CARTAS A MEU PAI – CONTOS DE MARCELO AITH

 

CARTAS A MEU PAI

 

        Entrou no galpão dormitório. O calor era intenso. O telhado metálico transformava o alojamento num verdadeiro forno. Podia sentir sua carne cozinhando. Tirou o capacete e, com o lenço, enxugou o suor que lhe cobria o rosto. Sentou-se em seu beliche.

        Ali, no espaço entre seu colchão e o estrado da cama de cima, o ar parecia realmente não existir. Passava para além dos dez anos na Jordânia, em pleno deserto árabe, e não se acostumava ao calor. Era bestial!

        Flexionou o abdômen e, com a cabeça entre as pernas, pode ver sua caixa de valores. Apanhou-a, colocando-a no colo. Tirou do bolso uma pequena chave a abriu o cadeado.

        Embrulhados num fino papel de seda e amarrados por um barbante estavam doze anos de correspondências. Retirou o nó que as atava. Apanhou alguns envelopes. Uns do fundo da pilha, outros mais recentes, leu de forma rápida como quem já conhecesse bem seus conteúdos.

        Começou pela carta da filha.

 

        “Meu querido pai, …”

 

        Respirou fundo.

 

        “…estamos com muita saudades do senhor. O senhor não faz ideia da falta que faz. Todo dia é uma tristeza sentar à mesa sem a sua presença. No jantar, a imagem de sua cadeira vazia dó em meu coração. Às vezes, a mamãe se esquece e põe o seu prato. Na primeira vez em que isso aconteceu, ela até chorou. Ficamos muito emocionadas, e ninguém conseguiu comer. Mas nós vamos nos acostumando. Como vão as coisa por aí? Espero que você arrume bastante trabalho e possa voltar logo e com muito dinheiro! Faz muito calor por ai? O inglês que a gente estudou juntos está dando para quebrar o galho? O senhor já aprendeu alguma coisa em árabe? Escreva o meu nome com aquelas letrinhas que parecem uns rabiscos para eu ver! Deve ser duro não poder tomar uma cervejinha de vez em quando. Aqui, lançaram uma nova cerveja e que já vem sem álcool. Quem sabe as leis daí permitam beber, ao menos a sem álcool. Descobre isso que eu mando umas pro senhor. Lembra-se do dia em que viajou? Lembra-se que a gente teve que ir de ônibus para o aeroporto porque o carro não podia sair em dia de rodízio? Pois é, a poluição até diminuiu um pouquinho, as chuvas vieram. E como vieram. A cidade ficou um caos, mas a qualidade do ar melhorou. Por aqui a poluição continua grande, mas está melhor que antes. Mesmo assim, o rodízio continua. A cidade está um saco! …”

 

        -Que menina desbocada.

        Pensou.

 

        “… O prefeito criou o rodízio municipal, é para diminuir o trânsito. É como o rodízio anterior, mas só nos períodos de pico. Ele funciona pela manhã e ao final da tarde…”

 

        Passou para a carta da esposa.

        Abriu o envelope azul.

 

        “Querido, ontem briguei com a sua irmã. Não pude evitar, ela é muito folgada. Você não acredita no que ela fez! Ela teve coragem de reclamar que eu me atraso nos horários de levar as crianças! Agora, além de ter que aguentar o mal humor dela, ainda tenho que ouvir malcriação. Como você sabe, a gente combinou de nos revezarmos nos idas de levar e buscar as crianças na escola. Por causa do rodízio, né? E você sabe muito bem como a sua irmã é, ela nunca chega nos horários marcados. Ela sempre atrasou. Até em natal e ano-novo ela atrasa. As crianças já chegaram a esperar quarenta minutos a sua irmã aparecer, paradas na frente da escola. Pois veja bem, só porque eu me atrasei dez minutinhos para passar na casa dela e o Leandro tinha prova de matemática na primeira aula, ela descontou todas as neuroses familiares em mim! Você não imagina o escândalo que ela fez. Agora parece que eu sou a culpada pelos filhos dela serem menos inteligentes que os nossos. O Leandro chegou na escola e o sino não havia batido. O portão ainda estava aberto. Por falar em escola, o Ricardinho vai muito bem. Você teria muito orgulho dele se ouvisse o que as professoras falaram na última reunião de pais. Todos perguntaram muito de você. A Ju quer fazer curso de teatro, será que eu deixo? Sabe-se lá como é que são esses jovens? Mas, voltando à vaca morta, sem querer ofender a sua irmã, é claro! Você sabe muito bem como eu sou. Eu suporto até o meu limite. Eu não falo nada, fico muda, vou engolindo tudo, mas tem uma hora em que eu não me seguro, falo mesmo, e foi exatamente o que aconteceu. Ela veio reclamar que eu estava atrasada, que o Leandro tinha prova de matemática, que matemática era a pior matéria, que o menino tinha estudado até de madrugada. Aí eu não me segurei, falei que ela era uma folgada, que ali ela era a última a poder reclamar de atraso, que eu nem estava tão atrasada assim, que eu tive que passar o uniforme das crianças porque a Neuza não veio trabalhar, que se o filho dela ia mal na escola era porque ele não estudava e que ninguém ia perder prova nenhuma. Disse que os meus filhos também tinham prova, que eu não era irresponsável como muitas mães que andavam por aí fazendo compras durante a tarde. Agora a gente não está se falando. Amanhã é dia de rodízio e eu não vou poder levar as crianças com o meu carro. A Fernanda vai usar o dela e eu terei que ir de táxi. Quando você receber, mande um dinheiro a mais para que eu possa pagar a prestação do carro novo que quero comprar. Com esse rodízio eterno só tendo dois carros de placas diferentes…”

 

        As cartas da mulher eram as que mais o aborreciam.

        Passou à próxima.

 

        “Papai, aqui a coisa tá feia. Quando o senhor voltar nem vai reconhecer o país. Nesses últimos anos sem o senhor, o bicho pegou! Agora, para resolverem o problema da saúde inventaram o rodízio das consultas. Gostaram tanto do rodízio eterno que criaram o rodízio saúde. O discurso é o seguinte: racionalizando a demanda nos hospitais haveria uma melhora no atendimento. Quem nasceu em anos de final 1 e 2 não podem ser examinados na segunda-feira, quem nasceu em anos de final 3 e 4 não podem ser examinados na terça-feira e assim por diante. Quem precisar utilizar hospital público terá que ficar doente no dia certo, senão ficará no saguão de entrada.

        P.S.: A mamãe está pedindo para o senhor mandar dinheiro para pagar o plano de saúde que está três meses atrasado.”

 

        Fechou o papel com ar preocupado.

        -Ah, o mais novo.

 

        “Papai, você não sabe que legal! Agora a gente não precisa ir à aula todo dia. Para criarem mais vagas fizeram o rodízio educação. A 1ª e a 2ª séries não têm aulas na segunda-feira. A 3ª e a 4ª séreies não precisam ir na terça-feira. Na quarta, não vão a 5ª e a 6ª séries. Quinta é a vez da 7ª e da 8ª faltarem e na sexta não vão os colegiais. Na televisão falaram que agora no Brasil o direito de todos estudarem está assegurado. Beijos, Ri.”

 

        Abriu a última.

 

        “Meu amor, você não imagina o que está acontecendo. Os políticos resolveram criar o rodízio eleitoral. Isso mesmo, rodízio eleitoral. Agora os partidos políticos sucedem-se no poder sem disputas. De forma organizada, cada um fica um pouquinho no governo, evitando assim todos os gastos e tormentos das eleições. Hoje, terça-feira, somos “primeiro-mundo”. Amanhã, dia de rodízio econômico, somos “terceiro-mundo”. É por isso que escrevo hoje, apesar de mais caro. É mais confiável que a correspondência não se extravie. Ah, mande dinheiro para eu fazer a feira.”

 

        Tirou do bolso o salário.

        Separou o maço de notas em dois montes iguais. Contou e recontou, uma por uma, cada célula com o olhar de quem se despede pela última vez do ser amado. Enfiou um dos montes num envelope, o outro tornou a guardá-lo na camisa.

        Lambeu a correspondência, lacrando-a. Dobrou e guardou as cartas, sempre obedecendo a sua ordem cronológica, e trancou a maleta. Guardou a valise sob a cama.

        Levantou-se de seu beliche, caminhou em direção à saída. O capacete, tornou-o a vesti-lo e, enquanto fechava a porta do galpão, pensou.

        -Ainda trago eles para cá!

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Published in: on 14 de março de 2012 at 15:30  Deixe um comentário  
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