MESTRE COM AS MÃOS – CRÔNICAS MUSICADAS

CRÔNICAS MUSICADAS

 

“Crônicas Musicadas” foi o nome da minha coluna assinada no site do Gafieiras (www.gafieiras.com.br). O Gafieiras publica histórias da música brasileira por meio de entrevistas, colunas, notícias e projetos especiais.

A minha proposta era contar uma história, baseada num momento chave da vida de um personagem da nossa música, com uma série de referências sobre a obra e a vida, e somente no último parágrafo era revelada a sua identidade.

Ao todo, foram 8 celebridades, que passo a publicá-las no blog. Vamos ver quem descobre antes do fim?

Mestre com as mãos

O papagaio planava no ar, movimentos audaciosos afrontavam adversários. Era o senhor dos céus. Quando ganhava linha, ninguém desafiava. Bastava verem as cores do papel de seda, que os outros meninos recolhiam seus artefatos voadores.

-Xi, o Bexiguinha de novo. Recolhe que é ele.

-É não. O dele não é o azul e branco?

-Esse verde e rosa é dele também. Recolhe que eu tô falando.

E lá ia o desavisado implorar de volta a pipa furtada pelo pirata dos ares.

O ladrão de pipas, que de bobo não tinha nada, já deixava os seus mais de dez irmãos avisados.

-Diz que eu não tô.

E assim o céu de Piedade, subúrbio do Rio, ia minguando de cores. Naquela imensidão azul, espaço apenas para uma estrela brilhar. O filho de Alfredo Rocha Vianna.

Grande para a sua idade, tinha um jeitão desengonçado. Coisa de quem ainda não se entendeu com o novo corpo, já anunciando o homenzarão que estava por vir.

De calças curtas, ralava joelhos nos campinhos de várzea. Mas, não nascera para isso. Perna-de-pau nos campos, temido nos ares. Dedos ágeis, imbatível nas bolas de gude.

Na bolinha ninguém o vencia, mas quando o assunto deixava de tocar as mãos e passava a tocar os pés, ai que desastre. Entre os amigos, moleques do bairro, era sempre o Bexiguinha, com seu rosto marcado pelas chagas da varíola contraída na primeira infância.

-Vamos chamar o Bexiguinha.

Amadeu, Mário Boi e Pedro Linguiça bateram a porta.

-Oi Dona Raimunda, o seu filho está?

-Do João, tá o Eugênio e o Oldemar. Do Alfredo, tá o Leo e o Alfredinho. O resto tudo tá fora. Uns estudando, outros trabalhando pra modo dos outros continuá estudando. Só o Oscar que Deus já chamo…

Os meninos nem esperaram o final do discurso de D. Raimunda, e já atravessavam os salões da mansão dos Viannas.

-Vamos rapaz, já vai começar. Desce essa pipa, hoje é o contra da turma da Alfredo Reis com a da Gomes Cerpa. Vambora, homi.

Gritou o Linguiça, pisando no quintal.

-Não vou, não gosto de futebol. E preciso dormir um pouco, a noite tem espetáculo.

-Ih, o cara tá metido. Começou a ganhar dinheiro, não quer mais saber de se divertir. Tá virando mocinho.

Ironizou o Mário Boi.

-Ainda mais depois que passou o carnaval com a Sociedade Dançante e Carnavalesca Filhas da Jardineira, no meio daquelas mulheres todas.

Todos riram da graça solta pelo Amadeu. Os meninos, com aquela urgência da juventude, partiram para o desafio inter-turmas-de-rua enquanto o jovem talento musical sonhava acordes maiores, bemóis e sustenidos, no bailado que seu papagaio executava na tablatura musical do céu carioca.

Naquele dia, uma outra visita procuraria o menino. Em sua porta bateu um representante do Teatro Rio Branco.

-É aqui que mora o sr. Pixinguinha?

As irmãs olharam assustadas. Bateram a porta.

-Vó, vó, tem um homem aqui!

-E diz que quer falar com o sr. Pixinguinha.

-Ai meu deus, o que será que o Pixindim aprontou?

E lá foi a velha atender a porta.

-O sr Pixinguinha?

Insistiu o funcionário do Teatro.

-É… tem um sr. Pixinguinha soltando papagaio.

-Eu queria falar com ele – emendou o Homem.

Bateram-lhe a porta, novamente.

-Ai meu Deus, a coisa é séria – preocupou-se a vó.

A histeria tomou conta das mulheres. As irmãs corriam pela sala, eufóricas. O rapaz seria castigado, para deleite do sadismo juvenil.

Trouxeram o menino às bordoadas, trancos e safanões.

-Eu não fiz nada! Eu juro! Eu não fiz nada.

Defendia-se o garoto, com a orelha ardendo.

-É o que vamos ver.

Abriram a porta, colocando frente a frente acusado e delator.

O homem do Rio Branco, muito formal, apresentou-se dizendo:

-Eu trago aqui um pedido para que o sr. compareça lá no Teatro Rio Branco, pois foi indicado para tocar flauta.

-Eu? Tocar flauta na Orquestra do Teatro Rio Branco? Eu não vou!

Respondeu, assustado.

As irmãs não se contiveram.

-Vai, vai, você tem que ir! Deixa de ser tolo!

A excitação era total. Da sova esperada para a consagração máxima. O primeiro trabalho profissional, com contrato e tudo. Bem melhor que as apresentações nos prostíbulos da Lapa. E o idiota dizia não.

De tanto insistirem, o garoto, ainda atordoado pela proposta inesperada, mudou de ideia.

-Sim senhor, então eu vou.

O resto da história já sabemos; Pixinguinha foi aprovado logo no primeiro ensaio. Tocando com a orquestra, fez improvisos sem ao menos preocupar-se com a partitura. Ganhou calças compridas e transformou-se num dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos.

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