O CAMINHO DO AÇO (2004)

O CAMINHO DO AÇO (2004)

O Caminho do aço é um documentário que conta a história da siderurgia no Brasil. Para entender esta história tive que fazer o curso “siderurgia para não siderurgistas” promovido pela Associação Brasileira de Metais.

Além da parte técnica sobre como se produz o aço, também fui buscar a presença do aço na história do Brasil. O roteiro é construído unindo a evolução das formas de fazer o aço à evolução política e econômica brasileira.

Uma rápida abertura contextualiza o uso do ferro nos primórdios da humanidade. A Idade do Ferro começa 3.500 anos atrás. Dominar a técnica de manipular o metal significava o sucesso de uma civilização sobre outra que não a dominasse.

Partindo deste preceito, dominar o ferro e posteriormente o aço torna-se um elemento fundamental para a solidificação do Brasil como uma nação independente. E é esta a história que o documentário investiga.

O descobridor português, ao chegar à costa brasileira, encontra índios ainda na idade da pedra. Nossos primitivos habitantes não dominam o trabalho de metais, para decepção do conquistador.

O primeiro documento histórico utilizado pelo programa é uma carta do Padre Anchieta que, cheio de esperança, acredita que logo os portugueses encontrarão metais no interior do continente e com isso os recursos para catequisar os índios.

Afonso Sardinha parte em busca desses metais e na região de Araçoiaba cria a primeira forja catalã, em 1587. Nos séculos seguintes, pequenas forjas se espalham pelo território brasileiro, fabricando os apetrechos como machados e enxadas necessárias para a colonização.

Por esse processo, minério de ferro e carvão vegetal são aquecidos numa espécie de churrasqueira. O calor faz com que o carbono do carvão se funda ao ferro, produzindo a liga chamada ferro-gusa, uma liga de ferro-carbono com 4,5% de carbono.

O aço trata-se do mesmo material, mas o teor de carbono não pode ultrapassar 2% para que mantenha suas propriedades de maleabilidade e resistência.

O próximo documento-chave na evolução da siderurgia brasileira foi o edital de D. Maria, de 1785, proibindo a existência de fábricas em toda a colônia. Portugal não queria ver o desenvolvimento autônomo do Brasil, que deveria manter-se dependente da Metrópole.

D. João, ao assumir o trono, revoga a proibição de sua mãe, mas o desenvolvimento de uma verdadeira siderurgia nacional só viria mais tarde. Em 1808 a corte portuguesa, ameaçada pela invasão napoleônica, é obrigada a deixar Portugal e se fixar na colônia. Agora sede do Reino, é preciso desenvolver o Brasil.

Em 1811, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, localizada próxima aos primeiros fornos de Afonso Sardinha, torna-se o primeiro complexo siderúrgico no Brasil. D. João traz técnicos da Europa e monta ali os primeiros altos-fornos, um avanço tecnológico considerável sobre as antigas forjas catalãs.

Uma carta de Barão de Mauá é o próximo documento escolhido para ilustrar o programa. Mauá viaja à Inglaterra em 1840 e fica maravilhado com a revolução industrial, o uso do ferro e do vapor. Em seus escritos fala do sonho de implementar um parque similar no Brasil, mas as nossas elites enxergam o país como um exportador agrário e Mauá fracassa.

Até o inicio do século XX não há grandes avanços na fabricação do ferro e do aço no país. Empresas de capital estrangeiro atuam no Brasil no intuito de exportar o minério de ferro enquanto o país importa o metal já manufaturado. A Crise de 1929 derruba a economia do café, mostrando a necessidade urgente do Brasil deixar de ser agroexportador.

Na luta por um projeto de nação, Monteiro Lobato clama pela instalação de uma indústria siderúrgica 100% nacional. É dele um artigo no jornal O Estado de São Paulo escolhido para ilustrar o momento crucial por qual passávamos.

O grande passo no sentido de termos uma siderurgia brasileira vem na Era Vargas. Com o inicio da Segunda Guerra, Getúlio toma uma posição ambígua, aproximando-se da Alemanha. Interessado no apoio brasileiro e no uso da base de Natal, o presidente americano firma acordo com Vargas, liberando os recursos para criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda.

É um novo avanço tecnológico, agora utilizando o carvão mineral no lugar do carvão vegetal em seus altos-fornos, mas que ainda não atende a todas as necessidades de consumo de um país que cresce e se urbaniza.

O programa então busca as memórias de Juscelino Kubitscheck, onde o presidente fala da autonomia da indústria siderúrgica nacional. Sua maior obra, Brasília, ainda é construída usando material importado. Em seu governo surgem a Usiminas e a Cosipa, além da ampliação da CSN.

Durante o período da Ditadura Militar, no milagre econômico dos anos 70, acontece a atualização tecnológica do parque siderúrgico brasileiro, com a instalação de modernos equipamentos, como os conversores LD e o lingotamento contínuo.

Com a recessão pós-milagre a indústria siderúrgica sofre com o crescente endividamento das empresas do setor, que são obrigadas a manter preços tabelados numa tentativa do governo em frear a inflação. Em greve, a CSN é ocupada por 800 homens e tanques do exército, com um saldo de três metalúrgicos mortos e quarenta feridos.

No período Collor-FHC acontece a privatização do setor, cercada de polêmicas, em leilões tumultuados, com agressões aos investidores por parte da militância contrária. O documentário encerra com o discurso otimista de crescimento da então Ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff e a fala do Presidente Lula elogiando os esforços de Vargas, o entusiasmo de JK e a visão de longo prazo dos militares.

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Recortes Modernos – III Ato

recortes modernos capa

O PERÍODO HERÓICO

A fermentação das idéias modernistas em um grupo de jovens (Oswald e Mário de Andrade, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Menotti del Picchia…) que se une entre os anos de 1918 e 1921.

 brecheret

Mário de Andrade:

“O real movimento de modernização das artes brasileiras partiu do caso de se encontrarem um dia em São Paulo 7 ou 8 artistas paranoicos e mistificadores.”

Oswald de Andrade:

“Somos um perdido tropel em território irregular e hostil. Falo em nome de meia dúzia de artistas moços de São Paulo e daí o meu cálido orgulho incontido.”

Mário de Andrade:

“O Brasil não é para tais artistas assunto literário escolhido entre mil. É preocupação imperiosa. A realidade brasileira é trabalho consciente. Muito nos ajudará a obra dos historiadores, dos folcloristas, dos regionalistas, dos sociólogos. Não nos deve preocupar a opinião dessa gente séria possa ter de nós. Somos naturalmente para eles: loucos, pândegos e talvez mesmo cabotinos.”

Oswald de Andrade:

“São Paulo é já a cidade que pede romancistas e poetas, que impõe pasmosos problemas humanos e agita, no seu tumulto discreto, egoísta e inteligente, as profundas revoluções criadoras de imortalidade.”

Menotti del Picchia:

“São Paulo de hoje é um Paris, um Nova Iorque menos intenso, um Milão mais vasto. É uma formidável e gloriosa cidade ultramodema.”

Mário de Andrade:

“E, socialmente falando, o modernismo só podia mesmo ser importado por São Paulo. O Rio era muito mais internacional, com norma de vida exterior, porto de mar e capital do país. São Paulo era espiritualmente muito mais moderna porém. Fruto da economia do café e do industrialismo, São Paulo estava ao mesmo tempo em contato mais espiritual e mais técnico com a atualidade do mundo.”

Menotti del Picchia:

“Aos nossos olhos riscados pela velocidade dos bondes elétricos e dos aviões, choca a visão das múmias eternizadas pela arte dos embalsamadores. Cultivar o helenismo como força dinâmica de uma poética do século é colocar o corpo seco de um Ramsés a governar uma república democrática, onde há fraudes eleitorais e greves anarquistas.”

Oswald de Andrade:

“E com a mudança diária e formidável da própria graça fisionômica, a metrópole incontida, absorvente, diluviana de gente nova, de gente ávida, de gente viva, pensa outras ideias, escuta outros carrilhões, procura novos ritmos, perscruta e requer horizontes futuros.”

Mário de Andrade:

“É muito sabido já que um grupo de moços brasileiros pretendeu tirar o Brasil da pasmaceira artística em que vivia, colocando a consciência nacional no presente do universo. ”

Oswald de Andrade:

“A juventude extravasante nas escolas, nas calçadas, nos jardins citadinos está reclamando pelos cem poros ativos de sua sensibilidade, uma arte à altura da sua efusiva aspiração vital e de compasso com o senso profundo da sua responsabilidade americana. Essa arte existe.”

Mário de Andrade:

“Onde haja no território da pátria uma porção de raparigas lindas e de rapazes orgulhosos há latente, pulsando, um desejo de consagrar o sangue se preciso for para o engrandecimento e glorificação este Brasil bem-querido que merece e terá todo o nosso ardor e a nossa vida!”

Menotti del Picchia:

“Dar à prosa e ao verso o que ainda lhes falta entre nós: ossos, músculos, nervos. Queremos escrever com sangue – que é humanidade; com eletricidade – que é movimento, expressão dinâmica do século; com violência – que é energia bandeirante. Assim nascerá uma arte genuinamente brasileira, filha do céu e da terra, do Homem e do mistério.”

Mário de Andrade:

“Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional.”

Sérgio Milliet:

“O poeta moderno vive de verdade. Às vezes, tem automóvel. Faz negócios quando pode. Há tanta poesia na Bolsa do café! Os trens, os autos, os vapores, as máquinas, são assuntos essencialmente poéticos.”

Oswald de Andrade:

“A questão paulista é uma questão futurista. Nunca nenhuma aglomeração humana esteve tão fatalizada a futurismos de atividade, de indústria, de história e de arte como a aglomeração paulista, povo de mil origens.”

Ronald Carvalho:

“O italiano, o alemão, o eslavo e o saxão trouxeram a máquina para a nossa economia. A vida tomou-se mais ativa, mais vertiginosa, mais cosmopolita, menos conservadora, enfim.”

Menotti del Picchia:

“Esse entrechocar de ambições, de gostos, de vontades, de raças oriundas dos quatro pontos cardeais, se refletem em todas as manifestações da vitalidade citadina, nos seus tipos de rua, na sua arquitetura, nas coisas expostas ao comércio, nas línguas que se falam pelas calçadas.”

Oswald de Andrade:

“Estamos no Trianon, devassando a cidade panorâmica no recorte desassombrado das suas ruas de fábricas e dos seus conjuntos de palácios americanos. É a cidade que, na ambição improvisada das suas feiras e na vitória dos seus mercados, ulula uma desconhecida harmonia de violências humanas, de ascensões e desastres, de lutas, ódios e amores.”

Menotti del Picchia:

“E a agitação da grande cidade, da grande feira, começou a ensanguentar as crônicas policiais. A fome do ouro, monstruosa tentou abalar a ética~ a luta agrícola, comercial, industrial, calafriou os nervos dos nossos artistas, latejando agora nos seus livros, como pegadas tangíveis da tragédia urbana atual.”

Mário de Andrade:

“Nós só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um contingente original e nacional de cultura. O Modernismo brasileiro está ajudando a conquista desse dia. E muito, juro para você.”

Tristão de Atayde:

“Juca Mulato é a reconciliação do homem consigo mesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seu isolamento, livro, que já encerra uma lição fecunda, uma comoção superior, é certamente o pregoeiro de outros surtos.”

Mário de Andrade:

“Ninguém pode se libertar duma vez só das teorias-avós que bebeu; e o autor deste livro seria hipócrita se pretendesse representar orientação moderna que ainda não compreende bem.”

Oswald de Andrade:

“Bendito esse futurismo paulista, que surge companheiro de jornada dos que aqui gastam os nervos e o coração na luta brutal, na luta americana, bandeirantemente!”

Mário de Andrade:

Tenho horror inato às escolas e abomino aqueles que se imaginam condutores de artistas.”

Mário Brito:

“Oswald de Andrade era repórter, entusiasmado pelo discurso quis publicá-Io, e para conseguir as laudas originais de Mário, brigou a tapa. No dia seguinte, publicava o discurso de Mário de Morais Andrade, que se tomou, então, amigo.”

Ronald Carvalho:

“Se o sr. Mário de Andrade, através de todos os excessos desejados e passageiros de sua cruzada combativa, procura uma expressão poética nova da civilização brasileira do século XX. O sr. Osvald de Andrade penetra a realidade social de hoje.”

Mário de Andrade:

“Alto lá! Cada qual berre por sua vez; e quem tiver o argumento mais forte, guarde-o para o fim! Liberdade. Uso dela; não abuso. Tanto não abuso! não pretendo obrigar ninguém a seguir-me. Costumo andar sozinho.”

Oswald de Andrade:

“Mário de Andrade publicou então as suas primeiras poesias. Conhecedor da terra e da língua, dos ritmos regulares e dos novos efeitos, criou a poesia livre, desconhecida do Brasil. ”

Ronald Carvalho:

“Nada de supérfluo. A palavra tomada em seu valor exato e incisivo. A realidade, tema e episódios, possuída em bloco no espírito e procurando realizar-se sem artifício, com o máximo efeito na maior simplicidade.”

Oswald de Andrade:

“Uma estuante geração paulista quebra nas mãos a arapuca de taquara dos versos medidos.”

Mário de Andrade:

“Nossos sentidos são frágeis. A percepção das coisas exteriores é fraca, prejudicada por mil véus, provenientes das nossas taras físicas e morais: doenças, preconceitos, indisposições, antipatias, hereditariedade, circunstâncias de tempo, de lugar.”

Menotti del Picchia:

“Não só os vocábulos caem, chochos e secos, da árvore do vocabulário. Com as transmutações da ética e com as investigações do gênio industrial humano os sentimentos mudam, alguns surgem novos, outros desaparecem.”

Mário de Andrade:

“Em família o clima era torvo. Si Mãe eirmãos não se amolavam com as minhas loucuras, o resto da família me retalhava sem piedade. Eu tinha discussões brutais, em que os desaforos mútuos não raro chegavam àquele ponto de arrebentação. A briga era braba.”

Ronald Carvalho:

“Mário de Andrade é um homem do seu tempo e de sua raça, um homem tentado pelo demônio da realidade transcendente. Não são propriamente os elementos acessórios da atualidade – o automóvel, o aeroplano, a fábrica, as multidões desvairadas – que imprimem à sua poesia o caráter de modernidade que a distingue. Suas imagens são despojadas, geralmente, de qualquer artificialismo. São concretas, cruas e definidas. Ele reduz o espetáculo universal a esquemas audaciosos, e gira no tumulto de um realismo bárbaro magnífico.”

Mário de Andrade:

“Eu passara 1920 sem fazer poesia. Na minha leitura desarvorada, já conhecia até alguns futuristas de última hora. Concebi imediatamente fazer um livro de poesias modernas, em verso-livre, sobre a minha cidade. Não sei o que me deu. Fui até a escrivaninha, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara Paulicéia Desvairada. O estouro chegara afinal, depois de quase ano de angústias interrogativas.”

Tristão de Athayde:

“Longe de ser mero futurismo de imitação, como se espalha, é Paulicéia Desvairada um livro que procura o que há de novo nesta civilização americana que tentamos, o significado literário de cem anos de independência.”

Menotti del Picchia:

“São Paulo de hoje, chegou a tal fastígio econômico que começa a dedicar seus ócios de enriquecido às produções de arte. Esse fenômeno – inédito ainda para a nossa vida de nacionalidade recente – é agradável de se constatar. Registra um duplo progresso: financeiro e cultural.”

Oswald de Andrade:

“Mas o ponto culminante da vitoriosa Guerra que os novos paulistas vêm fazendo contra os academismos produziu-se com Victor Brecheret que aí esteve jogado muitos meses num recanto do Palácio das Indústrias.”

Mário de Andrade:

“O movimento modernista tem, nos seus primórdios, dois fulcros. Um é Anita Malfatti. Outro é, agora, Victor Brecheret. Em tomo deles gira os vanguardistas de primeira hora.”

Menotti del Picchia:

“Certa vez, quando levam Monteiro Lobato para ver as suas esculturas, não suporta que o contista largue o chapéu sobre uma das estátuas. Retira-o com maus modos e joga-o acintosamente no chão.”

Victor Brecheret:

“Meus parentes não acreditavam mais em mim e, muito menos, em minhas esculturas. Fiquei um estrangeiro em minha própria terra, sem amigos, sem ninguém.”

Menotti del Picchia:

“Não se queixava o artista resignado: trabalhava, trabalhava. Esculpia, arrancava à greda carnosa figuras gigantes, gênios de olhos parados e músculos de aço, ídolos de ouro, misteriosos, esfingéticos Cristos pálidos, vitórias aladas.”

Mário de Andrade:

“Menotti deI Pie chia e Osvaldo de Andrade descobriram o escultor Vitor Brecheret, que modorrava em São Paulo numa espécie de exílio, um quarto que lhe tinham dado grátis, no Palácio das Indústrias, pra guardar os seus calungas.”

Menotti del Picchia:

“Só o grande Ramos de Azevedo o cobria com a sua proteção amiga e o seu entusiasmo de artista, o resto, ao ver-lhe as estátuas, essas torturas humanas, vazadas em barro, esses gritos de alma eternizados em pedra, escamecia-o.”

Mário de Andrade:

“Ora, Osvaldo de Andrade, passando pelas ruínas em construção do Palácio das Indústrias, soube que no segundo andar do prédio vivia um escultor. Subiu disposto a caçoar das academias. O hominho narigudo, com voz de baixo russo, abriu a porta. Brecheret. Osvaldo olhou o artista, já divertido. Brecheret olhou desdenhosamente o intruso. Inimigos. Uma hora depois: amigos íntimos.”

Oswald de Andrade:

“O porteiro nos disse que lá em cima anda um escultor trabalhando, um tipo esquisitão, de pouca prosa e que faz estátuas enormes e estranhas. Resolvemos subir para arreliar o excêntrico artista e o que vimos foi um deslumbramento para nós, pois estávamos diante de escultor original e poderoso.”

Mário de Andrade:

“Brecheret me concedeu uma Cabeça de Cristo. Afinal pude desembrulhar em casa a minha Cabeça de Cristo, sensualissimamente feliz. Isso a notícia correu e aparentada invadiu a casa para ver. E pra brigar. Berravam, berrava. Aquilo era até pecado mortal! Onde se viu Cristo de trancinha!”

Di Cavalcanti:

“O academismo idiota das críticas literárias e artísticas dos grandes jornais, isso desesperava nosso pequeno clã de criaturas abertas a novas especulações artísticas, curiosas de novas formas literárias, já impregnadas de novas doutrinas filosóficas.”

Mário de Andrade:

“Mas logo começou a luta por Brecheret, nosso estandarte. Oswaldo, Menotti e eu pelos jornais, críticos improvisados. Puxa! Fizemos uma barulheira danada. Divertimo-nos à farta.”

Klaxon:

“A luta começou de verdade em princípios de 1921 pelas colunas do Jornal do Comércio e do Correio Paulistano. Primeiro resultado: Semana de Arte Moderna.”

Mário de Andrade:

“Porque Victor Brecheret, para nós, era no mínimo gênio. Este o mínimo com que podíamos nos contentar, tais os entusiasmos a que ele nos sacudia.”

Monteiro Lobato:

“Admiremos sem reserva, que isso é arte de verdade, da boa, da grande, da que põe o espectador sério. Victor Brecheret – é este o nome do novo escultor, paulista de nascimento, extremamente novo ainda, 22 anos apenas, – Brecheret como escultor é produto do seu próprio esforço.”

A Gazeta:

“E os nossos críticos de arte, os lobos ferozes que, de dentuça arrefilada saíam outrora para despedaçar os transviados e os desequilibrados da arte, dormem agora o seu lento sono de inocência e de condescendência. Daqui a pouco, fazendo causa comum com aqueles que antes atacavam, pretenderão por certo que se arborize a cidade com matapaus e urupês para festejar dignamente o centenário.”

Menotti del Picchia:

“A liquidação literária, no Brasil, assume proporções de queima. O Brasil continuou colônia nas letras. É preciso reagir.”

Oswald de Andrade:

“Cuidado, senhores da camelote, a verdadeira cultura e a verdadeira arte vencem sempre. Um pugilo pequeno, mas forte, prepara-se para fazer valer o nosso Centenário.”

Mário de Andrade:

“São Paulo toda se agita com a aproximação do Centenário. Germinam monumentos numa floração de gestos heroicos e os jardins se congregam em formosos jogos florais de poesia e perfume. São Paulo se arreia de graças. São Paulo quer tomar-se bela e apreciada. ”

Menotti del Picchia:

“A nossa independência política não nos alforriou numa independência mental. O Brasil continuou colônia nas letras, que contestamos com patrióticos berros.”

Oswald de Andrade:

“Mas, senhores, é isso que vamos apresentar como expressão de cem anos de independência! Mas independência não é somente independência política, é acima de tudo independência mental e independência moral.”

Menotti del Picchia:

“Os paulistas, renovando as façanhas dos seus maiores, reeditam no século da gasolina, a epopéia das bandeiras.”

O Estado de S. Paulo:

“O trabalho do jovem e já consagrado escultor paulista, bela e audaciosa obra de arte, foge a todos os moldes até hoje seguidos para a concepção e realização dos monumentos comemorativos tomou do riquíssimo tema das bandeiras e sobre ele plasmou um potente trabalho escultural.”

Victor Brecheret:

“Essa figura enigmática que pompeia na frente do monumento, solene como uma deusa, é a Terra Brasileira. Foi ela quem os atraiu com o esplendor das suas promessas, monstro verde dos seios de ouro.”

Paulo Prado:

“Brecheret não imita nem copia os mestres do passado; é moderno na concepção e na execução. O escultor não pertence a nenhuma escola em ismo e da sua imaginação criadora brotam espontânea e ingenuamente as formas plásticas do seu sonho.”

Mário de Andrade:

“Brecheret, para melhor caracterizar o espírito dessas bandeiras e o sonho destes homens magníficos, usa do símbolo. Uma longa teoria de seres gigantescos, desnudos, avança lentamente para a conquista do ideal que os enleva. Os últimos deles, figuras dum movimento extraordinário, arrastam a barcaça que as corredeiras impediram de passar. Nada os detém.”

Victor Brecheret:

“O Movimento devia exprimir, na harmonia do seu conjunto, unificados em bloco, toda a audácia, o heroísmo, a abnegação, a força, expedidas em desvendar e integralizar o arcabouço geográfico da Pátria. É por isso que o monumento foi inicialmente concebido em bloco, exprimindo no seu conjunto, pela sóbria imponência de suas linhas e pela solidez dos seus grupos, as duas forças criadoras da Epopéia: Audácia consciente e Heroísmo abnegado.”

Menotti del Picchia:

“Brecheret é brasileiro, paulista, fruto de uma amálgama de raças caldeadas no nosso clima profundamente tocado pelas forças ambientes. Daí sua arte conservar algo visceralmente nosso, tropical, indígena, quer na expressão anatômica das suas figuras, quer no movimento bárbaro e interior que as anima.”

Di Cavalcanti:

“Brecheret realiza estes conceitos. Sua obra é a representação de um espírito maior. Está na altura dos grandes artistas, pela forma e pela ideia. O Brasil deve ter orgulho em possuir um artista como é o solitário escultor paulista. ”

Monteiro Lobato:

“Honesto, fisicamente sólido, moralmente emperrado na convicção de que o artista moderno não pode ser um mero ecletisador de formas revelhas e há de criar arrancando-se à tirania do autoritarismo clássico, Brecheret apresenta-se-nos com a mais séria manifestação de gênio escultural surgida entre nós.”

Di Cavalcanti:

“Victor Brecheret é na escultura brasileira uma força nova. Culto, criado num ambiente moderno, ele realiza sempre dentro dos mais puros ideais artísticos, obras cheias de verdade e personalidade. Na escultura brasileira Brecheret é o vulto maior.”

Menotti deI Picchia:

“Daqui há anos, quando o nome de Brecheret estiver, em Paris, os seus patrícios olharão agradecidos para o mármore soberbo, louvando aqueles que em boa hora dotaram São Paulo com uma da criações máximas da nossa capacidade artística.”

Mário de Andrade:

“Mas o Osvaldo sofreu golpe decisivo. Ficou doente. Doença deliciosa e gravíssima não registrada nos dicionários médicos. Mania de descobrir gênios. De repente todos nós viramos gênios. Di Cavalcanti era gênio. Menotti Del Picchia era gênio. Brecheret outro. Também Anita, Guilherme de Almeida e todos nós. Um limbo dantesco! Foram momentos de gostosa ebriedade. Que entusiasmo!”

Oswald de Andrade:

“Fui eu quem escreveu contra o ambiente oficial e definitivo, o primeiro artigo sobre Mário de Andrade e primeiro sobre Portinari.”

TODOS:

“na Cadillac mansa e glauca da ilusão

passa o Oswald de Andrade

mariscando gênios entre a multidão. “

Antonio Ferro:

“Oswald, na sua vibração contínua, na sua inteligência trepidante, na sua inteligência elétrica, no tumulto das suas palavras que atropelam como automóveis, é uma cidade, uma capital, um país. Oswald é o Brasil, o Brasil que se multiplica, o Brasil enorme, o Brasil que chega até Paris.”

Sérgio Milliet:

“Era um porão alto na praça da República. Alguns quadros de Di Cavalcanti, um busto de Brecheret e o gordo anfitrião Oswald de Andrade a descobrir gênios nos amigos. Os freqüentadores do porão eram tão diferentes de gostos e temperamentos que só mesmo a personalidade mais que complexa, surre alista, de Oswald os podia reunir num mesmo local.”

Sérgio Milliet:

“Você já ouviu falar de Villa-Lobos? Pois ele fez executar suas obras em Paris com sucesso. É um compositor vagamente ligado ao grupo dos Seis, mas o maior músico do Brasil assim mesmo.”

Ronald Carvalho:

“A música e Villa-Lobos é uma das mais perfeitas expressões da nossa cultura. Palpita nela a chama da nossa raça, do que há de mais belo e original na raça brasileira. Não é a índole portuguesa, africana ou indígena. O que ela nos mostra é uma entidade nova, o caráter especial de um povo que principia a se definir livremente.”

Sérgio Milliet:

“A música de Villa-Lobos é uma das mais perfeitas manifestações da alma brasileira. Feita de melancolia e de humor, ela traduz o que caracteriza esse povo jovem saído de um povo triste.”

Ronald Carvalho:

“Villa-Lobos sente a vida como uma criação contínua. Sua arte é masculina, imperiosa. Ele compreende a realidade como uma sucessão contínua de instantes, onde cada instante de degrada em movimentos infinitos. Ele não quer ser novo nem antigo, mas simplesmente Villa-Lobos.”

Mário de Andrade:

“A pré-consciência primeiro, e em seguida a convicção de uma arte nova, de um espírito novo viera se definindo no sentimento de um grupo de intelectuais paulistas. De primeiro foi um fenômeno estritamente sentimental, uma intuição divinatória, um estado de poesia. E ilhados na enchente de escândalo que tomara a cidade, nós, três ou quatro, delirávamos de êxtase.”

Folha da Noite:

“Não é só um problema de estética, mas deve ser estudado como fenômeno de patologia mental. O desejo incontido de chamar a atenção, o desequilíbrio de alguns cérebros e o verdor da mocidade são os principais motivos e o que caracteriza os adeptos desta escola. ”

Oswald de Andrade:

“Considera-se um povo pela sua cultura; é a expressão máxima da raça. Passam os politiqueiros, passam os tiranos, passam os milionários e os agitadores de praça pública, apaga-se a memória dos que foram grandes à força, e ficam os artistas.”

Mário de Andrade:

“Osvaldo crê nas ideias que prega e nos seus próprios gestos. Daí viver assim entregando a alma como distribuidor de anúncios. Uma das faculdades que mais admiro em Osvaldo é esse poder certeiro de interessar e divertir. A raridade do bom palhaço vem disso.”

Oswald de Andrade:

“Eu nunca fui capaz de contar sílabas. A métrica era coisa a que minha inteligência não se adaptava, uma insubordinação a que eu me recusava terminantemente.”

Mário de Andrade:

“Osvaldo acredita no que faz. Está certo de que descobriu a pólvora e agora a arte vai se remodelar, faz. Tem assim duas das maiores riquezas do artista: fé criadora e dom de divertir. Admiráveis qualidades de clown.”

Oswald de Andrade:

“Último Passeio de Um Tuberculoso Pela Cidade De Bonde, o poema, descritivo, de inspiração urbana, mais lírico do que romântico, quando mostrado aos amigos, era pretexto para zombarias. Ao lê-lo ou ouvi-lo perguntavam, invariavelmente, da métrica e da rima.”

Carlos Drummond:

“Como todos os de sua geração, talvez sem saber, Oswald de Andrade está se sacrificando para que amanhã os nossos meninos tenham uma poesia com a cor e o cheiro do Brasil.”

A Noite:

“O que há no Brasil, o que ele e os seus companheiros fazem, é o modernismo, puro modernismo, isto é, guerra ao passadismo.”

Carlos Drummond:

“A grande tolice do meu amigo Oswald de Andrade é imaginar que descobriu o Brasil. Absolutamente não descobriu tal. O que ele fez foi descobrir-se a si mesmo. Verificou que era brasileiro, achou graça na história e acabou levando a sério a idéia de pátria.”

Mário de Andrade:

“Isolados do mundo ambiente, caçoados, evitados, achincalhados, malditos, ninguém não pode imaginar o delírio ingênuo de grandeza e convencimento pessoal com que reagimos. Qualquer página de qualquer um de nós jogava os outros a comoções prodigiosas, mas aquilo era genial!”

TODOS:

“O intelectual brilhante Oswald de Andrade

Divulgou lisamente, em seu artigo,

O plano de arrasar tudo o que antigo

For em Arte e bancar novidade.

E, para tal provar à saciedade,

Citou soberbos versos. Mas que digo?

Se nem os entendi! Perdoe o amigo

E não me leve a mal esta verdade!

Penso, no entanto, que o bizarre Artista.

Embora seja um poeta futurista,

Não é, por certo, um poeta futuroso.”

Mário de Andrade:

“Houve de fato reação. Mas que de inexatidões! que de injustiças! que de perversidades! A luta pudera ser bela e nobre: não foi mais que um acervo de leviandades, mentiras, baldões. As leviandades estiveram mais conosco, mas não os baldões nem as mentiras.”

Crítica:

“O último escândalo literário, proveniente da publicação dumas poesias de tendência modernista por Oswald de Andrade, trouxe-me o nojo de ver a leviandade com que as penas correm sobre o papel.”

Oswald de Andrade:

“O erro dos nossos censores é o erro de todos os envelhecidos: estão fora da psicologia do telégrafo sem fios, do aeroplano, da estrada empedrada de automóveis. Respeitemoolos. Mas que eles também respeitem o surto divino da metrópole cosmopolita.”

Mário de Andrade:

“Foi uma ruptura, foi um abandono de princípios e técnicas conseqüentemente, foi uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. ”

Oswald de Andrade:

“Um, Menotti, e outro, Ronald, combatem ao lado de Mário de Andrade, que é atacado pelos srs. parnasianos e maníacos da escolástica.”

Jornal do Comércio:

“Falta-lhe ardor, veemência, fulguração. Há trechos de prosa vil, enastoados em doses métricas, rematadas pelas rimas mais pobres.”

Menotti del Picchia:

“Fui fulminado com excomunhão maior. E eu sofri, porque era muito moço e tinha ainda vaidades. ”

Sousa Bandeira:

“Fala-nos o poeta dos seus sonhos, dos seus amores, do que supõe serem as suas desilusões, do que percebemos serem as suas crenças. E fala com arte, graça e entusiasmo. Que mais poderíamos desejar?”

Di Cavalcanti:

“A arte nos deve sempre trazer aos sentidos alguma coisa que faltava à nossa sensibilidade, ou que dentro dela adormecera. Se não traz, se é apenas reprodução do que estamos acostumados a ver sobre outra modalidade então não é arte.”

Menotti del Picchia:

“Com mais alguns anos e mais uns gestos desses, poderemos declamar São Paulo livre da endemia dos burros, mal que tantos estragos tem feito entre nós.”

Ronald Carvalho:

“É dos modernos rapsodos de S. Paulo que eu falo, agora. Eles são os bandeirantes de uma cruzada única, por enquanto no Brasil. Diante deles estava uma terra cansada, esgotada, empobrecida: a terra das letras nacionais. Eles trouxeram sementes novas e as lançaram, cantando, no chão fatigado. E o chão se abriu, de repente, em floradas impetuosas, e uma folhagem, picada de flores e de frutos virgens, se alastrou por toda a parte.”

Menotti del Picchia:

“É preciso reagir. É preciso esfacelarem-se os velhos e râncidos moldes literários, reformar-se a técnica, arejar-se o pensamento surrado no eterno uso das mesmas imagens. A vida não para e a arte é vida. Mostraremos, afinal, que no Brasil não somos um montão inerte e inútil de cadáveres.”

Mário de Andrade:

“Embora aqueles primeiros modernistas das cavernas, que nos reunimos em tomo da pintora Anitta Malfatti e do escultor Vitor Brecheret, tenhamos como que apenas servido de altiJalantes de uma força universal e nacional muito mais complexa que nós. Força vital que viria mesmo porque tudo isso que se faria, mesmo sem o movimento modernista, seria pura e simplesmente o movimento modernista.”

Menotti del Picchia:

“O aspecto de nossa vida mudou; a arte, que é o seu comentário, segue-lhe as pegadas, surgirá uma estética original e nossa, tocada de regionalismo amplo, fruto da fixação do tipo étnico nacional. Será essa a arte brasileira independente, sonhada pelos nacionalistas de visão larga.”

Correio Paulistano:

“Estamos numa fase de evolução, ou melhor, de gênese, em que todos os valoressartísticos, morais, sociais, raciais – existentes no país tendem a fundir-se para daí nascer um tipo. Tipo de tudo: raça, costumes, pensamento, estética. Estamos absorvendo.”

Menotti del Picchia:

“Tudo isso – e o automóvel, os fios elétricos, as usinas, os aeroplanos, a arte – tudo isso forma os nossos elementos da estética moderna, fragmentos de pedra com que construiremos, dia a dia, a Babel do nosso Sonho, no nosso desespero de exilados de um céu que fulge lá em cima, para o qual galgamos na ânsia devoradora de tocar com as mãos as estrelas.”

A Gazeta:

“Um grupo de distintos cavalheiros da nossa sociedade vai tentar a organização de um sarau futurista, que será sem dúvida, o maior escândalo artístico de que se tem notícia em São Paulo. Nós, que pensamos que a grande arte deve ser compreendida por todos, prometemos desde já a nossa crítica severa contra a iniciativa.”

Mário de Andrade:

“O período heroico, fora esse anterior, iniciado com a exposição de pintura de Anita Malfatti e terminado na festa da Semana de Arte Moderna.”

Menotti del Picchia:

“Essa vitória dá o que pensar. Pelo menos dá para pensar nisto:

1°) Que há muitos cérebros atrasados entre nós.

2°) Que esses cérebros representam a maioria.

3°) Que em matéria de arte estamos no período da pedra lascada.

4°) Que há um pequeno grupo, o tal caluniado grupo futurista, que parece enxergar mais que outros.”

Recortes Modernos – II Ato

recortes modernos capa

O CASO MALFATTI

Os acontecimentos em terras brasileiras em 1917 (o ano da primeira exposição de pintura moderna de Anita Malfatti); a repercussão da nova arte; a agressividade de Monteiro Lobato em suas críticas servindo para unir os que tentavam articular individualmente a estética modernista nacional.

  

anita

  

Paim Vieira:
“Nossa realidade era a realidade do fazendeiro rico na cidade, com os pretos sambando nos morros. As manifestações artísticas desejosas de estar a par do que se fazia na Europa eram mantidas artificialmente.”

  

Jornal do Comércio:
“O ambiente sufocante em que se estraçalham as nossas capacidades artísticas e se esgotam inutilmente as energias da juventude que luta e que trabalha, envenena quase todos os produtos do pensamento humano que se lembra de vir à luz nessas paragens.”

  

Oswald de Andrade:
“Não poderia dizer como conheci Lasar Segall. Talvez numa das reuniões avinhadas da Vila Kirial enquanto eu fazia um jornalzinho tumultuário, Segall realiza em 1913 a primeira exposição de arte moderna no Brasil.”

  

Mario Brito:
“Anita Malfatti se afirmará na sua posição legítima de despertadora do movimento moderno. A prova de qualquer revolução é a luta, a briga. Eu desafio quem quer que seja a produzir documentos que denunciem diante da exposição de 1913 o menor prurido da revolta, a menor consequência sequer de um movimento. ”

  

Mário de Andrade:
“Lasar Segall está de posse duma data. Isso ninguém pode lhe tirar, nem quer.”

  

Correio Paulistano:
“A exposição, estamos certos, fará sucesso em São Paulo, pois trata-se de um artista de uma muito interessante técnica, ainda quase não conhecida em nosso meio.”

  

Mário de Andrade:
“A presença do moço expressionista era por demais prematura para que a arte brasileira então em plena unanimidade acadêmica, se fecundasse com ela. ”

  

O Estado de São Paulo:
“Não é o Sr. Segall um pintor cuja personalidade se tenha afirmado de modo definitivo, mas é incontestavelmente um talento vigoroso e revela uma verdadeira alma de artista.”

  

Mário de Andrade:
“Este movimento modernizante de arte quem se vem delineando cada vez mais nítido e rico, teve em São Paulo o seu início. Quem primeiro trouxe uma sistematizada de arte moderna para o Brasil foi Anita Malfatti.”

 

Correio Paulistano:
“A arte da Srta. Malfatti se distancia consideravelmente dos métodos clássicos. Apresenta um aspecto original e bizarro, desde a disposição dos quadros aos motivos tratados em cada um deles. Esta é a arte que se faz atualmente nos mais adiantados meios de cultura.”

 

Mário de Andrade:
“Anita Malfatti é um nome definitivamente colocado na história da arte brasileira. Original e corajosa, foi ela antes de qualquer outro quem deu o grito de alarma aqui, avisando da existência de uma arte contemporânea com que nem sonhávamos.”

 

Oswald de Andrade:
“Em 1917, quando Di Cavalcanti chegava a essa capital, trazendo sua arte nervosa e cerebral, a grande Anita Malfatti expunha pela primeira vez. E diante de ambos, o público pasmou à espera talvez de que lhe dissessem os caminhos novos que traziam os dois perturbadores artistas.”

 

Di Cavalcanti:
“Em 1917 realizei na redação da Cigarra, rua de São Bento, uma exposição muito individual. Não sei se outros antes de 17 expuseram, mas a verdade é que a minha exposição era antiacadêmica.”

 

Vida Moderna:
“Filiada à mais moderna escola de pintura a Srta. Anita Malfatti executa com uma largueza e uma liberdade inexcedíveis os seus trabalhos, manchando as paisagens a largas pinceladas violentas, com a segurança de quem se sente absolutamente à vontade na sua arte.”

 

Mário de Andrade:
“Quando ela voltou pra São Paulo depois dos estudos na Alemanha estava artista livre e completa. Possuía uma técnica fortíssima dirigida pra orientação artística a que se filiaria.”

 

Vida Moderna:
“Uma arte adiantada e, por isso mesmo nem sempre acessível ao grande público, é visitada por avultado número de artistas e amadores, tendo sido já adquiridos boa cópia de trabalhos.”

 

Jornal do Comércio:
“Três desses trabalhos foram imediatamente adquiridos.”

 

Monteiro Lobato:
“Não fosse a profunda simpatia que nos inspira o formoso talento da Sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis. Se víssemos na Sra. Malfatti apenas uma moça que pinta, como há centenas por aí, sem denunciar centelha de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meio dúzia desses adjetivos bombons, que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças.”

 

Anita Malfatti:
“Essa coisa tão simples trouxe uma tempestade de protestos, insultos e divagações de pura invencionice, sem nenhum fundamento.”

 

Monteiro Lobato:
“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida. A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza, e a interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.”

 

Mário de Andrade:
“Vejo nela uma das mais fortes expressões da faculdade artística nacional. Deixo-lhe aqui a afirmativa desassombrada do meu grandíssimo entusiasmo; e também a minha admiração pela calma firmeza com que, entre incréus e indiferentes, vai construindo na sua obra um exemplo que infelizmente não é para os nossos dias.”

 

Osvald de Andrade:
“As suas telas chocam o preconceito fotográfico que geralmente se leva no espírito para as nossas exposições de pintura. A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleigrafia.”

 

Vida Moderna:
“Choca, por isso às vezes, o observador, – pouco afeito àquele genero de pintura, – mas ninguém, ao fim de algum tempo de observação, deixa de reconhecer na expositora um formoso e original talento e, nos seus quadros, brilhantes qualidades técnicas, de observação e de colorido.”

 

Oswald de Andrade:
“De fato, o artista é um ser de privilégio que produz um mundo, supraterreno, antifotográfico, irreal que seja, mas um mundo existente, chocante e profundo, deflagrado a qualquer faísca divina.”

 

Monteiro Lobato:
“Embora eles se deem como novos, precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação. De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvida por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, sem nenhuma lógica, sendo mistificação pura.”

 

Osvald de Andrade:
“Diante disso, surgem desencontrados comentários e críticas exacerbadas. No entanto, um pouco de reflexão, desfaria, sem dúvida, as mais severas atitudes. Na arte, a realidade e a ilusão é o que todos procuram. Anita Malfatti é um temperamento nervoso e uma intelectualidade apurada, a serviço do seu século. A ilusão que ela constrói é particularmente comovida, é individual e forte e carrega consigo as próprias virtudes e os próprios defeitos da artista.”

 

Menotti del Picchia:
“Anita Malfatti foi chefe da vanguarda na arrancada inicial do movimento moderno da vanguarda na arrancada inicial do movimento modernista na pintura de São Paulo. Sua arte mereceu a honra consagradora do martírio: foi recebida a pedradas.”

 

Revista do Brasil:
“A Srta. Malfatti, a pretexto de romper com as convenções da arte aceita, adotou sem discutir todo o estapafúrdio convencionalismo de uma falsa arte em que só se exibem os ralés e os desequilibrados.”

 

Osvald de Andrade:
“Numa pequena nota cabe apenas o aplauso a quem se arroja a expor, no nosso pequeno mundo de arte, pintura tão pessoal e tão moderna. Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e da sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades.”

 

Anita Malfatti:
“A arte chamada moderna é por sua própria razão de ser, individual. O interesse da arte está na sua variedade infinita, é a escrita que cada um de nós tem dentro de si. Nem todas as obras são belas, mas todas são diferentes e têm a sua história. Devemos ir ao encontro da arte com despreocupação e com o espírito livre.”

 

Monteiro Lobato:
“Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Entretanto, seduzi da pelas teorias do que ela chama de arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.”

 

Mário de Andrade:
Homo Imbecilis acabará entregando os pontos à grandeza do seu destino.”

 

Menotti del Picchia:
“Deixo a Lobato a responsabilidade de me ter posto no mau caminho, no julgamento dos quadros da minha ilustre patrícia, certo de que o autor fará, logo que reconheça o seu erro, sua penitência pública. Estou certo de que será o primeiro a fazer justiça à vibrante criadora de uma arte moderna, forte, livre, penitenciando-se do mal que, com tanta injustiça e irreflexão, fez.”

 

Anita Malfatti:
“A visão toma-se sempre obscurecida com os óculos da opinião alheia. A arte moderna é a expressão do indivíduo de hoje. Ninguém ainda soube criticar um trabalho de inspiração individual pois não havendo precedentes só poderiam limitar-se a um insulto. É preciso porém, ter coragem, ou como no meu caso, a inconsciência do protesto das grandes casas acadêmicas construídas para o sustento de estruturas já arrumadas pelas gerações que passaram. ”

 

Monteiro Lobato:
“Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós sentimos; para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em panne por virtude de alguma grave lesão.”

 

Mário de Andrade:
“Ninguém pensava em sacrifício, ninguém bancava o incompreendido, nenhum se imaginava precursor nem mártir: éramos uma arrancada de heróis convencidos. E muito saudáveis. ”

 

Anita Malfatti:
“Num sábado chegaram dois rapazes numa chuvarada. Começaram a rir a toda e um deles não parava. Eu fiquei furiosa e pedi satisfação. Quanto mais eu zangava, mais o tal não se continha. Afinal meio que sossegou e ao sair apresentou-se: Sou o poeta Mário Sobral. Dias depois muito sério se despede e me oferece um soneto parnasiano sobre o Homem Amarelo.”

 

Mário de Andrade:
“A um destes, o Homem Amarelo, eu dedicava até um soneto, ricamente rimado, bem parnasianozinho. ”

 

Osvald de Andrade:
“A distinta artista conseguiu, para o meio, um bom proveito, agitou-o, tirou-o da sua tradicional lerdeza de comentários e a nós deu uma das mais profundas impressões da boa arte.”

 

Monteiro Lobato:
“Na poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos, e a justificativa é sempre a mesma: arte moderna.”

 

Anita Malfatti:
“Quando viram minhas telas, todas acharam-nas feias, dantesca, e todos ficaram tristes, não eram os santinhos dos colégios. Guardei as telas.”

 

Oswald de Andrade:
“Encerra-se hoje a exposição da pintora paulista Sra. Anita Malfatti, que durante um mês, levou ao salão da Rua Líbero Badaró, 111, uma constante romaria de curiosos.”

 

Mário de Andrade:
“Quando viu a obra modernista que apresentava repudiada com insulto e cada gargalhada besta, Anita Malfatti fraquejou. Não sei de alma carecendo mais de ser compreendida, amada e louvada que a dessa sensitiva do Brasil. ”

 

Anita Malfatti:
“Críticos de arte, o Brasil não possuía então. Não não havia museus só de arte, não havia estudos especializados sobre a crítica construtiva que muita falta nos fez.”

 

Mário de Andrade:
“Ninguém pode imaginar a curiosidade, o ódio, o entusiasmo que Anita Malfatti despertou. ”

 

Menotti del Picchia:
“Anita Malfatti passou então para o nosso martirológico artístico. Resultado: ganhando terreno o modernismo, a pintora ilustre tomou-se uma espécie de santa da ala demoníaca dos reformadores. Seu nome traz o prestígio dos taumaturgos e dos mártires.”

 

Oswald de Andrade:
“Fora eu o único a responder, na hora, ao assalto desastrado com que Monteiro Lobato encerrou a carreira de Anita Malfatti.”

 

Mário de Andrade:
“O artigo contra do pintor Monteiro Lobato, embora fosse um chorrilho de tolices, sacudiu uma população, modificou uma vida.”

 

Menotti del Picchia:
“A crítica. Não falemos nessa megera.”

 

Mário de Andrade:
“Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre. Ela ocultava-se.”

 

Menotti del Picchia:
“Mulher singular, que, quando não tivesse outro mérito, teria o de haver rompido, com audácia de arte independente e nova, a nossa sonolência de retardatários e paralíticos da pintura.”

Recortes Modernos – I Ato

recortes modernos capa

OS VENTOS DA EUROPA

As características básicas do Modernismo; o ambiente europeu do início do século XX; o Manifesto Futurista de Marinetti; a oposição das novas correntes contra o formalismo acadêmico clássico; e a formação artística de Anita Malfatti em terras estrangeiras.

marinetti

Mário de Andrade:

“Ó Mestres do Passado, eu vos saúdo! Venho depor a minha coroa de gratidões e de entusiasmo sobre a tumba onde dormis o sono merecido! Sim: sobre a vossa tumba, porque vós todos estais mortos!”

Paulo Prado:

“Nunca, desde a Idade Média, se viu tão esplendida manifestação coletiva. Um vento másculo de revolta e renovação sacode e abala o antigo arcabouço das civilizações clássicas. A regra será abusar da liberdade, mesmo para errar. Ainda é o melhor meio para atingir o fim desejado.”

Mário de Andrade:

“Malditos para sempre os Mestres do Passado! Tolos e malditos! Cuspimos sobre vós da nossa maldição e as risadas da nossa cólera, o despeito divino das nossas impaciências.”

Assis Chateaubriand:

A arte moderna consiste em violentar a moral das linhas e da ótica dos contemporâneos. Todo o século XIX é para ela um século de abulia e de estupidez.”

Klaxon:

Romantismo, Torre de Marfim, Simbolismo. Em seguida o fogo de artifício internacional de 1914. Há perto de 130 anos que a humanidade está fazendo manha. A revolta é justíssima. Queremos construir com alegria.

Oswald de Andrade:

“Ver-se-á como aqui também se pronunciou o caos do novo mundo. Quando começou? Com o manifesto futurista de Marinetti, que afirmava ser a guerra a única higiene do mundo?”

Mário de Andrade:

“É muito mais exato imaginar que o estado de Guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de Guerra, eminentemente destruidor. E as modas que revestiram este espírito foram, de início, diretamentes importadas da Europa.”

Menotti del Picchia:

“A vida século XX, com fábricas e bolchevismo, com o sangue ainda quente derramado pelo holocausto da grande guerra, pede outra técnica para a sua representação, outra expressão verbal para a sua extrinsecação artística.”

Sérgio Milliet:

“Ford já fabricara seu primeiro auto; Garros atravessara o Mediterrâneo. Descobrira-se o dirigível com Santos Dumont; Pasteur terminara as suas pesquisas sobre a microbiologia; a radiotelegrafia era um fato, mas o Poeta (com um P maiúsculo) continuava a rimar amor com flor e dor com bolor.”

Menotti del Picchia:

“O parnasianismo – hoje abolido pela nova poesia deu como resultado uma arte sem nervos, uma arte periférica, externa, pomposa, fria.”

Mário de Andrade:

“Futurismo! Futurista! Que vem a ser isto, que vem a ser aquilo? Não sabemos e acreditamos que os leitores também não saibam. Para nós, os leigos, o futurismo é tudo quanto é extravagante e futurista todo indivíduo que, escrevendo, pintando, esculpindo e compondo pratica a extravagâncias.”

Marinetti:

Vamos, meus amigos! Disse eu. Partamos! Enfim a Mitologia e o Ideal místico estão ultrapassados. Vamos assistir ao nascimento do Centauro e veremos logo voarem os primeiros Anjos! É preciso abalar as portas da vida para nela experimentar os gonzos e os ferrolhos! Partamos!”

Mário de Andrade:

“Marinetti foi grande quando redescobriu o poder sugestivo, associativo, simbólico, universal, musical da palavra em liberdade.”

Marinetti:

“Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo.”

Mário de Andrade:

“Escrever arte moderna não significa representar a vida atual no que tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Se estas palavras frequentam-me o livro não é porque pense com elas escrever moderno, mas sendo meu livro moderno, elas têm nele a sua razão de ser.”

TODOS:

“Aí, Marinetti

Se eu fora como tu

Farias conferências

Montado num bambu.

Maria, Maria

Maria, Marinetti

Teu pai come feijão.

Tua mãe come espaguete.”

Mário de Andrade:

“A verdade é que o futurismo está agitando as cabeças. Na Europa, esta ele a invadir tudo, os jornais, as revistas, as livrarias, os magazines de moda, os salões chics. Já há edificios futuristas em Paris, já há molhos futuristas nos restaurantes parisienses. Avança. Empolga.”

Menotti del Picchia:

“O que é o futurismo? Aí está um nome pavoroso, que arrepia a pele ao conservador pacífico. Bolchevismo estético, agressivo e iconoclasta.”

Mário de Andrade:

“Os únicos futuristas que a humanidade apresenta são os gênios. E assim mesmo não os gênios em geral, mas os reformadores, os revolucionários.”

Anita Malfatti:

“Quando cheguei à Europa, vi pela primeira vez a pintura. Quando visitei os museus fiquei tonta. Desenhei seis meses dia e noite. Um belo dia fui com uma colega ver uma grande exposição de pintura moderna. Eram quadros grandes. Havia emprego de quilos de tinta e de todas as cores. Um jogo formidável. Uma confusão, um arrebatamento. O artista não havia tomado tempo para misturar as cores, o que para mim foi uma revelação e minha primeira descoberta. ”

Monteiro Lobato:

“Já em Paris se fez uma curiosa experiência: ataram uma brocha na cauda de um burro e puseram-no de traseiro voltado para uma tela. Com os movimentos da cauda do animal a brocha ia borrando a tela. A coisa fantasmagórica resultante foi exposta como um supremo arrojo da escola cubista, e proclamada pelos mistificadores como verdadeira obra-prima. ”

Anita Malfatti:

“Fiz uma viagem para o sul de Alemanha para ver a Ia grande exposição dos post-impressionistas, Pissaro, Monet, Sisley, Picasso, o Douanier Rousseau, Gauguin e Van Gogh. Vi também Cézanne e Renoir.”

Mário de Andrade:

“A transformação do mundo com o enfraquecimento gradativo dos grandes impérios, com a prática europeia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e outras causas impunham a criação de um espírito novo.”

TODOS:

E há Cidades ao longe, no crepúsculo

E estradas que lá vão, serenas e infinitas

Levando, no rolar, toda a palpitação

Do sonho construtor da Civilização.”

Paulo Prado:

“O mundo já está cansado das fórmulas do passado; em toda parte, em todos os terrenos ¨na estética da rua, no anúncio, nos reclames, nos jornais ilustrados, nas gravuras, na mobília, na moda – com uma alegria iconoclasta e juvenil se quebram os antigos moldes e desaparecem as velhas regras, pesadas como grilhões.”

Marinetti:

“Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.”

Anita Malfatti:

“Uma colega me contou em surdina que havia um professor moderno, um grande filósofo incompreendido e que deixava os outros pintar à vontade. Na mesma tarde procuramos o professor. Era a poesia plástica da vida. Transpunha a cor do céu, para poder descobrir a cor diferente da terra. Transpunha tudo! Que alegria! Encontrava e descobria os planos com formas e cores novas, nas pessoas e nas paisagens. Era a festa da forma e era a festa da cor.”

Monteiro Lobato:

“Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passaram de outros tantos ramos da arte caricatura!. Caricatura da cor, caricatura da forma, Ðcaricatura que não visa, como a arte primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador.”

Menotti del Picchia:

“O futurismo, esse apocalíptico grito de guerra contra a rotina, não é tão feio como se pinta. Às vezes – como na sua concepção inicial – é o arremesso rebelado das hordas avanguardistas contra a râncida velharia.”

Marinetti:

“Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta.”

Ronald Carvalho:

“A arte é uma inspiração à liberdade. Cada um de nós é um instrumento por onde passa a corrente da vida. Não queremos regras nem admitimos preconceitos.”

Anita Malfatti:

“Pintávamos na ventania, ao sol, na chuvarada e na neblina. Eram telas e telas. Era a tormenta, era o farol, eram as casinhas dos pescadores escorregando pelos morros, eram as paisagens circulares, o sol e a lua e o mar.”

Menotti del Picchia:

“Serenado o surto, aberta a brecha, o futurismo se define como corrente inovadora, bela e forte, atual e audaciosa, desfraldando uma bandeira que drapeja ao sopro do ideal libertário em arte.”

Fanfulla:

“Jovens amigos, ousai! A arte é como a mulher: vence-se mais com a audácia do que com outros meios! Crede: é uma mulher quem o diz.”