duro só foi interrompido pela sirene que batia às onze horas.

-Vamo s’imbora, João.

-Que é que você trouxe?

-Truxe ovo frito.

-É, pobre quando come galinha, ou ele tá doente, ou a galinha…

E aqueles homens famélicos comeram mudos, de suas marmitas requentadas, as sobras de um jantar que mal dava para a família.

Rubinato, que já trabalhara como carregador, pintor, tecelão, faxineiro, pedreiro, mascate e garçom, sonhava agora em ser artista. Sua verdadeira vocação, segundo ele mesmo. A confiança era tanta que não deixava de participar, todo sábado, do programa de calouros da rádio. Mesmo após sucessivas gongadas.

Foi ele quem rompeu o silêncio.

-Desta vez eu emplaco, vou de “Filosofia”. Noel Rosa para dar sorte.

-Olha Rubinato, esse negócio de samba não veste camisa a ninguém, não. Se ao menos nóis fosse carioca, mas samba paulista!

-Paulista e italiano, vê lá se isso dá samba? Isso é coisa pra crioulo.

-O último samba do Nicola acabou naquela pancadaria. Voava pizza pra tudo quanto era lado, os mais pior foi parar nas Crínicas.

-E olhe que não fumo lá pra brigar, fumo lá pra comer.

Achincalharam os amigos.

-Podem rir, podem rir. Vão falando disso e daquilo, coisas que vocês num sabem nada…

-Não se zange, Rubinato. Eles tão é fazendo troça, vamos provar pra eles. Hoje o samba come solto lá no Brás – socorreu o Souza.

A sirene soou novamente, hora de voltar ao trabalho.

No fim do dia o grupo volta a se reunir na estação Barra Funda. O trem os leva ao Brás mas, chegando lá não encontram ninguém.

-Eu não acredito, ele não podia fazer isso.

-Dá próxima vez nóis não vai mais.

-Podis crê, nóis não semos tatu.

-Carma, turma. Vamo esperá um pouco mais. Vai que o homem já vem vortando?

-Não posso ficar nem mais um minuto, se eu perder o trem que sai agora às 11 horas, só amanha de manhã.

Desistiram. No dia seguinte, encontraram o dono da casa onde deveria ter acontecido o samba.

-Arnesto, isso é coisa que se faça?

-Nóis fumo e num encontremo ninguém.

-Vortemo com uma bruta duma raiva.

-Podia ao menos ter ponhado um bilhete na porta.

-Só se fosse assinando em X, porque eu não sei escrevê.

– Cais, cais, cais, cais – riram todos.

E o animado grupo de briguentos acabou puxando um samba ali mesmo, no bar mais próximo, até alta madrugada.

UM BONDE CHAMADO DESEJO – CRÔNICAS MUSICADAS

Um bonde chamado desejo

-É mano, não tem jeito, nem de sapato novo você terá cartaz com as meninas.

-Claro, ir ao baile com irmã é a morte. Quem iria se aproximar de um homem acompanhado?

-Você é muito tímido, maninho. Eu mesma vi umas três arrastando asa, e você? Nada!

-Vamos fazer silêncio, ou querem acordar os pequenos? – repreendeu a mãe, pondo fim a conversa.

Na manhã seguinte, o rapazola vestiu os novos sapatos. Não fizeram grande sucesso no baile. Mas no trabalho, uma loja de artigos finos no centro da capital, teriam a merecida consagração.

Ainda cantarolava uma canção, quando deu um salto para apanhar o bonde em movimento. O dia chuvoso, o solado novo, o calculo distraído, e de repente o pânico.

O pé de apoio deslizou pelo estribo molhado, sua voz desapareceu atônica. Na lembrança, a imagem do amigo Manduca, morto atropelado anos atrás.

Num golpe de agilidade, pôde salvar a perna. Mas a roda topou-lhe a ponta do pé. Uma dor lancinante subiu ao cérebro. Gritos, desespero, confusão instalada.

-Meu Deus!

-Corre com ele para o hospital!

-Cruzes!

Os médicos, ao verem os dedos pretos, não tiveram dúvidas.

-Vamos cortar, antes que a gangrena tome a perna.

-Enfermeira, prepare a anestesia.

-Como ele canta bem.

-Parece um rouxinol, trepado nessa árvore.

-Pena que é tão mirradinho, coitadinho. – cochichavam as vizinhas, observando o menino que se divertia imitando os sucessos das rádios, tendo por microfone os galhos da amoreira.

-Vem cá Pixinguim, hojé é aniversário do moleque, vem dar uma palhinha.

-Quantos anos, dona Balbina?

-Tá completando três.

-Então eu vou fazer uma coisinha nova que preparei, a senhora vai gostar, chama-se “Rosa”.


-Você canta bonito, heim! Se estivésemos na Itália, eu levaria você para estudar música. Tenho um irmão que é professor no Scala.

A infância vinha em flashes, em meio aos delírios de dor e morfina. Foram quatro meses de agonia em leito de hospital. A dúvida pairava no ar. Dona Balbina, muito religiosa, orava todos os dias para que seu filho voltasse a andar.

O tratamento prosseguiu em casa, durante mais um ano. De cama, ensaiando os primeiros passos, o tempo sobrava. Neste retiro forçado aperfeiçou-se, adquirindo novas músicas para o repertório, pé de ouvido no rádio.

Chegavam às mãos algumas revistas com letras e partituras do cancioneiro popular. Eram serestas e modinhas lentamente aprendidas, pois escola não tivera tempo de frequentar.

Os versos parnasianos confundiam a cabeça, mas não seriam impecílios que detivessem sua vontade de cantar. E foi o que ele mais fez nestes tempos de recuperação.

-Onde você aprendeu a cantar assim? – perguntou Conceição, o motorista.

-Canto desde pequeno, é por gosto mesmo. – respondeu o trocador.

E foi assim, em seu novo emprego de cobrador de passagens, incentivado pelos passageiros e colegas da empresa, que passou a tentar os concursos de talentos nas rádios.

-Você canta aqui?

-Até agora só cantei em casa e no ônibus onde trabalho.

Num lance de sorte, foi descoberto em meio aos demais, ainda nos corredores, à espera de uma oportunidade. Entusiasmado com o achado, o compositor Bororó não teve dúvidas, arrastou o garoto pelas ruas, até encontrar com Francisco Alves, o maioral do momento.

-Menino, você canta mesmo? – perguntou o astro.

-Canto. Mas diante do senhor, como é que eu vou dizer que canto?

A insistência de Bororó foi tamanha que, mesmo sem acreditar no molecote de 18 anos plantado em sua frente, aceitou ouvir o candidato.

O trio dirigiu-se ao Pontiac, estacionado próximo.

-Vamos ver se você pode me ajudar a bater o Sílvio Caldas, o que você conhece do repertório dele? – desafiou “O Rei da Voz”.

O garoto soltou duas composições e Chico Viola interrompeu a audição.

-O menino tem talento, vou buscar o instrumento no porta-malas.

Com acompanhamento, executaram quase duas dezenas de músicas.

-É impossível haver cantor melhor. – profetizou.

E, dirigindo-se ao calouro, recomendou.

-Vá para casa, rapaz. Não faça farra para não ficar rouco e venha cantar, domingo, no meu programa.

O jovem Orlando Silva estreou em rádio dias depois, era 1934. Em 1936, foi contratado pela Rádio Nacional que atingia todo o país. Rapidamente, com o apoio de poderoso meio, transformou-se no primeiro ídolo de massas do Brasil.

Em 44 anos de carreira, o “Cantor das Multidões” gravaria mais de 1.400 músicas, em quase 500 discos, superando Sílvio Caldas, Francisco Alves e qualquer outro que se aventurasse pelos microfones.

RÉQUIEM DE UM SAMBA – CRÔNICAS MUSICADAS

Réquiem de um samba

O homem está em seu último dia de vida, o fim se aproxima, o destino em suas mãos, olhar fixo no infinito. Desce do coletivo, ganha o calçadão. Um policial interpela dois negros embriagados.

– Que é isso, autoridade?! O senhor vai prender nóis pelo crime de se divertir pacificamente?

– É chegada a hora da nossa gente bronzeada mostrar o seu valor, seu doutor!

A discussão racial neste momento não o emociona. Está anestesiado demais para isso, certo de que porá fim à sua agonia, ainda naquela tarde. Não há por que lutar.

Dirige-se ao canto da praia, ali há um parque de diversões. Última tentativa, ainda que inconsciente, de reverter a decisão? Pouco provável. Já tentou a morte por outras vezes, está convicto. Conhece o momento.

Desta vez não haverá falhas. Na infância, trabalhou em farmácia, depois, a vivência odontológica, conhece os procedimentos. Ele próprio preparou o veneno que dará cabo da sua existência.

O pó da morte vem em um envelope de papel cuidadosamente acertado entre os cartões de visitas que traz na carteira. Falta-lhe apenas a via aquosa para dissolução e ingestão do princípio sufocante.

Ao aproximar-se do parque, um petardo é disparado em sua direção. A bola rebate a poucos passos de distância, espirrando-lhe areia nos olhos. Logo, surge um menino correndo.

– Ei, moço…

– Tio…

– Joga a bola pra cá.

O dono da bola, um gordinho mimado, corre mais atrás.

– Não deixa cair na rua…

– Eu ganhei no Natal…

– Meu pai falou que é igual à que vão usar na Copa…

– Se furar, ele me mata…

A bola respinga mais umas três vezes, passando da areia para a calçada. Rola lisa para o asfalto, exatamente quando passa um caminhão. O choro do menino não o comove. Sua infância, um miserê danado. De tão pobre, foi roubado por um benfeitor que o entregou a uma família rica.

– Como pode um menino perspicaz viver em ambiente tão pobre? – foram as palavras que ouviu do agenciador de menores.

A última vez que esteve com os pais e irmãos tinha seis e, desde então, sentiu-se muito só. Na nova casa servia de doméstico, até ser abandonado pela família de criação. E aquele gordinho choramingando a bola furada.

– Deste chorão o Noel não se esquece.

– Pois para mim, com certeza já morreu.

– Eu, que só pedia felicidade…

E com água nos olhos, relembra-se da filha, de quem foi separado meses após o nascimento. O adeus antes da primeira tentativa de suicídio, ao jogar-se do Corcovado. A sina da infelicidade também a perseguiria? Nem o amor paterno o destitui de sua missão.

Viver tornou-se insuportável. A vida atribulada o massacra. Na infância não era ninguém. Fugiu com o circo, desafiou o destino. Ofereceu-se uma outra vida, foi ser artista! Do circo passou a fazer dentaduras e a estudar pintura.

A consagração veio logo, suas dentaduras só faltavam falar. Seus traçados também sustentavam uns troquinhos, e estava morando no Rio de Janeiro, longe dos fantasmas do Norte.

Mas descobriu o samba e, com ele, aqueles amigos que já nem mais sabiam de sua existência.

– Maldito Orlando, maldita Aracy.

– Carmem, a maior de todas.

– Galhardo, também.

– Se vestiram de ouro e pedrarias, esquecendo-se de que o samba não precisa da proteção de ninguém.

– É cidadão brasileiro, livre e maior de idade.

Quantas estrelas dos áureos tempos do rádio não o procuraram? Uma carreira de bocas abertas esperando, e ele compondo versos para glória de terceiros, nas bancadas do consultório dentário.

Inventou a batucada para deixar de padecer, mas quanto amargor não guardou dos que estavam ricos às custas de sua sensibilidade? E ele esquecido, só. Sempre a solidão a acompanhá-lo a vida toda, como uma sombra à base de seus pés.

Pagava os drinques dos rapazes na boemia, estava sempre rodeado. Era um mão-aberta, tentando comprar o antídoto para a carência que o corroía por dentro. Mas, por mais que tivesse amigos, estava sempre só.

Quando deixou de ser sucesso, ninguém mais o gravou, então nada mais fez sentido. No parque de diversões pediu um copo de refresco.

– Guaraná, o mais nacional deles.

No patriótico líquido, dissolveu a mistura fatal. Afastou-se de todos e, sentado em um banco, na tranquila praia de Russell, assistiu ao entardecer.

Alguém que passava por perto ainda pôde ouvi-lo declamar.

– Felicidade afogada morreu…

– A esperança foi fundo e voltou…

– Foi ao fundo e voltou…

– Foi ao fundo e ficou… … …

Assis Valente fez sua última bobagem, não chegou a ver Pelé levar o Brasil ao seu primeiro campeonato mundial, era março de 1958.

BOLETIM DE OCORRÊNCIA – CRÔNICAS MUSICADAS

Boletim de ocorrência

Abri os olhos, o cenário continuava o mesmo. Há dias naquele leito, sem colocar os pés no chão e eles ainda doíam. Maldito ácido úrico que me ceifava as forças. Passei a mão sobre os pés. Eram duas batatas, dois pães inchados.

Pela manhã, recebi a visita de meu amigo, o escritor e poeta Aranha.

– Qual a graça, Aranha?

Provoquei-o, divertindo-me pela primeira vez em dias.

– Preciso de você, Maestro. Você tem que me socorrer. Só você, nesse país, pode se encarregar da missão que eu tenho que cumprir.

– Ora, Aranha, o que há de grave?

– Você tem que me ajudar, voltei da Europa com algumas ideias. Juntos, vamos curar o Brasil. Vamos educar o país. Vamos libertá-lo das forças do passado!

– Quanto entusiasmo para uma manhã! Pois vamos dar três vivas para o Brasil! Viva o Brasil! Viva! Viva o Brasil! Viva! Viva o Brasil! Viva!

Gargalhei.

– Muito me alegra fazê-lo rir, pois bem se vê o quanto deve aborrecer-se o dia inteiro deitado nesta cama. Mas é preciso levantar-se, Maestro! É chegada a hora de rompermos com as amarras e embarcarmos no Século XX, a Era da Eletro-Velocidade.

Cheio de energia, Aranha explicou-me seus planos. Juntos, partiríamos numa longa viagem à capital paulista. Minha função era organizar a parte musical para uma semana de eventos culturais.

Aranha tinha o espaço, os artistas, estava entusiasmado. Ele se juntara à uma trupe de intrépidos paulistas. Escultura, pintura, literatura e música, eis o que tinham a oferecer.

Não pude negar-lhe o favor. Eu o ajudaria a varrer para baixo do tapete o ranço de nosso passado colonial. Levantei-me e, capengando, aceitei a incumbência.

Organizei o repertório, recrutei os intérpretes e, em poucos dias, estávamos de malas prontas. Era fevereiro, e sair do calor do Rio de Janeiro talvez ajudasse na recuperação de meus queridos pés.

Abrindo as atividades, foi o próprio Aranha quem discursou, no palco de um teatro lotado.

– …para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores…

Pouco a pouco foi explicando uma nova estética para as artes.
– …se não são jogos da fantasia de artistas zombateiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida…

Com as obras expostas no saguão e com os discursos declamados no palco, os artistas renegavam tudo o que a aristocracia brasileira aprendera como ideal de belo.

Suas teorias punham fim ao parnasiano século XIX. Provocava a elite paulistana em seu maior templo, destruindo os valores estéticos da Europa Novecentista.

As vaias não poderiam ser piores. Da coxia, ouvíamos os maiores insultos. Aranha continuava provocando.

– …outros horrores vós esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do passado…

O público protestava, blasfemava, gemia! Nos bastidores, esperávamos por nossa vez.
– Meus pés ainda me matam, eu não vou conseguir.

Reclamei, em chinelos, pois os pés inchados não entravam nos sapatos. Um dos paulistas que assistia à cena defendeu-se.

– Pode ficar tranquilo Maestro, avançar sobre o palco do Municipal, cabeleira agitada, casaca e chinelos será um passo verdadeiramente modernista!

Acabei por me sentir à vontade entre aqueles guerrilheiros e aceitei o desafio. Invadi o palco – de chinelos, pois os sapatos não me cabiam – e lancei-me aos furiosos Senhores de Café e meia-dúzia de Industriais Piolhentos.

Gritos ululantes, apupos e assobios. A música prosseguia, eu firme na regência. Escarcéu de fúria, vaias prolongadas e latidos. Quase não terminamos a primeira noite.

No dia seguinte, estava nas primeiras páginas; – ASSOBIOS & GAITADAS EM S.PAULO – ; mais uma vez, um solícito paulista veio me socorrer.

– O que não ladra, não gane e não cacareja o aplaudiu com calor, Maestro.

Nem tudo eram flores. Nossa principal solista recusava-se a continuar, alguns músicos choravam e tínhamos mais duas apresentações pela frente.

As tropas inimigas cresceram. A divulgação do movimento só fez unir os grupos rivais. De minha parte, optei por divertir-me com a situação. Mas na última noite foi a gota d’ água.

Desde o começo do concerto um engraçadinho assobiava, acompanhando os temas e roubando as atenções. A última obra a ser executada era o meu Quarteto Simbólico.

Havia projeção de luzes e cenários, criando um ambiente de bosque místico com sombras fantásticas. Por trás de tudo, ocultava-se um coro feminino. Era uma peça de um ano atrás, acompanhada por flauta, sax, celesta e piano.

No segundo movimento, criava um ambiente elevado, cheio de sensações novas. Quando, na platéia, explode novamente o gaiato:

– Có-Có-Ri-Có-Có!

Sua imitação de galo zombava da ambientação que eu criara, colocando-a numa situação rural que fugia ao idílio programado. A plateia explodiu em risos, quebrando toda a concentração alcançada.

A coisa só sossegou quando a polícia interveio, prendendo o graçola. Terminada a apresentação, fiz questão de dar parte.

– Bote aí. Reclamante: Heitor Villa-Lobos. Profissão: Maestro. Idade: 35 anos.

Na delegacia fiquei sabendo que o maroto trazia latas recheadas de ovos e batatas, com as quais iria coroar os promotores da Semana de Arte Moderna.

O MUNDO EM CHAMAS – CRÔNICAS MUSICADAS

Mundo em chamas

Chovia forte. O barulho no telhado abafava os gritos de dona Divina quando deu a luz ao filho de seu Pascoal. O céu parecia raivoso e povo logo se pôs a falar.

– É maldição.
Mas foi uma benção, divina inspiração. Mãe Divina trouxe ao mundo um segundo filho albino. E assim os criou, como anjos. Cabelos compridos, vestindo chambre. O camisolão alvo, os cachos pendurados. Pareciam mesmo caídos do céu. E de tão parecidos, dona Divina tinha um medo.

– São tão lindinhos que é capaz de Deus chamar logo, só pra embelezar o lar.

Quando pensava nisso era a morte. Como sofria. Aí dela se perdesse os filhos. Era tanto o medo que quando soube da passagem do famoso cangaceiro teve uma certeza.

– Se os verem, levam…

Correu para o fogão, acendeu a brasa, queimou as panelas de barro. Com o preto da fuligem sujou os anjinhos. Descabelou-os, vestiu-lhes farrapos.

Feios como a necessidade, foram três dias escondidos no meio do mato, dormindo em lombo de jumento.

Seu Pascoal a convenceu de que se tratava apenas de boatos. Trouxe-os de volta para casa, para desgosto dos meninos que sonhavam encontrar o herói tão temido. Sim, para eles o vilão era um justiceiro. Repartia os lucros, em uma terra onde a maioria mal tinha para comer. Redistribuição social na marra, como deveria ser.

Mas não foi desta vez. A infância transcorreu pacata para os garotos que não roçavam com o pai. Albinos, não podiam com o sol naquela terra onde ele parecia arder ainda mais.

Medo mesmo passavam no Reisado, quando Matheus anunciava a saída do Boi:

– Passarinho verde do Lagamar, o zoinho dele me faz chorar…

– Passarinho verde do Lagamar, o zoinho dele me faz chorar…

E lá vinha o bichão, com sua cara preta, pondo todos a correr.

O mais novo demonstrou talento, um dom sobrenatural para a música. E assim foi aprendendo com as coisas que o cercava. Passava o dia todo brincando, sem arar, sem carpir.

Cresceu solto no mato, na companhia dos pássaros, dos sapos, ouvindo, ouvindo. Fazia os próprios instrumentos, rudimentares flautas de vareta de mamona. A bicharada cantava, ele acompanhava. Um dia a mãe alertou.

– Meu pai, o menino está trazendo tudo de casa para o quarto. Está cheio de ferro lá.

O avô, ferreiro de profissão, foi checar o acontecido.

– Que é isso meu filho? Quer tomar o lugar do avô?

– Deixa disso, vô! Eu tô é tocando um negocinho que tirei de minha cabeça.

E pegou todos aqueles ferrinhos juntados cuidadosamente ao longo dos dias. Fez seu número de percussão. O mais velho também tocava. Foram os dois animar festas, tocar em feira, ajudar com o pão que não podiam ganhar na enxada.

O caminhão encostou na calçada alta da Igreja de Lagoa da Canoa. A família Pascoal saltou toda. Era dia de Festa de Pau. Árvores enfeitadas, a feira corria solta, vendendo de tudo.

E dá-lhe bolo, e dá-lhe dança e dá-lhe cachaça. Na casa em que mais juntava gente, começava tudo de novo. Cada festeiro melhor que o outro. Os meninos corriam ouvir os músicos.

Naquele tempo, sem energia elétrica, sem rádio para aprender, só mesmo escutando a música que os mais velhos traziam das cidades maiores. Vez por outra aparecia um mascate com gramofone, e fazia fila para se tocar um disco.

A coisa era tão rápida que mal dava tempo para aprender. O povão gostava do Luiz, o Gonzaga. Os meninos pediam choro. Assim aprenderam uns pedacinhos, o resto saía no improviso mesmo.

– Se você não tocar essa música eu rasgo o teu fole com a peixeira, seu galego da peste! Os meninos atendiam ao cliente impaciente. A dupla agradava, mas o estranhamento vinha do menorzinho. O albino era chamado de “senhor”.

– Seu Pascoal, o seu filho, o Hermeto, o “senhor de Pascoal”, eu não sei. O “senhor” é doido. Ele faz umas coisas, ele está tocando uma música tão bonita, de repente ele faz uns negócios lá que a gente não entende, Pascoal!

– O Zé Neto toca mais simples, não entorta harmonia.

De tanto entortar harmonia, o “senhor de Pascoal”, o Hermeto, Hermeto Pascoal e seu irmão, Zé Neto, ganharam fama. Conheceram outro albino, Sivuca, e o mundo ardeu em chamas…

O PAI DA MOÇA – CRÔNICAS MUSICADAS

O pai da moça

O garoto assistia ao trabalho do pai. Mas, naquele dia, nada do que o velho dissesse entraria em sua cabeça dura de sertanejo.

– Veja, meu filho. As teclas, qualquer um aperta.

O pai mostrava o acordeão que estava para ser fechado. O menino ia longe.

– A alma do instrumento está aqui. É no molejo que está o segredo.

O olhar parado.

– Todo bom tocador tem é que saber é do molejo.

Fixo no infinito.

– Tá me entendendo, meu filho?

O menino voava, sonhando com o seu plano de vingança.

Januário, o pai, era exímio acertador de sanfona. Os instrumentos vinham de longe à procura de suas mãos habilidosas. Mas o filho não o escutava.

É bem verdade que muito aprendera com o pai, reconhecido talento em todas aquelas paragens do Araripe. Fora ele também quem defendera o gosto do menino pelo instrumento, enquanto a mãe, temerosa, receava pelo filho, se perderia pelo sertão em busca de festas, coisas da profissão.

Mas, naquele momento, apenas as palavras do “futuro falecido ex-sogro” ecoavam em sua mente juvenil.

– Um diabo que não trabalha, não tem roça, não tem nada, só puxando aquele fole, como é que quer se casar?

Raimundo Delgado, este era o pai de Nazinha. Latifundiário, coronel.

– Mas saiba ele que com o que eu ganho tocando já deu pra comprar o instrumento. Retrucou, rangeu os dentes, com raiva.

As palavras de Raimundo continuavam.

– É isso, mora na terra dos Aires e pensa que é Alencar.

O pai da moça, um importante da cidade, era ligado ao clã dos Saraivas, família rival da do Coronel Manuel Aires de Alencar, a quem Januário servia prontamente. Um verdadeiro “Romeu e Julieta” do agreste. “Montéquios e Capuletos” do sertão.
– Os Aires podendo tirar o couro daquele negro. Dão liberdade e agora ele quer moça branca para casar.

Januário e família não tinham grandes posses. Foram as filhas do bondoso coronel que ensinaram o menino a ler, escrever, falar e comer com modos e boas maneiras. O menino já era mesmo escoteiro, e comprara o próprio instrumento de trabalho, uma sanfona, em parte paga por Aires.

Aquelas últimas palavras foram a gota d’água. Não escutava mais nada. Ferido na vaidade, por assim dizer, resolveu tirar satisfação do acontecido. Ouvir falar pelos outros era uma coisa, ouvir falar da boca de Raimundo era outra.

Enquanto o pai continuava o trabalho de restauro, o menino saiu do barracão. Passando pela cozinha, apropriou-se da peixeira e partiu. Era domingo, dia de feira na localidade de Exu. Sabia muito bem onde encontrar o pai da moça. Antes, parou num bar.

– Cachaça.

O balconista serviu.
O primeiro copo foi logo embora, todo no primeiro gole.

– Outra.

– Tá criando coragem pra quê, meu filho?

Perguntou o “turco”.

– Vou acertar contas. Hoje, corre sangue.

No auge da mocidade, o garoto estava tomado pela valentia. Honraria o nome dos Aires, sentia-se um deles. Quando ganhou as ruas, a notícia já circulava pelo mercado.

– Tocadorzinho de merda. Dou-lhe uma surra na frente de todos, ou abro-lhe o bucho logo de uma vez?

Resmungava o pai da moça.

Uma multidão aglomerava-se, esperando pelo desfecho. O molecote de Januário enfrentaria Raimundo Delgado. Promessa de morte ao fim. Aconselhado pela assistência local, o prevenido coronel, que não estava a fim de encrenca por causa de um frangote valente.

Desconversou, deu o dito pelo não dito. Sem argumentos, o rapaz não teve por onde. Guardou o facão na cinta, e saiu cantando de galo, com a crista em pé.

– Agora, só me resta recuperar a honra de cabra macho.

O pai da moça foi queixar-se com a mãe do menino.

– Olhe, Dona Santana, eu só não matei seu filho ali mesmo, na frente de todos, em consideração ao amor de mãe que sei que toda senhora devota em Cristo, como a senhora, tem.

– Penso na dor que “mãinha” teria se ele partisse…

– E, a modo de preservar minha amizade com Januário, vosso esposo, gente de meu estimado compadre Aires, é que deixei o menino viver. Mas peço à senhora dar mais atenção na criação do rapaz, é preciso dar educação para as crianças. Não se pode deixar a cria solta, vivendo como animal no pasto, Dona Santana.

Foi o pior castigo que Dona Santana poderia receber. Humilhada, ofendida, e na porta de seu lar, não havia vergonha maior. Buscou o garrote aos safanões. Aplicou-lhe um corretivo digno do próprio termo.

Dona Santana só parou quando lhe findaram as forças e o braço já não obedecia à ira que lhe cegava as vistas. Era o fim do menino, apanhar da mãe, aos 17 anos. Vexado, sem conseguir encarar a cidade novamente, vendeu o instrumento, fugiu para a capital. Alistou-se no exército, correu mundo.

Foi graças ao pai da moça que o jovem soldado, Luiz Gonzaga do Nascimento, aportou no Rio de Getúlio. Descoberto pelo rádio, tornou-se o “Rei dos Forrós”, ensinando a todo o Brasil como se dança o baião.

MESTRE COM AS MÃOS – CRÔNICAS MUSICADAS

CRÔNICAS MUSICADAS

 

“Crônicas Musicadas” foi o nome da minha coluna assinada no site do Gafieiras (www.gafieiras.com.br). O Gafieiras publica histórias da música brasileira por meio de entrevistas, colunas, notícias e projetos especiais.

A minha proposta era contar uma história, baseada num momento chave da vida de um personagem da nossa música, com uma série de referências sobre a obra e a vida, e somente no último parágrafo era revelada a sua identidade.

Ao todo, foram 8 celebridades, que passo a publicá-las no blog. Vamos ver quem descobre antes do fim?

Mestre com as mãos

O papagaio planava no ar, movimentos audaciosos afrontavam adversários. Era o senhor dos céus. Quando ganhava linha, ninguém desafiava. Bastava verem as cores do papel de seda, que os outros meninos recolhiam seus artefatos voadores.

-Xi, o Bexiguinha de novo. Recolhe que é ele.

-É não. O dele não é o azul e branco?

-Esse verde e rosa é dele também. Recolhe que eu tô falando.

E lá ia o desavisado implorar de volta a pipa furtada pelo pirata dos ares.

O ladrão de pipas, que de bobo não tinha nada, já deixava os seus mais de dez irmãos avisados.

-Diz que eu não tô.

E assim o céu de Piedade, subúrbio do Rio, ia minguando de cores. Naquela imensidão azul, espaço apenas para uma estrela brilhar. O filho de Alfredo Rocha Vianna.

Grande para a sua idade, tinha um jeitão desengonçado. Coisa de quem ainda não se entendeu com o novo corpo, já anunciando o homenzarão que estava por vir.

De calças curtas, ralava joelhos nos campinhos de várzea. Mas, não nascera para isso. Perna-de-pau nos campos, temido nos ares. Dedos ágeis, imbatível nas bolas de gude.

Na bolinha ninguém o vencia, mas quando o assunto deixava de tocar as mãos e passava a tocar os pés, ai que desastre. Entre os amigos, moleques do bairro, era sempre o Bexiguinha, com seu rosto marcado pelas chagas da varíola contraída na primeira infância.

-Vamos chamar o Bexiguinha.

Amadeu, Mário Boi e Pedro Linguiça bateram a porta.

-Oi Dona Raimunda, o seu filho está?

-Do João, tá o Eugênio e o Oldemar. Do Alfredo, tá o Leo e o Alfredinho. O resto tudo tá fora. Uns estudando, outros trabalhando pra modo dos outros continuá estudando. Só o Oscar que Deus já chamo…

Os meninos nem esperaram o final do discurso de D. Raimunda, e já atravessavam os salões da mansão dos Viannas.

-Vamos rapaz, já vai começar. Desce essa pipa, hoje é o contra da turma da Alfredo Reis com a da Gomes Cerpa. Vambora, homi.

Gritou o Linguiça, pisando no quintal.

-Não vou, não gosto de futebol. E preciso dormir um pouco, a noite tem espetáculo.

-Ih, o cara tá metido. Começou a ganhar dinheiro, não quer mais saber de se divertir. Tá virando mocinho.

Ironizou o Mário Boi.

-Ainda mais depois que passou o carnaval com a Sociedade Dançante e Carnavalesca Filhas da Jardineira, no meio daquelas mulheres todas.

Todos riram da graça solta pelo Amadeu. Os meninos, com aquela urgência da juventude, partiram para o desafio inter-turmas-de-rua enquanto o jovem talento musical sonhava acordes maiores, bemóis e sustenidos, no bailado que seu papagaio executava na tablatura musical do céu carioca.

Naquele dia, uma outra visita procuraria o menino. Em sua porta bateu um representante do Teatro Rio Branco.

-É aqui que mora o sr. Pixinguinha?

As irmãs olharam assustadas. Bateram a porta.

-Vó, vó, tem um homem aqui!

-E diz que quer falar com o sr. Pixinguinha.

-Ai meu deus, o que será que o Pixindim aprontou?

E lá foi a velha atender a porta.

-O sr Pixinguinha?

Insistiu o funcionário do Teatro.

-É… tem um sr. Pixinguinha soltando papagaio.

-Eu queria falar com ele – emendou o Homem.

Bateram-lhe a porta, novamente.

-Ai meu Deus, a coisa é séria – preocupou-se a vó.

A histeria tomou conta das mulheres. As irmãs corriam pela sala, eufóricas. O rapaz seria castigado, para deleite do sadismo juvenil.

Trouxeram o menino às bordoadas, trancos e safanões.

-Eu não fiz nada! Eu juro! Eu não fiz nada.

Defendia-se o garoto, com a orelha ardendo.

-É o que vamos ver.

Abriram a porta, colocando frente a frente acusado e delator.

O homem do Rio Branco, muito formal, apresentou-se dizendo:

-Eu trago aqui um pedido para que o sr. compareça lá no Teatro Rio Branco, pois foi indicado para tocar flauta.

-Eu? Tocar flauta na Orquestra do Teatro Rio Branco? Eu não vou!

Respondeu, assustado.

As irmãs não se contiveram.

-Vai, vai, você tem que ir! Deixa de ser tolo!

A excitação era total. Da sova esperada para a consagração máxima. O primeiro trabalho profissional, com contrato e tudo. Bem melhor que as apresentações nos prostíbulos da Lapa. E o idiota dizia não.

De tanto insistirem, o garoto, ainda atordoado pela proposta inesperada, mudou de ideia.

-Sim senhor, então eu vou.

O resto da história já sabemos; Pixinguinha foi aprovado logo no primeiro ensaio. Tocando com a orquestra, fez improvisos sem ao menos preocupar-se com a partitura. Ganhou calças compridas e transformou-se num dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos.