Recortes Modernos – I Ato

recortes modernos capa

OS VENTOS DA EUROPA

As características básicas do Modernismo; o ambiente europeu do início do século XX; o Manifesto Futurista de Marinetti; a oposição das novas correntes contra o formalismo acadêmico clássico; e a formação artística de Anita Malfatti em terras estrangeiras.

marinetti

Mário de Andrade:

“Ó Mestres do Passado, eu vos saúdo! Venho depor a minha coroa de gratidões e de entusiasmo sobre a tumba onde dormis o sono merecido! Sim: sobre a vossa tumba, porque vós todos estais mortos!”

Paulo Prado:

“Nunca, desde a Idade Média, se viu tão esplendida manifestação coletiva. Um vento másculo de revolta e renovação sacode e abala o antigo arcabouço das civilizações clássicas. A regra será abusar da liberdade, mesmo para errar. Ainda é o melhor meio para atingir o fim desejado.”

Mário de Andrade:

“Malditos para sempre os Mestres do Passado! Tolos e malditos! Cuspimos sobre vós da nossa maldição e as risadas da nossa cólera, o despeito divino das nossas impaciências.”

Assis Chateaubriand:

A arte moderna consiste em violentar a moral das linhas e da ótica dos contemporâneos. Todo o século XIX é para ela um século de abulia e de estupidez.”

Klaxon:

Romantismo, Torre de Marfim, Simbolismo. Em seguida o fogo de artifício internacional de 1914. Há perto de 130 anos que a humanidade está fazendo manha. A revolta é justíssima. Queremos construir com alegria.

Oswald de Andrade:

“Ver-se-á como aqui também se pronunciou o caos do novo mundo. Quando começou? Com o manifesto futurista de Marinetti, que afirmava ser a guerra a única higiene do mundo?”

Mário de Andrade:

“É muito mais exato imaginar que o estado de Guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de Guerra, eminentemente destruidor. E as modas que revestiram este espírito foram, de início, diretamentes importadas da Europa.”

Menotti del Picchia:

“A vida século XX, com fábricas e bolchevismo, com o sangue ainda quente derramado pelo holocausto da grande guerra, pede outra técnica para a sua representação, outra expressão verbal para a sua extrinsecação artística.”

Sérgio Milliet:

“Ford já fabricara seu primeiro auto; Garros atravessara o Mediterrâneo. Descobrira-se o dirigível com Santos Dumont; Pasteur terminara as suas pesquisas sobre a microbiologia; a radiotelegrafia era um fato, mas o Poeta (com um P maiúsculo) continuava a rimar amor com flor e dor com bolor.”

Menotti del Picchia:

“O parnasianismo – hoje abolido pela nova poesia deu como resultado uma arte sem nervos, uma arte periférica, externa, pomposa, fria.”

Mário de Andrade:

“Futurismo! Futurista! Que vem a ser isto, que vem a ser aquilo? Não sabemos e acreditamos que os leitores também não saibam. Para nós, os leigos, o futurismo é tudo quanto é extravagante e futurista todo indivíduo que, escrevendo, pintando, esculpindo e compondo pratica a extravagâncias.”

Marinetti:

Vamos, meus amigos! Disse eu. Partamos! Enfim a Mitologia e o Ideal místico estão ultrapassados. Vamos assistir ao nascimento do Centauro e veremos logo voarem os primeiros Anjos! É preciso abalar as portas da vida para nela experimentar os gonzos e os ferrolhos! Partamos!”

Mário de Andrade:

“Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra em liberdade.”

Marinetti:

“Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo.”

Mário de Andrade:

“Escrever arte moderna não significa representar a vida atual no que tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Se estas palavras frequentam-me o livro não é porque pense com elas escrever moderno, mas sendo meu livro moderno, elas têm nele a sua razão de ser.”

TODOS:

“Aí, Marinetti

Se eu fora como tu

Farias conferências

Montado num bambu.

Maria, Maria

Maria, Marinetti

Teu pai come feijão.

Tua mãe come espaguete.”

Mário de Andrade:

“A verdade é que o futurismo está agitando as cabeças. Na Europa, esta ele a invadir tudo, os jornais, as revistas, as livrarias, os magazines de moda, os salões chics. Já há edificios futuristas em Paris, já há molhos futuristas nos restaurantes parisienses. Avança. Empolga.”

Menotti del Picchia:

“O que é o futurismo? Aí está um nome pavoroso, que arrepia a pele ao conservador pacífico. Bolchevismo estético, agressivo e iconoclasta.”

Mário de Andrade:

“Os únicos futuristas que a humanidade apresenta são os gênios. E assim mesmo não os gênios em geral, mas os reformadores, os revolucionários.”

Anita Malfatti:

“Quando cheguei à Europa, vi pela primeira vez a pintura. Quando visitei os museus fiquei tonta. Desenhei seis meses dia e noite. Um belo dia fui com uma colega ver uma grande exposição de pintura moderna. Eram quadros grandes. Havia emprego de quilos de tinta e de todas as cores. Um jogo formidável. Uma confusão, um arrebatamento. O artista não havia tomado tempo para misturar as cores, o que para mim foi uma revelação e minha primeira descoberta. ”

Monteiro Lobato:

“Já em Paris se fez uma curiosa experiência: ataram uma brocha na cauda de um burro e puseram-no de traseiro voltado para uma tela. Com os movimentos da cauda do animal a brocha ia borrando a tela. A coisa fantasmagórica resultante foi exposta como um supremo arrojo da escola cubista, e proclamada pelos mistificadores como verdadeira obra-prima. ”

Anita Malfatti:

“Fiz uma viagem para o sul de Alemanha para ver a Ia grande exposição dos post-impressionistas, Pissaro, Monet, Sisley, Picasso, o Douanier Rousseau, Gauguin e Van Gogh. Vi também Cézanne e Renoir.”

Mário de Andrade:

“A transformação do mundo com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios, com a prática europeia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e outras causas impunham a criação de um espírito novo.”

TODOS:

E há Cidades ao longe, no crepúsculo

E estradas que lá vão, serenas e infinitas

Levando, no rolar, toda a palpitação

Do sonho construtor da Civilização.”

Paulo Prado:

“O mundo já está cansado das fórmulas do passado; em toda parte, em todos os terrenos ¨na estética da rua, no anúncio, nos reclames, nos jornais ilustrados, nas gravuras, na mobília, na moda – com uma alegria iconoclasta e juvenil se quebram os antigos moldes e desaparecem as velhas regras, pesadas como grilhões.”

Marinetti:

“Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.”

Anita Malfatti:

“Uma colega me contou em surdina que havia um professor moderno, um grande filósofo incompreendido e que deixava os outros pintar à vontade. Na mesma tarde procuramos o professor. Era a poesia plástica da vida. Transpunha a cor do céu, para poder descobrir a cor diferente da terra. Transpunha tudo! Que alegria! Encontrava e descobria os planos com formas e cores novas, nas pessoas e nas paisagens. Era a festa da forma e era a festa da cor.”

Monteiro Lobato:

“Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passaram de outros tantos ramos da arte caricatura!. Caricatura da cor, caricatura da forma, Ðcaricatura que não visa, como a arte primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador.”

Menotti del Picchia:

“O futurismo, esse apocalíptico grito de guerra contra a rotina, não é tão feio como se pinta. Às vezes – como na sua concepção inicial – é o arremesso rebelado das hordas avanguardistas contra a râncida velharia.”

Marinetti:

“Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta.”

Ronald Carvalho:

“A arte é uma inspiração à liberdade. Cada um de nós é um instrumento por onde passa a corrente da vida. Não queremos regras nem admitimos preconceitos.”

Anita Malfatti:

“Pintávamos na ventania, ao sol, na chuvarada e na neblina. Eram telas e telas. Era a tormenta, era o farol, eram as casinhas dos pescadores escorregando pelos morros, eram as paisagens circulares, o sol e a lua e o mar.”

Menotti del Picchia:

“Serenado o surto, aberta a brecha, o futurismo se define como corrente inovadora, bela e forte, atual e audaciosa, desfraldando uma bandeira que drapeja ao sopro do ideal libertário em arte.”

Fanfulla:

“Jovens amigos, ousai! A arte é como a mulher: vence-se mais com a audácia do que com outros meios! Crede: é uma mulher quem o diz.”

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